“Com um elenco poderoso em cena, Gloria Perez, logo no primeiro capítulo de ‘A Força do Querer’, a nova novela das 21h da Rede Globo, deixou impressa a sua marca infalível de basear os conflitos de sua trama em questões controversas, atuais e discutíveis, propulsoras de inegável interesse por parte do público”.

Publicado: 04/04/2017 em TV

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Foto: Estevam Avellar/TV Globo

Ao vermos uma novela de Gloria Perez infalivelmente identificamos a sua marca. E não foi diferente ao assistirmos ao primeiro capítulo de “A Força do Querer”, o novo folhetim das 21h da Rede Globo, exibido ontem à noite. Com direção artística de Rogério Gomes e direção geral de Pedro Vasconcelos, a trama nos apresentou a gênese dos principais conflitos que a nortearão pelos próximos meses. Contando com um elenco estelar, formado em grande parte por atores que costumam ser protagonistas em outras produções do gênero, raro de se testemunhar, “A Força do Querer” não fugirá da abordagem de assuntos polêmicos, alguns extremamente atuais, como os que dizem respeito aos transgêneros e sua aceitação pelas família e sociedade, compulsão pelo jogo, busca da beleza perfeita, sereismo, e os potenciais poder e glamour associados ao tráfico de drogas. Além disso, teremos uma policial, Jeiza, com aspirações de ser uma lutadora de MMA, livremente inspirada em Ronda Rousey (papel que caberá a Paolla Oliveira). Ademais, Gloria não se furtará de inserir em sua obra elementos clássicos das telenovelas, como a disputa de dois homens que se conheceram na infância por uma mesma mulher. Suas primeiras cenas ocorreram no Pará com o personagem de Eugênio (Dan Stulbach, um bem-vindo retorno à teledramaturgia da emissora, após um período de experiências como apresentador em outros canais), sócio de uma empresa que comercializa alimentos, ao lado de seu filho Ruy (João Gabriel Bolshaw; Fiuk o representará na fase jovem), marcando a sua ida ao Acre a fim de negociar com um fornecedor local. A região é inóspita, e só se chega de barco. O tempo está ruim. A embarcação tomba, e o menino desaparece em águas turvas. Dan se saiu muito bem ao revelar o desespero do pai. Na verdade, Eugênio estava cumprindo a sua última missão como diretor da empresa, já que pensa em “começar do zero”, realizando o sonho de sua vida, montar o seu próprio escritório de advocacia, o que contrariará seus familiares. Quem assumirá o seu lugar é Caio (Rodrigo Lombardi, um intérprete associado a outras novelas de Gloria, como “Caminho das Índias” e “Salve Jorge”). Caio é um homem honesto, porém bastante ambicioso no que tange ao aspecto profissional, o que atrapalha o seu relacionamento com a passional Bibi (Juliana Paes; uma reedição do casal, como podem lembrar, de “Caminho das Índias”). As cobranças de Bibi são tão intensas que levam ao rompimento do compromisso. O que Caio não esperava é que estava sendo traído por ela com o garçom Rubinho (Emílio Dantas, o ator que se sobressaiu nos palcos ao encarnar o cantor e compositor Cazuza; uma boa escalação, já que se trata de um rosto novo no horário nobre). Rubinho introduzirá Bibi no mundo do crime, no qual a moça assumirá um posto que lhe conferirá irrestrito poder, assumindo a identidade de Bibi Poderosa. Caio, desiludido, desiste da nomeação na empresa, e viaja para os Estados Unidos, onde estudou. Um dos principais sócios desta mesma empresa se chama Eurico, austero e rígido nos negócios. Eurico, irmão de Eugênio, é defendido por Humberto Martins, um artista que sempre imprime dignidade aos seus papéis (também integrou o elenco de algumas novelas da autora, como “Barriga de Aluguel”, na pele de um caminhoneiro). O empresário é casado com a sofisticada e reconhecida arquiteta Silvana (a ótima Lilia Cabral, representando com a elegância de costume). Só que Silvana lhe traz um enorme problema: o seu vício em mesas de pôquer. Esta falha compromete, óbvio, a estabilidade do casamento e a sua situação financeira. Neste mesmo núcleo, temos a bela Maria Fernanda Cândido (brilhou em suas primeiras cenas), cuja personagem Joyce, casada com Eugênio, é uma mulher fútil e exageradamente vaidosa, que direciona essas características para a sua filha pequena Ivana (na outra fase, será personificada pela estreante Caroline Duarte). A criação desta personagem é uma crítica oportuna às mães que se utilizam de seus filhos para se promoverem, e até mesmo ganharem dinheiro, ainda mais em tempos de redes sociais. São mães que não conseguiram almejar os seus sonhos, transferindo-os para os seus filhos, mesmo que muitos não os queiram. O que Joyce não imaginava é que Ivana ao crescer não possuiria quaisquer resquícios de vaidade feminina, aproximando-se cada vez mais do mundo transgênero. Este tema promete aquecer a história, promovendo opiniões contrárias ou favoráveis, tanto dos personagens quanto dos telespectadores. Todos estes episódios relatados se passam no Rio de Janeiro. Voltemos ao rio em que Ruy caíra em viagem com o pai. Já não há esperanças quanto à sua sobrevivência, até que um outro garoto, natural da região, Zeca, filho de Abel (Tonico Pereira), vivido por Xande Valois (personagem de Marco Pigossi na etapa seguinte), tenta salvá-lo, mas também acaba caindo nas correntezas do rio. Desacordados na sua margem, os meninos são encontrados por um índio ashaninka (Benki Piyãko), que lhes dá um chá curativo alucinógeno. Os meninos que veem a Lua se misturar ao rio, ouvem a seguinte profecia do indígena: “Vocês tenham medo do que vier das águas. O rio que juntou vocês vai separar de novo”. O índio lhes ofereceu como proteção um colar, metade para cada um. O tempo passou. Bibi, agora cabeleireira, está casada com Rubinho, desempregado, o que causa um desconforto em sua mãe Aurora (Elizangela). Durante o noivado de Ruy (Fiuk; outra renovação no horário das 21h, é prazeroso ver este jovem ator ostentando maturidade) e Cibele (Bruna Linzmeyer), com a presença de toda a família, incluindo o amigo Dantas (Edson Celulari), pai da noiva, Eugênio anuncia o seu novo sucessor na empresa: Ruy, o seu filho, para o assombro geral. Deslocamo-nos para Parazinho, a fictícia cidade do Pará. Zeca agora tem como intérprete Marco Pigossi (depois de “A Regra do Jogo”, em que deu vida a um policial, Marco tem a possibilidade de defender um tipo bem oposto àquele, haja vista que Zeca é um sujeito simples, rústico, trabalhador – reparem em seu bem construído sotaque, um caminhoneiro apaixonado por Ritinha, Isis Valverde, a fogosa, brejeira e sensual moça que acredita ser filha de um boto, adepta do sereismo, prática das mulheres que se trajam de sereias, tentam ao máximo se assemelhar a elas, sendo que muitas ganham a vida com isso, como é o caso de Ritinha, que faz apresentações públicas como o ser mitológico). O romance dos dois é desaprovado por Abel, que se desabafa com sua irmã Nazaré (Luci Pereira). Zeca está à procura de Ritinha. Ruy está com o seu pai na localidade para se encontrar com um fornecedor. Ritinha, a “sereia”, surge fulgurante de dentro das águas vermelhas do rio de Parazinho, tendo ao seu lado lépidos botos. Os dois rapazes, atônitos, admiram-na. A profecia do índio começa a se concretizar. Começou desta forma a nova novela de Gloria Perez, enriquecida por uma bonita direção de fotografia de Sérgio Tortori, em tons de azul para a noite, verdes em outra passagem, e naturais nas áreas urbanas, valorizando o colorido do mercado de alimentos. A abertura de Alexandre Romano e Cristiano Calvet é embalada pela canção de Caetano Veloso, “O Quereres”, em que há a fusão de imagens de pessoas e paisagens e situações do cotidiano, realçadas por distintas cores. “A Força do Querer” se compromete a seguir o que dita o seu título. Os seus personagens se moverão pelos seus desejos, seus quereres, que não virão facilmente. As suas metas só serão atingidas se forem empreendidas as suas forças, claro. No entanto, onde há mais de uma força, aquelas que intentam o mesmo objetivo, haverá pelejas. Assim como haverá a força individual, tão difícil por ser solitária, por ser contra a maioria do pensamento. A novela de Gloria Perez se baseia nisso. E é nesta conflagração de conflitos que desencadeiam debates, discussões e reflexões que se encontra a tal marca da teledramaturga. Para se assistir às suas novelas, é necessário que se tenha força, força para se aceitar a diferença, para se aceitar o novo, para se enfrentar o tabu. Olhos para se descobrir a tolerância que há dentro de nós, mesmo que a desconheçamos. Basta que para isso, despertemos a nossa força do querer.

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