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Patrícia Selonk, Isabel Pacheco e Felipe Bustamante, da Armazém Cia de Teatro, vivem atores na turbulenta Rússia do início do século XX/Foto: Mauro Kury

A Armazém Cia de Teatro, uma das mais importantes do país, comemora seus 35 anos de atividades montando Guillermo Calderón, renomado dramaturgo e diretor chileno

Quando a arte, a política e a História se entrecruzam em um contexto narrativo teatral os efeitos transformadores desta interseção são tão logo percebidos por quem os testemunha, o público. Este trinômio é muito bem desenvolvido por um dos mais proeminentes dramaturgos e diretores chilenos da atualidade, Guillermo Calderón, em seu texto “Neva”, de 2005, traduzido com notada eficiência por Celso Curi para a mais recente montagem da premiadíssima e celebrada Armazém Cia de Teatro, comemorando 35 anos de serviços prestados às artes no país.

A história se passa na Rússia czarista do início do século XX, confrontando os questionamentos de três atores que ensaiam uma peça enquanto fora do teatro onde estão ocorre uma rebelião popular

Dirigida por Paulo de Moraes com interlocução artística de Jopa Moraes, a peça retrata a convivência da primeira atriz do Teatro de Arte de Moscou, a alemã Olga Knipper (Patrícia Selonk), viúva do grande dramaturgo Anton Tchekhov, e de mais dois atores, Masha (Isabel Pacheco) e Aleko (Felipe Bustamante) durante os ensaios de “O Jardim das Cerejeiras” em um teatro em São Petersburgo, capital do Império Russo, em 1905. Contudo, enquanto Masha e Aleko estão às voltas com as obsessões emocionais de Olga quanto à encenação dos momentos finais de Tchekhov, lá fora manifestantes que decidiram entregar ao czar uma petição com reivindicações sociais são massacrados pelas tropas imperiais, o que se conhece como o “Domingo Sangrento”. Os três atores são levados a uma série de digressões acerca de vários temas com vieses políticos, artísticos e humanos, como a relevância ou não do fazer teatral perante uma realidade injusta e desigual para a sociedade. Todos esses elementos são ricamente encadeados por Calderón em sua estrutura textual, onde não faltam verdades ácidas, desconcertantes, e um humor em sua essência particular.

Direção com marcações requintadas de Paulo de Moraes, música potente de Ricco Viana, luz valiosa de Maneco Quinderé e atuação arrebatadora de Patrícia Selonk obrigam o público a assistir a “Neva”

Paulo de Moraes, também responsável pela instalação cênica, explora com requinte as triangulações das marcações e o proscênio. A ideia das interlocuções por meio de microfones é criativa e producente, denotando em alguns momentos impressões não naturalistas. A música poderosa e envolvente de Ricco Viana assume papel primordial na obra, assim como a valiosa luz de Maneco Quinderé, que aproveita as possibilidades estéticas de três luminárias suspensas, além de spots laterais. Os figurinos de Carol Lobato alternam-se entre a leveza de um collant com saia longa vistos em Olga e o estilo de suspensórios utilizados por Aleko. Patrícia Selonk nos entrega uma atuação arrebatadora, percorrendo trilhas difíceis do alto drama com pausas estratégicas para o cômico. Patrícia, junto com Ana Lima, encarregou-se da preparação corporal. Isabel Pacheco nos garante cenas de vultoso impacto e Felipe Bustamante se engaja com vitalidade às experiências de Aleko.
Assistir a “Neva” é preciso.

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