“Utilizando-se de sua ampla inventividade na criação de tipos populares, Rodrigo Sant’Anna, em ‘Segundo Turno de Risadas’, por meio de sua reconhecida vocação para o humor, revela, de forma subliminar ou ostensiva, amparando-se em uma crítica social, o perfil de indivíduos ou símbolos facilmente identificáveis em nosso cotidiano.”

Publicado: 02/08/2016 em Teatro

Rodrigo-Santanna
Foto: Reprodução

Faltando exatos dois meses para as eleições municipais, dentro de um cenário político chamuscado por fatos recentes, Rodrigo Sant’Anna, que se notabilizou por seus personagens populares em programas de humor na televisão, reedita um outro texto seu levado aos palcos em 2009, “Comício Gargalhada”. “Segundo Turno de Risadas”, com dramaturgia de Rodrigo, Mariana Rebelo e Conrado Helt, com a direção do intérprete, é uma montagem leve e divertida, na qual o seu ator principal aposta com acerto no poder de seu carisma junto ao público, e em seu elevado nível de comunicabilidade, facilitado por sua boa, articulada e natural emissão de voz, e postura discreta e espontânea quando se apresenta como ele mesmo em cena. Trajando uma blusa preta de mangas compridas bem justa (e calças e boots da mesma cor), evidenciando a sua ótima forma física, o artista se desdobra em vários papéis, sendo que cada um deles ostenta uma clara ou subliminar crítica social, ao proferir seu particular discurso. Aproximando-se vez ou outra do gênero “stand-up”, somado aos distintos esquetes ou quadros, Rodrigo se vale de sua ampla capacidade de criação de tipos populares, privilegiando aqueles que provieram da região do subúrbio, para traçar as linhas dramatúrgicas de sua obra. São ao todo nove personagens, começando pelo impagável e ferino transexual Valéria Vasquez (grande sucesso do outrora chamado “Zorra Total”, na Rede Globo), com suas vestimentas multicoloridas e inusitadas (Valéria é, sem dúvida, uma das composições mais inspiradas do ator/comediante). Temos também Jurandir, um homem simples que desfaz da aparência física de sua esposa; Pop, uma moça afetada sempre conectada ao mundo virtual; Adelaide, conhecida como a “mendiga pedinte”, uma senhora engraçada e sem “papas na língua” que, de alguma maneira, denuncia a falta de planejamento familiar no Brasil, e a influência da cultura norte-americana em nosso país, inclusive nas classes menos favorecidas; Zé…, a simbolização do órgão sexual masculino, que nos confessa, sem pudor, todas as angústias por que passa ao assumir as suas funções no contexto de uma relação íntima; Regina Célia, uma idosa irritadiça defensora da liberdade sexual dos pertencentes à terceira idade; Soninha Sapatão, uma homossexual que tenta nos provar sua inexistente feminilidade; Carol Paixão, uma jovem supostamente sensual escravizada pelo culto obsessivo ao corpo perfeito e adepta peculiar do estilo de vida de certos frequentadores de academias de ginástica; e Admilson, um indivíduo notadamente vulgar em seu trato com as mulheres, sendo este perfil superdimensionado pela forma e conteúdo pobres de suas “cantadas”. No que concerne aos elementos técnicos da encenação, o cenário se resume a um “palanque” situado no centro do palco, tendo à sua frente um espaço no qual são inseridas figuras representativas dos personagens em ação por meio das imagens de seus corpos físicos revelados da cintura para baixo (este mesmo “palanque” é utilizado como biombo para troca de roupas). A trilha sonora se condensa em uma repetida (propositadamente) música incidental de caráter infantil e formato monossilábico que demarca a transição dos personagens para Rodrigo, além do hit da cantora Sia, “Chandelier”. Os figurinos atendem com coerência, buscando amiúde o exagero e a extravagância de uma caracterização, às personalidades dos tipos perfilados (deve-se ressaltar o elegante costume todo preto, já dito, de Rodrigo Sant’Anna, nos momentos de comunicação com a plateia). A luz se baseia na predominância de refletores de cor azul (presentes nos intervalos dos quadros), e nos focos sobre o artista solo, vistos em não poucas situações (a iluminação é acompanhada por um suave fog). “Segundo Turno de Risadas” é uma peça que se sedimenta em um humor que bebe nas fontes populares, e não há nenhum demérito nisso, sendo enaltecida pelo protagonismo de um ator reconhecidamente talentoso na esfera da comicidade, possuidor de um brilho pessoal indelével.

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