“ Em ‘Nômades’, com Andreia Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima, é imperativo que se faça um minuto de silêncio pela glorificação da vida, pela sagração da liberdade, e se brinde com uma taça de dry martini não em nome de uma amizade perdida, mas sim à celebração de seus legado e importância, como estímulo para peregrinarmos sempre em busca de um sentido para o mistério. “

Publicado: 31/03/2015 em Teatro

nomades
Foto: Guga Melgar

Se no início eram quatro mulheres unidas pela amizade e pela arte, hoje são apenas três. Três atrizes, reféns da fama, do sucesso, da exposição permanente, da ausência de privacidade e da abrupta e trágica perda de um dos membros do consolidado e inquebrantável quadrilátero amistoso. Face ao inesperado, deparam-se com o vazio de suas existências e a falta de explicações para o que não pode ser explicado. São em segundos, minutos ou qualquer fração do tempo, forçadas a lidar com a dilacerante dor da morte de alguém próximo que se ama, e a mergulhar em um profundo processo de autoconhecimento e descoberta de seu semelhante, no sentido de se reavaliar as próprias idiossincrasias, convicções e percepções da vida humana, respeitando os graus variáveis da emoção de cada um de nós. O espetáculo “Nômades”, com dramaturgia (e direção de Marcio Abreu) e Patrick Pessoa e colaboração de Andreia Beltrão, Malu Galli, Mariana Lima e Newton Moreno se fundamentou nos conceitos do nomadismo, inclusive os preconizados pelo filósofo francês Gilles Deleuze (“Nada se move menos que um nômade”), que foram amplificados, estendidos e reinterpretados para que houvesse uma confrontação das atrizes personagens com a realidade do artista, aquele que se movimenta constantemente, que veste distintas almas, que se dissocia de suas máscaras pessoais para assumir a persona de outros seres estranhos ao seu mundo. Três amigas que se sobressaem por sua pujante personalidade, detentoras de faces tão bonitas quanto verdadeiras, cujos sentimentos se encontram nos estertores de sua potência máxima, preparam com metodismo um dry martini, e tentam um derradeiro diálogo ou suposto “acerto de contas” com aquela que ceifou precocemente sua vivência terrena, “abusando de sua máquina, acendendo o pavio curto até que houvesse uma explosão”. As artistas “nômades” reagem cada uma à sua maneira, com nuances diferentes, ao se defrontar sem escapatórias com o dolorido estado de luto. Em meio a esta situação limite, as personagens, quase amalgamadas em um só corpo material como signo representativo de sua união amigável, personificam vez ou outra as figuras de “entrevistadora” e “entrevistada”, numa apropriada licença dramatúrgica. Coloca-se na berlinda a soma dos superficialismo, obviedade e dispensabilidade do que se chama atualmente de “entrevista”. As atrizes declaram uma vontade inequívoca de se manterem com um razoável patamar de privacidade, e consequente preservação da própria identidade. Questiona-se até que ponto o afastamento e exclusão de suas individualidades com a demolidora intrusão midiática compensam a permanência de suas condições como profissionais artísticas. Ancorada em elementos metalinguísticos, a peça aborda temas indissociáveis de nossas existências, como o direito a uma plena liberdade, a um instante qualquer de solidão e ao silêncio, as dificuldades de comunicabilidade social (até na esfera afetiva), o exercício do trabalho como forma eficaz (no caso, as Artes) de se dizer algo relevante a outrem, o enfrentamento da morte, como asseverara, e o desafio pessoal de simplesmente dar continuidade à vida após uma perda irreparável. A dramaturgia de “Nômades” possui caracteres velozes, dinâmicos e feéricos, sem abjuração dos tons confessional, intimista, reflexivo e poético, o que denota por parte de seus autores uma postura abertamente libertária e independente em sua criação. No contexto do desenvolvimento narrativo são inseridos quadros ou passagens nos quais as três protagonistas da peça assumem com intensidade e credibilidade interpretativa, passeando com cautela e cuidado pelos campos da sátira ou paródia (a intenção, na verdade, de todos os envolvidos no espetáculo, não era a ligeira composição com traços risíveis, devido à caracterização das atrizes, o que seria uma vereda fácil, mas sim um olhar particular e honesto daquele artista, que se distinguiu dos demais por suas qualidades únicas e especiais), a imagem ímpar reproduzida no palco de celebridades do universo musical, com direito à menção a uma cena icônica de um longa-metragem dirigido pelo inglês Adrian Lyne, levado às telas em 1983, em que a atriz Jennifer Beals, que se tornaria uma musa à época, cujo papel era o de uma operária aspirante à bailarina, apresenta uma audição no epílogo do filme a uma banca de jurados a fim de que ganhasse uma bolsa de estudos de uma tradicional escola de dança. “Flashdance”, “Flashdance – Em Ritmo de Embalo” no Brasil, marcou toda uma geração do início dos anos 80, com resquícios até os dias atuais. Ainda no que tange aos aspectos dramatúrgicos, percebe-se em seu cerne camadas de fluidez textual, níveis emocionais espontâneos e uma acertada fragmentação em seu conjunto que, no cômputo geral, conflui para a formatação de um sólido e consistente panorama cênico. O público é atingido, deixando-se irreversivelmente seduzir, pelas reflexões das personagens, em que se vislumbram a filosofia de cada uma delas, imbuída das mais genuínas sensibilidade, intimidade, emoção e verdade. Algumas questões ponderáveis ou não são levantadas durante a peça. Seríamos nós habilitados a definir a liberdade, ou o que nos resta é tão somente uma simplificada descrição? Como podemos conviver com o acúmulo sobre-humano de atividades cotidianas que podem nos conduzir a uma exaustão perene? As atrizes personagens se mostram outrossim angustiadas com a publicização de sua dor interna causada pela perda da amiga perante os olhos curiosos da coletividade anônima. Um espetáculo que a despeito de se propor a falar sobre a morte, aproveita-se deste árido e espinhoso tema para enaltecer a sublimidade da vida. A direção (e concepção) de Marcio Abreu objetiva extrair, e obtém sucesso, de suas intérpretes uma elevada carga emocional capaz de, em isolados momentos, sofrer oscilações em maior ou menor gradação condizentes ao gênero em que são vivificadas. Tanto o drama quanto a comédia coexistem pacífica e equanimemente. O bonito espaço de semiarena do Teatro Poeira com seus balcões é utilizado com real valor (toda a dimensionalidade do palco é explorada com magnificência). Marcio, como um preciso arquiteto teatral, logra desenhar com a tríade de atrizes que tem ao seu dispor movimentações e marcações que indicam a infinidade geométrica das triangulações viáveis. É visível e notório que o encenador tenha compreendido e absorvido a gama de intencionalidades dos dramaturgos reunidos (inclusive a si mesmo). Ademais, apostou com confiança justificável no altaneiro potencial de Andreia Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima de alternarem as suas consciências interpretativas, respeitando as fronteiras da naturalidade, da quase naturalidade e da “composição” propriamente dita. No que concerne às atuações de Andrea Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima, é imprescindível que se ratifique que estivemos diante de um congraçamento pessoal e artístico das três brilhantes intérpretes. Ficou-nos a nítida evidência de que transpuseram as suas vivências individuais para as realidades existenciais de suas personagens. A arrepiante vivacidade que impingiram ao espírito de seus papéis conferiu aos mesmos a veracidade e legitimidade de que necessitavam para que crêssemos em suas lutas e resiliências defronte à lancinante dor que persegue o luto, suas contingências naturais, traumas solidificados e feridas abertas que teimam em não cicatrizar. Andrea Beltrão transita com a vastidão de seus imensuráveis méritos por diversas e instigantes veredas interpretativas que lhe foram impostas. Com vigor e inegável talento constrói as molduras dramáticas com as cores de suas dores, e cômicas (estas sem amarras ou grilhões que poderiam intimidá-la). Para o nosso deleite como espectadores, Andreia personifica singularmente alguns ídolos do cenário pop internacional, como a diva disco Donna Summer (dublando um dos maiores hits da cantora, “I Feel Love”, a atriz não nos poupa de gestos em sintonia, uma leve e irresistível sensualização, além de fortes concentração e desprendimento), a cantora britânica Amy Winehouse (com “Valerie”, transmite-nos o intimismo melancólico perturbador da artista possuidora de rascante e privilegiada voz, cuja obra fora tão fugaz quanto eterna), e o idolatrado vocalista da banda grunge americana Nirvana, surgida em meados da década de 90, Kurt Cobain (Andrea evoca uma espécie de transe catatônico, hipnotizada pelos afiados e poderosos acordes e riffs de sua “destruidora” guitarra, que sustentam a avassaladora “Breed”). Malu Galli desfila reluzentemente sobre a ribalta com admiráveis cognição e entendimento das personagens que defende. Sua luz vívida a acompanha a todo o tempo, associando-se a uma força interior que se exterioriza para o nosso encanto, o que só reafirma a completude de seu brilhantismo conhecido. Da mesma forma que Andrea, pintou com tintas únicas a representação de uma das mais emblemáticas intérpretes da MPB, Maria Bethânia. Usando também o recurso da dublagem (ferramenta coerente com o que se pretende com “Nômades”) para reviver “Um Índio”, assistimos em essência a uma dignificante homenagem a um dos Doces Bárbaros. Malu reproduz com reverência e emoção à flor da pele os movimentos personalíssimos e inconfundíveis da artista baiana nascida em Santo Amaro da Purificação, com seus passos marcantes e inesperados para a frente numa veloz e curta corrida sobre o espaço que ocupa, com a suspensão imponente de seus delgados braços. Outro belo instante tanto para a atriz quanto para a plateia decorre quando entoa o clássico bossanovista composto por Tom Jobim, “Dindi” (neste caso, dispensa-se a dublagem, e Malu Galli nos exibe a sua doce, suave e emocionada interpretação para a memorável canção). Mariana Lima alia com soberba e fulgurante inspiração o seu valor pessoal como atriz às oportunidades de interpretação e leituras variantes para as personagens que lhe são ofertadas pela peça. Com espantosa fluência e enternecedora verdade emotiva que lhe são natas, junta e cola os fragmentos de cada “character”, com o propósito de se configurar um perfil honesto e crível para a nossa aceitação unânime de suas visões da ficção dos papéis (percorre com desenvoltura as vias anímicas de todos eles). Expressa a sensação dolorosa da fase de luto e a resistência a aceitá-lo com a mesma potência dramática. Perpassa pelo viés do humor com iluminada graça. Um dos apogeus do espetáculo, sem dúvida, impõe-se quando Mariana surpreende e fascina a todos com a reprodução fiel, e por isso mesmo empolgante, da cena já mencionada do filme de Adrian Lyne, “Flashdance”. Não há quem não se renda à música interpretada por Irene Cara, “What a Feeling”. Vemos uma Mariana Lima pulsante e dançante, graciosa e elegante, presenteando-nos com a insustentável beleza de um corpo em movimento no ar e no espaço vazios. Antes disso, testemunhamos com um certo riso nervoso e admiração, saindo por uma das portas vermelhas do cenário, um angustiado e rastejante Robert Smith, da banda inglesa de pós-punk The Cure, com sua máscara pesada e sofrida no rosto, cantando a envolvente “Close to Me” (Mariana incorpora com total franqueza os trejeitos contorcidos de um astro “insano” e visceral na sua arte). Ainda nos é reservado um epílogo apoteótico e arrebatador, com as extasiantes performances de Andrea Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima revivendo as inolvidáveis e originais coreografias de um símbolo da música universal do século XX tão incompreendido quanto genial: Michael Jackson. As atrizes emprestam as suas vozes e tons à dificílima “Billie Jean”, e se saem maravilhosamente bem. O cenário e objetos de Fernando Marés estão imersos em uma feliz composição que mistura a crueza e a vivacidade, procurando e atingindo um ponto de equilíbrio em que se debatem o real e o ficcional. Nota-se uma exuberância insinuada na lacuna das dimensões da semiarena, preenchida apenas por um sofá neoclássico de dois lugares aveludado de cor mostarda com pés corrediços (o que permite que o móvel seja deslocado em não poucas situações; o mesmo serve como local de encontro para as amigas conversarem, refletirem, elucubrarem, “serem entrevistadas”, ou somente, sozinhas, assistirem aos acontecimentos paralelos), três cadeiras metálicas de design simplificado, um aparador retangular que somente é usado a certa altura como simulação de um bar (sobre ele há uma extensa variedade de copos e taças, e sua engrenagem também possibilita uma oportuna movimentação). O que indiscutivelmente nos causa maior impacto é o enorme módulo com tonalidade vermelha à esquerda da ribalta onde se distribuem sete portas uma ao lado da outra, e por onde, em múltiplos momentos, as intérpretes entram e saem, ou por detrás delas permanecem (estimulando nossa imaginação), dependendo das circunstâncias textuais (constata-se uma referência contemporânea ao “vaudeville”). Até elementos que parecem pertencer ao teatro em que se apresenta a peça, como parte dos balcões e refletores, são utilizados de forma surpreendente. A iluminação de Nadja Naira é alegre, singular, potente, difusa, poética e visualmente inebriante, em fina sincronia com o panorama narrativo. A sua diversidade é simbolizada por inúmeros refletores (laterais, centrais e frontais), que se alternam em focos ou se unem em um conjunto harmônico. Vislumbram-se luzes tênues em sua intensidade, fortes nos planos abertos, “blackouts” causadores de suspense e expectativa, e o bruxuleio de feixes amarelos (ou próximos a isso), vermelhos e os quase rosas. Nadja também contribuiu com riqueza para as apresentações musicais das atrizes (o globo espelhado e seus reflexos são naturalmente indispensáveis para se desenhar com fidedignidade a unicidade de um show característico, no caso, o de Donna Summer). Os figurinos de Cao Albuquerque e Natalia Duran são elegantes, sóbrios, modernos, sendo alguns contextualizados em adequada extravagância. Ambos se valem de uma variedade significativa de costumes, que se subdividem nas cores preta, branca e grafite. Aposta-se no brilho em determinadas ocasiões. Os ternos, camisas, gravatas, chapéus, calças e sapatos masculinos usados pelas protagonistas confirmam a tendência de Yves Saint Laurent proposta nos anos 70, e que até hoje se mantém como atual, ou seja, mulheres podem trajar peças culturalmente feitas para os homens sem que percam a sua feminilidade. Outras vestimentas e acessórios se juntam à cartela de figurinos adotados, como saias, blusas, vestidos longos, trench coats, collant, blusas, escarpins, boots, tênis e engraçadíssimas perucas. A direção de movimento excepcional ficou a cargo da consagrada bailarina e coreógrafa Marcia Rubim, que se encarrega honoravelmente de explorar as minúcias das potencialidades corporais das atrizes, estejam elas sós ou agrupadas. Temos a sensação de que Andrea, Malu e Mariana estão descobrindo ou redescobrindo o seu corpo, a sua matéria física, abusando positivamente de suas “máquinas” rumo a uma “explosão expressiva”. Quem de nós poderia sequer pensar que as três conhecidas e respeitadas atrizes vivenciariam de um modo tão empático e cativante personalidades que fazem parte de nosso imaginário consciente, como Michael Jackson, Maria Bethânia, Donna Summer, Amy Winehouse, Kurt Cobain, Robert Smith e a atriz Jeniffer Beals? O visagismo de Lu Moraes estimou e valorizou a beleza natural do elenco, permitindo desta forma que nos deparemos com rostos reais, espontâneos, preterindo máscaras desnecessárias. No entanto, em casos específicos, como na caracterização de Robert Smith, houve uma oportuna dose extra de fantasia. A direção musical de Felipe Storino nos remete a uma catártica nostalgia, ao selecionar canções tão díspares em seu gênero quanto inacreditáveis em seu agradável e estimulante apelo melódico. São oito músicas que adquirem por minutos a qualidade da visão personalizada das atrizes personagens do espetáculo. “Nômades”, com Andrea Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima é uma obra intrinsecamente diferenciada por vários fatores. Funda-se na ousadia, no risco, na pessoalidade, na transgressão ao subverter os padrões tradicionais de uma narrativa teatral, na sensibilidade escorada na verdade absoluta, na emoção e na entrega intensa de suas atrizes, que estão no mais purificado estado de graça. A poesia caminha ao lado da “filosofia nossa de cada dia” sem atritos, na mais perfeita concórdia. Ficou provado que o drama e a comédia são “amigos de longa data”. Fomos levados a pensar a respeito do nomadismo aplicado em nossas vidas pouco analisadas sob esta ótica. Andrea Beltrão, Malu Galli e Mariana Lima são nômades por natureza, artistas que invadiram sem medo os desertos de nossas alma e mente e as desbravaram. Tiraram-nos da cômoda e passiva estagnação comportamental, sacudindo nossas até então inexpugnáveis percepções. Ofereceram-nos um horizonte mais amplo e iluminado. Estas três lindas atrizes escavam, remexem e revolvem a Arte. Libertam-na de seu nicho intocado, e lhe dão um novo e fresco sentido. “Nômades” conseguiu um feito inarredável: somos mais nômades do que nunca. Deslocaremo-nos no interior de nossos próprios desertos inexplorados em direção a uma evolução sem retornos. Numa simples definição, “Nômades” é a Arte que se movimenta.

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