“Nós, o público, ficamos ‘ligeiramente grávidos’ com a divertida comédia de Regiana Antonini, “Tô Grávida!”, com Fernanda Rodrigues e Paulo Vilhena.”

Publicado: 25/02/2014 em Teatro

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Foto: Divulgação do espetáculo

“No começo tudo era lindo. Tá tudo divino. Era maravilhoso. Até debaixo d’água nosso amor era mais gostoso…”. Citando um trecho da letra da lendária canção da banda oitentista Blitz, “Você Não Soube Me Amar”, podemos resumir como se desenrola um romance em seus primórdios. E com Thales e Bianca, personagens de Paulo Vilhena e Fernanda Rodrigues, respectivamente, na comédia romântica de Regiana Antonini, com direção de Pedro Vasconcelos e direção de produção de Léo Fuchs, “Tô Grávida!”, não fora diferente. Os primeiros discursos do homem e da mulher na era contemporânea com intentos de conquistar o sexo oposto são quase ou sempre primários e não verdadeiros. O primarismo é fundamentado na obviedade dos recursos usados como modo de seduzir outrem. E o aspecto “não verdadeiro” serve para se criar uma imagem individual atrativa que beire a “perfeição”, e que justifique a confiança no pretendente. O namoro/casamento/união do casal Thales e Bianca se mantém como os demais, com altos e baixos, brigas e reconciliações, somando-se às distinções comportamentais elementares entre os gêneros. No entanto, irrompe o imprevisto. Em frase dita proximamente por Thales: ” Nós trilhávamos uma bonita estrada até que surge na nossa frente um ‘paredão’ “. E este “paredão” é a gravidez de Bianca. A bela moça dotada de melenas que “douram” o ambiente e olhos que “azulam” os que a cercam se vê em estado de graça. Já o charmoso e robusto rapaz de barba viril não enxerga graça alguma na novidade. Sente-se como “se tivesse levado uma bolada na cara”. Para o seu desalento, o projeto de montagem de um estúdio, aderindo a um jargão futebolístico, “foi para o escanteio”. Não que não almeje ter filhos um dia. O torcedor fanático de time carioca não quer “aquele” filho. Estamos sim falando da gravidez não planejada por adultos, mas é importante que se frise que segundo o relatório anual “Situação da População Mundial 2013 do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA na sigla em inglês)”, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), a cada dia 20 mil jovens com menos de 18 anos dão à luz em países em desenvolvimento, o que representa 7,3 milhões de novas mães por ano nesses países. Ou seja, dados alarmantes. Como fatores de causa deste problema global estão a imprudência, a falta de prevenção, a ignorância (uma lacuna do Estado no seu papel de informar e implementar programas de esclarecimento e educação que atinjam todas as classes sociais) e a irresponsabilidade. Voltemos ao espetáculo. Bianca, que leva 77 minutos para se arrumar para uma festa (há homens que levam 78 ou mais) mostra resolução em seguir adiante com a sua gestação. Assume convicta: “Tô Grávida!”. As mudanças corporais femininas inevitáveis no decorrer do processo gestatório provocam estranheza e relativa repulsa em Thales. Não o julguem ou o condenem por isso. Não será o pioneiro tampouco o último a ter esta atitude. Atavicamente, o ser humano repele o que lhe é diverso. As mudanças na vida conjugal são avassaladoras. Desde “a xícara de café que não se encontra no mesmo lugar” até o sexo. Se outrora o beijo era uma preliminar prazerosa, hoje é “salobro”. Aliás, sob a ótica do companheiro de Bianca ela está “salobra” por inteiro. As relações sexuais que passam a demandar novas posições e obrigatórias adaptações diminuem a frequência, o desempenho sexual do homem pode cair, a mulher poder vir a perder o desejo. O que percebemos em Thales no que concerne ao sexo em si é que não somente a presença de um ventre maior o intriga, assim como a participação de uma 3ª pessoa do singular: “ele”, Luca. O pai, num momento particular de perturbação interna e psicológica, assusta-se com “chutinhos” noturnos inesperados. A noite por enquanto é silenciosa. Chega a clamar pelo desprezo da parceira. Ela, consciente ou inconsciente do que faz, atende à sua súplica. Thales, que também se sente “grávido”, reclama de que os cuidados, atenções e preocupações em sua plenitude são direcionados com exclusividade à mãe. O pai não deve ser um coadjuvante nesta novela fascinante da vida real. Ressaltemos que a personagem de Fernanda em nenhuma ocasião “abdicou” do seu dignificante “posto de mãe”, mantendo-se empedernida em seus posicionamentos nos especiais nove longos meses. Em comovente cena da peça, Bianca se pronuncia em forma de prece, num sincero diálogo com Deus, pedindo para que seu filho seja autêntico, corajoso, que respeite o semelhante, que não a abandone e que com ela esteja na hora da morte, encorajando-a. A etapa mais difícil está chegando. Nasce Luca, e alterações radicais de hábito são visíveis. O ciúme do pai que se sente excluído. Noites mal dormidas, afinal bebês são boêmios, gostam da madrugada. O volume do grito de um gol agora tem que ser “sintonizado”, pois o neném pode acordar. Uma simplória disputa do par pelo primeiro sorriso da criança. Se antes, Bianca deixava suas madeixas soltas, no presente as mesmas estão presas em coque. E se antes, enfeitava-se com uma “écharpe”, o que a “enfeita” no mesmo presente sobre os ombros é uma fralda. O homem volta a sentir desejo significativo pela mulher, todavia ela possui tarefas mais significativas a cumprir. Nota-se um andamento gradativo na descoberta de Thales de si mesmo, um notório autoconhecimento que faz com que se dê conta das “delícias” de ser pai. Vê no filho um outro tipo de amor o qual é capaz de sentir. A cumplicidade por ora “adormecida” que testemunhamos no início do enlace é retomada. E boas novas “duplicadas” estão por vir. A dramaturga Regiana Antonini abordou um tema de elevadíssima relevância, a gravidez, contudo sem preterir dos bom humor, ironia e comicidade, colaboradores de uma bem estruturada narrativa teatral. Misturam-se com harmonia o drama e a comédia. Uma fórmula calculada com precisão que ganha de pronto a receptividade do público. Há que se afirmar ainda que para se debater, discutir um assunto sério como o que norteia o texto se deve necessariamente deter responsabilidade, traquejo, argúcia e conhecimento amplo do que se objetiva destrinchar, para que não se caia na armadilha da leviandade. E Regiana esbanjou todas essas qualidades. Pedro Vasconcelos, um diretor que confirma ser um dos melhores da sua geração tanto na TV quanto no teatro, destaca-se por precioso atributo: o entendimento do ator. Pedro, pode-se asseverar, desvela com magnitude larga gama de ferramentas interpretativas cômicas e dramáticas que tanto Fernanda quanto Paulo possuem. O diretor não dispensa as várias possibilidades que o espaço de um palco pode proporcionar e o talento reconhecido de uma dupla de intérpretes. Aplicou à encenação apropriadíssimo dinamismo com forte e bem-sucedida interação com a plateia. Nesta acontecem com regularidade diálogos/embates entre os protagonistas em curta ou razoável distância. A interatividade com os espectadores se evidencia por intermédio de perguntas, conversas, menções como se um assistente fosse um personagem e até mesmo uma engraçada enquete, fato que revela o perfil de cada público. Os atores se movimentam de lado a lado, entrecruzam-se, enfrentam-se “tête-à-tête”, sentam-se no chão e na beira do palco, e fora deste desfilam como se nele estivessem. Quanto às atuações de Fernanda Rodrigues e Paulo Vilhena (os dois interpretam mais um papel, Paulo, a sogra de Bianca, D. Diva, uma bizarra senhora que fuma avidamente 28 cigarros diários e que, lógico, não simpatiza com a nora; e Fernanda personifica a austera terapeuta de gestantes Dra. Dominique), impressiona-nos sobremaneira a absoluta aptidão que exibem em “trafegar” com honestidade, emoção, sensibilidade, “entrega” e, acima de tudo, verdade pelo texto de Regiana Antonini. Ambos acolhem os sentimentos múltiplos que lhes são exigidos. Expressões faciais, ótimos trabalhos de corpo e voz, silêncios, pausas, olhares “que parecem uma resposta ou uma pergunta” são sabiamente explorados, sempre com brilho pelos artistas. Paulo e Fernanda “assinam um termo de qualidade”, e nós, claro, endossamo-no. No tocante ao cenário, o que se vislumbra é a clara adoção de uma estética “soft”, da espontaneidade, do capricho, do bom gosto e da praticidade, com a criativa utilização de cinco espelhos retangulares dependurados por fios e simetricamente distribuídos que acabam por refletir de maneira “mágica” grande parcela das cenas, dando uma visão diferenciada das mesmas; três cabideiros brancos com roupas e bolsa sobre seus ganchos; e duas bancadas brancas movediças que servem tanto como assentos quanto como cama. Os figurinos correspondem com congruência às juventude e personalidade de Thales e Bianca. São elegantes, leves, despojados e atuais. É um desfile de legging, vestidos, moletons, escarpins, sapatilhas, t-shirt, regata de time, jeans e tênis. A direção musical açambarca estilos como pop dos anos 80, country/folk, balada e referências cinematográficas a filmes de sucesso como “Uma Linda Mulher”, “Missão Impossível” e “Titanic”. A iluminação cumpre com galhardia e plena funcionalidade a missão de embelezar “Tô Grávida!” (a peça elementar que faltava ao quadro completo), valorizando os atores, o cenário, o figurino e a história. Uma luz delicada, formosa, que “passeia” por muitos tons, tonalidades, às vezes agitada, com um pisca-pisca adequado ao instante. Há um plano aberto que cobre todo o teatro nas cenas de plateia, e na ribalta se privilegia a moderação, a naturalidade e a obliquidade de feixes de luz que originam sombreados. Seis refletores perfilados ao fundo são dominados pelo azul. Logo à frente, mais quatro, em que a cor soberana é o lilás. Um amarelo pujante que se transmuta em laranja. Não há como não resistir aos focos sobre os atores e suas faces, ladeados por instigante escuridão, com consequente sentido poético. “Tô Grávida” é uma excelente comédia romântica que tem o inestimável mérito de colocar em pauta uma questão que é vital para toda a sociedade, implicando na evolução humana. Rimos bastante, porém refletimos e não desperdiçamos as mensagens que competentemente nos foram repassadas. Quando digo no título que, nós, o público, ficamos “ligeiramente grávidos”, quero com isso dizer que houve uma legítima identificação com o que vimos. Se há uma palavra e seus correlatos que possam definir o espetáculo são: “luz”, “iluminado” e “alumia”. “Tô Grávida!” é um texto iluminado, com uma direção que alumia e elenco, Fernanda Rodrigues e Paulo Vilhena, com luz própria. “Tô Grávida!” deu luz ao teatro.

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