” Faça imediatamente uma reserva no teatro para assistir ao humor inesgotável de Rodrigo Sant’ Anna em ‘Lotação Quase Esgotada’. Basta ligar para Edu. “

Publicado: 29/04/2014 em Teatro

rodrigo
Foto: Rodrigo Lopes

Num subterrâneo solitário e desolador, onde há mesa larga de madeira com pés de cavalete sobre a qual se encontram múltiplos telefones coloridos, e embaixo daquela um cesto de papel em meio a emaranhado de fios tão indestrinçável quanto a vida, há um jovem candidato a ator, por ora exercendo a função de atendente de reservas de um restaurante da moda, Edu (Rodrigo Sant’Anna), que se percebe no permanente e invariável controle de suas fleuma e paciência face à disputa feroz dos ávidos comensais por uma vaga no estabelecimento “talk of the town”. Os pretendentes a uma mesa, seja ela pequena ou grande, bem localizada ou não, representam os mais diversos tipos humanos no espetáculo “Lotação Quase Esgotada” (“Full Committed” no original), um sucesso da Broadway da americana Becky Mode, traduzido impecavelmente por Ana Luiza Martins Costa e Laura Rónai e adaptada com proficiência por Moacyr Goes (também diretor) e Rodrigo Sant’Anna. Em uma sequência intermitente e ensandecida de telefonemas, testemunhamos desde o assistente afetado de uma top model, Bob, que faz as mais esdrúxulas exigências para que a celebridade se sinta à vontade no ambiente, não seja incomodada e ainda se “deleite” com uma dieta tão restritiva quanto absurda; o contraventor famoso que gosta de frequentar bons lugares; uma socialite que para ela tudo “é uma loucura!”; uma idosa que se aproveita das promoções “assistencialistas”, mesmo que delas não necessite; a madame histérica, neurastênica, tabagista, viciada em Rinossoro, irritadiça, que atende pelo sugestivo e apropriado nome de Isolda Xanabrava (ou grafia similar que o valha), que julga estar nos tempos do Colonialismo, pois trata a sua empregada doméstica como se a Abolição da Escravatura fosse uma fábula; a baiana e seu delicioso sotaque cantado com direito à expressão “Ó Paí, Ó”; a recepcionista mineira, cujo tempo se diferencia do resto do mundo, de um celebrado médico, que de forma obsessiva precisa saber item por item do menu; o oriental monossilábico; o nordestino “arretado”; o playboy com vocabulário em que há mais gírias do que pontos finais e vírgulas; até o abonado que crê que o dinheiro está acima de tudo e de todos, e muito mais personagens irresistivelmente interpretados por Rodrigo em suas distintas nuances e oscilações atinentes. Existe a figura de um chef francês, Jean Claude (uma referência direta à predominância dos profissionais do ramo com esta ascendência) que, lógico, incumbe-se de preparar pratos com combinações que a princípio nos parecem estrambóticas e pouco prováveis, cujos preços não condizem com a realidade socioeconômica do país. Esta diversidade e multiculturalismo desenham a divertida e extremamente bem elaborada estrutura narrativa da peça, com seus 23 “characters” desenvolvidos com primor por Rodrigo Sant’Anna. O texto, na verdade, mostra-se sob as tintas fortes da alta comédia, como uma denúncia ou paródia acerca das diferenciações e consequentes distorções de valores do indivíduo no panorama atual. Faz-se uma crítica não velada aos “points”, “lugares da moda”, sua efemeridade e superficialidade dos que se deixam levar por esta “ditatura” do que é “in” e do que é “out”. Escancaram-se a estupidez, a grosseria e os maus modos monopolizadores das posturas pessoais, em quaisquer circunstâncias. Uma sociedade em estado de progressiva depauperação moral. Hoje, os bajuladores e mídia são “réus confessos” na solidificação do triste retrato da “cultura das celebridades”. Uma estratificação deletéria e soturna com suas classificações de “vips” e menos “vips”, e deploráveis “currais”. Exigências públicas, informadas como se fossem notícias relevantes das “celebs”, que só corroboram que fama e dinheiro não fazem bem a cabeças fragilizadas e motivadas por insensatez. A locupletação fácil gerou desvios irreversíveis de caráter e postura naqueles que detêm esta condição. A soberba, a arrogância e potencial superioridade social ferem o pétreo Princípio da Igualdade, previsto na Constituição Federal. O cidadão bronco e sem instrução é proprietário de um sofisticado restaurante disputado por endinheirados e famosos que oferece “haute cuisine”. Não se trata de preconceito, e sim de evidência patente de contradições contingenciais. O Brasil, a “terra do feijão com arroz” degusta “confit”, “tartare, “paillard” e “ratatouille”. O arroz deixou de ser branco para ser arbóreo ou negro e ao invés de regarmos a salada com azeite, para sermos chiques, devemos fazê-lo com vinagre balsâmico. A Gastronomia outrossim exerce o seu poder tirânico. A desumana relação patrão x empregado, mesmo em pleno século XXI, é discutida com mérito. As dificuldades de ser ator numa nação como o Brasil, torrão de apadrinhados, são levantadas, em que os requisitos fundamentais para se se estabelecer na profissão não são somente talento e em alguns casos beleza, mas ser amigo do amigo da “pessoa certa”. Na adaptação de Moacyr e Rodrigo, não se pretere o laço familiar e afetivo tampouco, simbolizado no pai ingênuo e só de Edu e na colega de trabalho Bibi, que padece de incontinência urinária e chora copiosamente. A direção do experiente e notório Moacyr Goes capta de maneira inteligente, emocional e habilidosa todos os elementos supra relatados, e constrói um espetáculo que se destaca não apenas pelos dinamismo e humor, mas parcelas significativas de caras poesia e sensibilidade, supervalorizando (e que ótimo que seja assim) vasta aptidão cômica e dramática, sim dramática, de um dos indiscutíveis expoentes da nova geração de intérpretes que se dedicam primordialmente à seara da graça, Rodrigo Sant’Anna. Rodrigo, um ator carismático ao extremo e com visível empatia, regozija-se na preciosa oportunidade de se desdobrar em mais de duas dezenas de papéis, o que permite ostentar um trabalho admirável de corpo (com direito a gesticulações, movimentações e posturas diversificadas) e voz (a capacidade do artista de brincar com a mesma, oferecendo-nos interminável e bem-vinda gama de tons e acentos distintos beira o incrível). Reitero aqui que o drama também se apresenta. Quem se habituou a assistir a Rodrigo em suas performances hilariantes, não imagina que este mesmo ator se utilize de sua bagagem dramática com um nível milimétrico de moderação coerente, adotando um naturalismo e autenticidade que se acomodam com eficácia no perfil de Edu. “Lotação Quase Esgotada” nos serve para provar que Rodrigo Sant’Anna não se insere obrigatoriamente somente na categoria dos comediantes, podendo obter realce quando o drama exigir. Os cenário e adereços de Teca Fichinski açambarcam com prodígio o lúdico e o desolador, em que podemos fitar de modo simultâneo (afora os que já mencionei) cadeiras comum e “do papai”, larga parede branca azulejada ao fundo, com quadro de escalas dos funcionários do restaurante e avisos colados, grandes e médios canos hidráulicos nas cores vermelha, amarela e prateada, estante e seus fichários e pastas, sacos de estoque e uma pequena entrada com escada que leva a nível superior, além dos interfones de praxe. Os figurinos, trilha sonora (sonoplastia de Marcio Padilha; os intermitentes, alucinados e atualíssimos toques de telefone/interfone singulares ou plurais identificam bem o caos sonoro ao qual estamos aprisionados) formam uma feliz parceria, em que se notam objetividade, clareza, precisão e direcionamento de proposta, todos empenhados para se lograr um bonito conjunto cênico. Rodrigo veste uma camisa xadrez, uma calça jeans desbotada, t-shirt preta e tênis (como acessório, uma mochila). A luz é soberanamente aberta, geral, o que faz com que tenhamos uma profícua proximidade com os aspectos factuais dos acontecimentos que se sucedem. “Lotação Quase Esgotada” é uma chance imperdível de se verificar o desempenho de um ator com grau elevado de talento e versatilidade, dirigido por um encenador reconhecidamente culto e sabedor dos ensinamentos teatrais (que já transitou pelos mais variados e complexos contextos dramatúrgicos), em que ambos possuem como rico suporte um texto ágil, criativo, crítico, paródico, alegre, sensível e que conquista logo a plateia. Por esta e outras razões, é que lhes digo que façam imediatamente uma reserva com Edu. Não percam tempo. As linhas telefônicas podem estar congestionadas. O que é bom se esgota. Menos o talento inesgotável de Rodrigo Sant’Anna em “Lotação Quase Esgotada”.

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