“Na peça ‘7 Conto – A comédia’, Luis Miranda se revela um contador de histórias que, por meio de sete personagens bem elaborados, faz apropriada crítica social com humor de elevado nível”.

Publicado: 16/09/2014 em Teatro

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Foto: Ricardo Borges

Pensemos no celebrado e importantíssimo movimento teatral “besteirol”, cujo ápice decorrera na década de 80, em específico no Rio de Janeiro. Toda a irreverência e o descompromisso com as convenções até então estabelecidas somados a uma intensa vontade de “se transformar” o teatro sedimentaram no panorama cultural da época mudanças definitivas que se refletem até os dias atuais. Sob outro contexto, nos anos 70, o revolucionário grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone” semeou com sua saudável anarquia e ruptura das amarras vigentes, num momento de forte e temerosa patrulha política, o terreno para uma nova forma de se construir ou desconstruir uma narrativa dramatúrgica e levá-la aos palcos. Creio que, consciente ou inconscientemente influenciado por estas correntes, aproveitando-se de sua avassaladora comicidade em aliança com oportuna crítica social, Luis Miranda, o autor de “7 Conto – A Comédia”, criou com notável inspiração, riqueza de detalhes e precisa e poderosa comunicação entre ator e público o que se confere na encenação apresentada na ribalta. São sete personagens interpretados pelo próprio Luis, representativos de um determinado setor da sociedade civil contemporânea, com matizes denunciatórios imbuídos de desvairado humor. Com direção habilíssima, engenhosa e com superlativo grau de compreensão da proposta do dramaturgo, Ingrid Guimarães, insigne referência da comédia de qualidade, conduz a peça de maneira que a leva a um ponto relevante de plenitude cênica. Há a preponderância de intenções que realcem com preciosismo cada tipo composto com meticulosidade pelo ator. São criações incrivelmente distintas entre si, que servem tanto para gargalharmos, rirmos, refletirmos, mudarmos ou não nossos conceitos, preconceitos, pensamentos e ideias. Logo no início de “7 Conto – A Comédia”, somos surpresos, vagando trôpego pelo espaço da plateia, por Queixada, um “guardador de carros”, o “flanelinha figuraça”, que ostenta com orgulho o seu colete encardido de guarda de trânsito, tendo no interior de sua esfarrapada bermuda jeans com a braguilha aberta uma garrafa de pinga ou algo que se assemelhe, e empunhando um cone para “organizar” o caótico trânsito das ruas. Impressiona-nos com suas tiradas supostamente filosóficas, com direito a resvalos no Português. Exercendo uma função já “institucionalizada”, Queixada nos deixa observações hilariantes, acertadas e sem resquícios de estigmatização sobre os homossexuais. Com seu ventre estufado, bêbado, o homem de voz embargada assevera que os gays (adeptos do hedonismo, bem-sucedidos em sua maioria), apreciam frequentar locais badalados das praias com seus sungões e óculos escuros (que guardam outros objetivos), ostentar seus corpos musculosos e que os mesmos têm um jeito “gostoso” de falar e seduzir, uma retórica mansa para conquistar outrem. Queixada simboliza não só o caos no trânsito, mas a desordem imperante no perímetro urbano no qual trabalha, com a anuência do Poder Público. Já com Caroline, uma atriz infantil negra, deparamo-nos com o momento mais emocionante do espetáculo. E isto ocorre em vista do tratamento dado ao tema racismo. Um fato real, seriíssimo, que parece não ter fim. A ingênua menina com suas tranças “loiras” e vestido volumoso vermelho ornado com bolinhas brancas e laçarotes, mangas bufantes e segurando uma Minnie como fiel companheira (irá interpretar a Chapeuzinho Vermelho), ressente-se de que não há papéis para crianças da sua cor, e de que na escola, nas encenações teatrais, invariavelmente as personagens que lhe eram ofertadas não se configuravam como principais, sendo estas pertencentes às brancas. A cútis alva determinava as escolhas. Se por um acaso defendesse um “character” direcionado para aquelas de pele clara, sofria com ofensas, piadas, chistes e gracejos (hoje, o chamado “bullying”). Luis, com juízo, toca em um assunto tabu que insiste em existir num país miscigenado, com origens africanas, indígenas e europeias, mas que, todavia, em seus estádios de futebol, ouvem-se os nefastos gritos de “macaco” bradados por uma “torcedora” branca para um atleta negro. Infelizmente, esta posição segregacionista se estende às Artes. Nem mesmo a televisão, por mais que se esforce em debelar este vício, mostra alguma resistência, talvez por pressão do gosto dos telespectadores e interesses econômicos. Os galãs e as mocinhas serão quase sempre brancos, basta ligar a TV (com exceções, é claro). E quando o contrário acontece, vira notícia. Sobram aos negros os signos do folclore nacional, figuras históricas… As empregadas domésticas são negras, pardas ou mulatas, basta ligar a TV. Com o rareamento das novelas de época, o trabalho para os negros escasseia, pois não há escravos para serem interpretados. Caroline chega a fazer comovente prece a um ilustre criador de histórias infantis para que invente uma personagem negra para ela. O dramaturgo é extremamente corajoso e bravo ao não deixar de fazer uma crítica ácida, acre e mordaz, vez por outra, à nossa cada vez mais degradante, corrompida e falida política brasileira, com todas as suas maracutaias, escândalos, desvios de dinheiro público e impunidade generalizada (os espectadores não poucas vezes aplaudem o ator em cena aberta como sinal de que são cúmplices na indignação). Uma anomalia “cultural” que grassa na televisão do Brasil, os programas sensacionalistas que exploram descaradamente as miséria e desgraça humanas ganham visibilidade, só que às avessas, quando Luis Miranda personifica um “pastor” de religião qualquer, o apresentador do “Brasil Elite” Detona, que vocifera, simula emoção, interage com os telespectadores e a produção como se fosse um amigo íntimo, realiza performances e “mise-en-scènes”, a fim de lograr o maior número possível de simpatizantes. Detona se comporta com insatisfação face aos absurdos vigentes e faz propaganda aberta de produtos de luxo. A enorme graça está justamente na questão do “pastor” defender não os necessitados, mas sim a elite, a alta burguesia, com seus valores tortos, distantes da ética e da moral, afundada em seu consumismo aterrador, ciente de que nunca será punida por seus atos condenáveis e desrespeito para com o próximo. Os jovens deste segmento social são educados por seus pais como se ainda fossem crianças, e em bastantes casos com a conivência de nossa Justiça. Seu “esporte” favorito pode ser um “racha” que pode levar um inocente à morte. Uma brincadeira bem divertida para eles pode ser queimar um índio dormindo num banco de um ponto de ônibus pensando que fosse um morador de rua. De repente, assaltar, roubar sem que se precise pode ser uma “boa”. Os pais, com certeza, contratarão um esperto advogado que os tirará da cadeia. Afinal, são “crianças” e têm um “Estatuto” para protegê-las. Somos cidadãos espalhados pelos quatro cantos de uma nação devastada por pobreza que vive ao lado de riqueza, amparados por “bolsas” e mais “bolsas” assistencialistas e eleitoreiras, numa economia capenga e magra com índices maquiados, que se um dia para Stefan Zweig fomos “o país do futuro”, hoje não somos do “presente” tampouco do “passado”. Sem preterir o humor, a tirania do apresentador chega ao cume, lembrando os abomináveis governantes da Segunda Guerra Mundial, seus discursos odientos, os efeitos do Holocausto e o terrorismo da atualidade, numa cena impactante. Uma outra variação cultural e consequentes contradições é debatida: os cantores de “funk ostentação”. MC Dollar, com sua capa de couro, calças pantalonas justas, óculos escuros, cordões de ouro, chapéu com aba larga e muito brilho (remete aos tempos da “blaxploitation”), canta “raps” que em cujas letras há uma apologia ao mundo glamoroso das grifes internacionais, com refrãos empolgantes para um séquito de fãs sem condições para este tipo de consumo. Uma outra distorção cultural levantada por Luis Miranda referencia ao fato de que, no presente, toda e qualquer pessoa, qualificada ou não, pode apresentar um programa de televisão. Dona Editi, uma líder comunitária e vereadora, sem paciência com os filhos, que traja um vestido estampado com frutas e legumes e ostenta a sua “derriére” com engraçado enchimento, usa grampos, faz piada com seus cabelos, comanda uma atração dentro de sua casa e seus varais, em que dá conselhos para as suas telespectadoras e dicas de culinária praticáveis. Editi não esconde a sua crítica aos programas do gênero nos quais os apresentadores indicam receitas com ingredientes incompatíveis com a realidade econômica do país. O apego ao estrangeirismo e o desprezo pelo Brasil e seus habitantes e diferentes raças são simbolizados pela socialite Sheilla, completamente insana em sua paixão por Paris, suas frases ininteligíveis ditas em Francês, e sua tendência para a evolutiva embriaguez causada por taças e mais taças de champanhe. Com exuberantes casaco de pele, tailleur com brocados e saia “animal print” em tons prata e dourado, chapéu, joias e óculos, Sheilla cita hotéis estrelados, alta gastronomia e demais luxos, com a paranoia de que tudo o que é bom deve ser “geneticamente modificado”. Sheilla não se inibe em assumir seus largos preconceitos com os desassistidos e os desprovidos de beleza. E, por último, o autor não se esquece dos idosos e suas dificuldades em lidar com a tecnologia, no caso os caixas eletrônicos dos bancos, além da intolerância da sociedade para com os mais velhos. Esta exclusão é vista na personagem Dona Arminda, uma senhora simples com seu xale de crochê que se vê desesperada diante da implacabilidade de um caixa eletrônico e suas exigências de senhas, nomes e letras, e a impaciência de seus pares com as suas limitações. Tudo para retirar um extrato de sua vergonhosa aposentadoria que usa para sobreviver, jamais para viver. Quanto à atuação de Luis Miranda, Ingrid Guimarães, sabedora do rico conteúdo textual e do excelente intérprete à sua disposição no palco, recorre a todas às suas potencialidades para que cada personagem obtenha vida própria e identidade, e nos satisfaça gloriosamente. Luis Miranda, ao defender os sete papéis por ele criados, confirma-se no quadro artístico brasileiro como um ótimo ator com inacreditável capacidade para compor tipos e suas mais diversificadas personalidades, entonações vocais e posturas corporais, com oscilações de expressividade no patamar máximo. Os personagens não são caricaturas, e sim veículos para a propagação, por meio do humor, de uma ideia ou pensamento significativo. O cenário de Nello Marrese contribui com eficiência, funcionalidade e capricho para o conjunto cênico. Há cerquinhas de madeira com flores (para Caroline), mesa grande com os já citados varais e peças de roupa, toalhas e bandeiras penduradas para Dona Editi, mesa e cadeira moderna para Sheilla, além de adereços. Mas a sensação são as imagens projetadas em um painel (vídeos de Rene Porto) que não somente embelezam o espetáculo mas lhe dão coerência e inserem o espectador na história. Os vídeos mostram um clipe com garotas potencialmente sensuais, Chapeuzinho Vermelho (papel de Caroline) passeando por um idílico jardim e Sheilla flanando pelas ruas e “boulevards” parisienses. Os figurinos de Helena Soares e Roberto Laplane são inspirados, criativos e exuberantes, colaborando fidedignamente para a identificação dos personagens. O “pastor” Detona, por exemplo, traja um terno risca de giz vermelho e uma gravata roxa. A iluminação transita por vários caminhos e possibilidades. Como Luis se posiciona amiúde no proscênio, há um foco central sobre ele. A cena de MC Dollar corresponde a um legítimo show, com o espocar de luzes coloridas e o globo espelhado de praxe. Percebemos outrossim a presença do verde, do amarelo, do azul e do rosa. As coreografias são creditadas a Luis Miranda, que é bailarino profissional, e aquelas são evidenciadas com primor na apresentação do “rapper”, com movimentos compassados, ritmados e empolgantes. A direção musical compreende eficazmente a proposta da narrativa, executando trilhas e canções originais que primam pela adequação. “7 Conto – A Comédia” se estabelece como uma obra que, por meio de uma comicidade acurada e de nível absoluto, faz-se necessária e obrigatória pelo uso da inteligência crítica ao abordar assuntos áridos de um país que se pretende organizado, com todas as discrepâncias, injustiças e desigualdades do coletivo social. Luis Miranda prometeu e cumpriu com os seus sete personagens nos contar histórias que nos façam rir, refletir e reavaliar entendimentos. Luis, assim, contou-nos uma boa história. Na verdade, Luis Miranda nos contou uma boa história em sete contos… a comédia.

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