“Muito bem acompanhado por sete atores que cantam e tocam instrumentos musicais, Alexandre Nero, no belo e reflexivo espetáculo ‘O Grande Sucesso’, põe em pauta várias questões atinentes ao ofício do ator, como o fracasso e o sucesso, e por extensão, ao ser humano, abordando temas que lhes são inatos, como o sentido da vida (ou a sua falta) e o porquê da morte (se é que o temos). “

Publicado: 25/04/2017 em Teatro

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Foto: Priscila Prade

Falar de sucesso não é uma tarefa fácil. Muito menos de fracasso. No entanto, estes dois fatos, amplamente significativos em sua condição, inerentes à própria vivência humana, jamais podem ser preteridos de uma reflexão mais aprofundada. Questioná-los, debatê-los, e se possível, chegar a uma conclusão já seria um… sucesso. Seria uma tentativa. Aliás, como se diz na peça escrita e dirigida por Diego Fortes (Prêmio Shell de Melhor Autor), só se atinge o sucesso se tentarmos. Da mesma maneira que somente atingimos o fracasso se tentarmos o mesmo sucesso. E para discorrer sobre estes opostos que norteiam muitas vezes o fato de uma pessoa ser feliz ou não, o dramaturgo e diretor buscou indivíduos que lhe são bem próximos: os atores. “O Grande Sucesso”, um espetáculo lindamente musicado, visualmente arrebatador, compreende a sua história, atemporal e sem localização definida, com personagens sem nome (com a exceção de um único), na coxia de um teatro, ocupada por uma trupe de atores coadjuvantes, secundários, ou quiçá figurantes, de uma montagem, um musical experimental baseado em “Édipo Rei”, de Sófocles (poderia ser “Hamlet”, tanto faz…), encenada há dez anos, onde somente um artista tem destaque, na qual, segundo os mesmos participantes, as maiores loucuras e licenças dramatúrgicas foram inseridas em seu contexto, não se importando com o entendimento da plateia. Com a duração de intermináveis quatro horas, a montagem fictícia provoca nestes artistas tão diferentes entre si, mas unidos na mesma angústia, melancolia e “sofrimento de espera” para entrar em cena, uma sensação potencialmente “beckttiana”. Alexandre Nero interpreta um desse atores, e logo em sua primeira cena com Marco Bravo, ao realizarem aquecimentos físicos e relembrarem passos coreográficos antes do início da encenação, são colocados diante do assunto morte, devido a uma determinada circunstância pessoal de um deles, e o colóquio entre ambos introduz o tom de humor que irá perpassar boa parte da peça. O personagem de Alexandre coloca em xeque a existência de um Deus, em decorrência de acontecimentos não compreensíveis que testemunhamos em nossas vidas. Todavia, revela contradição ao narrar um sonho com um Deus mulher, que lhe diz que “não há sentido da vida”. Ela apenas começa, acontecem algumas coisas e acaba. A dramaturgia ousadíssima de Diego Fortes, sem quaisquer receios de julgamentos por transgredir “convenções teatrais”, utiliza-se de algumas inspirações para costurar a sua narrativa, como a commedia dell’arte (por vezes, parece-nos que estamos assistindo a personagens saídos do clássico filme de Ettore Scola, “A Viagem do Capitão Tornado”, lançado em 1990), o nonsense e a metalinguagem. Assumidamente crítico (em algumas passagens, autorreferente), a obra se encarrega de pôr em discussão a infalibilidade do ator. O ator que sempre busca o sucesso. O ator que não pode errar. O ator, escravo de marcações e textos decorados. Esses profissionais são representativos de nós mesmos, sociedade, reféns de nossa obsessão pelo acerto absoluto naquilo que fazemos. Os fracassos sempre se colocam perante nós como algo imprevisto, porque afinal somos infalíveis. Os artistas de “O Grande Sucesso” são os invisíveis do palco, ou sombras do ator principal, habitantes em sua espera infinita do “lugar de fora”, do limbo, que preferem feijão com arroz a lagostas ou ostras. Percebe-se em certo instante um caráter pessimista e niilista, ou visto sob outro olhar, realista no papel de Alexandre, ao nos afirmar que os homens, assim como em eras pré-históricas, continuam a ser atacados por animais selvagens, só que os animais, dessa vez, somos nós, os homens (sem querer ofender). Temos vários tipos humanos, exponencialmente bem definidos e defendidos com brilho pelos atores/cantores/músicos Carol Panesi, Edith de Camargo, Eliezer Vander Brock, Fabio Cardoso, Fernanda Fuchs, o já citado Marco Bravo, e Rafael Camargo (há ainda a participação de Fernando Trauer e Thomas Marcondes). Diego Fortes, como diretor, soube explorar com sobeja sensibilidade as potencialidades artísticas de cada um, sejam elas interpretativas ou musicais. Em sua condução do espetáculo, vemos a chancela do lirismo estético, visual e musical. Suas intenções de que a música cumprisse um papel colaborativo das situações, pensamentos individuais ou que representassem a consciência coletiva foram executadas com galhardia. A despeito da oratória reflexiva e filosófica de sua dramaturgia, o humor e o histrionismo não foram dispensados, como dito acima, muito pelo contrário, ganharam protagonismo em bastantes cenas, notadamente aceitas pelo público. A direção objetivou também a interação maximamente direta com os espectadores (com cenas inclusive na plateia), e outra em escala um pouco menor. Privilegia-se a ação contínua do elenco (enquanto um ator fala, ou dialoga com outro, há um ou mais personagens exercendo uma atividade; os intérpretes se movimentam em grupo, ou separadamente, em direções variadas). Fez valer a importância das pausas, dos silêncios. Adotou com deliberação uma linguagem dinâmica e ágil para que a mensagem de sua narrativa ganhasse corpo cênico. Quanto às atuações, Alexandre Nero, o qual estamos acostumados a ver em performances marcantes na TV, percorre um caminho cheio de bifurcações ricas em possibilidades interpretativas, enfrentando e se saindo magnificamente bem a cada porta de entendimento de seu complexo personagem que se abre. Alexandre é um ator, pode-se dizer, ousado, destemido, indefinível, pois múltiplas são as variações e transformações por que passa, mínimas que sejam, que o fazem alcançar um nível elevado de desempenho. A peculiaridade deste, razão pela qual se justifica a admiração explícita do grande público, está nos detalhes. Alexandre pode ser blasé, indiferente, ativo, intenso, robusto, frágil, utilizando-se apenas de sua voz (uma pequena oscilação, que seja), um meio sorriso (ou escancarado), e seu potente olhar, que atende a todas as exigências de emoção que lhe são feitas. Tendo uma carreira paralela de cantor, o artista mostra a excelência vocal nas músicas que interpreta, e uma louvável intimidade com mais de um instrumento. Alexandre Nero, como mencionado no título, está acompanhado por sete atores, sete artistas inegavelmente versáteis e talentosos nas muitas atribuições e encargos que lhes são ofertados pela montagem, sejam no campo da atuação, nas áreas do canto ou no encantador e fascinante universo dos instrumentos musicais. Carol Panesi nos provou soberbamente a sua destreza ao tocar o seu violino, tirando sons inefáveis de tão belos. Edith de Camargo encanta os espectadores com a sua doce e charmosa francesa que adora tirar “fotos de família”. O seu bordão “Un, Deux, Trois…” seguido de uma onomatopeia, antes de registrar os momentos da trupe, são irresistíveis. Interpreta com imensa emotividade a canção “Je nóse pas rêver”, composta por ela mesma. Eliezer Vander Brock constrói o seu engraçadíssimo homem-bala com notória inventividade. Fabio Cardoso esbanja a sua irretocável maestria nos teclados, com a adoção de uma postura sóbria, séria e compenetrada. Fernanda Fuchs exibe elogiável expressividade corporal ao dar vida à atriz que crê que a mensagem do ator se baseia em uma interpretação exagerada. Uma de suas cenas que podemos destacar é aquela em que procura se encontrar com o ator principal da peça, surpreendendo-se com o final deste episódio. Marco Bravo aposta com inegável êxito em sua adorável espontaneidade, percebida tanto nas cenas que divide com Alexandre Nero, quanto nas compartilhadas com os outros intérpretes, como Eliezer Vander Brock e Rafael Camargo. Já Rafael Camargo impinge ao seu ator desenhado com meticulosa, suave e propositada afetação a dose certa de comicidade. Rafael possui uma cena de plateia em que expõe toda a sua qualidade vocal. A direção musical de Gilson Fukushima exerce função primordial na peça, não somente pelo seu brilhantismo, virtuosismo e sensibilidade, mas pela sua representação como elemento-chave na composição das ações cênicas. Gilson soube como ninguém orquestrar o conjunto de múltiplas informações sonoras compreendidas no enredo, urdindo com uniformidade a importância das onze composições musicais (algumas escritas pelo elenco, outras pelo próprio Gilson, Diego Fortes, e demais compositores), com o maravilhoso e enternecedor manuseio de diversos instrumentos ao vivo pelos seus intérpretes. A Carmen Jorge coube a tarefa de dirigir os movimentos e criar as coreografias. O trabalho de Carmen com os atores é realçado pela precisão e geometria dos gestos, pela cadência e compasso dos andares dos atores em determinadas cenas, pela leveza e romantismo de algumas danças, pela consciência de coletividade traduzida pelos corpos em constante movimentação. A diretora se debruçou em extrair dos artistas a linguagem corporal que melhor se aproximasse da identidade visual e comportamental de cada personagem integrante do jogo cênico. O design de luz de Nadja Naira é reconhecidamente deslumbrante e inspirado. Há poesia e lirismo na escolha das texturas, formas e intensidades luminosas escolhidas. Nadja teve ampla percepção em harmonizar o quadro da narrativa com os focos adequados sobre os atores, os planos abertos à serviço da vivacidade da ação, os pontos luminosos advindos de luminárias do cenário, e o uso de um forte refletor no canto direito da ribalta. Merecem elogios outrossim a linda luminosidade simbolizadora do pôr do sol, e a fileira de lâmpadas rentes ao chão no fundo do palco em seu fulgurante apagar e acender. A cenografia extasiante de Marco Lima se esmerou em preencher o espaço representante da coxia com o maior número de elementos possíveis que nos reportassem para esse ambiente mágico teatral. Marco oferece ao público um espaço cenográfico riquíssimo, cheio de informações visuais, com bastantes cores, todas elas confluentes para um único ponto, garantindo a coerência de seus intentos e sua consonância com a dramaturgia. As peças decorativas são antigas, de um passado que desconhecemos, encaixadas uniformemente num grande “tabuleiro” onírico. Há um baú de madeira envelhecida, cordas, baldes de latão espalhados, regador, um manequim, tamborete e cadeiras, penteadeira sobre a qual se encontram objetos diversificados, araras com roupas penduradas (uma das coxias reais do teatro fica à mostra), quadros, retratos, abajur e luminárias. No fundo da ribalta há uma enorme parede de tijolos com encanamentos hidráulicos à vista, além de uma pia. Os figurinos de Karen Brusttolin, vencedora do Prêmio Shell, atinge um patamar de elevada qualidade, causando-nos inevitável alumbramento. Sua obra é criativa, elegante, colorida, engraçada, inspirada, eloquente e lúdica. A figurinista mesclou estilos distintos, apropriando-se de tecidos, acessórios e complementos variados. Vasculhando e se apoderando de uma vasta paleta de colorações, Karen conseguiu somar à alma dos personagens o que lhes faltava para torná-los mais reconhecíveis em sua genuína identidade. Nossos olhos acompanham atentamente e com desmedido deleite ao primoroso desfile de vestidos, ternos, jaquetas, blusas, chapéus, adereços, malhas, plumas, botas, sapatos e fantasias de encantadores e engraçados bichos de pelúcia. O visagismo, sem dúvida, levando-se em conta todo o contexto da peça, assumiu um posto de irrevogável relevância. Sabendo disso, a dupla Wilson Eliodorio e Junior Mesquita se empenhou na realização de um trabalho precioso, delicado, poético, a fim de que os integrantes da história narrada nos passassem uma mensagem que fosse além da caracterização simplificada. O que se vê em cada ator é uma suprema valorização de sua persona, seja nos olhos sombreados dos intérpretes, nas suas sobrancelhas desenhadas, no cabelo azulado de Alexandre Nero, nos coques arrumados com zelo, ou nas pinturas dos lábios dos artistas. “O Grande Sucesso” é um espetáculo musical inebriante, interpretado e dirigido com visível paixão, que se propõe, e o faz com indiscutível propriedade, a discutir questões que nos acompanham desde que nascemos. Sucesso, fracasso, vida, morte… Os porta-vozes desse grande debate são eles, os artistas. Grandes desde que nascem. Grandes por não deixarem que a sua Arte feneça. O sucesso desses grandes homens pode até morrer um dia, mas a grandeza de seus feitos e missões, essa jamais perecerá. Esse é de fato o grande sucesso.

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