“Hugo Bonemer e Betto Marque, cercados por um inspirado elenco, interpretam um casal de militares apaixonados em meio às adversidades da Segunda Guerra Mundial, no espetáculo ‘Yank! – O Musical’, dos irmãos David e Joseph Zellnik, que se une a outros em cartaz na gloriosa luta pela aceitação da diferença, consolidando-se como um aliado do combate artístico ao vício do preconceito”.

Publicado: 23/06/2017 em Teatro

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Foto: Bernardo Santos

Nunca se viu no cenário nacional tantos espetáculos teatrais sendo encenados ao mesmo tempo, ou com períodos de temporada próximos, que se empenham, por intermédio de suas dramaturgias, em retratar outras formas de relacionamento afetivo, pregando, sem doutrinações, a aceitação pelo outro da diferença, e servindo como poderosa arma de dissolução das mazelas deixadas nos rastros dos preconceitos da sociedade civil. Faltava apenas um musical para tocar neste assunto. E “Yank! – O Musical” veio com força para cumprir esta missão. O texto pertence aos irmãos norte-americanos David Zellnik e Joseph Zellnik, e sua primeira apresentação ocorreu no circuito Off-Broadway em 2010. Recebeu sete indicações ao Drama Desk Awards, indicações como “Melhor Musical” no Outer Critics Circle Awards e Lucille Lortel Awards, sendo traduzido e adaptado no Brasil com suas respectivas versões por Menelick de Carvalho, também diretor cênico, e Vitor Louzada. Esta é a primeira vez que o texto dos irmãos Zellnik é representado em uma língua não inglesa. A história se inicia com Hugo Bonemer nos relatando que foi encontrado em um sebo um diário de um correspondente de guerra americano, Stu (Hugo Bonemer), no qual havia suas impressões de suas experiências na Segunda Guerra Mundial, eternizadas no formato de confissões, reflexões, revelações ou simplesmente registros. Mas o que mais chamou a atenção neste velho diário foram as lembranças de um tórrido amor que viveu intensamente com o seu colega de pelotão, o sedutor Mitch (Betto Marque), desde a época do treinamento nos Estados Unidos, passando pelo conflito em si, culminando com o seu término. Passamos então a acompanhar o dia a dia do pelotão 89 em sua fase preliminar de treinamento, por volta de 1943. Nele, há todos os tipos de indivíduos, como o durão e severo Tennessee (Conrado Helt), o exagerado e divertido Professor (Leandro Melo), Artie, o correspondente da revista “Yank” (Leandro Terra), o Sargento que cita Scarlett O’Hara (Bruno Ganem), o austero Cohen (Robson Lima), Rotelli (Chris Penna), Czechowski (Dennis Pinheiro), e Swing (Alain Catein). Stu é um dos mais jovens. Extremamente sensível, mergulha-se em embates pessoais quanto à sua natureza sexual. Possui enormes dificuldades de se entrosar com o grupo, que repetidas vezes zomba ou faz pilhérias de seu jeito “diferente”. O convívio entre os rapazes floresce o clima de intimidade entre eles, o que lhes permite a troca de provocações machistas e gracejos com tons pornográficos. Stu começa a se sentir mais útil e valorizado quando recebe um convite de Artie para ser correspondente do jornal “Yank” (como todas as publicações de guerra, somente as “boas notícias” podiam ser reportadas, jamais os seus horrores). A postura frágil de Stu desperta o interesse do galã do pelotão, Mitch. Mitch, a princípio, reluta em aceitar os seus desejos pelo correspondente. Stu está cada vez mais certo de seu amor pelo companheiro de tropa. O relacionamento de ambos suscitará distintas reações, que vão da hostilidade de alguns, ao posicionamento zombeteiro de outros, até a naturalidade de terceiros. A partir do fato em que os soldados concluem a sua etapa de treinamentos, e vão para os locais de confronto direto, as condutas e os perfis de alguns deles mudam. Ir para o front se estabelece como condição de status para os combatentes. As lutas interpessoais e as diferenciações hierárquicas se acentuam. No mesmo ambiente onde há mortes de amigos e inimigos japoneses, há espaço para a diversão dos shows de belas e voluptuosas mulheres (Fernanda Gabriela) e sessões inofensivas de cinema. O amor de Stu e Mitch tem que sobreviver a todos os tipos de intempéries, como distanciamentos, e principalmente o escancarado preconceito de seus superiores. A descoberta da homossexualidade de um militar por aqueles lhe dava duas únicas alternativas: a prisão ou a ida para a frente de batalha. Vale dizer que em recente entrevista ao programa “Sem Censura”, da TV Brasil, o ator Hugo Bonemer nos contou um fato histórico. Segundo ele, os movimentos gays americanos começaram a se organizar efetivamente a partir do retorno de ex-combatentes homossexuais do front à sua terra natal, em específico a cidade californiana de São Francisco, onde, no bairro Castro, estes mesmos homossexuais eram perseguidos por policiais – esta abordagem violenta se tornou mais dificultosa, pois se tratavam agora de militares gays. A dramaturgia de David e Joseph Zellnik se firma pelas suas intenções em nos revelar por meio de um retrato cênico bem acabado não só o cotidiano próprio de um conjunto de rapazes dentro de um contexto extraordinário, mas também por nos convencer de que o amor entre iguais, ainda que em um ambiente exponencialmente opressor como o militar, inclusive em tempos de guerra, detém uma capacidade inquebrantável de superação, independente de seus ferrenhos opositores. As charmosas e delicadas canções (libreto e letras de David Zellnik; músicas de Joseph Zellnik) são inseridas no desenho narrativo de modo oportuno, coerente e preciso, ou seja, cumprem o seu relevante papel de realçar sonora e melodicamente os fatos pontuais e o tema central do espetáculo teatral. Suas mensagens são bastante claras. A peça se proclama como um libelo artístico contra as intolerâncias humanas, o preconceito enraizado do indivíduo, as imposições sociais que não se justificam, e de certa maneira contra as insanidades atinentes aos atos beligerantes. Os autores se preocuparam em suavizar o clima pesado de um universo conflituoso de proporções mundiais com doses escalonadas de humor e ironia, que funcionam com inegável êxito. Ao abordarem a homoafetividade sem panfletagens, os dramaturgos não só enaltecem o amor e suas infinitas possibilidades de realização, mas também o estado de paz presente na alma do homem quando este sentimento se completa. Há mesmo que subliminarmente uma mensagem pacifista no cerne do texto, ao evidenciar as incongruências e descabimentos natos às ideias e práticas bélicas. Menelick de Carvalho, o diretor, transpôs com primor e notada eficiência a rica atmosfera em que vive o pelotão, com seus dilemas, idiossincrasias, relações interpessoais, visões sobre a guerra e referências individuais. Menelick, com muita habilidade e precisão, nas duas horas de espetáculo, com direito a entreato, deu atenções especiais às cenas de grupo, extremamente dinâmicas, às passagens com momentos mais íntimos e românticos de Stu e Mitch (estas ações mereceram um tratamento delicadíssimo, com bonito resultado), e aos instantes de tensão envolvendo dois ou mais personagens. Os ótimos números musicais foram enquadrados com cálculo e argúcia pelo encenador nos espaços propícios da peça, atingindo um admirável equilíbrio. Em suas mãos, todo o elenco teve a sua chance de brilhar. Não é fácil dirigir um musical, levando-se em conta os múltiplos elementos que o caracterizam, porém Menelick de Carvalho exerceu pleno domínio sobre aqueles, provando-nos seu conhecimento vasto sobre o gênero. A direção musical e os arranjos originais são de responsabilidade de Jules Vandystadt. O desenho de som, que acompanha com elevada propriedade a obra de Jules, é de André Breda. A contribuição do diretor musical e arranjador para a concretização desta montagem foi fundamental. Percebe-se sua extensa sensibilidade para adequar as suas composições/arranjos ao desenvolvimento da ação narrativa, e na condução competentíssima das várias canções que permeiam o espetáculo. Os atores possuem notório preparo vocal, e o diretor, ciente do precioso material que tinha em mãos, aproveitou-o em seu nível máximo. Um dos pontos nobres da encenação, sem dúvida, é a presença de uma orquestra prodigiosamente virtuosa em seus atributos. São músicos de irretorquível profissionalismo, merecedores de intermitentes aplausos. Na regência e no piano, Ciro Magnani; no violoncelo, Thaís Ferreira; na bateria, Léo Bandeira; no baixo, Matias Correa, e nos sopros, Marcos Passos. As coreografias de Clara da Costa são espetaculares. Ela se utiliza com proficiência das habilidades físicas dos rapazes, produzindo criativos movimentos que em diversas passagens nos lembram exercícios militares. São marchas, saltos, e demais movimentações agrupadas ou não que se casam perfeitamente com as canções selecionadas. Há uma mescla inteligente de força bruta e leveza plástica. Os números de sapateado, que tiveram a direção de Gabriel Demartine, são deliciosamente apreciáveis. O desenho de luz foi assinado por Daniela Sanchez. Daniela se esmerou em buscar as informações visuais luminosas que melhor traduzissem o mundo no qual transcorre a história daqueles soldados, e obteve com a sua obstinação um bonito e harmonioso quadro cênico. Não houve economias em planos abertos realistas e focos intimistas, alguns com cores (como nas cenas entre Stu e Mitch, e nas apresentações dos shows das mulheres personificadas por Fernanda Gabriela). Um trabalho inspirado com acentuada dignidade. Os figurinos de Samuel Abrantes nos levam irremediavelmente, o que indica o seu total e absoluto acerto, não só ao tempo em que se passa a ação, mas também ao território específico em que vivem e convivem aqueles soldados agrupados em um pelotão. As fardas/uniformes dos jovens são em tons crus, em aliança com seus indefectíveis coturnos. Peças muito comuns entre os militares são as regatas brancas, também representadas. Ainda são vistos um jaquetão de um superior militar e seu quepe, as roupas casuais e esportivas, incluindo um boné, usadas por Hugo Bonemer em especial ocasião, além dos belos e exuberantes vestidos com ou sem brilhos trajados por Fernanda Gabriela em seus shows, que em muito nos lembram as pin-ups bastante admiradas à época. A concepção cenográfica é de Menelick de Carvalho, com cenografia e adereços de Victor Aragão. O cenário se propõe a retratar com poucos elementos as particularidades do local central do desenvolvimento narrativo, principalmente o quarto e demais instalações, enfim, o alojamento onde estão lotados os militares personagens da trama. Tudo foi pensado de forma não só a buscar estas referências mas também em se atingir um patamar de funcionalidade o qual servisse plenamente à montagem. Menelick e Victor alcançaram os seus objetivos. A primeira imagem que temos é de um escrito, como se fosse um letreiro, todo em vermelho, na parede negra ao fundo do palco, com a palavra que não só intitula a revista da tropa mas o nome do espetáculo: “Yank”. Uma plataforma é usada como tablado para os shows, um beliche metalizado corrediço é levado de um ponto a outro com demasiada eficiência, e uma banqueta de origem semelhante possui distintas utilidades, além de cadeiras. O elenco formado por onze atores, com notáveis experiências em musicais, destaca-se sobremaneira em suas missões ao oferecer ao público não só excelentes números de dança e canto, mas também ao desenhar com extrema compreensão interpretativa e observação acurada, açambarcando uma paleta consideravelmente ampla de emoções, os diferenciados perfis dos personagens. Hugo Bonemer, que passou a ser respeitado neste gênero a partir do musical “Hair”, vindo a fazer outros, como “Rock in Rio – O Musical” (o sucesso lhe valeu a abertura no Rock in Rio Lisboa), e o mais recente, “Ordinary Days – Um Musical Off-Broadway”, entrega-se profundamente ao seu papel, o correspondente de guerra Stu. Hugo tem ao seu dispor, com este protagonista, uma gama enorme de viabilidades de exploração dos sentimentos e comportamentos deste homem sensível, vulnerável, confuso e apaixonado. O ator, com brilho, utiliza-se das tintas mais apropriadas para nos transmitir todas estas faces de seu personagem. Nota-se que sua capacidade vocal está cada vez mais apurada, atingindo as notas que lhe são exigidas. Costumo dizer que Hugo Bonemer teve a sua voz “moldada nos céus”, devido à sua linda afinação, doçura e emotividade. Betto Marque (que já participou do musical “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”), como o viril e durão militar Mitch, desenvolve com visível elegância a complexa ambiguidade de seu papel. Betto consegue encaixar as doses exatas de sensibilidade ao homem até então heterossexual que se vê envolvido afetivamente por uma pessoa do mesmo sexo. O contraste entre a fortaleza física do jovem, suas supostas convicções de orientação sexual e sua delicadeza emocional ao concretizar os seus desejos íntimos com Stu demandaram do ator um extenso entendimento de interpretação no sentido de realizar uma composição de seu papel que fosse atraente para os olhos dos espectadores. Sua voz é arrebatadoramente pujante e envolvente, certeira nas variações dos tons solicitados. A gravidade de suas entoações vocais nos soam prazerosas, agradáveis e encantadoras. O casal formado por Stu e Mitch nos convence e nos comove por sua absoluta verdade e destemor face aos naturais e inevitáveis obstáculos. Leandro Terra, como um dos jornalistas de “Yank”, oferece-nos pinceladas irônicas únicas, o que imprime à encenação uma bem-vinda leveza. Fernanda Gabriela, repetindo a parceria com Hugo Bonemer depois de “Ordinary Days…” resplandece a cada aparição nos shows apresentados ao pelotão. Fernanda, dotada de uma voz lindíssima, entorpecedora, criou para cada uma dessas cantoras uma personalidade própria. O que há em comum entre elas é um evidente ar de sedução e sensualidade, o que nos leva a crer que Fernanda se inspirou coerentemente nas divas da canção dos anos 40. Conrado Helt, de “Hair” e “Cinderella”, como Tennessee, mostrou-nos com apuro elementos bem definidos da rudeza e aspereza de seu militar, inconformado com a relação homoafetiva de seus colegas. Completam o talentoso time de “Yank! – O Musical” Chris Penna (de “Chacrinha, O Musical” e “Beatles Num Céu de Diamantes”), Leandro Melo (participou de “Elis, A Musical”), Dennis Pinheiro (foi visto em “S’imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal”), Bruno Ganem (“Andança, Beth Carvalho – O Musical”), Robson Lima (“O Mambembe, Um Musical Brasileiro”), e Alain Catein (exibiu suas habilidades em “Godspell”). Enfim, testemunhamos um elenco uniformemente comprometido com a encenação, cumprindo com galhardia todos os pré-requisitos para se fazer um bom musical. “Yank! – O Musical” se enquadra com grandes méritos em um momento bastante delicado de nossa era, no qual se discute abertamente, mesmo que seja em meio a petardos retrógrados, conservadores e obscurantistas, sobre a aceitação pela sociedade de outras possibilidades de relação afetiva e amorosa que não seja aquela ditada como a correta, a normal, a tradicional e adequada às convenções obedecidas pela coletividade. Com uma história sensível, com toques de humor, ainda que seja ambientada em tempos de horror, como a Segunda Guerra Mundial, “Yank! – O Musical”, composto por uma equipe sabedora de suas funções, oferta-nos com suas inspiradas dramaturgia e música, suas coreografias e seus atores um pequeno retrato simbolizador da infatigável peleja daqueles que combatem a escuridão da ignorância e do nefando preconceito. Não há forma de “protesto” e “denúncia” mais sutil e admirável do que aquela feita por meio do poder positivamente manipulador da música, esta etérea e inefável manifestação artística que se origina na mais pura e honesta vontade humana. E “Yank! – O Musical” faz isso muito bem. Nem é preciso comprar a revista homônima. É melhor ver ao vivo.

comentários
  1. Hugo Bonemer disse:

    É tåo impressionante como voce é observador, Paulo. Raros os que vem ao teatro e procuranm perceber as escolhas dos arristas, mais do que criar opinioes de como deveria ser feito. Que bom que o Teatro tem alguém como você!

    Curtido por 1 pessoa

  2. pauloruch disse:

    Hugo, como é importante para mim ler o que escrevera. Disse algo que merece a nossa atenção especial: “Raros os que vêm ao teatro e procuram perceber as escolhas dos artistas, mais do que criar opiniões de como deveria ser feito.” E que bom que o Teatro tem um ator tão sensível e comovente como você. Eu o admiro e o respeito, Hugo Bonemer, com toda a minha sinceridade. Muito obrigado!

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