“Com cenas de tensão extremamente bem realizadas pela sua equipe de direção, liderada por Carlos Araújo, dramaturgia afiadíssima de Angela Chaves e Alessandra Poggi e um elenco com atores de irretorquível qualidade, estreou na Rede Globo a supersérie ‘Os Dias Eram Assim’, que serviu não somente para resgatar o obscurantismo dos anos de chumbo da ditadura militar, mas para provar também que, em meio às turbulências políticas e sociais, é possível o surgimento de um verdadeiro amor.

Publicado: 18/04/2017 em TV

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Foto: Raphael Dias/Gshow

Os anos de chumbo já foram retratados na televisão, na própria Rede Globo, em 1992, na excelente minissérie de Gilberto Braga, “Anos Rebeldes”. Desde aquela época, muitos fatos políticos relevantes decorreram em nosso país. Hoje, o Brasil assiste estupefato ao desmantelamento de toda uma estrutura política e governamental. Soa no mínimo oportuna e pertinente a exibição da nova supersérie da emissora, escrita em conjunto por Angela Chaves e Alessandra Poggi (com a colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres), “Os Dias Eram Assim”, com a direção artística e geral de Carlos Araújo, direção geral de Gustavo Fernandez (e direção de Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França), que tem como pano de fundo parte do período histórico marcado pela truculência de uma ditadura militar até ao emblemático movimento popular e político das Diretas Já, nos anos 80. Em seu ótimo primeiro capítulo, no qual já pudemos conhecer importantes figuras da trama, fomos conduzidos para o ano de 1970, em pleno jogo da final da Copa do Mundo, em que se enfrentaram Brasil e Itália. O país está em festa, na expectativa de se sagrar campeão. No entanto, antes do jogo, testemunhamos as relações promíscuas entre o severo e perigoso empresário Arnaldo Sampaio, vivido por Antonio Calloni (Antonio brilhou ao ostentar em suas cenas o grau de complexidade deste personagem, sob várias óticas), e a cúpula militar governante. Autoritário e sem escrúpulos, Arnaldo, dono da Construtora Amianto, é casado com Kiki (Natália do Vale; sempre compensador conferir o talento desta atriz), uma mulher conservadora, moralista e submissa ao marido. A filha, a bela Alice (Sophie Charlotte, exibindo longos apliques, fez jus à qualidade de estrela de sua geração), possui uma personalidade libertária e transgressora. Está prestes a ficar noiva do ambicioso Vitor Dumonte (Daniel de Oliveira; Daniel, em seus recentes trabalhos, tem defendido bons papéis, como na minissérie “Nada Será Como Antes”). Vitor trabalha para Arnaldo, revelando uma conduta bastante subserviente. Sua mãe Cora, Susana Vieira, é uma pessoa dura, preconceituosa e objetiva (Susana deixou impressa sua forte postura cênica). Na festa promovida para selar o acordo comercial do empresário, acompanhar o jogo da seleção brasileira e anunciar o noivado de Vitor e Alice, com a presença luxuosa do mordomo composto por Ricardo Blat, a potencial noiva surge, para a fúria silenciosa de seus pais, sensualmente trajada com peças de influência hippie. Os lados opostos, sobretudo no que tange à moral e ao comportamento, geradores de sequenciais conflitos num mesmo núcleo familiar, evidenciam-se. Fomos deslocados para o universo de uma outra família da história, em que vive o sensível, porém firme, médico Renato Reis, personificado por uma das recentes revelações da TV, Renato Góes. O público, que se encantou de modo unânime com sua intensa e emocionante interpretação de Santo em “Velho Chico”, terá a chance de conhecer uma faceta completamente diferente de Renato. Deixando a rusticidade de seu personagem anterior, o ator nascido em Recife ganha ares de herói romântico, o que não deixa de ser um enorme desafio. Com os cabelos curtos, lisos e sem barba, o intérprete dignificou a responsabilidade que lhe conferiram ao lhe oferecerem um dos protagonistas da obra. Sua atuação contida, segura e meticulosa em algumas cenas, utilizando-se sobremaneira da linguagem de seu olhar, promete conquistar mais uma vez a torcida dos telespectadores. Renato é irmão do jovem militante político Gustavo, papel que coube a outra bem-vinda revelação da nova geração de atores, Gabriel Leone. Gabriel já possuía passagens na televisão, mas foi somente em “Verdades Secretas” que o talento deste jovem artista começou de fato a ser percebido, consolidando-se em definitivo na novela “Velho Chico”. O viés politizado de seu último personagem, sob outro contexto, é claro, foi mantido, mas agora Gabriel vivencia uma experiência interpretativa substancialmente distinta (no primeiro capítulo, Gabriel Leone, experiente ator de musicais, a despeito de sua juventude, presenteou o público com sua doce e afinada voz, cantarolando, e dedilhando o seu violão, o clássico de Chico Buarque, “Deus lhe Pague”). Gustavo, além de ser irmão de Renato, é irmão de Maria (Carla Salle). Todos são filhos de Vera, Cássia Kis, dedicada mãe que já demonstrou elevada preocupação com o rapaz inconformado com o “status quo”, namorado de Cátia (Barbara Reis), filha de Josias (Bukassa Kabengele), o contador da construtora, e de Natália (Mariana Lima), uma professora. Esta família inter-racial provavelmente será vítima de discriminação por parte da ala conservadora do enredo (basta nos lembrarmos do comentário com inclinação racista de Cora). Voltando a Cássia Kis, esta intérprete com longa carreira, recheada de tipos inesquecíveis na teledramaturgia, invariavelmente constrói suas personagens com uma carga emotiva que é a sua marca pessoal. Gustavo é amigo de Túlio (Caio Blat), representante de um setor mais radical da oposição ao regime totalitário. A cena em que Túlio, indignado com a faixa afixada na frente da empresa de Arnaldo com a exortação “Brasil, ame-o ou deixe-o”, decidiu lançar uma bomba caseira na área interna do prédio, foi muito bem dirigida, com mérito também para os efeitos especiais de Federico Farfan. Patrulhinhas e guardas chegam à região, e iniciam uma caçada aos militantes, onde se nota uma avolumada agilidade da direção em conduzir cenas de contínua ação. Gravadas em ruas estreitas do Centro do Rio de Janeiro, foram um dos pontos altos da supersérie (a direção de Carlos Araújo verdadeiramente nos surpreendeu, não só pelo uso inventivo de sua câmera, utilizando-se de ângulos diferenciados e closes diretos, além daqueles em que os rostos dos atores vão sendo alcançados aos poucos). Gustavo consegue escapar, mas Túlio não, sendo alvejado por um covarde tiro pelas costas em uma de suas pernas. Isto serve para nos mostrar o bárbaro e desumano processo de tortura da ditadura militar, observado impavidamente por Arnaldo, a que os opositores, muitos deles estudantes, eram cruelmente submetidos. Arnaldo, colérico com o fato de sua empresa ter sido atingida por uma bomba, conclama o delegado Amaral (Marco Ricca transmitindo com legitimidade a rudeza e subordinação de seu personagem), para quem “o pau canta, a boca abre”, a achar de qualquer jeito o segundo homem que participou do ataque, no caso, Gustavo. Retornemos à casa de Alice. Em seu quarto, desnuda-se para o seu futuro noivo, que se recusa a ceder aos seus apelos, classificando-a de vulgar. Vitor revela um comportamento moralista e eivado de machismo. A moça que gosta de ler “O Pasquim” e admira a atriz Leila Diniz é repreendida por sua mãe, na frente de sua pequenina irmã Nanda (Letícia Braga; depois, na fase adulta, será interpretada por Julia Dalavia). Alice resolve fugir pela janela, com o intuito de ir à casa da amiga Cátia, descendo pelos andaimes de uma obra em seu edifício. Renato, parado em seu Fusca branco, vê pela primeira vez aquela que balançará o seu coração pelos próximos capítulos. Com a vitória do Brasil, tricampeão mundial, papéis picados colorem as ruas da cidade. Gustavo refugia-se em um bar. Encontra-se com Cátia e Alice. Logo depois, chega Renato, e reconhece a indômita menina dos andaimes. O interesse do médico profissional pela fotógrafa amadora com sua máquina analógica Nikon só aumenta. Por sinal, só para não nos esquecermos, há uma excelente cena com Renato Góes no hospital em que trabalha, no qual, após comemorar um gol, tem que atender a uma paciente na emergência. Trata-se de Monique (Letícia Spiller), que está à espera de seu terceiro filho com Toni (Marcos Palmeira), simplesmente irmão de Arnaldo. O bebê nasce, e Monique sofre de atonia uterina pós-parto, o que a deixa à beira da morte, sendo salva por Renato. Arnaldo chega ao hospital, e exige a remoção de Monique, deparando-se com a resistência do médico (nesta hora, temos um elogiável embate entre Antonio Calloni e Renato Góes). Toni prefere que sua esposa permaneça na casa de saúde. Em agradecimento a Renato, o casal oferece a criança, uma menina chamada Esperança, para o doutor batizá-la. Marcos Palmeira e Letícia Spiller valorizam qualquer produção de que participam. Ainda na cena do bar, inicia-se nas ruas próximas uma batalha entre soldados e guardas e o povo. Os papéis picados deixam de cair para darem lugar a flagrantes de covardia explícita. Os diretores, a fim de realçar estes momentos de tensão da trama, usaram um recurso fílmico em que as imagens parecem borradas, numa velocidade mais lenta (recurso também usado na fuga de Gustavo e Túlio). Cenas de arquivo são misturadas às de ficção. Acuados, com medo, Renato e Alice nunca estiveram tão juntos. Sozinhos em um lugar inóspito, com seus azulejos quebrados, ao som de “Nossa Canção”, interpretada por Roberto Carlos, resta-lhes um ardente beijo, nascendo o grande romance de “Os Dias Eram Assim”. Ainda participarão da supersérie Maria Casadevall (Rimena), o ator chileno Alfredo Castro (Hernando), Felipe Simas (Caíque), Cyria Coentro (Laura), Maurício Destri (Leon), Nando Rodrigues (Hugo) e Julio Machado (Marcos), e tantos outros. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Flavio Mac, cuja música “Os Dias Eram Assim” fora composta por Ivan Lins e Vitor Martins, e cantada belamente pelos atores Sophie Charlotte, Gabriel Leone, Daniel de Oliveira, Renato Góes e Maria Casadevall, enfileira uma série de imagens do período focado (tanques nas ruas, manifestações de protestos de estudantes, jogadores da seleção brasileira comemorando o título…), misturadas a recortes de documentos oficiais ou não, estes escritos a mão. Percebam que a cor vermelha se contrapõe ao p&b, como signo representativo do sangue derramado nas torturas, nas execuções e nos embates diretos entre governo e oposição. A cenografia de Alexandre Gomes e Flavio Rangel se destacou pela fiel reprodução dos apartamentos sofisticado e simples, respectivamente, das famílias Sampaio e Reis (além dos interiores da construtora). O figurino coube à tarimbada Marília Carneiro e Renaldo Machado, que se debruçaram na pesquisa histórica para realçar os perfis típicos de cada personagem, seja nas peças coloridas hippies de Alice, nas roupas despojadas de Gustavo, no jaleco de médico de Renato, e nos ternos com gravata borboleta do empresário Arnaldo. A direção de fotografia ficou a cargo do prestigiado Walter Carvalho, que se valeu de acertados filtros para oferecer o máximo de credibilidade à atração. A produção de arte de Moa Batsow é incrível, atendo-se a todos os detalhes, sejam eles na decoração do quarto de Alice, ou no desfile dos memoráveis Fuscas e demais veículos, que nos fazem viajar na memória e na salutar nostalgia. A gerência musical ficou por conta de Marcel Klemm, que tem em mãos um rico material a ser explorado oriundo daqueles períodos. Tivemos na estreia “Deus lhe Pague”, cantada por Elis Regina, “A Lua Girou”, de Milton Nascimento, e “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados. Haverá ainda músicas de Os Mutantes, Vanusa, Gal Costa, outras dos Secos & Molhados, Chico Buarque, Novos Baianos, Walter Franco, Toni Tornado e Raul Seixas. Representando os Anos 80, Fábio Jr. e Marina Lima. Com esta supersérie de Angela Chaves e Alessandra Poggi, “Os Dias Eram Assim”, teremos a oportunidade de revisitar um passado obscuro do nosso Brasil, em que grassava a intolerância, o autoritarismo, a ignorância, o cerceamento da liberdade de expressão, o derramamento de sangue, o medo, a covardia, a luta armada e a divisão no país. No entanto, também teremos a oportunidade de relembrar a riqueza da cultura e da contracultura daquela época, com suas poderosas manifestações artísticas, várias delas nascidas como um grito de resistência. Da mesma forma, testemunharemos o limiar dos sopros dos ventos da democracia, por meio dos movimentos populares. E no meio desse torvelinho de acontecimentos, o amor de Renato por Alice. O amor de Alice por Renato nesses dias… Dias de luta, dias de glória, dias de guerra e dias de paz. Os dias eram assim, acreditem, para Renato e Alice. De lá para cá, muita coisa mudou. Mas alguns dias ainda são… assim.

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