” O Brasil árido que mata o gado de sede. O Brasil do coronelismo que manda e desmanda. O Brasil do rio caudaloso das lavadeiras, e o Brasil da liberdade sexual dos anos 60 estiveram todos reunidos no primeiro capítulo de ‘Velho Chico’, a nova novela das 21h da Rede Globo, que marca o retorno de Benedito Ruy Barbosa ao horário nobre. “

Publicado: 15/03/2016 em TV

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Foto: Caiuá Franco/Rede Globo

Com a estreia de “Velho Chico”, a nova novela das 21h da Rede Globo, a bem-sucedida parceria entre o autor Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho é reeditada, após sucessos como “Renascer” e o “O Rei do Gado”. A trama, escrita por Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi, com a supervisão de Benedito (pai e avô de ambos, respectivamente) e a colaboração de Luis Alberto de Abreu, terá duas fases, e narrará confrontos familiares envolvendo disputas de poder e amores proibidos que atravessaram gerações, tendo como testemunha dos fatos o Rio São Francisco. Os autores aproveitarão a temática rural para levantar questões como a preservação do meio ambiente e a recuperação do emblemático rio que dá nome à história. O primeiro capítulo do folhetim já mostrou de imediato o cuidado artesanal com que o diretor artístico sempre imprimiu às suas produções. Luiz Fernando nos exibiu lavadeiras com suas trouxas de roupas e pés desbravando águas, plantadores de algodão num sincronizado balé da colheita, retirantes seguindo rumo incerto nas veredas sem salvação, repentistas soltos no meio do povaréu contando e cantando os seus “causos”, e jangadeiros com os seus rostos redesenhados pela brisa do vento em seu tempo. O enredo, acompanhado com constância pela trilha incidental de Tim Rescala, desenvolve-se a partir do surgimento da figura poderosa do Coronel de Grotas do São Francisco (região fictícia gravada em locações na Bahia, Alagoas e Rio Grande do Norte), Jacinto, Tarcísio Meira. O Coronel Jacinto e seu fiel galo sob um dos braços é um atravessador no comércio de algodão. Representante típico do coronelismo brasileiro, exerce influência sobre as camadas menos favorecidas, explorando-as. A Igreja, simbolizada na voz de Padre Romão, Umberto Magnani, acaba, mesmo que contra a sua vontade, submetendo-se às veleidades do rude senhor casado com a severa e amarga Encarnação (Selma Egrei), que sofre pela perda precoce do primeiro filho do casal, morto num afogamento nas águas inocentes do Chico. A canoa culpada que levou o pobre enche o Coronel de culpa, e afasta a sua esposa de seu colo de homem. A ausência de afeto no matrimônio direciona os olhos desejosos de Jacinto para as curvas do corpo de sua criada Doninha, Barbara Reis. Doninha é mulher de Clemente (Julio Machado), o impiedoso e inclemente jagunço que não se aquieta enquanto não der fim à vida do principal oponente de seu patrão, o justo e idealista Capitão Rosa (Rodrigo Lombardi). O “homem morredor”, segundo um repentista, porque fala o que não deve, denuncia as explorações trabalhistas do Coronel. O Capitão é marido da doce e dedicada Eulália (Fabiula Nascimento). Em outro torrão onde não há água e o gado fenece, Belmiro (Chico Diaz) sente a dor e o dissabor do sertão malvado junto com sua esposa grávida, Piedade, Cyria Coentro. Sem trabalho, sem comida, sem esperança, Belmiro vê passar à sua frente uma caravana de desvalidos retirantes castigados pela terra quente. Enquanto isso, na capital Salvador, à espera de sua formatura para se tornar doutor em Direito, o jovem Afrânio (Rodrigo Santoro) se entrega à esbórnia e à luxúria com bonitas mulheres. Num universo que remete ao Movimento Hippie, com ares pré-Tropicalistas, Afrânio compartilha seus prazeres e paixões com a bela cantora Iolanda (Carol Castro). Os lençóis amarfanhados encharcados de suor dos amantes nus observam as lágrimas de Iolanda clamando pelo seu amor verdadeiro pelo rapaz que a possuiu na noite. Afrânio sente a falta de sua mãe Encarnação na formatura, que o renega por seu comportamento lascivo e errático. O pai telefona, mas emudece. O pai chora a morte do filho afogado. O pai cai sobre o soalho da casagrande. Morre o Coronel. Ao seu lado, o galo. Morre não sem antes dizer “Naufragar, naufragar…”. Desta forma, iniciou-se o promissor capítulo de estreia de “Velho Chico”, que ostentou, além de um elenco respeitado, sólido e comprometido com os seus personagens (contou ainda com Gésio Amadeu), uma trilha sonora com canções inesquecíveis para o nosso imaginário (“Meu Primeiro Amor”, de Gimenez, Fortuna e Pinheirinho, e “Como 2 e 2”, com Gal Costa, são exemplos; a abertura é embalada por “Tropicália”, na interpretação de Caetano Veloso, que contribui outrossim com “Triste Bahia”). A direção apostou em closes dos atores, que nos reportaram aos filmes de Sergio Leone, tomadas aéreas e enquadramentos que valorizaram a exuberância e as cores da beleza local. A fotografia, deslumbrante e hipnótica, e os figurinos, coerentes e caprichados, corresponderam com excelência às exigências estéticas que já nos são conhecidas de Luiz Fernando Carvalho. “Velho Chico” é uma novela que veio com a incumbência de resgatar um público que se deleita com abordagens rurais e suas emoções fortes. Depois de tantas histórias situadas em metrópoles como Rio e São Paulo, teremos a chance de acompanhar uma grande saga familiar com direito a todos os elementos melodramáticos (como definiu Benedito Ruy Barbosa) ambientada em um outro Brasil, ou melhor, em outros “Brasis” reunidos em um único, sob o olhar atento, solene e generoso do bom e “Velho Chico”.

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