” Um texto ‘politicamente incorreto’ escrito com apropriada parcimônia, Marcelo Serrado inteiramente à vontade no palco, e Gigante Leo como o seu cúmplice na graça ‘É O Que Temos Pra Hoje!’.”

Publicado: 06/04/2014 em Teatro

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Foto: Divulgação do espetáculo

Em seu segundo texto (o primeiro fora “Tudo é Tudo e Nada é Nada” e o mais recente é “A História dos Amantes”), Marcelo Serrado, que também é o diretor de “É O Que Temos Pra Hoje!”, resolve no formato de stand-up comedy (ou como ele mesmo prefere, um “stand-up comedy e meio”), em que contracena com o comediante Gigante Leo, em participação especial, digressionar sobre temas que nos são notadamente familiares, respeitando as linhas limítrofes que separam o “politicamente incorreto” aceitável do “politicamente incorreto” duvidoso e de mau gosto. O stand-up comedy, ao contrário do que alguns pensam, sempre existiu. Prática comum cênica tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Em terras nacionais, tivemos José Vasconcelos (um dos precursores), Chico Anysio, Costinha, além de Ary Toledo, Juca Chaves, Jô Soares e Sérgio Rabello. No país ianque, destacaram-se Woody Allen, Steve Martin, Chevy Chase e Steve Carrel. Nos anos 2000, houve um “boom” de humoristas ou candidatos a humoristas que se aventuraram neste gênero, que não se resume apenas a contar piadas para uma plateia de espectadores. Muitos tentaram. Poucos ficaram. Marcelo se enquadra, óbvio, no time dos bem-sucedidos nesta seara. E Gigante Leo (sucesso no fenômeno da web “Porta dos Fundos” e ganhador do Prêmio Multishow de Humor 2012) não é um “turista acidental” no humor de qualidade tampouco. Marcelo Serrado, que comprovou elevado poder cômico ao interpretar o sensível e divertido mordomo Crodoaldo Valério ou Crô na novela escrita para o horário nobre da Rede Globo por Aguinaldo Silva, “Fina Estampa”, vale-se daquele predicado para alinhavar o cerne do espetáculo que abrange questões extremamente contemporâneas, como a avassaladora invasão da Internet, seja ela deletéria ou benéfica em nossas vidas, e a complexidade das relações afetivas entre um homem e uma mulher, incluindo-se o sexo. O ator discorre sem pudicícia acerca da insanidade que tomou conta dos acólitos da tecnologia digital e móvel que recebem incontáveis vezes novos e cada vez mais modernos aplicativos. O indivíduo está deixando de ler um Machado de Assis para testar as suas habilidades em um game qualquer. Seria injusto não dizer que a Internet se somou às nossas existências como uma rica, fácil, proveitosa e fascinante ferramenta de busca de informações e notícias em tempo real e degrau para uma socialização de todos os tipos. Entretanto, o que se vê não raras vezes é um processo que ocorre pelo avesso, ou seja, inicia-se uma antissociabilidade que transcende até a tela do computador. Uma inversão de valores é identificada e nos preocupa. Hoje, as pessoas saem de suas casas para se divertirem já com a premeditação de tirar uma atrativa foto para logo em seguida ser postada em alguma rede social. Ficamos “reféns” dos “likes” e “comments”. Uma “curtida” ou “não curtida” pode decretar o fim ou o começo de uma “amizade”. Se o seu “friend” não curte o que posta, isto pode significar que não gosta de você, que sente inveja, não incentiva o que faz ou simplesmente nada disso. A rede social se divide em “panelinhas” e “excluídos”. Um “apartheid”. Para um segmento, curtir algo seu pode ser entendido “como lhe dar confiança”. Bastantes usuários leem o que escreve ou divisam uma foto de sua lavra, admiram ambos, mas não curtem para “não encherem a sua bola”. Um comportamento que demanda estudo psicológico apurado, pois há nele desvio e evidência de imaturidade e/ou infantilidade. A vaidade mostra a sua face mais feia. Algo destrutivo. Uns querem ser melhores do que outros, mais bonitos do que outros, mais inteligentes do que outros. Uma extensão do “capitalismo selvagem” ao qual estamos deveras acostumados com os seus individualismo, consumismo e competitividade exacerbados. O “olho no olho” se escafedeu. O teclado tomou o seu lugar. A câmera. O ser humano passou a ter dupla identidade: uma para a vida virtual e outra para a real. Não reconhecemos a nós mesmos se reunirmos estas duas esferas de comunicação. O que se fala covardemente usando como escudo uma tela de computador, não se diz “cara a cara”. Como asseverara o cantor e compositor Leo Jaime: ” Tem gente que te segue no … só pra te odiar bem de pertinho”. Estamos mais sozinhos. Não é difícil perceber. Roberto Carlos já cantava em linda canção: “Eu quero ter um milhão de amigos…”. Agora, é possível “tê-los”. Espantam-me os que se julgam por demais importantes e excelsos ao negarem a sua “amizade”. Eles deixarão de ser “importantes” e “excelsos” se você se tornar o seu “amigo”? A que ponto chegamos. E os que atingem a desconcertante e inacreditável indelicadeza de ler uma mensagem que enviara e não retornarem, dizerem ao menos um “obrigado”, um prosaico “olá”? E quando deseja um “Feliz Aniversário!” para as “paredes”? Vai entender. A loucura e a sanidade juntas no mesmo balaio. A “democracia” se instalou na Internet, na qual quase todas as estratificações sociais a utilizam. Ela é sem dúvida um instrumento extraordinário que, assim como nossa vontade, pode ser manipulada para o bem ou para o mal. Entristeço-me ao notar que o segundo leva alguma vantagem. Onde está o contato físico, o aperto de mão, o abraço? Tudo se aglutinou em uma “carinha sorrindo”. Divulga-se a miséria humana do mesmo modo que se divulga o hedonismo. Melhoramos ou pioramos como pessoas? Amigos reais se exibem como desafetos e os estranhos são os “amigos de infância”. Não à toa, especialistas e estudiosos têm se dedicado com afinco na pesquisa sobre essas peculiaridades comportamentais do século XXI. Todavia, a verdade é que não mais podemos viver sem a Internet e as redes sociais. Se bem aproveitadas, só temos a ganhar tanto no campo pessoal quanto no profissional. Antes de terminar este tópico, gostaria de lhes comunicar que não se trata de um julgamento ou condenação, apenas uma avalição factual do que observo consuetudinariamente. Eu mesmo faço parte disso, e procuro tirar proveito com honestidade do que me é oferecido. Noutro momento do stand-up, Marcelo elucubra sobre as diferenciações existentes entre o masculino e o feminino. Neste contexto, insere-se o sexo, como disse acima. Nada soa desrespeitoso. Ocorre o contrário. Identificamo-nos, rimos das situações e de nós mesmos. Referem-se humoristicamente às fatídicas tensões pré-menstruais, que de maneira potencial servem de desculpas ou justificações para a não aceitação de se fazer algo pedido por outrem. Brinca-se com a incontinência verbal das mulheres após o ato sexual e a indiferença e frieza dos homens depois daquele. Não há relacionamentos sexuais perfeitos, haja vista que não somos perfeitos. O homossexualismo é tratado com irreverência, diferentemente do que vemos vez por outra em quem não está preparado para fazer chiste do assunto. Renato Aragão e Os Trapalhões, Chico Anysio, Agildo Ribeiro e Jô Soares amiúde criaram tipos, personagens ou circunstâncias em que os gays não se sentiam ofendidos, e isto, o que é mais instigante, numa época sob a patrulha ostensiva da ditadura militar. O preconceito nunca recrudesceu com os seus trabalhos. Já não posso afirmar o mesmo quando ouvimos incômodas vozes dissonantes de políticos totalitários e “pastores” afundados em sua estupidez. A entrada de Gigante Leo em cena lança profícua luz sobre a discriminação que se faz contra os que estão abaixo da estatura média mundial. Gigante conclui que parcela da sociedade o trata como criança, com aspectos de curiosidade. Leo nos convence de que não há nada de diverso em ser anão. Sim, anão. É assim que Gigante Leo aprecia ser chamado. Não os hipócritas “pequeno” e “verticalmente prejudicado”. Este último eivado de deboche. Marcelo Serrado e Gigante Leo são inteligentes ao desmistificarem a figura do anão. Faz-se graça de suas limitações. Mas quem não as tem sejam elas quais forem? A interação dos artistas com o público é enriquecedora e prodigiosa. Ambos agem com naturalidade, despojamento e espontaneidade ao lançarem mão de jogos de palavras e frases que serão usadas para sessões de improvisação. Os cenário, iluminação e figurino são enxutos e objetivos. O primeiro se resume a dois bancos metálicos de distintos tamanhos (sendo que sobre um deles há uma caixa colorida no interior da qual estão as supracitadas frases), um microfone alto, um tamborete e uma tela para projeção de lúdicas imagens. A iluminação é correta, coerente, não se deixando levar acertadamente por excessos ou extravagâncias, com o funcional uso de onze refletores traseiros que possuem bonito alaranjado, dois outros de luz branca tanto à frente quanto atrás do palco, e um conjunto que adere ao recurso do plano geral, sem preterir os focos individuais nos intérpretes e a diminuição gradativa das tonalidades luminosas. Quanto ao figurino, Marcelo veste camisa social azul claro com t-shirt, calça de jeans lavado com pequenos rasgos e tênis com textura próxima ao jeans. E Gigante se traja de jeito similar, com a exceção dos calçados. “É O Que Temos Pra Hoje!” é um stand-up comedy leve, mordaz, sarcástico e espirituoso que ostenta dois talentosos atores que formam ótima parceria e que em consonância desfiam verdades e fatos que são indissociáveis de nossas vivências. Os espectadores se divertem e participam quando são solicitados. Um entretenimento em sua genuína essência. Válido na própria natureza. O que Marcelo Serrado e Gigante Leo prometeram, cumpriram com mérito. Bem, este texto no qual procurei imprimir a minha sinceridade “É O Que Temos Pra Hoje!”.

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