” ‘Sexo, Drogas & Rock’n’Roll’ é um espetáculo rascante, impiedoso e corrosivo, que se utiliza da comédia como veículo para contar a sua verdade. Um doloroso, mas necessário ‘punch’ na nossa inércia, descontruída pela atuação soberba de Bruno Mazzeo. “

Publicado: 23/09/2014 em Teatro

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Foto: Paula Kossatz

As palavras “sexo”, “drogas” e “rock’n’roll” sempre foram associadas umas às outras como se constituíssem uma tríade “sagrada”. Como se juntas representassem um protesto desabrido contra todo e qualquer tipo de conservadorismo e ortodoxia, um grito de libertação das convenções sociais e uma reafirmação de cada uma delas no que tange à sua força transformadora sobre os indivíduos. O sexo é um consolidado tabu, que sofre avaliações sob distintos prismas, sejam eles progressistas ou reacionários. A prática sexual e suas amplas possibilidades são tão julgadas que são levadas inevitavelmente a um “aprisionamento” a estigmas, pudores, condenações e regras que preconizam o que é normal ou não. As drogas se integraram ao mundo de modo implacável, avassalador e definitivo. O homem teve e tem ao seu dispor, em variados períodos históricos, vasta gama de entorpecentes. Discute-se em independentes esferas do Poder e da sociedade civil a viabilidade de sua descriminalização. O consenso é longínquo. Se em épocas passadas, as drogas simbolizavam sinal de “status” e “glamour”, hoje pululam campanhas de conscientização acerca de seus males e prejuízos à saúde, no entanto há também os seus defensores ferrenhos, que apregoam o seu direito de consumi-las por meio de manifestações coletivas ou mesmo artísticas. O “rock’n’roll”, gênero musical surgido com potência na década de 50 nos Estados Unidos, influenciado precipuamente pelos blues, jazz e country (existem outros entendimentos no que se refere à sua criação), mostrou-se pujante e consistente instrumento de denúncias ou insatisfações individuais ou em grupos ao atravessar décadas. Atualmente, a sua solidez denunciatória revelou um visível abalo tanto política quanto artisticamente. Esta trinca polêmica e controversa serviu de inspiração para o dramaturgo americano Eric Bogosian escrever “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” nos anos 90, que se tornou um enorme sucesso no circuito Off-Broadway, sendo montado em muitos países e ganhado o Obie Awards de Nova York. Como o ator, dramaturgo e roteirista Bruno Mazzeo cultivava o desejo de retornar aos palcos, mas com uma dramaturgia que não fosse de sua lavra, para, segundo ele, “sair do seu lugar comum de interpretar seus próprios textos e fazer assim um exercício como ator”, o prestigiado e prolífico diretor Victor Garcia Peralta lhe apresentou a obra de Bogosian, que logo o conquistou. O enredo escrito pelo autor, e traduzido aqui no Brasil por Maria Clara Mattos de modo sagaz e com uma certa liberdade para adaptá-lo melhor às nossas realidades, possui um humor crítico, feroz, iconoclasta, cru e ácido. Ou como Victor o definira: “uma comédia cruel”. As características deste mesmo humor estão presentes em níveis diferenciados nos seis personagens vividos por Mazzeo. Trajando apenas funcionais e básicos t-shirt preta, calça jeans e tênis (figurinos de Bruno Mazzeo), o artista, em seu primeiro monólogo, e nos minutos iniciais do espetáculo defende um morador de rua, “ex-dependente químico”, fragilizado emocionalmente, com patentes sequelas de seu vício “abandonado”, que assume para si um papel de vítima da desoladora situação na qual se encontra. Necessitando de dinheiro para custear o seu tratamento, pois o serviço público de saúde sucateado se descuida de suas obrigações, suplica aos seus pares para que contribuam, dentro de seus limites, para salvá-lo. Nota-se elipticamente uma alusão à falta de hábito do ser humano em prestar a caridade, em auxiliar o próximo. O “ex-dependente” lança sobre nós uma corresponsabilidade acerca de sua miséria pessoal. De forma ou outra, calamo-nos e nada fazemos para tirá-lo de sua desgraça. Não somos caridosos e sim assumidamente egoístas e individualistas. Não perderemos tempo com um desvalido “cheirador”. Que ele fique só. Ele e seu pó. Após, somos defrontados com um hiperativo líder de uma banda de rock com seus indefectíveis óculos escuros sendo entrevistado por um famoso apresentador de TV, um “rockstar”. Também adicto, em seu colóquio com o entrevistador, ostenta personalidade ególatra, exagerada autoconfiança e seus desvarios e cognição comprometida pelo abuso das drogas. Para o roqueiro, cuja fama lhe fez mal, a droga é um catalisador, uma peça fundamental para a potencialização da sua inspiração. Narra com jactância e fanfarronice os excessos cometidos por seu grupo musical durante as turnês. O artista de rock é o signo de uma perigosa e temerária cultura que acredita equivocadamente na união indissociável entre a música e as drogas. Uma cultura “assassina” que ceifou muitos talentos. A despeito disso, mantém-se firme, em não poucas ocasiões, no “mainstream”. Há ainda a figura do endinheirado pomposo que “chafurda na própria lama de alienação consumista”, um arquétipo cada vez mais presente na elite econômica brasileira. Seus valores são distorcidos, a sua ética é claudicante e os seus anseios descabidos, afrontosos e incompatíveis com a realidade social vigente. Fumando compulsivamente um charuto cubano, o abonado homem se vê em meio a conceitos de competitividade absurdos e tortos. Seu comportamento evidencia aspectos autodestrutivos, porquanto o percebemos em um progressivo e dilacerante círculo vicioso em que a concorrência com seus semelhantes na prodigalidade, no perdularismo e na ostentação assume proporções inqualificáveis. As marcas e grifes internacionais asseguram o seu “status”. A sua sobrevivência como ser social depende da falsa noção de superioridade perante os outros de acordo com os bens que possui. Não se dá conta de que está agrilhoado a um constante descontentamento íntimo que o direcionará irreversivelmente para um abismo moral. A seguir, testemunhamos um jovem prestes a se casar em sua tresloucada despedida de solteiro, bebendo a cada palavra que profere, acompanhado de seus amigos e uma obrigatória garota de programa. O que nos constrange é sabermos que o rapaz e sua generalizada idiotia é compartilhada por significativa parcela de nossa juventude. Suas vidas são precárias, pobres e indigentes. O consumo desenfreado das drogas e do álcool somado a uma educação deficitária no núcleo familiar os tornaram imbecis, infantilizados, com altíssimo grau de estouvamento em seus perfis. Apalermados na essência, ostentam diminuta ou quase nenhuma inteligência. Exibem posturas corporais que beiram ao ridículo e entonações vocais esdrúxulas. “Morou?” é uma palavra de ordem. “Leke” é um pronome de tratamento. O vocabulário é raso, limitado, pleno em reiterações e gírias. Para os jovens contemporâneos “tudo é muito, mas muito maneiro”. Vão à igreja e depois “entornam na cerveja”. Veem graça no fato de alguém vomitar, nos vídeos pornográficos bizarros, em um incêndio acidental e numa possível “overdose”. Frases sem nexo ditas por outrem são consideradas sensacionais. Fatos banais, brincadeiras tolas e confrontos físicos com “pitboys” sem motivação justificada ganham vultosa relevância. Um retrato triste de uma geração perdida, sem sonhos, sem futuro e garantias de evolução. Em outro personagem, um empresário de artistas obscuros porém “fabricantes de dinheiro”, com sua ganância desmedida e apreço pelo lucro puro e simples, vislumbramos a face mais vadia do capitalismo. A ausência de emoção e sensibilidade o transformou em um sujeito irascível, estressado, arrogante e autoritário. A deficiência emocional permite que mantenha sem culpas mais de um relacionamento potencialmente afetivo. E, por último, um artista desacreditado, incrédulo, desiludido que, padecendo de uma paranoia coerente com a implacabilidade vigilante moderna à qual somos consuetudinariamente submetidos, crê em “teorias da conspiração” engendradas pelas grandes corporações. O “Sistema”. Um “Sistema” que nos “devora”, “antropofágico”. Defende que o contrariemos como saída mais eficaz para salvarmos nossas ideias e identidade. As máquinas se conectam, são solidárias entre si, uma “quadrilha autômata”, e os alvos preferenciais somos nós. Insistem em desvendar nossos gostos e predileções com o único e exclusivo propósito de vender. Ao ligarmos a TV, somos “assaltados” com anúncios e propagandas em série. Sofremos uma “lavagem cerebral publicitária” contínua. Para existirmos temos que comprar um determinado micro-ondas. Cuidado com o supercomputador que estão construindo sem que saibamos! Lembram-se do “kubrickiano” HAL 9000? A nossa individualidade foi usurpada por interesses escusos com objetivos rentáveis. A nossa sagrada privacidade “escoou pelo ralo”, confirmando as afirmações premonitórias de George Orwell e seu “1984”. Vivemos uma era apocalíptica onde a computação é tirana, controla tudo e todos. Os artistas precavidos devem esconder as suas Artes nas mentes para que não sejam roubadas pelo “Sistema”. A direção sempre vitoriosa de Victor Garcia Peralta (com a assistência de direção de Guilherme Siman) privilegia intencionalmente o trabalho de ator de Bruno, auxiliando-o na busca nada fácil da identificação dos seis personagens exibidos, com suas diferenciações bem marcadas e delimitadas, logrando incontestável êxito. Victor, já parceiro de Bruno Mazzeo nos palcos (o primeiro como diretor e o segundo como autor), conhece com exatidão as amplas aptidões dramáticas e cômicas do artista, e as eleva ao seu grau máximo. O diretor, além disso, atingiu uma velocidade narrativa saudável, com a passagem de um quadro para o outro intermediado por belas projeções com contextos psicodélicos e pictóricos (vídeos de Rico e Renato Vilarouca) sobre cinco painéis verticais corrediços com ripas brancas maiores e pretas menores, que se posicionam em diversos locais da ribalta, valorizando o desenho cênico; o cenário que aposta na praticidade é de Dina Levy; usa-se também uma moderna cadeira giratória). Não há resquícios de estagnação no que diz respeito à ocupação do palco, com Bruno se movimentando todo o tempo, e aproveitando ambos os lados daquele, os seus centro e proscênio. Bruno Mazzeo (um dos vencedores da láurea de “Melhor Ator” na 3ª edição do “Prêmio FITA de Teatro”, na Festa Internacional de Teatro de Angra de 2013) nos proporciona a nítida sensação de que as interpretação e composição de cada “character” lhe causam imensurável prazer. Ele expõe com pujança irrefreável uma maturidade artística que justifica a conferência de sua atuação. Ainda lhe cabe, com disposição física impressionante, aliar a acrimônia do texto de Bogosian com a sua verdade como ator. O artista brinca com seus corpo e voz com detalhismo e versatilidade. A iluminação de Dani Sanchez em cumplicidade com a direção, foca-se sobremaneira na figura de Mazzeo, não abjurando os planos abertos. Uma luz com propósitos e intenções largamente pensados e calculados. A trilha sonora de Plínio Profeta é um precioso regalo para os amantes do rock, encaixando-se com perfeição no universo da peça. As músicas selecionadas, todas legítimos clássicos, como “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, corroboram a total e absoluta compreensão acerca da dramaturgia encenada. “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” não só satisfez a Bruno Mazzeo ao dar vida a personagens que não vieram de sua privilegiada mente, mas provocou em nós, espectadores, um movimento com frequências variadas, que nos tirou de incômoda e desconfortável inércia. “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” é um espetáculo viciante. O único vício que realmente vale a pena, pois nos deixa mais vivos do que antes.

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