“Livremente inspirado no derradeiro livro de Charles Bukowski, ‘Pulp’, Sacha Bali, reafirmando o seu inegável valor como dramaturgo e diretor, retorna ao romancista com o seu novo espetáculo, o musical ‘Uísque com Água’, trazendo uma galeria de tipos marcantes e inesquecíveis dentro de uma história tragicômica envolvente, num excelente trabalho de composição dos atores Nelson Freitas, Rosanna Viegas, Samuel Toledo, Carolina Chalita e Thogun Teixeira.”

Publicado: 17/04/2017 em Teatro

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Foto: Dodô Giovanetti

O teatro, para a sua própria sobrevivência artística, necessita de renovação. Não só renovação, mas ousadia. E o que não faltam ao novo espetáculo do dramaturgo e diretor Sacha Bali, o musical “Uísque com Água”, livremente inspirado na última obra do americano Charles Bukowski, “Pulp” (1994) são essas características: o caráter renovador e ousado. Sacha, também um conhecido e ótimo ator, além de produtor, em 2007, apresentou ao público a sua pioneira experiência nos palcos com o autor considerado maldito, “Pão com Mortadela” (baseado em “Misto Quente”, 1982), com direção de João Fonseca, um sucesso retumbante, com elogios de lado a lado, que fez com que a peça percorresse várias cidades do país. Quase dez anos se passaram, e o escritor inspirador para o jovem dramaturgo volta para a ribalta com a força absoluta da ironia, do cinismo e das reflexões existencialistas que definiram a venerada obra “bukowskiana”. Sacha se utilizou de inúmeras referências para construir a sua atual montagem. Não abriu mão do estilo único das “pulp fictions” (revistas lançadas no início do século passado, divididas em capítulos, que privilegiavam histórias rápidas, inseridas em vários gêneros, como a aventura, o romance policial e a ficção científica, dentre outros). Os célebres filmes noir americanos com suas narrativas detetivescas e personagens arquetípicos também serviram como nítida influência. Percebe-se na composição de alguns tipos da trama a forma interpretativa adotada pelo Expressionismo Alemão na área cinematográfica. As animações neste segmento audiovisual também ofereceram alguns elementos, e me arrisco a dizer, até mesmo a fantasia e o realismo mágico dos desenhos animados foram influenciadores. As HQs, com seus diálogos diretos, sua dinâmica, seu tempo e estética são visíveis na encenação. A peça musical narra a inusitada história de um detetive particular, Nick Belane (Nelson Freitas), dono de um decadente escritório em Los Angeles, não se sabendo ao certo em que período se passa, que vê o seu modorrento cotidiano ser sacudido pelas inesperadas visitas de misteriosos clientes e suas excêntricas propostas de investigação. Nick tem uma personalidade depressiva, e afoga as suas mágoas, que são muitas, no álcool, principalmente no uísque com água, consumido não somente em seu local de trabalho, mas no curioso bar “O Cão Sedento”. Mesmo vivendo em condições precárias, o detetive que acharia melhor ter sido bombeiro, como o seu colega de escola, não perde o seu fino humor, que se imiscui à sua melancolia inata. Viciado em corridas de cavalo, solitário, Delane, que cobra U$6,00 por hora de trabalho, é procurado por John Barton, um jovem estranho, com língua presa e locomoção comprometida, interpretado por Samuel Toledo. O tal rapaz estranho lhe faz uma peculiar proposta: encontrar um pardal vermelho. Aceito o serviço, Nick sai em busca desse animal improvável. Atolado em dívidas, cobradas de modo inclemente pelo bookmaker Tony (Thogun Teixeira), o detetive, no decorrer desta amalucada empreitada, depara-se com diversas figuras nebulosas e suspeitas, como uma temível senhora que se apresenta como Dona Morte (Rosanna Viegas). Dona Morte deseja que Nick ache a qualquer custo “o maior escritor da França”, Céline (Samuel Toledo). Não sabemos o porquê de seu desejo. Em suas andanças, sempre pontuadas pelos seus pensamentos de reflexão sobre a vida, e consequentemente sobre a morte, em seu bar preferido, “O Cão Sedento”, é atendido por uma tresloucada bartender (Rosanna Viegas). Rosanna também interpreta uma sensual dançarina. O barman de “O Cão Sedento” é personificado por Thogun Teixeira, e é neste estabelecimento em que encontra o suposto escritor francês, um sujeito com sotaque característico e olhos arregalados. Surge no enredo a bela e voluptuosa Jeanie (Carolina Chalita), uma espécie de Jessica Rabbit. Jeanie é casada com Groves (Thogun Teixeira), dono de uma funerária, e o manipula com os requintes de uma dominatrix. Por onde passa, Jeanie deixa os homens enlouquecidos, e algumas de suas vítimas são o próprio Delane e o suposto escritor francês. Em meio a esta sinopse tão mirabolante quanto sedutora na qual há suspense, comédia, drama, violência estilizada e referências tão explícitas quanto divertidas ao universo da sci-fi, como a potencial aparição de alienígenas, e à estética do gangsterismo, há um recurso cênico que oferta um charme extra e especial ao espetáculo: a presença de uma banda ao vivo, comandada pelos músicos Samuel Toledo, Pedro Coelho e André Coelho. A direção de Sacha Bali caracteriza-se exemplarmente pelo capricho e cuidado com os quais se esmerou para transformar todo o conjunto cênico em algo belo, dinâmico, coeso e integrado. As músicas, sejam elas instrumentais, quanto as cantadas pelos atores músicos se unem na constituição de uma admirável harmonia teatral. Sacha também procurou, com inegável acerto, fidelizar-se a todas as referências as quais já citei, que lhe serviram como base para a construção de sua elogiável dramaturgia. Com sua vasta experiência como ator, e formação em muitas áreas ligadas à Arte, Sacha Bali se preocupou, e isto salta aos olhos em sua peça musical, com o que chamamos de “direção de ator”. Percebemos claramente que cada intérprete teve para si o seu momento de busca da composição exata e precisa de seu ou seus personagens com a ajuda precípua, fundamental e generosa de seu encenador. O espetáculo de Sacha é elegante, e nos faz querer vê-lo novamente, o que em se tratando de teatro ou qualquer outro meio de expressão cultural é um enorme mérito. O elenco é extremamente bem escalado, com um time de atores bastante distintos entre si, no que tange às suas formações, experiências e tipos de interpretação, mas todos, sem exceção, detentores de indiscutível talento. Para quem estava acostumado com o ator Nelson Freitas sempre associado à comédia, o que faz muito bem por sinal, irá se surpreender com a sua impressionante atuação como o detetive particular decadente e alcoólatra Nick Belane. Nelson possui um magnetismo pessoal, além de sua absoluta absorção da alma de seu personagem, levando-nos a acompanhá-lo e a torcer por sua vitória ou algo próximo disso, em meio a tantas intempéries episódicas por que passa. O intérprete nos transmite a totalidade de sentimentos natos ao seu papel, definidores de sua personalidade. Sua melancolia, seu pessimismo perante a vida, seu humor cáustico redentor, seu apreço pelas mulheres e pela bebida estão todos condensados na atuação inteira, plena, emocionada de Nelson Freitas, que margeia em proporções similares e equilibradas os gêneros drama e comédia. Rosanna Viegas, que já trabalhou com Sacha Bali outras vezes, como nas peças “Pão Com Mortadela” e “Cachorro Quente”, mais uma vez mostra em cena toda a sua capacidade interpretativa e versatilidade ao dar vida, respeitando as pertinentes distinções, a três tipos que perpassam a narrativa. Rosanna detém uma força natural própria só em estar no palco. Basta emitir uma frase ou fazer um leve movimento de dança, que percebemos desde já estarmos diante de uma atriz de incontestável qualidade. Sua bartender é tresloucada, patética, embriagada e risível. Dona Morte traz em seu entorno a ambiência de mistério necessária para a justificação de sua função na história. E a dançarina que personifica nos transmite a sensualidade plena, acompanhada por um certo ar de desdém, que a valoriza como elemento de um universo proposto. Samuel Toledo é um adorável jovem ator, com muitos recursos interpretativos, a quem já havia assistido em um outro espetáculo, “Elefante”. Samuel teve a incumbência de construir com diferenciações bem desenhadas alguns personagens do entrecho. O primeiro, John Barton, é um sujeito extremamente suspeito e esquisito, que procura Nick Belane a fim de que resolva um caso um tanto quanto bizarro. Samuel quis fazer algo que tornasse este indivíduo mais enigmático do que naturalmente é. E logrou seus intentos com nítido êxito. Seu andar é claudicante e sua fala é presa. Como Céline, “o maior escritor da França”, compõe uma figura soturna e cheia de mistérios, realçando os seus olhares e discursando num tom temeroso e ameaçador. Em outras passagens, o intérprete incorpora um tipo endoidecido com personalidade ansiosa e aflita, usando a voz com entoação distorcida (Samuel se desdobra com máxima eficiência em suas variações comportamentais). Carolina Chalita defende com potente sedução e volúpia o papel de Jeanie. Sua entrada em cena é inegavelmente espetacular. No decorrer da peça, Carolina, diante das reviravoltas de sua personagem, imprime com honorável entendimento as demais nuances à sua interpretação. Revela-nos a firmeza indispensável, o viés temível de seu caráter, sem perder em nenhum momento a sua aura tentadora de “femme fatale”. A atriz se utiliza da técnica apurada de sua voz e respectivas variantes para conferir elevada credibilidade ao que lhe foi proposto pelo texto na construção de Jeanie. Thogun Teixeira passeia com notável desenvoltura por todas as veredas interpretativas exigidas pelos diferenciados papéis que lhe couberam. Como o bookmaker Tony, é truculento e implacável. Como Groves, o proprietário da funerária, ostenta, em contraposição à sua forte compleição física, a fragilidade, vulnerabilidade e submissão próprias do companheiro de Jeanie, ofertando-nos apropriado e certeiro tom de comédia. E como o barman de “O Cão Sedento”, mantém a fiel postura deste profissional que se torna testemunha ocular de importantes fatos do enredo. Valendo-se de sua impressionante voz grave, Thogun cumpre com valiosa dignidade as funções que lhe foram impostas na ação. Uns dos pontos de “Uísque com Água” que merecem a nossa reverência e respeito é a riquíssima trilha sonora de Pedro Gracindo. Contando com músicos excelentes, que se posicionam à esquerda da ribalta, e atores incrivelmente bem preparados em suas vozes para o canto, Pedro criou uma fascinante trilha sonora, que se impõe, por sua importância, como elemento indissociável para o encantamento exercido no público. São acordes sofisticados que remetem ao melhor do rock e do blues, assumindo a nobre missão de emoldurar e valorizar diversos quadros cênicos. Faz-se necessário prestar atenção nas letras da canção, inteligentes e coerentes com a situação e o estado dos personagens. Há momentos solo e em coro (emocionante), além de uma canção interpretada em inglês por Nelson Freitas. O cenário de Diogo Monteiro e Dodô Giovanetti se encarrega de nos transportar com legitimidade para o intrigante universo retratado. Sentimo-nos parte integrante daquele ambiente imbuído de múltiplas referências. Percebe-se um clima underground e decadente na pequena sala onde Nick trabalha, com sua mesa de madeira (com uma luminária, uma garrafa de uísque e um copo sobre ela, dentre outros elementos), uma cadeira verde estofada e outra maior marrom com textura de couro, uma bancada com uma pequena televisão, uma geladeira antiga e uma outra luminária pendurada. Por mais que não se diga a época da narrativa, deduzimos que haja uma inspiração, com total liberdade poética, nos filmes noir norte-americanos (evidente que a presença da televisão é autorizada por esta licença artística). O bar “O Cão Sedento” possui uma atmosfera “bas-fond”, com o seu particular balcão, uma fileira de garrafas sem rótulos no alto, uma mesa com um abajur repleto de lâmpadas (seu efeito é muito bonito), uma placa em vermelho pendurada indicando o seu nome e luminárias metálicas verdes suspensas. A mansão de Jeanie é representada por um sofá estampado, tendo atrás de si uma janela envolta por estampas assemelhadas, além de um abajur. Na porta de entrada, um lustre. O figurino de Marcelo Martins também é merecedor de todas as loas. Marcelo apostou tanto na elegância dos costumes masculinos e femininos quanto na coerência dos trajes, amplamente de acordo com os perfis dos personagens, a suposta época em que transcorre a história, e a sua localidade (Los Angeles, nos Estados Unidos). O profissional não economizou nos ternos, calças com pregas, longos com brilhos, trench coat, chapéus, capote, camisas listrada e xadrez, suspensório, boina, luvas, estola e xale, além de sapatos sociais e escarpins. A iluminação de Roberto Macedo é primorosa. A sua luz exerceu um papel fundamental para o embelezamento da encenação, colaborando com suprema generosidade na ambientação adequada da narrativa. Aliando-se a um tênue fog, o iluminador presenteou o espectador com belos focos e sombreados, luzes quentes brandas (em tons amarelados), meias-luzes, um refletor com forte luz branca na lateral do palco, além do aproveitamento harmonioso das cores vermelha, azul e rosa. Podemos destacar ainda o efeito das garrafas penduradas no bar, refletindo uma tonalidade rósea. “Uísque com Água” traduz-se como um espetáculo musical que se destaca pela sua ousadia dramatúrgica, pelo resgate do legado da obra de um escritor tão incompreendido quanto venerado, como Bukowski, pela sua aposta em um elenco heterogêneo e talentoso, por trazer à baila uma outra faceta do ator Nelson Freitas, pela reafirmação do amor de Sacha Bali por este intelectual e pelo teatro, pela sua consolidação como dramaturgo e diretor, pela excelência de suas composições musicais, e por não temer em apostar neste delicioso gênero de uma forma totalmente diferente. Em certa passagem da peça, o inesquecível e único Nick Delane atribui proximamente ao seu drink preferido, uísque com água, qualidades redentoras, capazes de preencher o vazio de sua vida, saciando a sua sede de existência. Sacha Bali de certa forma faz o mesmo. Sacia a nossa sede voraz em cultivar o bom teatro, redimindo-nos, nem que seja apenas pelo tempo de “Uísque com Água”, de qualquer sensação de vazio metafórica. Sirvam-se. Fiquem à vontade. Há uísque com água para todos. Mas o primeiro copo é de Charles Bukowski.

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