” Com o humor cáustico e inclemente de Neil LaBute, ‘Razões Para Ser Bonita’, com Ingrid Guimarães, Erom Cordeiro, Aline Fanju e Gustavo Machado, serve-nos como um espelho metafórico que reflete com elevada propriedade a exacerbação de um vício da sociedade contemporânea: o excesso de vaidade na ditadura da beleza. “

Publicado: 04/06/2015 em Teatro

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Foto: Divulgação do espetáculo

Nada mais representativo da questão protagonista do espetáculo “Razões Para Ser Bonita”, do americano Neil LaBute (a ditadura da beleza e o consequente excesso de vaidade que a acompanha), que teve a precisa tradução e adaptação de Susana Garcia, do que os quatro vidros quadrangulares simuladores de espelhos (sendo que em cada um deles são escritos termos que permearão a narrativa com congruência: “sexo”, “por que”, “comum” e “espelho”). O espelho é o signo maior que ocupa a precípua função de ligar o homem à sua imagem. A história, um sucesso da Broadway, vencedora do Tony Awards para melhor peça, ator e atriz em 2009, que faz parte de uma trilogia do autor, incluindo “A Forma das Coisas” e “Gorda”, inicia-se com a altercação típica de um casal em crise, Steph (Ingrid Guimarães) e Greg/Gregório (Gustavo Machado) causada pelo supostamente inofensivo fato do parceiro masculino ter afirmado num colóquio informal de que a sua companheira possuía um rosto “comum”. Este episódio é o gatilho para uma sucessão de debates e levantamento de argumentações condensados em diálogos que envolvem com predominância dois interlocutores. Steph é uma mulher insegura, com autoestima baixa, fragilizada, potencial vítima da escravização imposta aos indivíduos por conceitos e preconceitos de uma beleza perfeita, narcísica, mas com índole de contestação, que a faz se impor contra aqueles que a defrontam. Greg é um rapaz, agente de uma firma de segurança, com personalidade à primeira vista “blasé”, compassivo, devotado a contemporizar as situações de conflito (seu comportamento obedece a uma não linearidade, dependendo das circunstâncias) e romântico (Steph também demonstra uma inclinação para a idealização do amor). Seu mais visível defeito talvez seja a impulsividade, que se caracteriza em dizer aquilo que lhe vem à mente sem medir os resultados adversos. Na briga que se avoluma entre ambos, percebe-se que o ciúme é um ponto destacado, exercendo seu papel desagregador. Um dos responsáveis diretos pelo desencadeamento deste processo de cobranças e desconfianças é o amigo próximo de Greg, o fanfarrão, machista e charmoso Leo (Erom Cordeiro), seu colega de firma e de time de futebol, que diz que a nova funcionária da empresa, com quem passaria a sair, é “gostosa” e bonita. Leo seria o símbolo do homem vaidoso, seguro, convicto de sua virilidade inabalável. Um adúltero sem culpas. Sua parceira, Clara (Aline Fanju), empregada da empresa de segurança citada, é da mesma forma vaidosa, e se vale de sua condição para se colocar num lugar virtualmente privilegiado na sociedade. Ao contrário de Steph, a sua autoestima acima de níveis razoáveis embota a visão realística de sua existência. Seus problemas são fabulosos. A força que nos passa por meio de seus dotes de sedução na verdade camufla um indivíduo com vulnerabilidades. O texto de LaBute se desenrola num ritmo fluido e ágil, em que se veem sequências coordenadas de passagens que não fogem ao contexto da dramaturgia proposta, como as conversas francas e sinceras de Greg e Leo no local de trabalho (há claro uma competitividade clarificada entre os homens, num sentindo mais vulgar, entre os machos propriamente ditos; e o espaço no qual labutam denota uma certa mediocrização que lhes sobrou, e neste exíguo universo e sua dilacerante monotonia, um microcosmo em que só eles mesmos possuem relevância, a ocupação de seus tempos intermináveis se perfaz com a vigilância da vida alheia e com a troca de opiniões acerca do que lhes é comum ). Existem nesses jovens atitudes infantilizadas como injustificados e caricatos enfrentamentos físicos que nos soam bastante reconhecíveis. O dramaturgo usa assim estes quatro personagens, cada um com a sua significação, e as interligações que neste restrito grupo decorrem, para falar com a acidez e o sarcasmo que lhe são natos, num tom denunciante, bem-humorado e inteligente, sobre aquilo que nos parece torto, deslocado, desvirtuado da normalidade, injusto, objeto de uma supervalorização das superficialidades e futilidades, que descamba para o detrimento do conteúdo e do intelecto em benefício da imagem estetizada, da beleza como atributo único de vantagem e liderança no coletivo. Prova-nos que a sustentação e subsistência de uma relação afetiva, social ou amistosa no mundo moderno pode depender, em não poucos casos, deste elemento suscetível a interpretações relativizadas. Neil, na verdade, corrobora uma verdade insofismável: o poder da palavra dita. O caráter com potencial destrutivo da palavra à qual nenhuma harmonia preexistente sobrevive. Os relacionamentos amorosos são exibidos (na pele de seu quarteto de tipos inventados) como estados de união não permanentemente estáveis, sujeitos às influências externas que, em sua maioria, realçam as ações e atitudes comportamentais e sentimentos característicos dos membros formadores de um casal que levam à dissolução daqueles (e tudo é feito de maneira a não escapar de sua meta dramatúrgica). A solidão repentina que nos obriga a revermos a nossa colocação, e até mesmo a nossa estética, em um meio social que nos parece estranho, existente até então sem a nossa presença, merece uma atenção pontual. Por outro lado, a obra alimenta as nossas esperanças de que, a despeito dos reveses, uma reconciliação entre as partes sempre é viável. Vemos outrossim uma apropriadíssima crítica à exploração compulsiva de nossas próprias imagens e a dos outros, lançando-se mão da tecnologia dominante um dia impensada em nossas rotinas. A referência as “selfies” recebeu um tratamento hilariante por parte da personagem Steph (ela diz num momento, para a gargalhada geral do público que evidentemente se identifica, que se desdobra em soluções criativas para “sair bem na foto”, como ser quase sempre a “maluquinha” do grupo com gestos que a identifiquem como tal, e estratagemas como cobrir o rosto com os cabelos usando as “tags” adequadas, como “art” etc (as “tags” neste tresloucado ambiente virtual assumiram uma função sem precedentes no êxito ou não aos olhos alheios de um “flagrante” pessoal). Esta compulsividade da qual lhes falei resume uma urgência coletiva e individual de se criar uma espetacularidade de todo e qualquer acontecimento, por mais banal que seja, com o intuito de se adquirir a falsa sensação de fama, poder, prestígio, popularidade e aceitação de outrem, não se eximindo da ostentação por vezes insultuosa, se esta for necessária. Nas redes sociais todos são felizes, sorriem, celebram, a vida se impõe perfeita, o que gera olhares de ambos os lados não amigáveis, escorados em sensações negativas que afloram com intensidade significativa, estimulando uma desagregação, e não a sociabilidade que, “a priori”, a rede “social” se destina. A encenação aborda ainda as insanidades dos que se submetem às dietas restritivas e impositivas para se alcançar o corpo ideal, e a efemeridade com que alimentos são alçados ao posto de benéficos, e que em breve futuro já são tidos como vilões do bem-estar e saúde (o glúten se transformou no grande algoz da vez). E para finalizar, os contos de fada, que são frequentemente alicerçados nos conceitos de beleza e ausência desta. Nestes contos infantis, o belo é exaltado invariavelmente e a sua não posse pode gerar ações de vingança entre os personagens, e todo o desenvolvimento de suas histórias poderá se fundamentar apenas nesta “injusta” equação. João Fonseca, o diretor, encena habilmente o texto de Neil LaBute seguindo de modo fidedigno os aspectos que mais caracterizam a sua obra dramatúrgica: a ironia, a mordacidade, o tom denunciativo sobre o que julga preconceituoso e excludente, e a leveza e inteligência com que trata os assuntos de que dispõe. O uso de um tema maior, a ditadura do belo e a vaidade excessiva, é inserido com destreza e oportunidade num contexto de relações afetivas de dois casais (este quadro de situação proporciona a João Fonseca um leque amplo de possibilidades para se levantar as discussões que LaBute propôs). João se aproveita com excelência da vitalidade cênica, do carisma indiscutível, e dos talento diferenciado e juventude literal dos intérpretes para engendrar um jogo ágil de interligações entre os protagonistas do enredo, com as respectivas oscilações de emoção condizentes com cada conflito suscitado. A direção logrou o ótimo resultado de se levar ao público um espetáculo que é tanto um entretenimento quanto um debate sério e arrazoado acerca de circunstâncias que dizem respeito a cada um de nós. O elenco, formado por Ingrid Guimarães, Erom Cordeiro, Aline Fanju e Gustavo Machado, consubstancia-se em uma série de interpretações sólidas e harmoniosas entre si que contribuem sobejamente para a efetivação de uma grata empatia com a plateia. Com preparação vocal de Rose Gonçalves, todos os atores transitam com desenvoltura pelas searas cômica e dramática com que a narrativa de Neil LaBute tão notoriamente agrupa. Ingrid Guimarães se sobressai com brilho ao compor Steph no limiar do descontrole emocional face às vicissitudes por que passa. Há que se asseverar que a popular intérprete detém absoluto domínio sobre a graça, causando imediato envolvimento dos espectadores. Deduz-se que a personagem da atriz, a despeito de seus dilemas, enfrenta-os de modo chistoso, atingindo um equilíbrio bem-vindo que não torna o seu “character” apenas associado ao drama pessoal. Erom Cordeiro nos apresenta como Leo uma potente franqueza interpretativa ao desenhar com largo entendimento psicológico o perfil do sujeito que revela traços de personalidade fanfarrona, machista, com uma visão bastante particular dos relacionamentos afetivos associada a uma autoconfiança acima dos limites aceitáveis (no entanto, como mencionado, o papel exala um charme especial, o que muito se deve, claro, a Erom Cordeiro). Se fosse um ator menos experiente e talentoso, poderia facilmente cair na obviedade do arquétipo. Aline Fanju, a quem coube a personagem Clara, criou com acurada percepção a agente de segurança cheia de nuances e contradições. Sua composição interpretativa reúne camadas não necessariamente igualitárias de malícia, poder de sedução, doçura, autoestima elevada, vaidade, certo grau de ingenuidade diante de fato imprevisto, além de deturpada compreensão dos problemas factuais de sua vivência. Clara simboliza o tipo de mulher presente em nossa sociedade maculada por valores desviados que sustenta a sua identidade feminina tendo como esteio somente a sua bonita aparência física (algo cada vez mais corriqueiro no meio social). Gustavo Machado obtém resultado com glória ao defender com imbatível convicção o companheiro de Steph. Sendo partícipe direto das discordâncias do par outrora romântico, Gustavo decidiu impingir ao comportamento de Greg características que o aproximam do homem comum ocidental, que alternadamente se vê acometido por reações ora passivas, ora impulsivas. Devemos realçar todavia o seu olhar crítico defronte aos acontecimentos que o envolvem, e que merecem sim uma avaliação personalizada. Gustavo Machado é um artista que se destaca no palco por sua postura intuitiva, espontânea, o que proporciona junto a nós uma fé em sua interpretação. A cenografia de Fernando Mello da Costa mescla elementos atuais com o vintage, adaptando-se com funcionalidade e elegância visual à proposta da peça. Fernando optou por três ambientes que representam um cômodo de uma casa (onde moravam Steph e Greg), a sala no local de trabalho em que os vigilantes se reuniam, e um bar para encontros. No primeiro, há um sofá/cadeira, em cujo lado estão um pequeno móvel vertical onde há um delicado abajur e um pufe. A sala de funcionários é servida por uma mesa e três cadeiras de design apropriado. O ponto mais impactante de todo o panorama cenográfico é justamente um enorme painel com um relógio circular central que ocupa todo o espaço anterior do palco, de cima a baixo, no qual se vislumbra uma infinidade de fotos (insinua-se que sejam capas de revistas), como forma objetiva de demonstração da publicização da vaidade e beleza preponderantes (não nos esqueçamos da adoção criativa e coerente dos quatro vidros quadrangulares usados como espelhos). A iluminação de Daniela Sanchez assume tons prevalentes naturais, como se pretendesse dar uma ideia de universo cotidiano em que habitam os personagens. Mas Daniela também se utiliza das sombras, focos e meias-luzes (os focos valorizam os atores quando estes se dirigem ao proscênio, e proferem o seu texto no formato de monólogo; os sombreados podem ser vistos no momento em que os intérpretes ficam por detrás dos “espelhos” praticando atividades várias correspondentes ao exercício da vaidade). Os figurinos de Antônio Medeiros são adequados, eficientes e de bom gosto (algumas peças possuem evidente refinamento, como o conjunto assimétrico de saia e blusa usado por Ingrid Guimarães numa cena noturna – a palavra “assimétrico” rende uma leve brincadeira, que na verdade faz uma crítica aos cada vez mais fugazes e inusitados nomes ditados pela moda para nomear os costumes). Os mesmos correspondem claramente ao perfil de cada personagem e à situação na qual se encontra, como os uniformes de vigilante. A produção musical ficou a cargo de Ricardo Leão, mostrando-se agradável, divertida e criteriosa. As canções selecionadas nos são familiares, causando-nos uma empatia direta. São sucessos muito bem alocados no entrecho dramatúrgico. Ouvimos Peter Bjorn and John (“Young Folks”), “Por Enquanto” (eternizada na rouca voz de Cássia Eller), “Flores em Você” (Ira!), Britney Spears e Queen (“I Want To Break Free”). “Razões Para Ser Bonita” não é apenas uma comédia ácida inteligente e engraçada, um entretenimento cênico bem estruturado, mas um relevante instrumento artístico denunciativo contra valores individuais ou coletivos que se fundam nos preconceito e discriminação surgidos de uma dominância da beleza “perfeita” como vetor de aceitação do indivíduo por seus pares na sociedade. Não se faz uma defesa fácil daquilo que não é propriamente belo, e sim, como disse, um alerta acerca de que não devemos nos deixar levar por esta absurda e irreal ditadura (como todas as ditaduras, afinal), propalada em considerável parcela pelos meios de comunicação, mídia, campanhas publicitárias etc. A peça se traduz como uma poderosa arma contra a exclusão, o que lhe traz bastante valor. “Razões Para Ser Bonita”, com Ingrid Guimarães, Erom Cordeiro, Aline Fanju e Gustavo Machado cumpre com beleza a sua missão como espetáculo teatral. Há, portanto, muitas razões para ser… um privilegiado espectador desta obra de Neil LaBute.

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