” A falência do casamento dos personagens de Maria Fernanda Cândido e Enrique Diaz pode ser sanada pela prostituição de luxo ao custo de R$4.000,00 a hora, em ‘Felizes Para Sempre?’. Mas com direito à voluptuosidade de Paolla Oliveira. “

Publicado: 27/01/2015 em TV

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Foto: Zé Paulo Cardeal/ Divulgação TV Globo

Já em 1982, o teledramaturgo Euclydes Marinho abordava o desmoronamento das relações afetivas e removia implacavelmente as máscaras que escamoteavam as artificialidades das uniões, fossem elas mantidas por casamento ou não, num pujante contexto narrativo passional. As força, visceralidade e desmistificação do “casal perfeito” foram elementos catalisadores do desenvolvimento da história levada ao ar pela Rede Globo na moralizante época da ditadura militar. “Quem Ama Não Mata” (obra na qual “Felizes Para Sempre?” se baseou) marcou indelevelmente um período de nossa TV e das carreiras de Cláudio Marzo, Marília Pêra, Daniel Dantas, Denise Dumont, Tânia Scher e Paulo Villaça. De lá para cá, houve substanciais mudanças na nossa sociedade e no nosso comportamento, é claro. No entanto, os obstáculos que nos impedem de atingir a plenitude da felicidade nos matrimônios e demais relacionamentos se mantiveram intactos. Portanto, nada mais justificável que a minissérie fosse reeditada para os dias atuais, assumindo os avanços e retrocessos para alguns que surgiram neste intervalo de anos. Com texto renovado do mesmo Euclydes Marinho, agora sob a direção geral de Fernando Meirelles (os outros diretores são Paulo Morelli, Luciano Moura e Rodrigo Meirelles) e a produção da O2 Filmes, “Felizes Para Sempre?” narra a vida de cinco casais (quatro da mesma família), esmiuçando os bastidores de suas existências e consequentes conflitos, passados na capital do poder do Brasil. Alguns personagens passeiam pelos portentosos corredores superficialmente assépticos dos prédios públicos, onde se pode com facilidade sentir o cheiro da corrupção e do poder desmedido. São comemorados os 46 anos de casamento de Dionísio (Perfeito Fortuna), um delegado de polícia aposentado, e Norma (Selma Egrei), uma professora de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília). Em sua confortável casa, os filhos e neto se confraternizam num clima de acachapante hipocrisia. Assistem com sorrisos a um patético vídeo familiar de depoimentos. Cláudio (Enrique Diaz), um dos descendentes, advogado e fundador de empreiteira corrupto e inescrupuloso, com negócios escusos com o governo atinente a licitações, é um sujeito arrogante, frio, cínico, adúltero, perigoso e repulsivo. Casado com a restauradora de obras de arte, a fina e sofisticada Marília (Maria Fernanda Cândido). Ambos passaram a ter dificuldades com o sexo desde a morte trágica de seu filho pequeno que se afogou na piscina. Ela teme pelo fim de seu enlace, e procura razões para tal, tentando achar soluções para a questão. Julga que está envelhecendo (mesmo que a sua beleza seja fulgurante). É uma mulher oprimida e desvalorizada por seu cônjuge. Na cama, é tachada cruelmente pelo marido como “travada”. O sexo entre eles é morno, protocolar e frustrante, embora Marília busque encontrar nos lençóis tristes de seu leito um romantismo perdido que para nós parece nunca ter existido. Decide solicitar o auxílio de uma terapeuta de casais (defendida por Bel Kowarick). Expõe suas fraquezas, dúvidas e inseguranças. Enquanto isso, o dinheiro sujo de Cláudio serve para silenciar a inconveniência de sua amante. E seu sogro se constrange com a impotência sexual natural da vida, apoiado por uma tolerante Norma, que sofre o assédio de seu colega de universidade apreciador de mulheres maduras, o professor Guilherme (Antonio Saboia). Otávio se confronta com seu irmão Hugo (João Miguel), engenheiro, casado com uma cirurgiã plástica de sucesso, Tânia (Adriana Esteves), pai do adolescente Junior (Matheus Fagundes), que ingenuamente crê que manifestações coletivas nas ruas podem mudar as conjunturas política, social e econômica da nação. Hugo é um fio de esperança de moralização em meio à chafurdice geral. Deseja ter mais filhos, ao contrário de sua esposa. O outro irmão, Joel (João Baldasserini), filho adotivo de Norma e Dionísio, é mais próximo de Cláudio no que concerne à prática de delitos penais. No mesmo momento em que é corruptor ativo (oferece propina a um agente público para vencer uma licitação), é passivelmente traído por sua companheira Susana (Caroline Abras), uma professora de pilates com quem possui uma relação aberta (até que ponto?). Susana o trai com o seu aluno Buza (Rodrigo dos Santos) por meio de um tablet. Sim, os adultérios se modernizaram. Ainda no que diz respeito a Marília, convence Cláudio a comparecer à terapia de casal. Na sessão, mostra-se indiferente. Com a ajuda da terapeuta, possíveis saídas para salvar o casamento ou pelo menos apimentá-lo são suscitadas. Swing? Ménage à trois? O casal recorre a um site de garotas de programa de luxo, e se interessa pelos olhos de Danny Bond/Denise (Paolla Oliveira), uma universitária pouco modesta, poliglota e que cobra R$4.000,00 a hora pelos seus serviços sexuais. O episódio termina com uma lasciva Paolla Oliveira, encoberta por um visom bordeaux batendo à porta. O diretor Fernando Meirelles impingiu à série seu selo inequívoco de qualidade e excelência. A dinamização das cenas é entremeada por pausas pertinentes para diálogos pessoais e intimistas. A câmera de Meirelles prima pelas concisão e sensibilidade. Cada movimento ou tomada é valorizado com inteligência, e até mesmo os que a princípio não teriam importância, ganham o seu valor, como aquele em que todas as etapas para o preparo de uma vitamina por Joel são registradas. A ideia de se colocar mensagens de texto no vídeo se coadunam com a contemporaneidade das tecnologias e efemeridade e banalização das comunicações interpessoais. A dramaturgia de Euclydes Marinho é afiada, corajosa, despudorada sem excessos e muitíssimo bem estruturada. O ótimo elenco encontrou ampla sintonia com a ambiência proposta pelo entrecho. Não podemos deixar de considerar que a escalação do cast fugiu, que bom, aos padrões convencionais da emissora. Apostaram em um nome prestigiadíssimo do teatro, Enrique Diaz, para ser um dos protagonistas. Assim como o fizeram com atores como Perfeito Fortuna, Caroline Abras e João Baldasserini (todos brilhantes). Esta iniciativa impõe um frescor à trama e provoca uma útil renovação de talentos. Porém, faz-se obrigatório, outrossim, que haja nomes relevantes como Maria Fernanda Cândido, Adriana Esteves, João Miguel, Paolla Oliveira e Selma Egrei. Teremos pela frente Cassia Kis Magro. O time de intérpretes desde já é um acerto total. As direções de arte e musical são caprichadas, os figurinos, elegantes e coerentes com o perfil dos papéis, a abertura fora realizada com esmero e a fotografia é soberana, com filtros suaves e neutros (além de um belíssimo branco utilizado em alguns takes). “Felizes Para Sempre?” não é uma obra que nasceu para não ser percebida ou assumir contornos anódinos. E, sim, o oposto disso. Seu incômodo é tão perturbador quanto redentor. Seremos defrontados com uma realidade crua e desfigurada que está livre dos sonhos. “Felizes Para Sempre?” apimentará a nossa teledramaturgia e nossas convicções. Como público, seremos felizes por dez episódios. E o que é melhor: sem termos que pagar R$4.000,00 a hora.

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