“ Como uma arretada baiana sexagenária, Fernanda Torres, em atuação deliciosamente despudorada, dá voz à merecida libertação sexual feminina contemporânea, no ótimo, engraçado e destemido texto ‘A Casa dos Budas Ditosos’, de João Ubaldo Ribeiro, com direção de Domingos de Oliveira. “

Publicado: 23/03/2016 em Teatro

a-casa-dos-budas-ditosos
Foto: Luciana Prezia

Ao som da voz grave e gutural do escritor e acadêmico João Ubaldo Ribeiro, ficamos sabendo como foi a gênese do romance “A Casa dos Budas Ditosos”, um sucesso literário que integrou a coleção acerca dos sete pecados capitais “Plenos Pecados”, idealizada por sua editora à época. Segundo João Ubaldo, que ficou encarregado pelo pecado da luxúria, num certo dia, o porteiro de seu prédio lhe entregou um pacote sem remetente em cujo interior estava uma série de fitas cassetes. Nestas, havia os depoimentos reveladores e surpreendentes de uma senhora sexagenária baiana sobre suas múltiplas aventuras sexuais por toda a vida, desde a fase da pré-adolescência até a maturidade. Este livro serviu de base consistente para que Domingos de Oliveira e Fernanda Torres o transformassem em uma dramaturgia poderosa e atrativa, resultando no premiado espetáculo homônimo que já está há treze anos em cartaz, colecionando elogios de público e crítica por onde quer que se apresente, protagonizado pela própria atriz, e dirigido por Domingos. A peça é uma corajosa, desbravadora e irreverente iniciativa de se debater cenicamente sem quaisquer resquícios de pudicícia ou restrições morais as extensas ramificações do ato sexual praticado pelo ser feminino, seus desejos e fantasias mais íntimos e recônditos, suas vontades potencialmente reprováveis pela sociedade e seus membros, numa corrente saudável e constante de quebra de tabus empedernidos. Fernanda Torres, como a senhora nascida na Bahia, senta-se defronte a uma mesa em que se encontram um microfone e um gravador, e começa a discorrer fluidamente sobre suas transgressoras experiências com o sexo. Nada escapa ao seu verbo devastador, e à sua sinceridade desnorteante. Temas evitados, e tidos como inviáveis de serem abordados em rodas de conversa com a espontaneidade e naturalidade que demandam, no discurso confessional regado a um sapiente humor da mulher nordestina ganham uma impressionante legitimidade e genuinidade, que nem de longe choca os espectadores. A senhora fala de suas relações ardentes com um jovem negro quase escravo que trabalhava na fazenda de seus bisavós. Sem vergonhas desnecessárias, diz-nos o quanto deseja ser sodomizada. E da mesma forma, não se constrange de nos relatar os seus traumas como corolário. Tinha uma amiga, Norma Lúcia, para quem não havia fronteiras possíveis para o sexo, abrindo espaços inclusive para as bizarrices mais presentes do que suponhamos existir em nosso convívio social. Dividiu as delícias terrenas com o lusitano Nuno. Reporta-nos a sua admiração e incontida atração pelo seu professor de Direito Penal, e suas tentativas premeditadas de seduzi-lo, e conquistá-lo em definitivo. A senhora elegante que usa um vestido estampado e sandálias de salto alto, e vez ou outra coloca os seus óculos de grau, não nos esconde a sua pretensão de perder a virgindade em uma situação que lhe proporcione inefável prazer e redenção (recorre aos ensinamentos didáticos de um livro qualquer). Entre um gole e outro de uísque ou destilado que se assemelhe, e suas ouvintes pedras de gelo, a confessanda baiana, que faz questão de nos localizar quanto aos lugares nos quais teve determinada vivência sexual, não se intimida em descrever abertamente seus orgasmos, sensações, êxtases, frustrações, êxitos e fracassos no sexo, e em nos oferecer nos mínimos detalhes aspectos da anatomia erógena humana, tanto feminina quanto masculina. Toca sem medo em um assunto árido e espinhoso em sua essência, o incesto. Seu Tio Afonso a bolinava, e ela sentia enorme desejo por seu irmão Rodolfo, que correspondeu aos seus anseios “proibidos” (ao comentar sobre o segundo, morto em um acidente de carro, a senhora põe os óculos escuros, em sinal de luto). Participou de orgias, consumiu drogas leves e pesadas, vivenciou o Movimento Hippie e toda a sua significação comportamental avançada. Afirmando-se católica, manteve relações sexuais com religiosos. Conheceu americanos em Los Angeles, e com eles compartilhou o que podiam lhe ofertar no campo afetivo/sexual, fosse decepcionante ou não. Foi para o Rio de Janeiro, onde a devassidão a esperava. A bissexualidade lhe servia para ampliar as suas aspirações a experimentações distintas. A esterilidade nunca lhe foi um problema de fato. Os anos da ditadura militar, de acordo com ela, tornaram as pessoas diferentes, e como consequência, o sexo. Afirma que a melhor fase para uma mulher exercitar a prática sexual se situa entre os trinta e poucos anos até pouco mais de quarenta. Deixa bem claro que no limiar da velhice não quer se igualar a senhores homossexuais que procuram garotos de programa nos classificados de jornais (ou garotas, casais, em seu caso) e acabam sendo mortos, tornando-se notícias nas páginas de polícia. A sexagenária desmistificou sem imposições ou dogmatismos feministas, com facilidade e bom humor, por intermédio de suas narrações absolutamente desprovidas das amarras da hipocrisia, para os seus semelhantes, o que faz parte do curso natural da vida humana na seara sexual com toda a sua complexa abrangência, e praticou os atos que lhe são atinentes sem culpas ou remorsos. A senhora bem maquiada, ornada com brincos de argola, pulseiras e anéis de brilho dourado não se furtou a assumir em público que a sua missão era viver na plenitude uma vida libertina, progressista, como se fosse um “homem fêmea”, e que esta mesma vida se resumiria simplificadamente à prática de se fazer o sexo, claro, dito em suas palavras impublicáveis. A direção de Domingos de Oliveira (com assistência de Lincoln Vargas), inteligente como se espera do tarimbado encenador, prima pela gama de escolhas acertadas que visam a valorizar a presença única da atriz em cena. Apostando em grandes riscos, em se tratando de um monólogo, Domingos optou por colocar Fernanda Torres o tempo inteiro sentada em uma cadeira laranja com design moderno no centro do palco, como se fosse uma palestrante, o que confere ao espetáculo especificidades que não permitem que haja uma dispersão por parte da plateia, ou seja, almeja-se que todas as atenções estejam voltadas para a intérprete e seu eloquente discurso, propulsor maior do desenvolvimento da narrativa. O diretor evidencia a sua fé na excelente artista que possui, acreditando que toda e qualquer ação e dinamização da peça advirão da qualidade da atuação de sua atriz, e sua pessoal interpretação e visão individualizada do conjunto textual/narrativo. Fernanda Torres, uma das atrizes mais respeitadas de sua geração, com trânsito exitoso tanto na TV quanto no teatro e no cinema, tem, nos últimos períodos, dedicado-se com mais afinco ao gênero comédia, o que não significa que outrora tenha se destacado em diversos campos no segmento dramático. Sua composição da senhora de mais de 60 anos é exemplarmente minuciosa, rica nos múltiplos elementos de sua personalidade (alguns imperceptíveis para olhares menos atenciosos), carregada sobejamente de nuanças variadas de emoções que migram de modo intermitente pela extensiva camada de situações perfiladas. A atriz, dotada de superlativo carisma, só pela sua entrada na ribalta já nos conquista. Bonita e esbelta, Fernanda Torres deveria oferecer notada credibilidade não só a uma mulher mais velha (o que lhe exige estudo e pesquisa de gestos, posturas e entoação vocal), mas a uma mulher autêntica, “sem papas na língua”, e insolente de origem baiana. E a artista cumpre com garbo todos os desafios da personagem que lhe são exigidos. Há a questão temerária de seu sotaque. Poderia ser carregado e caricatural. Adotando uma opção sábia, a protagonista impinge às suas falas um acento suavemente cantado, brando, natural, gostoso de se ouvir, condição primordial para a pronta aceitação do contexto de sua personagem. A despeito de ser definida a princípio como uma comédia, a montagem em questão nos fornece passagens de puro lirismo, silêncios e certo drama, captados com sensibilidade pela atriz. Fernanda usa como forte instrumento de sua construção da personagem o próprio corpo (o fato de se manter sentada durante a obra em sua totalidade avoluma as dificuldades inerentes). Tendo a mesa como coadjuvante, a intérprete se vale de sutis ou não cruzamento de pernas, sendo que as mesmas estão leve e calculadamente bandeadas para um lado ou outro, dependendo da ocorrência estabelecida. Seus braços e mãos contribuem com abundante variação de movimentações que só ajudam a definir o caráter de seu papel. Quanto ao tom de comédia, buscou um ponto de equilíbrio exato, não se enquadrando no caminho fácil do escracho tampouco no desenho anódino da graça. Fernanda Torres logrou o espantoso feito, algo que poucos conseguem, de dizer vocábulos e expressões estigmatizados como de baixo calão sem nenhum teor de ofensa, muito pelo contrário. O que é dito nos é familiar, natural e humano. Uma memorável atuação de Fernanda Torres. A direção de arte de Daniela Thomas, com quem a atriz trabalhou diversificadas vezes, seja no cinema ou no teatro, privilegia uma coerente economicidade, respeitando de maneira solene o fato de que o realce maior do espetáculo tem que estar sobre o duo atriz/texto. Nem por isso, o virtuosismo de Daniela deixa de ser percebido e admirado por nós. O resultado é elegante, e com pujante reverberação cênica, justamente pela sua unicidade. Como fora dito, Fernanda Torres se vale de recursos como uma mesa retangular com tampão de vidro e pés de metal, sentada em uma cadeira arrojada (sobre a mesa o microfone, o gravador e uma pequena caixa de papelão de onde a senhora tira as fitas cassetes a serem gravadas). Sob a mesa, um tapete felpudo. Ao seu lado, uma menor, em que se encontram um telefone de época, uma garrafa com bebida alcoólica e um balde de gelos. O figurino de Cristina Camargo é criativo e inspirado, ao trajar uma mulher com mais de 60 anos com um belo e exuberante vestido estampado e acinturado. As mangas são discretamente compridas, o que permite que vejamos os chamativos acessórios usados, como pulseiras (a intérprete ainda ostenta um colar e anéis). O mencionado vestido valoriza bastante a esbelteza de Fernanda Torres na ribalta (a barra do mesmo em sua determinada altura enseja a visibilidade do cruzamento contínuo e sensual de suas pernas). A Wagner Pinto coube a função de “light designer”. O desenho visual causado pela interferência de suas luzes é nitidamente enternecedor. Associada a um constante fog (que confere indiscutível embelezamento à montagem; ao que parece, a nebulosidade tem por missão “isolar” a personagem em seu universo e respectivas confissões), a iluminação de Wagner é pautada em feixes oblíquos vindos de ambos os flancos da ribalta que se entrecruzam, incidindo diretamente na protagonista. Há, além desses feixes, refletores com focos únicos em baixo nível tanto no lado esquerdo quanto no direito do palco, e outros superiores na região anterior do espaço cênico (vislumbram-se tonalidades em azul, vermelho, verde. Em discriminada circunstância, decide-se por um plano mais aberto, de acordo com o que se pede no contexto narrativo. A trilha sonora de Jonas Rocha e Domingos de Oliveira nos revela uma reconhecível grandiloquência em suas árias de óperas, e uma indiscutível ludicidade numa canção festiva e romantismo em outra. A colaboração conjunta de Jonas e Domingos contribuiu com jeito sensível para o entendimento completo da obra, atribuindo-lhe os tons emocionais adequados. O primoroso visagismo (criação maquiagem) de Marcos Padilha se destaca ao vermos uma bonita Fernanda Torres em seu instante solitário no palco. Cores fortes, porém harmônicas, realçam as linhas de sua face (somam-se a isso os seus cabelos soltos e bem escovados). “A Casa dos Budas Ditosos”, uma produção da Trígonos Produções Culturais, com direção de produção de Carmen Mello, é uma peça teatral assumidamente ousada, corajosa, sem preconceitos tampouco sexismos, que oferece sem temor ou receios ao público a rara oportunidade de se defrontar com a visão personalíssima de uma mulher sobre a sua sexualidade em toda a sua amplitude. E na voz de uma sexagenária. Com esta obra, rompem-se não poucos tabus, freando com galhardia sombras de opressão sexual que amordaçam o ser feminino na História universal. João Ubaldo Ribeiro, Fernanda Torres e Domingos de Oliveira tiveram a sensibilidade e o olhar acurado necessários para captar esta contingência real com evidentes e irresistíveis humor e delicadeza. No início do espetáculo, é explicado que em Bangkok, na Tailândia, há um templo chamado “A Casa dos Budas Ditosos”, no qual pode se observar um casal de Budas gigantes de sexos opostos se relacionando. A senhora sexagenária possui dois desses Budas em miniatura em sua mesa. Talvez eles tenham a inspirado em seus bravos depoimentos. Nós, os espectadores, não precisamos ir tão longe em busca de esclarecimentos. O teatro serve de Templo e Casa, e Fernanda Torres, ditosa em exercer o seu ofício, cumpre com nobreza esta edificante missão. Somos todos ditosos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s