“No ambiente rebuscado e lascivo onde reinam as aparências e superficialidades de ‘Ligações Perigosas’, nova minissérie de Manuela Dias, as relações humanas são pautadas pela luta entre a perfídia dos astutos e a inocência dos incautos”.

Publicado: 05/01/2016 em TV

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Foto: Inácio Moraes/Gshow

Em 1988, um filme dirigido pelo cineasta britânico Stephen Frears chamou a atenção da crítica mundial, levou espectadores às salas de exibição, ganhou três Oscars, e reafirmou os talentos de Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer: “Ligações Perigosas”. O longa-metragem se baseou na peça de Christopher Hampton, que por sua vez se inspirou na obra clássica de 1782 escrita por Choderlos de Laclos, “Le Liaisons Dangereuses”. Outra versão para a instigante história de amores, conchavos e traições foi assinada por Milos Forman, “Valmont”. No Brasil, Maria Fernanda Cândido levou para os palcos a dramaturgia de Hampton. Este mesmo enredo que fascina leitores e espectadores desde o século XVIII serviu para que Manuela Dias, Maria Helena Nascimento e Walter Daguerre o transformassem em uma linguagem que se adaptasse para a TV. Estreou ontem na Rede Globo a sua primeira grande aposta para o ano na seara ficcional, a minissérie “Ligações Perigosas”, com a consultoria de texto de Duca Rachid, e a direção de Denise Saraceni, Vinícius Coimbra e João Paulo Jabur. Já nas pioneiras cenas, que mostram um acabamento estético arrebatador, deparamo-nos com o comportamento luxuriante da Marquesa Isabel D’Ávila de Alencar, defendida em sua mocidade pela atriz Isabella Santoni (sua estreia no gênero após o sucesso de “Malhação”). Em meio ao funeral de seu marido vetusto, esgueira-se, até chegar aos braços do mancebo Augusto (Guilherme Lobo, de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”). A relação amorosa de Isabel e Augusto atravessa os anos. Adultos, vividos por Patrícia Pillar e Selton Mello (em seu retorno à Rede Globo desde a série “A Mulher Invisível”) tornam-se cúmplices de seus ardis, conluios e maquiavelismos. Isabel aposta com seu parceiro que irá conquistar o abonado comerciante com pretensões políticas Heitor (Leopoldo Pacheco), mas este, para o espanto do casal inescrupuloso, decide pedir em casamento Cecília, Alice Wegmann, a sobrinha da Marquesa, filha de Iolanda, Lavínia Pannunzio, que esteve, assim como sua tia, por longo período em um internato de freiras, comandado por uma madre interpretada por Camilla Amado. Lá, a menina aprende a beijar com a sua colega expedita, Sofia, Hanna Homanazzi. Augusto, um homem sedutor e inteligente, dono de uma “garçonnière”, é sobrinho e herdeiro de Consuelo (Aracy Balabanian), proprietária da “Quinta dos Alísios” (lugar onde reencontrará a devota e solidária Mariana, Marjorie Estiano). Mariana é uma mulher abnegada, com fé, honesta, que lava com humildade os pés dos desvalidos das ruas. Ela será mais uma vítima do charme perigoso do rapaz que não se adequou a nenhuma profissão regular. Cecília da mesma forma não escapará das insinuações maliciosas do ex-amante de Isabel, que enfurecida com o desprezo de Heitor, usará seus esforços para destruir seus planos de matrimônio e de ser pai com uma esposa casta. Com este preâmbulo de “Ligações Perigosas”, percebemos que estamos diante de uma atração engendrada com requinte e cuidado teledramatúrgicos, em que as camadas mais sombrias do indivíduo serão externadas. Veremos até que ponto o homem é capaz de usar o prodígio de sua mente com fins maléficos. Saberemos até que nível a inocência de outrem suporta o domínio da iniquidade alheia. O sexo como instrumento único de prazer e interesse. O sexo dos puros profanado pelos desvios dos mal-intencionados. Com um elenco consistente, sólido, que conta ainda com os atores Mario Borges, Jesuíta Barbosa, Renato Góes, Yanna Lavigne, Danilo Grangheia, Alice Assef, Darwin Del Fabro e Keli Freitas, a trama, dirigida com sobriedade e elegância pelo time de diretores liderado por Vinícius Coimbra (direção de núcleo de Denise Saraceni) ostenta uma impecável produção de arte de Flavia Cristofaro (segundo ela, os cenários foram desenhados a partir de referências cinematográficas e arquitetônicas, como os estilos “art déco”, “art noveau” e “Provence”). Os figurinos de Marília Carneiro se destacaram pela propriedade, pelo luxo e coerência com o perfil dos personagens. Ao som de um envolvente jazz, no clima peculiar dos anos 20, em algum momento o hedonista Augusto diz para a Marquesa “que não sabe o caminho da plateia”: “Para algumas pessoas, a humilhação é uma experiência educativa”. E para nós, telespectadores, a minissérie “Ligações Perigosas” terá a missão de nos “educar” no sentido de conhecermos com mais profundidade os segredos e mistérios da alma humana, e toda a sua ligação ancestral com o… perigo.

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