” Os nossos calos em pés vermelhos calçados em formas apertadas são os mesmos de Seu Careta em ‘Palhaços’.”

Publicado: 16/08/2013 em Teatro

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Foto: Joana Mendonça e Bernardo Mendonça

No princípio era o Som… circense. Um tão belo quanto desolador camarim de um solitário palhaço. O mesmo vazio que encontramos no espaço sagrado do bufão é aquele encontrado no nosso “picadeiro” chamado vida. Somos todos “palhaços artistas” que riem, sorriem, choram, deploram, pulam, caem e se esvaem. Quantas cambalhotas damos enquanto vivemos? Aplausos e vaias que sofremos? Porém, sobrevivemos. O lindo texto do dramaturgo brasileiro Timochenko Wehbi “Palhaços”, dirigido com precisas emoção e sensibilidade cênicas por Alexandre Bordallo (direção de palco de Helder Bezerra), é protagonizado brilhantemente por Claudio Tovar e Thiago Detofol, e destrincha e esquadrinha a não fácil experiência humana, a nossa jornada insana, a nossa gana vã nos estertores do limite do suportável, na pele maquiada ou lavada do palhaço Careta (Claudio Tovar), o homem José. Seu Careta nos representa, não inventa. A maquiagem que usa em sofrido rosto é semelhante a que usamos em nossos próprios, atrapalhando a respiração dos nossos poros. A tinta inclemente escorre entre os sulcos nossos sinuosos ou retos de cada dia que circundam olhos que veem as vadias vias que somos obrigados a trilhar. Sulcos “cultos”. Abrem-se as cortinas do “palco” de José, e adentra Benvindo (Thiago Detofol). Seja bem-vindo Thiago! Adentra o admirador e fã do indivíduo que calça sapatos com guizos prateados que deixam rastros de música quando pisam. Benvindo é moço ingênuo, sonhador, “feliz”, alguém que parece ter saído de um filme de Capra. Não acredito que “de ilusão também se vive”. Benvindo “compra a sua felicidade” mexendo em pés suados, pouco arejados, e nestes colocando pisantes nem sempre brilhantes. O vendedor de sapatos galga degraus para atingir o que considera o “topo”. Quer a “gerência de sua vivência”. Configura-se um pugilato num ringue abstrato. Um jogo ácido, tortuoso e torturante, cáustico, fascinante em diálogos e embates cortantes, compostos por perguntas e respostas dilacerantes, entremeadas por silêncios gritantes, e vez por outra ouvimos vozes mutantes acompanhadas de olhares eloquentemente penetrantes travados no sacro “tabuleiro” colorido no qual se refugia o doído palhaço. Filosofa-se sobre o que é ser artista. Sua validade e pouca validade. A sua suposta marca da maldade. A saudade do que parte. O coração em disparate. Tudo é compreendido e “traduzido” com ampla visão sabedora do que Timochenko almejava nos dizer, por meio de direção “sensitiva”, sagaz e capaz de Alexandre Bordallo. Alexandre se aprofunda nos substratos da difícil arte de viver. Conduz com delicadeza a grandeza dos intérpretes que a ele se apresentaram. Se existe a excelência na carreira de um ator, Claudio Tovar atingiu a sua. A sua “gerência”. Seu Careta é duro, frágil, chora por dentro e por fora, direto, objetivo e sábio. Só um Claudio sábio o saberia fazer. Thiago Detofol é límpida nascente de talento. Um talento que como rio corre solto, e desemboca em foz de brilho jovem. Os cenários (execução de Andre Salles) e figurinos (execução de Schirley Nascimento) de Claudio Tovar são magníficos na generosidade com a beleza e a pureza dos detalhes. Tanto os primeiros quanto os segundos remetem a um glorioso rococó. Se a história se passa num circo, há que se ter magia. Há magia na penteadeira cujas lâmpadas nos iluminam às escâncaras. O mágico está no baú que guarda os segredos encobertos, no idílico tapete como se mãos de Arthur Bispo do Rosário o tivessem bordado. No cabide, e na ode aos eméritos fazedores da prazerosa gargalhada, como Chico Anysio, Dercy, Chaplin, Chacrinha, Carequinha, Zezé Macedo, Oscarito, Grande Otelo, Arrelia, Torresmo, Pimentinha, Golias. Todos gigantes em terra de gigantes. O que Claudio e Thiago vestem é encantador aos olhos pedintes do encanto. Ultrapassam a qualidade do primor com o seu frescor. Chapéus, cartola que voa de mão a outra, botões, lantejoulas, brilhos e retalhos em concórdia. A paz do bom gosto. A luz do iluminado Aurelio Di Simoni é impositiva no mais alto grau da percepção do poder absoluto do claro, do romantismo da sombra e da meia-luz que seduz, da significância dos pequenos focos luminares como se estivessem dispostos em tropa vencedora no “front”. O trabalho de corpo de Thiago Detofol é um honroso e meticuloso orquestrar de movimentos dizedores, provocadores, oradores, delgados e tênues da matéria física no plano aberto do parlatório da arena que nos acena. A direção musical de Claudio Lins tem por fins o endeusamento à melodia do circo, “a casa de lona”, que remete ao “Grande Circo Chapliniano”, e as trilhas incidentais instigantes, tensas, dignas de “thriller” sob os “acrobatas voadores”. A produção de Thaty Taranto cumpre papel de liderança na esperança de colocar o teatro em “oratório” merecedor. “Palhaços” é peça que nos comove, e remove os nossos “calos”. “Palhaços” nos “calça” com sapatos folgados. Caminhamos com pés livres, felizes, mais aprendizes do que nunca. E voltamos enfim para o nosso “picadeiro”.

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