“ A macieira, ‘a árvore da vida’, uma testemunha das verdades e fantasias que permearam a trajetória do ator interpretado por Ary Fontoura em ‘O Comediante’, com Angela Rebello, Carolina Loback e Gustavo Arthiddoro. “

Publicado: 27/05/2014 em Teatro

O-Comediante-com-Ary-Fontoura
Foto: Leonardo Aversa

Antes de se iniciar esta análise teatral, cabe-me dizer que “O Comediante”, de Joseph Meyer, é uma notável ode à Sétima Arte. Uma homenagem nada simplista ao Cinema, com seus mitos, marcos e memórias que adentraram em nossas mentes e delas não mais saíram. Não por acaso, um de seus diretores, José Wilker, era sabidamente conhecido como um “homem de cinema” (a despeito de sua rica passagem tanto no teatro quanto na TV). Anderson Cunha, seu parceiro na direção, deu prosseguimento ao trabalho com dignidade e bravura, conferindo ao espetáculo uma alta qualidade visível em todos os aspectos. A instigante trama de Joseph se passa na portentosa mansão onde vive o ator Walter Delon (Ary Fontoura), que se um dia vivenciou situações de legítima glória e recebeu os mais efusivos aplausos e louros, hoje se encontra perdido, amargurado, sufocado pelas lembranças de outrora, com o ego despedaçado, vítima de cruel ostracismo, um fantasma terrificante para um artista. Cercado pelos olhares insondáveis e atentos de Bette Davis, Dietrich, Marilyn e Greta Garbo em retratos dispostos estrategicamente pela casa, Walter, na verdade, Antonio (um nome do qual deseja se esquecer por razões significativas) possui uma “entourage” que o acompanha há longos anos: Norma (Angela Rebello), uma formal, charmosa, elegante e resoluta mulher que assumiu os papéis de governança (porém considerada como “membro da família”) e pronta conselheira; e Eric (Gustavo Arthiddoro), moço sedutor que primeiro serviu ao intérprete que se apraz em cantar “Fascinação” de modo melancólico como chofer e no momento é o seu agente. Norma guarda segredos que mereciam ser olvidados, e mantém com o rapaz um conluio para que o mundo de fantasias que engendraram para Delon não se desfaça. A falsa paz da mansão que ludibria os incautos é estremecida pela chegada de uma vívida e sagaz jornalista “freelancer”, Júlia (Carolina Loback), que almeja escrever uma matéria reveladora sobre o ator. A partir desta iniciativa, que esconde demais motivações, somos surpresos por sequência de intenções duvidosas, ajustes, ardis, tramoias, omissões, confissões desconcertantes, jogos de sedução em que se imiscuem passado e presente, rememoração de tempos idos que reverberam na atualidade e a descrição de um painel triste, no entanto concreto e real, da condição do artista em um universo idólatra do efêmero. José Wilker e Anderson Cunha souberam com primor transportar para os palcos uma história que, para o deleite geral, não se limita apenas a um gênero. Ambos inteligentemente coloriram o espetáculo com atrativas tintas de thriller/suspense que muito reportam aos clássicos de Hitchcock (Walter, além disso, alude a “Psicose” e “Os Pássaros” em tom chistoso) e vislumbramos, mesmo que branda, todavia palpável, referência ao movimento expressionista alemão e ao cinema mudo (nos quais olhares e expressões faciais eram supervalorizados a fim de se desenhar com clareza uma emoção objetivada). Importante afirmar que o humor atravessa a linha de desenvolvimento narrativo em instantes oportunos, consolidando-se como indispensável amálgama para costurar a ação. O mistério e seu entorno se associam ao drama sem colisões. Lembramo-nos do “vaudeville” com a sua movimentação constante e dinâmica dos atores por um espaço cênico com entradas e saídas, níveis e subníveis (com direito a uma belíssima escada sinuosa com corrimões dourados que nos remete ao épico “E O Vento Levou”, de Victor Fleming, George Cukor, Sam Wood e outros, e à obra-prima de Billy Wilder, “Crepúsculo dos Deuses”). Tem-se portanto conjunto dramatúrgico pleno e coerente (com o ótimo uso dos gêneros supramencionados). No tocante ao elenco, percebe-se nitidamente um precioso enfoque por parte dos encenadores e atores na construção caprichada e meticulosa dos “characters. Ary Fontoura, talvez possa parecer redundante asseverar, mostra-se esplendoroso na ribalta, com inacreditável domínio técnico e emotivo de sua atuação (algo que se vê vez ou outra no panorama teatral contemporâneo). Ary sobejamente se utiliza de todas as ferramentas à sua disposição para compor um Walter Delon melodramático, divertido e angustiado a um só tempo, sensível e lírico, o que permite ao ator circular pelas diversas áreas da interpretação. O artista, um dos mais versáteis, talentosos e populares do país, tem ao seu favor a bem-vinda presença de três cativantes outrossim providos de talento intérpretes que contribuem com magnitude para o êxito e completa satisfação das ambições artísticas da peça. Angela Rebello, uma atriz que espontaneamente desperta encanto no público por suas esbelteza, altivez e personalidade constrói Norma tendo como bases as contenção, sobriedade e interiorização de sua personagem, sem prescindir de pujança dramática conveniente ao perfil da governanta. Carolina Loback exibe com vigor, expansividade e força jovial encantadora as idiossincrasias da jornalista Júlia. Um acerto inequívoco nos seus propósitos interpretativos. E Gustavo Arthiddoro se revela um ator dotado de amplas empatia, capacidade irretorquível de comunicação no palco, postura solenemente admirável, categorizando suas emoções de forma crível e congruente. O cenário de José Dias é de uma beleza estonteante, com riquíssimo detalhismo ao reproduzir o salão principal da mansão de Walter, onde são disponibilizados mobiliário “antique” (mesa clássica, cadeiras Luís XV, aparadores orientais, estante, console clássico de espelho) e objetos com requintado acabamento como um vistoso lustre central, candelabros, espelhos venezianos, piano de cauda, troféus (prêmios), porta-retratos, abajures de parede, vasos com flores variadas e um ostentoso tapete vermelho que cobre os degraus da famosa escadaria, sendo tudo projetado em três patamares e o andar de cima que fica subentendido. O mais arrebatador é um idílico jardim de inverno por detrás de uma armação “envidraçada” através da qual podem ser contempladas treliças repletas de folhagens e uma simbólica e enternecedora macieira com suas folhas rosáceas que parece ter surgido do filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa. A iluminação de Maneco Quinderé é prodigiosa, não nos poupando de sua generosidade com o alumbramento visual da montagem. Maneco aproveita as múltiplas funções das luzes com opções sempre inspiradas, apostando em tonalidades de diferentes matizes, focos diversificados, sombras exploradas em sua vastidão de possibilidades, contando ainda com o indissociável plano aberto/geral que tem a missão primordial de nos dar visão inteira de toda a localidade cênica. Os abajures de parede e os candelabros servem de instrumentos para dar uma ambiência misteriosa às passagens do entrecho. O jardim de inverno assume as mais fascinantes colorações. Os figurinos de Marília Carneiro são refinados, luxuosos, com evidente elegância, casuais e cotidianos quando necessários. Marília nos presenteia, e ficamos embevecidos, com um desfile multifacetado de peças e costumes como trajes de gala/noite (smoking, longos, terno, camisas, calças e sapatos sociais, escarpins), robes, saia palito, trench coat, camisa com gola rolê, xales, cardigã, pulôver, blazer Príncipe de Gales e calça esportiva. A direção de movimento dos atores é executada com a maestria costumeira de Marcia Rubin que explora com habilidade os recursos corporais e gestuais do elenco. Os movimentos são precisos, exatos, bonitos na essência, articulados, plásticos (há uma cena em particular que Ary e Carolina bailam ao som de um irresistível tango). A direção musical de Marcelo Alonso Neves não economiza, e por isto mesmo compreende e se adequa com todo o sentido à trama (que inclui a linda “Fascinação”, que se eternizou na voz de Elis Regina e é executada por Ary Fontoura com ternura e afinação em representativo episódio) ao optar por temas típicos de suspense com sua aura indiscutível do que não é previsto e nos causa expectativas. Marcelo não nos deixa órfãos, que nos fique claro, de um lirismo, de uma poesia melódica que ocupa posição de destaque quando compatível com um determinado acontecimento da obra. “O Comediante” é uma peça teatral que de imediato se faz válida por abordar assunto de cunho universal, atemporal (a ascensão e o ocaso de um artista em benefício de uma cultura desvirtuada que privilegia cada vez mais o bonito, o jovem, o corpo não importando se haja talento ou não em quem os possui), com uma exposição que reverencia o bom andamento de uma narrativa, a sua linearidade, aglutinando o cômico, o dramático e o suspense. A escada de corrimões em preto e branco levou Norma Desmond, o memorável papel de Gloria Swanson, em “Crepúsculo dos Deuses”, rumo a um fim nada glorioso. Mas Ary Fontoura, Angela Rebello, Carolina Loback e Gustavo Arthiddoro farão o caminho inverso. Subirão cada degrau em direção ao sucesso e brilho de “O Comediante”. Sempre com o testemunho do olhar real da macieira, “a árvore da vida”.

comentários
  1. Que delícia de resenha, Paulo. Assisti a “O Comediante” em sua estreia no Teatro Abel em Niteroi – e reler sua preciosa crítica, tão minuciosa e bem fundamentada, foi como ver a peça novamente. Parabéns.

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    • pauloruch disse:

      Olá, Sandro. Fico bastante feliz que possa ter proporcionado a você com a análise teatral de “O Comediante” a sensação distinta de “visualizar” o espetáculo após tê-lo visto em sua estreia. Para mim, junto com os generosos elogios, soa como grande recompensa. Muito obrigado. Um abraço.

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  2. Continue com este trabalho maravilhoso, Paulo. As Artes Cênicas precisam e te agradecem. Abraços.

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