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Romulo Estrela, na frente à direita, junta-se à CiaTeatro EPIGENIA, fundada pela atriz Luciana Fávero e Gustavo Paso, autor e diretor do espetáculo/Foto: Luciana Salvatore

Romulo Estrela incorpora com brilhantismo o personagem-título da adaptação da obra machadiana, que reproduz com beleza elementos góticos e expressionistas, além de adotar um tom farsesco/burlesco

Revolver a riquíssima literatura machadiana forjando o seu encontro com as aberrações políticas vigentes do país não é das tarefas mais tranquilas. Destemidos, os autores Celso Taddei e Gustavo Paso (também diretor) se inspiraram livremente em um dos contos mais celebrados do “Bruxo do Cosme Velho” para realizar o mais novo espetáculo da CiaTeatro EPIGENIA, “O Alienista” (1882). À companhia, que completa 22 anos, juntou-se um dos atores mais talentosos e requisitados de sua geração, Romulo Estrela, a quem coube a desafiadora missão de incorporar o lunático e tirânico personagem-título, o alienista Dr. Simão Bacamarte. Romulo se despe brilhantemente de sua persona executando um trabalho de construção de personagem arrebatador, memorável em todos os detalhes, desde a postura física até a entonação de sua voz. A potente montagem, que nos entrega com beleza elementos góticos e expressionistas, mostra o insano périplo do cientificista que ambiciona dominar o mundo, utilizando-se de seus estudos duvidosos que objetivam tornar os homens manipuláveis. Num tom farsesco/burlesco, Simão tem que se aproximar de políticos espúrios adeptos da promíscua equação religião/política a fim de colocar em prática o seu intento de edificar um asilo, a Casa Verde, cuja proposta é confinar sem critérios estabelecidos todos os “loucos” da metrópole Itaguaí.

“O Alienista” busca a lucidez de suas plateias em um Brasil chafurdado por uma classe dirigente insana e enlouquecida, os reais pacientes de Simão Bacamarte

A direção apaixonada de Gustavo Paso se alimenta de doses consideráveis de acidez, comicidade e crítica social, valendo-se apropriadamente de recursos cênicos como o coro grego, a pantomima e até mesmo a commedia dell’arte com tintas mais sombrias. Contando com um numeroso elenco de atores/cantores adoráveis, como os ótimos Gláucio Gomes, Vitor Thiré, Tecca Maria e Luciana Fávero (fundadora da companhia ao lado de Gustavo Paso), além de Tatiana Sobral, Samir Murad, Dodi Cardoso, Renato Peres, Anna Hannickel, Laura Canabrava, Renato Ribone, Erick Villas e Eduardo Zayit, o encenador se favorece com a imponência do cenário criado pelo próprio (ele assina a direção de arte), possuidor de mais de um plano com rampas, entradas e escadas com apostas no branco, no preto e no cinza. Os figurinos de Graziella Bastos, assaz originais e eloquentes, ostentam caráter distópico/apocalíptico. A sublime trilha original executada ao vivo por André Poyart transita pelo lúgubre, pelo suspense, sem se distanciar do belo (reserva-se em momento oportuno uma emocionante surpresa com efeitos catárticos). A soberba iluminação de Paulo Cesar Medeiros enleva o público com sua sabedoria estética entre sombras, focos e gerais. O visagismo de Gustavo Paso, Graziella Bastos e Renato Ribone nos impacta pela sua força expressiva. “O Alienista”, com sua pujança textual e cênica, não só presta uma homenagem a Machado de Assis, mas o usa como instrumento legítimo para buscar a lucidez de suas plateias em um Brasil chafurdado por uma classe dirigente alienada, enlouquecida e insana, os reais pacientes de Simão Bacamarte.

2 comentários sobre ““A riquíssima literatura de Machado de Assis é lindamente usada em ‘O Alienista’ pela CiaTeatro EPIGENIA e Romulo Estrela como instrumento legítimo de crítica a todos os desacertos da política vigente nacional.”

  1. marcia petrone disse:

    Bom dia, Paulo!

    Estava ansiosa esperando sua crítica. Excelente! Seu texto desperta no leitor a vontade de ver a peça e mais, ler o livro. Acredito que precisamos redescobrir, revalorizar e trazer para o povo os grandes autores de nossa literatura.

    Um forte abraço!

    Marcia.

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    Curtido por 1 pessoa

    1. pauloruch disse:

      Olá Marcia, boa tarde!
      Muito obrigado pelo seu comentário tão construtivo.
      Fico verdadeiramente feliz ao saber que o que escrevi desperta essas vontades tão preciosas no leitor.
      O meu intento é o de não somente valorizar as qualidades e potencialidades do espetáculo mas o de incentivar as pessoas a irem ao teatro, e neste caso, se lerem o livro no qual se inspirou, melhor ainda.
      Concordo com você.
      Vamos prestigiar cada vez mais os nossos grandes autores, a nossa inestimável literatura.
      Um forte abraço!
      Paulo

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