” No meio de uma crise política sem precedentes no Brasil contemporâneo, a nova novela das 23h da Rede Globo, ‘Liberdade, Liberdade’, de Mario Teixeira, faz um oportuno resgate histórico do nosso período colonial, propiciando ao público um maior entendimento acerca dos muitos vícios que se perpetuaram na nação. “

Publicado: 12/04/2016 em TV

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Foto: Pedro Carrilho/Gshow

A frase célebre do poeta romano Virgílio “Liberdade ainda que tardia”, mostrada na primeira imagem da nova novela das 23h da Rede Globo “Liberdade, Liberdade”, de Mario Teixeira, com a colaboração de Sérgio Marques e Tarcísio Lara Puiati (baseada em argumento de Marcia Prates, que se inspirou livremente no livro de Maria José de Queiroz, “Joaquina, Filha do Tiradentes”), com direção artística de Vinícius Coimbra, já nos introduz, com propriedade, assim como o título do folhetim, no universo autoritário e perverso do Brasil Colonial do Século XVIII, onde se morria por se defender “o direito do povo à praça”. No insalubre Cais do Porto do Rio de Janeiro, temos a pioneira visão de um impoluto homem de farda escura e respectivos galões rubros mirando as embarcações na Baía de Guanabara. O Alferes Joaquim José da Silva Xavier (Thiago Lacerda), alcunhado Tiradentes, caminha no meio da desordem e do caos do local (a câmera da direção o acompanha por trás), mantendo o passo firme e ligeiro dentre mercadores de peixes, soldados, pessoas do povo e negros escravos aviltados por pesados grilhões que os unem, até encontrar e abraçar fortemente o jovem Vendek (Gabriel Chadan), que lhe entrega um livro redentor, o “Recueil”, no qual se pode ler “A Declaração da Independência da América”, que servirá como base precípua para o movimento inconfidente brasileiro. O rapaz entusiasmado é aconselhado pelo militar a não pronunciar a palavra “conspiração” e a “vigiar sua sombra”. No colóquio com o poeta Tomás Antônio Gonzaga (Jorge Emil), Tiradentes discorre sobre a falência de Portugal, e as toneladas de ouro que foram usurpadas pelos ingleses. Teme-se a vinda de toda a Família Real para o Brasil, o que impediria a libertação definitiva da população de seu jugo. Ambos são surpresos por um aliado da Corte, e o derramamento de sangue se inicia. A saída para o Alferes é levar o inspirador livro para o sertão mineiro. Lá, escreve com sua pena, em uma das folhas daquele, uma dedicatória para a sua filha Joaquina (Mel Maia, que será vivida posteriormente por Andreia Horta). Mateus Solano entra em cena como Rubião, um personagem ficcional. O cidadão de fino bigode, com suor a escorrer pelo rosto, vai à procura do Alferes. Brincando com uma moeda entre os dedos, conhece a menina Joaquina, para quem “querer é poder” (Joaquina se ressente da ausência de seu pai). Com o pretexto de extrair um dente, é recebido pela simplória e voluptuosa Antônia (Letícia Sabatella), mãe da esperta garota. Na verdade, Rubião fora lhe dar um saco de ouro, como auxílio para a “causa inconfidente”, o que não agrada a ex-amante do “conspirador” (Antônia não concorda com os atos revoltosos de Tiradentes, por achar que o seu fim será iminente, em outras palavras, a forca). Com belas tomadas aéreas do sertão das Minas Gerais, o inconfidente, com seu cavalo valente, é abordado pelo temido e perigoso salteador Mão de Luva (Marco Ricca) e seu bando. Mão de Luva, com sua voz peculiar, anuncia-se como um “súdito de Sua Majestade, a Rainha”. Os bandoleiros agridem Tiradentes. Após ajeitar sua grotesca peruca, Mão de Luva o rouba, inclusive o livro “Recueil”, que julga ser importante. O defensor da República e da liberdade geral reencontra com júbilo a sua única descendente. Em seguida, numa sala de audiências, é acusado por Antônia de assédio, promessas falsas de matrimônio, e “pudicícia” ofendida. O juiz o pune, obrigando-o a transmitir um de seus bens à mãe e a filha, e a reconhecer legalmente a última, registrando-a com o seu nome. Em outra passagem do entrecho, ao ver um artista de rua sendo espancado por um soldado por usar as suas marionetes como veículo indireto de oposição política, o Alferes profere um inflamado discurso em praça pública, em defesa da liberdade do povo perante o seu governo, asseverando que este tem o dever de zelá-lo, guardá-lo e protegê-lo. A população se atiça com os seus gritos repetidos de “A praça é do povo, senhores!”. Em Portugal, no palácio imperial, a Rainha Maria I (Lu Grimaldi), com seu vestido opulento com a cauda suspensa por serviçais, ao lado de um clérigo, toma ciência da formação de uma conspiração no país que coloniza contra o seu poder absoluto. Para Maria I, tudo se resolve com a execução de seus opositores e descendentes, pois, segundo ela, “um traidor não pode ficar para semente”. Ricardo Pereira interpreta o Capitão Tolentino, que leva Abreu Vieira (Rico Gonçalves), o padrinho de Joaquina, ao Visconde de Barbacena (Xando Graça), que o acusa de contrabando de diamantes e conspiração contra a Rainha. Silvério dos Reis (Ricardo Dantas), também presente, sofre agressão. Os nomes de todos os conspiradores são exigidos. Lilia Cabral vive a personagem Virgínia, a dona do bordel de Vila Rica, em Minas. Sempre com um cantil de bebida, Virgínia lamenta o roubo do livro, num encontro com o Alferes (ele defende o uso de armas, e não somente as ideias, para atacar o Império, e cita como exemplo a luta dos norte-americanos contra os ingleses). Tiradentes e Rubião se reúnem, e se dão conta de que estão sem recursos para prosseguir com a Inconfidência. O bordel é invadido pelo Capitão Tolentino e sua tropa. Enquanto os “conspiradores” se divertiam com prostitutas, recebem voz de prisão por crimes de conspiração e alta traição, em nome da Rainha. Os presos serão levados para o Rio de Janeiro. Antônia fica desolada com a captura de seu ex-amante. Nu, acorrentado, esbofeteado, com sangue a jorrar pela boca, Rubião é torturado, até que diga com quem está o livro da conspiração. Silvério dos Reis o convence a revelar, em troca da comutação de sua pena. Rubião ainda silencia, até que um ferro em forma de gancho é aproximado de seu corpo. Enfim, fala: – O Alferes. Tiradentes. O livro está com ele. O Alferes também é brutalmente espancado, mas não assume a liderança da Conjuração Mineira. Diz algo em tom profético: – Minha morte é só o começo. Escondida em uma carroça, Joaquina foge do campo, e chega à cidade iluminada por tochas para ver o seu pai. O último encontro é rápido, sem direito a choros. No centro citadino, com a população estrepitosa, Joaquina ouve a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e o detalhamento com requintes de crueldade do que será feito com o seu corpo morto. Tudo é testemunhado por um misterioso homem, Raposo, também um personagem fictício (Dalton Vigh), simpatizante dos inconfidentes (será o pai de criação de Joaquina, e seu tutor e conselheiro). Traído por Rubião e Silvério na ficção, a vida de Tiradentes é roubada pela corda impiedosa da Coroa. No primeiro capítulo de “Liberdade, Liberdade”, a direção de Vinícius Coimbra (diretor artístico), André Câmara, João Paulo Jabur, Pedro Brenelli e Bruno Safadi apostou na agilidade das cenas, no “timing” do enredo, na diversificação dos enquadramentos e ângulos, e na preocupação de tornar uma história com muitos elementos históricos em algo plenamente assimilável pelo grande público. Os coerentes figurinos de Paula Carneiro e a direção de arte impecável de Mário Monteiro impressionaram. O elenco foi um dos inquestionáveis trunfos deste primeiro capítulo, com todos os intérpretes ostentando perfeita sintonia e compreensão de seus papéis. Thiago Lacerda, destemido como Tiradentes. Mateus Solano, envolvente como Rubião. Letícia Sabatella, determinada como Antônia. Marco Ricca, cínico como o bandido Mão de Luva (ótima composição do sotaque). Lilia Cabral, charmosa e sábia como Virgínia. Lu Grimaldi, prepotente como Maria I. Mel Maia, comovente como a corajosa Joaquina. Ricardo Pereira, como o leal Capitão Tolentino. E Xando Graça, como o nobre glutão e sem meias palavras Visconde de Barbacena. Não houve quem não brilhasse, e se destacasse nesta instigante e oportuna trama. A novela “Liberdade, Liberdade” possui o indiscutível mérito de resgatar um período determinante de nossa História em uma época em que a política brasileira necessita de revisões profundas. Os telespectadores tem, assim, uma preciosa chance de assistir a uma abordagem ampla com elementos reais e ficcionais de um dos maiores valores da sociedade, a liberdade. Liberdade, vocábulo tão rico e útil para os legítimos funcionamento e engrenagem da democracia. Que todos nós, politizados ou não, lembremo-nos do que disse o Alferes para os seus pares num momento de paixão e inspirada oratória: – A praça é do povo, senhores!. E do pensador Virgílio, com sua frase. Tardia, breve, urgente, a genuína verdade é que precisamos sempre dela: a liberdade, liberdade.

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