“Inspirados deliberadamente nas produções cinematográficas americanas dos anos 40 e 50, com forte apelo musical e valorização dos diálogos, Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão se propõem a contar com as suas assinaturas próprias a história do maior veículo de massa do Brasil, a TV, na nova série da Rede Globo, “Nada Será Como Antes”.

Publicado: 28/09/2016 em TV

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Foto: Estevam Avellar/Gshow

Saulo (Murilo Benício), um visionário vendedor de rádios, passeia de carro pelas estradas do interior de São Paulo ao lado de seu melhor amigo, Aristides (Bruno Garcia). O ano é 1946, e o rádio toca. Por debaixo das longas linhas de transmissão, ouve-se a doce voz da rádio atriz Verônica Maia (Débora Falabella). Saulo se embevece, e vai ao seu encontro na Rádio Difusora Entre Rios. Ao chegar lá, depara-se com uma recepcionista (Débora Falabella), e após um breve desentendimento, escuta da moça a seguinte frase: – O senhor é muito mal-educado. Ele então reconhece a dona da linda voz que ouvira no carro. Com ideias arrojadas e ambiciosas, Saulo procura convencer Verônica a irem para o Rio de Janeiro tentar a sorte. O primeiro beijo de ambos é embalado por “Fly Me To The Moon”, música cantada por Iza. Dez anos depois, no mágico e fascinante Rio de Janeiro desta época, em um prestigiado night club (vem-nos à lembrança a ambiência de um dos mais elegantes e nostálgicos filmes de Woody Allen, “A Era do Rádio”, de 1987), somos seduzidos por uma bela e voluptuosa dançarina interpretada por Bruna Marquezine, Beatriz. Saulo agora é o proprietário da Rádio Guanabara, e Verônica, então sua esposa, a principal atriz da emissora. Fabrício Boliveira é Péricles, seu colega de elenco na radionovela “Cyrano de Bergerac”. Daniel de Oliveira é o rico, playboy e mulherengo Otaviano, para quem “sexo pago não é traição”. Saulo, decidido e envolvente, tenta convencer o rapaz que não gosta de trabalhar a investir em seu mais novo projeto: a televisão. Saulo é uma clara referência a Assis Chateaubriand, o maior responsável pela introdução e popularização da TV no Brasil com os seus Diários Associados. Saulo e Verônica formam um casal perfeito, pleno em felicidade e realizações, mas lhes falta algo importante: um filho. O casamento começa a dar sinais de desmoronamento quando por cerca de três anos tentativas de se ter um filho são infrutíferas. Na verdade, o problema é a infertilidade de Saulo. Desiludido e frágil, é provocado no night club pela lasciva e cobiçosa Beatriz (Bruna Marquezine impressiona na interpretação da canção “The Man I Love”, eternizada por Billie Holiday), que num jogo de quiromancia, busca adivinhar o motivo de seu abatimento. Beatriz, no entanto, preocupa-se com a sua mãe, Odete (Cassia Kiss), uma ingênua empregada doméstica que pensa que a sua filha está no teatro personificando uma “mocinha francesa”. Por covardia e vaidade masculinas, o mentor da Rádio Guanabara resolve friamente mentir para a sua mulher, dizendo que não a ama mais, e que quer se separar. Verônica, ao interpretar Roxane, de “Cyrano de Bergerac, na encenação radiofônica, face à morte de seu admirador (Cyrano), derrama as lágrimas de sua real dor pessoal, o que foi percebido por Péricles. Usando Beatriz, a atriz, como “isca”, Saulo finalmente logra convencer Otaviano a investir a sua fortuna na fundação de uma estação de TV. Numa emblemática e recorrente cena de separação, em que o casal divide os livros e discos, Murilo e Débora emocionam com “Só Louco”, de Dorival Caymmi, ao fundo. Diante de um incrédulo Aristides, que afirma que a televisão irá acabar com o cinema, o rádio e o teatro, Saulo lhe mostra o seu portentoso estúdio de TV, o qual, para ele, profeticamente, “se tornará a praça onde se discutirá a vida do país.” Chega o dia da inauguração da TV Guanabara. Coristas se movimentam de um lado para o outro. Verônica fará a apresentação da efeméride. Ainda sentida com a separação, Verônica, na última hora, desiste de se apresentar. “5, 4, 3, 2, 1… No ar”. Saulo, citando Dom Quixote, apresenta a primeira transmissão ao vivo da TV brasileira. O primeiro episódio da série “Nada Será Como Antes”, que será exibida todas as terças-feiras, em 12 partes, já ganha o telespectador por abordar, misturando o factual com o ficcional, os primórdios da televisão do Brasil, seus bastidores regados a romances, intrigas e polêmicas, revelando-nos à sua maneira como este veículo até então desacreditado se tornou uma das paixões nacionais, e um dos principais conglomerados do setor audiovisual em nossa nação. Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão, o segundo com notória experiência no cinema, o terceiro no teatro, e todos indiscutivelmente com insigne legado na televisão, somaram seus ímpares talentos, e por meio de precisos e interessantes diálogos, sempre oportunos e necessários em seu contexto, contando com a primorosa direção artística de José Luiz Villamarim, e com as eficientíssimas direção de Isabella Mesquita e direção geral de Luisa Lima, construíram um primeiro episódio que nos causou uma ótima impressão, com vontade inarredável de se esperar por sua continuação. A ideia de se adotar o formato de série semanal é, de fato, um considerável risco, cabendo aos autores e à direção de se encarregarem de nos oferecer invariavelmente irresistíveis desfechos. A direção da produção se apoderou de um estilo que em muito nos lembra filmes que nos são caros na memória afetiva provenientes da indústria de cinema dos Estados Unidos, e isto não é um demérito, sendo tão somente uma inspiração, uma referência. Imprimiu-se um tom naturalista à interpretação dos atores, uma objetividade dos diálogos, mas também as pausas pertinentes para os momentos de maior emoção e dramaticidade, não se esquecendo, é óbvio, da postura melodramática das performances nas rádios e seus gêneros. Usaram-se todos os tipos de angulações de câmeras, como planos fechados, planos e contraplanos, planos americanos, e muita movimentação, com a leve tremulação das suas imagens, com o acompanhamento dos personagens circulando por diferentes cenários. O elenco, pelo que vimos em seu pioneiro episódio, é um total acerto. O reencontro de Débora Falabella e Murilo Benício, após o sucesso de “Avenida Brasil”, formando pela primeira vez um casal na teledramaturgia, rendeu elogiosos resultados, comprovando a química existente entre eles. Murilo compôs Saulo de forma que crêssemos em seu caráter visionário e empreendedor, alternando passagens em que se evidencia mais sóbrio, em outras mais emocional e sensível, e nas demais resoluto e inabalável em suas deliberações. Já Débora Falabella desenhou com excelência o perfil de Verônica com os traços de uma jovem romântica e por vezes fragilizada tanto na sua condição de artista quanto na de mulher. Pode ser que haja uma reviravolta em sua personagem, o que com toda a certeza será bem desenvolvida pela atriz. Daniel de Oliveira se saiu perfeitamente convincente, como de costume, ao defender o doidivanas Otaviano. Daniel, com sua experiência, reconhece de longe as características natas dos papéis que habitualmente costumam lhe oferecer. Bruna Marquezine ostentou evidente processo de amadurecimento e evolução interpretativa ao viver uma jovem com sensualidade e formosura à flor da pele, além de nos provar que sua disciplina como intérprete se confirmou outrossim nas cenas, como dito, em que cantara. Bruno Garcia, cujo papel esconde uma homossexualidade, impingiu nítida credibilidade ao amigo prático e objetivo de Saulo (suas cenas seguintes com o também homossexual Rodolfo, de Alejandro Claveaux, poderão causar alguma polêmica; o fato de atores galãs, principalmente no cinema americano das décadas de 40 e 50, esconderem sua verdadeira orientação sexual para preservarem as suas carreiras era bastante comum). Cassia Kiss em sua rápida aparição como a mãe de Beatriz já indicou que a sua participação será valorosa. Fabrício Boliveira dignificou o seu papel, cabendo a ele uma oportuna denúncia na indústria da TV, ou seja, a questão de atores negros serem relegados a personagens de menos significância. Péricles é um bem-sucedido ator de radionovelas, e com o advento da televisão se tornará um mero figurante. Aguardemos ainda as atuações de Osmar Prado, Jesuíta Barbosa, Daniel Boaventura (que já apareceu no primeiro episódio fugazmente) e Letícia Colin (cujas cenas com Bruna Marquezine prometem incomodar os mais conservadores). Os figurinos de Cao Albuquerque correspondem com exatidão às décadas de 40 e 50, denotando o seu trabalho minucioso e caprichado. A direção de fotografia de Walter Carvalho buscou um tom, uma intensidade que se estabelecesse entre o atual e o pretérito, ofertando-nos um grau de nostalgia, sem que no entanto nos afastássemos da história narrada. Vimos tonalidades e filtros suaves, brandos, por vezes quase diáfanos, mas em nenhum instante se configurou a contextualização da presença de sua luz com a realidade. A produção de arte de Nena Alvarenga é um primor, respeitando todo e qualquer detalhe que nos reporte àquelas eras. Desde pequenos objetos de mobília, passando pelos automóveis e câmeras pioneiras da televisão. A produção musical de Eduardo Queiroz e a direção musical de Marcel Klemm falam por si só, devido à alta meticulosidade e bom gosto na seleção das canções, nacionais e internacionais, que perpassam a trama, além da trilha incidental. A abertura de Alexandre Romano e Flavio Mac é curta, bonita e potente, começando com a incrível versão de Cássia Eller para “Try a Little Tenderness”, de Otis Redding. Alexandre e Flavio, com demasiadas proficiência e inspiração, recortaram cenas do cotidiano dos principais personagens (algumas marcantes) e as pincelaram com tintas de cor forte imiscuídas ao preto e branco, proporcionando-nos um excelente produto final, com visualidade irretorquivelmente eloquente. “Nada Será Como Antes” é uma série que instiga o telespectador brasileiro (o que não a impede de ser universal) por não só contar a história do pioneirismo de nossa televisão, fato que por ele mesmo já nos desperta interesse, mas, por meio da figura da metalinguagem, transformar com requintes tanto em sua dramaturgia quanto em sua produção os acontecimentos inerentes a este mundo fantástico que a todos encanta em uma espécie de biografia do veículo e pessoas que direta ou indiretamente estiveram ligadas a ele. Tudo em forma de entretenimento, amparado em cuidadosa pesquisa histórica de Julia Schnoor. Parafraseando Saulo Ribeiro na noite de inauguração de sua TV Guanabara: “Está no ar, no seu lar, e no coração de todos vocês, ‘Nada Será Como Antes’! “.

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