” ‘Adubo ou a Sutil Arte de Escoar pelo Ralo’, com Juliano Cazarré, Rosanna Viegas, André Araújo, Abaetê Queiroz e Pedro Martins, é um teatro transformador, impactante, que cumpre uma das precípuas funções das Artes Cênicas, ou seja, saímos diferentes do que quando entramos. “

Publicado: 09/06/2014 em Teatro

Adubo-6
Foto: Denis Leão

Na época em que sentávamos em cadeiras escolares com seus assentos desconfortáveis de madeira, cujos conteúdos das disciplinas ensinadas eram convenientes à ditadura militar, sempre ouvimos nas aulas de Ciências que “os seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem.” Quando infantes, nossa preocupação maior era saber como nascemos. Aos pais, dependendo de sua moral, cabia a explicação. Como não raro obtínhamos uma resposta insuficiente (o fato é que a educação sexual dentro de casa é um tabu até os dias atuais), cabia-nos satisfazer a nossa dúvida nas ruas, com os colegas, da pior maneira. E hoje este papel é cumprido pela internet, e de modo precário pelos meios de comunicação em geral. Adolescentes e na fase adulta jovem, atemo-nos ao trecho “…crescem, se reproduzem…”. Principalmente, o “…, se reproduzem…”, visto que este está de modo direto relacionado ao sexo. Lamentável que haja vozes que se autodefinem como “importantes” que apregoam que a prática sexual fora feita por Deus (para aqueles que acreditam) com fins somente de reprodução, como se escolhêssemos as horas e momentos adequados para se sentir desejo um pelo outro (o que gera consequências graves como o incremento da homofobia; o sexo só para a reprodução lhes serve como “consistente” argumento). A Humanidade atendeu fielmente ao que o Livro Sagrado sacramenta: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Sou cristão, mas esta obediência causou uma desordem mundial, em que falta quase tudo em nosso planeta com a superpopulação. Faltam casa, comida, água, emprego, energia, saneamento básico. Por dedução, falta igualdade. Aumentaram a guerra, a miséria e a pobreza. Evidente que o superpovoamento outrossim se deve às ignorância e irresponsabilidade. Ao atingirmos a “Terceira Idade” ou “Melhor Idade” (há algo de questionável nesta última classificação), somos levados obrigatoriamente a pensar no verbo “morrer” no Presente do Indicativo. E é sobre este árido e pedregoso tema que as pessoas tentam ignorar ou postergar que André Araújo, Juliano Cazarré, Pedro Martins e Rosanna Viegas se debruçaram na construção de uma cortante, reflexiva e realista dramaturgia, vista em “Adubo ou a Sutil Arte de Escoar pelo Ralo”, dividida em representações episódicas, entremeadas por situação recorrente (o encontro de quatro indivíduos embriagados, vestidos com andrajos estilizados, fumantes compulsivos num boteco tosco, prosaico, perdido em qualquer lugar, no qual filosofam, discutem, elucubram, cantam, dançam, riem, gargalham, confraternizam-se, brindam, e zombam da existência humana, da finitude desta e das instituições). O quarteto possui olhos realçados por negra maquiagem (uma volta às raízes legítimas do teatro, com a insinuação do uso de “máscaras”). O diretor Hugo Rodas soberbamente se apodera de não poucas referências para elaborar uma estrutura cênica poética, farsesca e real a um só tempo, subversiva, revolucionária, anárquica (na melhor das acepções), com ruptura saudável de regras do “establishment”, permitindo ao fascinante elenco (Juliano Cazarré, Rosanna Viegas, André Araújo e Abaetê Queiroz/Pedro Martins) a exacerbação das suas mais profundas emoções e a exibição escancarada da libertação tão sonhada do “ser ator”. Por sinal, a liberdade e suas extensões são esmiuçadas com propriedade no texto. Numa espécie de “ordem caótica”, os personagens se movimentam energicamente com admirável e espantosa expressividade corporal (alusões ao circo, ao nonsense e à pantomima são bem exploradas para a vertente mágica e fabular da encenação). Em certo sentido, ao assistirmos a “Adubo…”, com sua montagem destemida, corajosa, audaz, guerreira, sem medo de expor suas opiniões e ideias, associamo-na aos clássicos dos anos 60 e 70, feitos sob forte repressão, dos Teatros Oficina, Opinião e de Arena (aliás, a obra é apresentada no oportuno espaço da arena, o que inevitavelmente faz com que nos sintamos mais próximos da trama, num processo de quase interação, até mesmo como se fôssemos um quinto personagem). No palco acobertado por centenas de guimbas de cigarro, existe uma pequena e rústica mesa, sobre a qual estão quatro velas acesas (as chamas vão, óbvio, apagando-se no decorrer da peça; seria o seu apagar gradativo um símbolo da nossa aproximação lenta da morte?), copos, garrafas com bebidas “alcoólicas”, cinzeiro, potes com confetes e algo similar a comprimidos brancos e um diminuto pandeiro. Ainda no cenário, vemos um enorme quadro-negro onde os atores escrevem e desenham continuamente, sendo que o que deixam registrado em giz remete ao que está acontecendo no exato instante do espetáculo. Chamam a atenção um Sol sorrindo no canto superior direito do mesmo, merecendo um notado destaque, e um hidrante. A magnífica, criativa e misteriosa cenografia imaginada pelo elenco teve o apoio de Sônia Paiva (vislumbra-se uma ambiência mística, que nos lembra os rituais religiosos afro-brasileiros). Somam-se a tudo isso, três banquetas de diferentes níveis e instrumentos musicais (inclusive percussivos), que são tocados com habilidade e graça pelos artistas, a quem é conferida a trilha sonora (o que corrobora uma atividade não tão mais em voga, a da criação coletiva). A trilha é composta por ruídos, sons (produzidos pelos próprios atores), sambas deliciosos cantados por eles mesmos, e um fantástico e divertido rap com as letras denunciatórias pertinentes ao gênero musical. Caetano Maia operou a luz. Bela, consistente e poderosa, abarcou uma textura geral tênue em tom amarelado, meias-luzes, aquelas que se acendem e se apagam num rompante, focos precisos que evidenciam rostos e corpos e sombras em sua natureza instigantes. Sônia Paiva também os auxiliou na criação dos engenhosos figurinos que reportam a um suposto universo pós-apocalíptico, em que se usam tons negros e suas variações e a participação do vermelho e do cru. As calças contêm perceptíveis rasgos, ornadas com bonitos pespontos. Os tênis são propositadamente encardidos. Rosanna usa sobreposições e lenço longo. Juliano e André trajam paletós (o primeiro lança mão de uma gravata próxima à “borboleta”) e Abaetê/Pedro é visto com uma t-shirt puída sobre outra. Esta decadência no vestuário provável seja uma metáfora de nossa própria decadência moral. E o sujo físico remeta talvez à “sujeira” dos valores vigentes. A embriaguez dos personagens não é gratuita. Vivemos “embriagados”, entorpecidos face às injustiças e mazelas da vida. Morrer-se-á de qualquer jeito. Fumando ou bebendo. Não fumando ou não bebendo. Até o chapéu “morre”. Pode-se sim antecipar a morte. Por escolha nossa ou não. No que concerne aos episódios que supramencionei, contados em versos ou em prosa, rimas e jogos de palavras, há a história da criança que perde o seu cãozinho Balu. Pela primeira vez, defronta-se com a morte. Como atenuar a sua incompreensão diante de acontecimento trágico, fatídico? Como lhe explicar o fim? Como convencê-la pacificamente de que não mais escutará os seus latidos? A morte é democrática. Não poupa velhos, moços, crianças, príncipes, Papas, suseranos e plebeus, bichos e flores. Somente “as flores de plástico não morrem”, como asseveram Os Titãs. Porém, após a morte somos, por incrível que nos pareça, desiguais (basta uma pausa para chegarmos a esta conclusão). Em ocasião diversa, um homem tenta o suicídio, e a sociedade (sempre a sociedade) o condena por isto. Seria o suicídio um atentado contra Deus ou um direito pessoal e intransferível? Inacreditavelmente, a mesma coletividade que o condenou decide matá-lo ao atestar a sua sobrevivência. Uma amostra de seu apego aos julgamentos, pré-julgamentos, preconceitos, contradições e amoralidade. Nada que não nos seja estranho na atualidade. Há a hipótese fabular do príncipe que por descuido se vê dependurado em abismo, e sua vida passa então a depender da boa vontade de um plebeu. Mesmo em patente desvantagem, o “suserano” mantém a arrogância, a prepotência e o sentimento de superioridade social. O poder, nestas condições, transferiu-se de camada. Em distinto conto, adotando-se a vertente regionalista do coronelismo (usa-se prosódia típica), com especificidades (jagunços, vinganças e acerto de contas), num núcleo de primos ocorre uma traição. Primo fugitivo é denunciado por outro em troca de relógio precioso. O elo que há entre a morte e a traição. A mãe do denunciante se indigna e diz: “Na minha terra não se rouba e não se fala em vida alheia, porque na minha justiça não vai ninguém pra cadeia, paga logo o que tem feito com sangue da própria veia”. Em outros dois casos contados, um homem volta de viagem e fica sabendo pela esposa de maneira metafórica que os filhos morreram, e uma mãe flagelada com rebento enfermo no colo magro suplica a Deus pela cura de seu descendente. A cura pode estar na semente de mostarda. Sim, na semente de mostarda. Quanto aos atores Juliano Cazarré, Rosanna Viegas, André Araújo e Abaetê Queiroz/Pedro Martins, o que se pode afirmar é que há muito não se testemunhou interpretações tão viscerais, intensas, despudoradas, desabridas (com o significado de insolentes), simbolizadoras da plenitude das suas potencialidades artísticas. Nota-se em todos, sem exceção, uma incessante procura e vitoriosa conquista da essência do ator, quase sempre recôndita, difícil de achar, porém descoberta. O elenco se “esvai”, deixando-se transbordar em talento. A despeito de abordar a morte, “Adubo ou a Sutil Arte de Escoar pelo Ralo” é um espetáculo vital, imprescindível, indispensável para a elevação do teatro como local que nos redime, esclarece-nos, alimenta-nos com cultura e entendimento. Juliano Cazarré, Rosanna Viegas, André Araújo e Abaetê Queiroz/Pedro Martins são o “adubo”, a “semente de mostarda” que nos cura da ignorância de mal compreender e aceitar a morte. E o essencial: todos nos ensinam que Deus está logo ali. Ele é o Sol, “amarelão”, simples e bonito. Ou seja, a vida. Por isso, saímos diferentes do que quando entramos. Obrigado.

comentários
  1. Pedro Martins disse:

    Obrigado pela belíssima reflexão.
    Pedro Martins, ator e co-autor de ADUBO ou a sutil arte de escoar pelo ralo

    Curtido por 1 pessoa

    • pauloruch disse:

      Olá, Pedro Martins. Muitíssimo obrigado pelo comentário. É uma honra sem igual para mim obter o reconhecimento e o carinho de um ator e autor que faz prevalecer a importância do teatro em nossas Artes, haja vista o que se pôde conferir no excelente espetáculo “Adubo ou a Sutil Arte de Escoar pelo Ralo”. Parabéns, Pedro. Um grande abraço.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s