“Ao tratar de finitude e envelhecimento, ‘Elefante’ nos torna jovens sábios com infinito entendimento.”

Publicado: 23/09/2013 em Teatro

Elefante-2
Foto: Philipp Lavra

Um fotógrafo, Francisco (Pedro Nercessian/Igor Angelkorte), com mão machucada, busca a pureza das imagens. A verdade e não miragens. Recusa-se a tomar pílulas que prometem a “juventude mentirosa”. Uma desairosa confrontação com a Natureza. O Estado, tendo como representante o seu rígido pai César (Samuel Toledo) lhe incumbe a função de registrar o modo de vida dos habitantes da Ilha de Sêneca (uma referência ao escritor e filósofo nascido em Córdoba – à época uma província romana da Hispânia, que se destacou no Império Romano, cujas ideias preconizavam a vida simples, a ética e a predominância do destino; suas obras serviram de fonte para a dramaturgia renascentista) com vistas à campanha publicitária. A população estudada optou por assumir suas rugas sem rusgas consigo mesma. Cada sulco de seus rostos não soa como insulto, e sim como culto aos atos de transição das etapas da vida. Se para nós envelhecer é sofrer, perder e chegar aos estertores do fenecer, o que Francisco depreendeu da gente ilhéu é de que esta é crente de que deixar a juventude para trás, acompanhar transformação de pele lisa em franzida, significa aceitação do processo evolutivo vital, fato que não exclui de suas “envelhecidas existências” uma felicidade inteiramente nova. No retorno ao lar, encontro com esposa médica, a prática e objetiva Lúcia (Lívia Paiva), adepta da Ciência que se imiscui com a “ingerência química” obstrutiva da “Vontade do Universo”. Os pais são assaz defensores da alegria que se perfaz no exterior, na estética, ignorando possível dor interior consequente da transgressão da Dialética. A mãe Cleo (Chandelly Braz/Júlia Lund) também é um ser que em sua feminilidade não demonstra fragilidade. No entanto, permite que a sensibilidade não se esvaia ao cuidar do filho Francisco (Fernando Bohrer) com “desenho do tempo” já “rabiscado” em matéria física decorrido período de ausência. O corpo presente se ressente do peso que não desmente o “preço feroz a ser pago ao relógio biológico”. É lógico. É o momento do tempo. A hora de seu reinado. Não sejamos alienados. Ignorantes e pedantes se tentarmos desprezá-lo. A nudez de outrora nos é atraente, tentadora, provoca-nos desejos explícitos. Já a nudez madura embora dura, é sedutora por ser real na afirmação do racional. Sim, de alguma forma somos semelhantes aos elefantes, que se desgarram do rebanho por não mais deter o ritmo deste, e esperam a morte no silêncio, na tranquilidade, na paz do refúgio, prontos, obedientes e dispostos a iniciar diálogo com o Desconhecido. A aridez e secura desses temas são abordados com proficiência, clareza, foco numa compreensão reflexiva e filosófica, e por que não expansiva do inevitável, seja ele temido ou bem-vindo caminho que nos leva à reta final de nossa história em “Elefante”, de Walter Daguerre. Walter é um autor que a cada texto explora de modo surpreendente a coesão narrativa/dramatúrgica sem preterir da emoção e de fino humor, com evidente potencial para canalizar para o teatro o que poderia descambar para o abstrato em mãos hesitantes. A direção (e argumento) de Igor Angelkorte desenvolve com inteligência, precisão (há cenas em que se formam triângulos espaciais nos embates travados pelos personagens), e um sadio apego ao sentimento e a tênue graça. Igor, a despeito da mocidade, aplica nos palcos com maturidade de quem entende o processo teatral cabível, aceitável e digno de nota, e expedito foge das armadilhas natas ao enredo espinhoso. O elenco da Probástica Companhia de Teatro, sem exceção, executa primorosamente, com delicadeza, força interpretativa e assumindo um naturalismo apropriado, a missão de exibir de maneira convincente e meticulosa o perfil descritivo dos papéis da trama. O cenário de André Sanches irrompe com singularidade e beleza desconcertantes, valorizando a arena, amparado por quatro cadeiras de madeira brancas similares a costelas (o que nos causa relevante impacto visual). Sobre chão possuidor de textura crua, que ao ser pisado emite ruído “arenoso”, encontra-se altivo vaso com caule e galhos retorcidos ciosos de água, mesmo que haja dificuldade na identificação das estações do ano, assim como nos é dificultoso encontrarmos as nossas próprias e definitivas identidades. E como elemento central uma mesa com recorte autêntico e criativo que acolhe pratos, talheres, taças e uma câmera fotográfica solitária. A Renato Machado coube a iluminação, e dela absorvemos uma totalidade de elegância, congruência e equilíbrio de luzes adequadas às situações, trilhando por vezes veredas mais intimistas (com focos individuais que nos lembram trapézios alongados ao mirarem o piso, e imagens luminosas quase apagadas que nos transportam à poesia legítima). Sombras cordiais que se revezam com a pujança de um plano aberto. Os figurinos de Ronald Teixeira atendem com senso de oportunidade e capricho à proposta comportamental dos “characters”. O bonito vestido rendado e transparente laranja escuro de Cleo e “scarpins”, o terno e complementos austeros de César, o casual e moderno na primeira fase de Francisco e o enxuto simbolizado por colete, calça e sapatos que falam por si mesmos na segunda. Todavia, Lúcia é contemporânea, despojada com viés sóbrio, utilizando-se de sobretudo, lenço e blusas leves, realçando o “bordeaux”. Os intérpretes tiveram um trabalho de corpo excepcional, e dentre tantas passagens, merece citação as danças típicas e/ou regionais mostradas por Fernando Bohrer e Pedro Nercessian/Igor Angelkorte, nas quais se percebem movimentos fortes, decididos, bruscos, calculados e óbvio, belos. Felipe Storino nos apresenta uma trilha sonora original que desperta curiosidade, receio, conforto, placidez e apreensão. “Elefante” atinge o seu epílogo, e todo um mecanismo de organização mental dos espectadores é ativado no intuito de formular conclusão justa, reta do que se assistira até então. Nossos pensamentos não envelheceram. Muito pelo contrário. Regeneraram-se. Conceitos de vida e morte, felicidade e tristeza preestabelecidos demandaram reavaliações. Provável que agimos como elefantes. Agrupamo-nos na plateia à espera de surpresa, do não conhecido. Transgredimos o axioma de que aqueles animais se isolam pois são impedidos de seguirem o ritmo de seus pares. Ficamos lado a lado, emparelhados com “Elefante”. Unidos num só fôlego. Não houve perdedores. Saímos todos vitoriosos, e rasgamos finalmente a faixa da linha de chegada com o espírito do renascimento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s