“Cristina Pereira, Bia Nunnes, Ernani Moraes, Renato Reston, Beto Vandesteen e Alexandre Jábali são os ‘donos da esteira’, os ‘donos da história’ em ‘Academia do Coração’.”

Publicado: 18/05/2014 em Teatro

0000
Foto: Beti Niemeyer

Tudo depende de uma batida perfeita. Um ritmo cadenciado sem licença para sair do compasso. A vida por um fio. A vida, pode-se dizer, “por um coração”. Este pequeno grande órgão pulsante que ora acelera ora desacelera ou mantém sua frequência natural. Encontra-se galhardamente no lado esquerdo do peito. É voluntarioso, teimoso, senhor das vontades próprias. Bombeia intermitente escarlate líquido vital que corre por veias “expressas” de um labiríntico mundo de sistemas e aparelhos: o nosso corpo. Quaisquer falhas, por mais diminutas que sejam, podem interromper este processo. Matéria física e espírito comprometidos. Há que se buscar ajuda em clínica médica, na qual aqueles com o “coração partido” serão chamados de pacientes. Alunos são para academias de ginástica. Orientando-se por esta legítima premissa, Flávio Marinho, com a direção de produção de Fábio Oliveira, construiu a sólida teia narrativa de “Academia do Coração”, uma comédia que prima pela sensibilidade declarada que se apoia num humor requintado, abordando tema de cunho espinhoso de forma absolutamente otimista e leve. Com um nobre time de atores, cada um com sua especificidade interpretativa, Flávio concentra a história em uma clínica de saúde (a “Academia do Coração”), capitaneada com mãos de ferro por Dra. Ângela (Bia Nunnes), uma cardiologista munida de bastão que julga impor autoridade por meio daquele e por chamadas de atenção recorrentes de seus pacientes a fim de que a disciplina não seja apenas meta de conduta. Por detrás de tirania personalizada, Ângela na essência é compreensiva, humana, uma mulher que foge da “epidemia” que assombra o indivíduo: a solidão. Tivera casos amorosos inusitados, em que se destacam Greg, um “surfista de Governador Valadares”, um especialista em calefação nordestino e um gaúcho vegetariano. O do momento é o motorista de ônibus, nascido em Teresina, que a levava para se encontrar com Greg. Possui como auxiliar no comando da instituição médica, que aplica a famigerada “Medicina do Exercício” o professor de Educação Física Uóxinton (Renato Reston), um profissional que se mostra o tempo inteiro focado na total obediência aos preceitos clínicos recomendáveis. Além disso, é cúmplice, confidente e amigo de Ângela. Os pacientes são diferenciados, com sonhos, dramas e humores particulares. Assim como no clássico da Metro de 1939, dirigido por Victor Fleming e protagonizado por Judy Garland (Dorothy), “O Mágico de Oz”, todos, sem exceção, almejam a realização de um desejo íntimo tornado público. Se a menina Dorothy, com sua trança e sapatos de rubi vermelho, queria somente voltar para casa, acompanhada de seu cão Totó, Liz (Cristina Pereira), uma artista plástica com perfil hippie/esotérico, apreciadora dos efeitos da “cannabis sativa” (o que lhe custa lapsos de memória) e da dança, porta-voz de comentários tão ácidos quanto reais, quer a luz em sua existência e expor as suas obras de arte. Se o Leão (Bert Lahr) se empenhava em achar a coragem para ser respeitado pelos seus pares, Petrus (Beto Vandesteen), um ex-cantor lírico e colunista social aposentado, sonha um dia recuperar sua possante voz original, e participar de uma récita. Petrus, como muitos de nós, não aceita com paz a passagem do tempo e suas consequências desabonadoras. O homem que interpreta trecho de “La Traviata”, de Giuseppe Verdi, e “Ol’ Man River”, do musical “Show Boat” (letra de Oscar Hammerstein II e música de Jerome Kerr, composta em 1927 e levada aos palcos em 1936), por sinal magnificamente cantados por Beto (preparação vocal de Angela de Castro), é de certo modo estigmatizado pelos onze “stents” de que necessitou. Se o Homem de Lata (Jack Haley) almejava justamente um coração para pulsar em sua metálica estrutura, Duda (Ernani Moraes), um sorumbático, pessimista ex-sapateador, no entanto com tristeza “poética”, portador de “coração grande”, objetiva em seus pensamentos voltar a “desenhar no soalho” os passos precisos do sapateado (Ernani se sai muito bem ao apresentar à plateia um número da difícil dança). Já o Espantalho (Ray Bolger) intenta conseguir um cérebro, enquanto Lucas (Alexandre Jábali), um sábio rapaz “transplantado” que recebeu lições de vida do pai português, quer para si uma sensação distinta da que tem com relação ao órgão dez anos mais jovem que lhe fora doado. Que o mesmo não seja um “intruso”, e sim dádiva salvadora de sua moça vivência. O que notamos claramente como proposta do dramaturgo é a apresentação inequívoca da nossa vigorosa e ilimitada capacidade de superação face a imprevistos comuns à vida. A direção, também de Flávio, privilegia a harmonização e sintonia entre os intérpretes, dando-lhes oportunidades pontuais ou coletivas de se expressarem artisticamente de maneira honrosa. O texto é conduzido com adequadíssima brandura, não permitindo que a temática potencialmente “pesada” impusesse o seu desenvolvimento. A comicidade calculada nas falas e diálogos espanta em definitivo qualquer possibilidade de haver uma temerária supremacia da morbidez. Todo o espaço cênico é utilizado com elevada dinâmica e movimentação dos personagens. Adota-se ritmo ágil, contudo sem abjurar das pausas cabíveis para elucubrações e confissões para os eventuais interlocutores. Há cenas lúdicas e de evidente fascínio nas quais vislumbramos semelhanças a um musical (Flávio Marinho tem experiência nesta área), em que os atores cantam, dançam e até mesmo executam a percussão improvisada em objetos insuspeitos. Um número considerável de assuntos concernentes ao enredo são abordados, como a arbitrariedade das dietas restritivas, a dependência dos pacientes às variações de suas pressões arteriais (12 por 8, 14 por 10 etc.) e aos níveis de colesterol, a obsessão por contagem de calorias perdidas ou ganhas, a enxurrada de remédios e seus sufixos estrambóticos prescritos amiúde pelos médicos aos que deles precisam e o temor da finitude da vida. Tudo com coerência. Cristina Pereira, Bia Nunnes, Ernani Moraes, Renato Reston, Beto Vandesteen e Alexandre Jábali dão à montagem rica contribuição na meticulosa composição de seus papéis. Cristina empresta generosamente a vocação irrefutável para a graça (com aptidões patentes para situações de drama outrossim) para criar uma Liz crítica, mordaz, irônica, debochada e quando solicitada emotiva. Bia Nunnes, uma também notória atriz por fazer humor de excelência, abraça postura de liderança com personalidade cujos traços se realçam pela firmeza e resolução de atitudes (contudo, Bia recebe a chance e aproveita com completa satisfação, assim como Cristina, de exibir potencialidades escoradas no drama). Ernani Moraes nos ostenta uma construção do personagem em que se percebe um conciso entendimento de suas características psicológicas e emocionais, como a comovente fragilidade defronte à condição pessoal (em contraste direto com o “physique” e potente voz do artista). Uma atuação digna e relevante em sua natureza. Renato Reston nos cativa inexoravelmente com um Uóxinton generoso, sensível, sincero e devotado às suas funções (qualidades distribuídas com equanimidade). Beto personifica Petrus com mérito e brilho ao lograr a conjunção da intensidade interpretativa das canções com tiradas humorísticas impagáveis. E Alexandre Jábali, como Lucas, obtém com êxito, para a felicidade dos espectadores, a elaboração do papel com sensibilidade alocada em patamar superior, em associação com respectivos carisma e espontaneidade. Flávio Marinho é conhecido pela valorização do ator, independente de outros recursos em seu entorno. O cenário de Edward Monteiro é marcado por largas criatividade e inventividade, que complementam com eficácia o arco narrativo. Edward dispõe no palco aparelhos de ginástica (esteiras, bicicletas…) e materiais como halteres e buzu, além de cadeiras utilitárias, mesa com laptop, lustre antique, cômodas, suporte para os citados halteres, quatro barras de madeiras, uma larga e outra estreita bastante altas, posicionadas em ambos os lados da ribalta, dois pequenos tablados e o talvez mais impressionante elemento cenográfico: no fundo do palco se simula um painel com espelhos de aparência azulejada em que se vislumbram as linhas de um exame de eletrocardiograma. Os figurinos de Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo atendem a uma admirável multiplicidade de opções de cores e tipos de costumes, em que podemos mencionar os leggings, túnicas, sobretudos, t-shirts, regatas, shorts, tênis, escarpin, polos, sobretudos e foulard. São eles condizentes com o espetáculo. A iluminação de Paulo César Medeiros é prodigiosa, certeira em suas escolhas, formando um bonito panorama visual, com fileira anterior de refletores que se revezam em extensa gama de coloridos, como o azul, o verde, o vermelho e o lilás. Luzes laterais, planos abertos com maior ou menor intensidade, o efeito lindíssimo quando o lustre é aceso em frente à bicicleta de Liz e um pisca-pisca frenético e vivaz nos momentos de dança (coreografias de Mabel Tude). A trilha sonora de Flávio Marinho é eclética, e por isso mesmo agrada a todos os gostos, em que coexistem versões para “Bichos Escrotos”, dos Titãs, “Whisky a Go Go”, do Roupa Nova, “Agora Só Falta Você”, de Rita Lee, “Fogo e Paixão”, de Wando e “Go West”, do Village People. Não nos esquecendo, é claro, da música erudita e do “standard”. “Academia do Coração” reflete com sucesso mais uma tentativa de se fazer uma peça teatral com aspiração de conjuminar entretenimento e respeito aos espectadores, ao lançar mão deliberadamente de apropriado, coeso e lúcido texto, formidável elenco e direção objetiva e hábil, que discute assunto sério com demasiado senso de humor e bom gosto. O fato é que Cristina Pereira, Bia Nunnes, Ernani Moraes, Renato Reston, Beto Vandesteen e Alexandre Jábali não são somente “os donos da esteira”, “os donos da história”, mas “os donos de nós mesmos”, ao nos conquistarmos da primeira a última cena.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s