“Em atuação emocionada, intensa e visceral, Isabel Teixeira dá voz ao último e inédito desabafo textual de uma grande dramaturga do nosso país, Jandira Martini.”

Isabel Teixeira é a protagonista do último texto inédito da dramaturga, atriz e diretora Jandira Martini/Foto: Flora Negri

Marcos Caruso e Jandira Martini comemoram sim a rara cumplicidade artística que atravessou quatro décadas

Este ano seriam comemorados os 40 anos de parceria profissional de Marcos Caruso e Jandira Martini, dois consagrados autores, atores e diretores brasileiros, donos de alguns dos maiores sucessos teatrais já vistos, como “Sua Excelência, O Candidato”, “Porca Miséria” e “Operação Abafa”, além de roteiros para o cinema e televisão, como a novela da extinta Rede Manchete, “A História de Ana Raio e Zé Trovão”. Todavia, Marcos e Jandira comemoram sim a rara cumplicidade artística que atravessou quatro décadas ao ser encenado o último e inédito texto da dramaturga falecida em janeiro passado, “Jandira: – Em Busca do Bonde Perdido”, estrelado por Isabel Teixeira. Nada mais justo e coerente que a Mesa2 Produções e os filhos da atriz convidassem o amigo de todas as horas para dirigir este material corajoso e pessoal carregado dos mais profundos e variados sentimentos de um ser humano que teve o diagnóstico de uma agressiva doença.

Uma dramaturgia que aborda a iminência da finitude do homem com a mais bonita das intenções poéticas e admiráveis bravura e exposição individual

Como primeira impressão, o espectador de teatro poderia imaginar de que se trataria de uma dramaturgia pesada, sombria e pessimista. Não, Jandira Martini, acostumada a criar comédias inteligentes e escancaradas, não faria isso com o seu público. Há em seu texto a carga dramática inevitavelmente demandada pela situação excepcional por que passa, entretanto, sua mente inventiva abriu as portas para que o humor ocupasse o seu devido espaço, seja em tom de autoironia ou nas observações sarcásticas que elabora com o que acontece ao seu redor, como na dura rotina de procedimentos terapêuticos aos quais tinha que se submeter, a mudança na aparência, os sintomas que a perturbavam e o seu contato com os médicos e outros pacientes. A peça com certeza se encaixa no gênero da autoficção, visto que a plateia é levada com muita naturalidade às rememorações de Jandira de sua infância em Santos, São Paulo, cidade em que nasceu, de suas andanças e brincadeiras fantasiada pelos blocos carnavalescos, de seus amigos que já não estão mais presentes, além da imagem idílica da praia, dos bondes a circular pelas vias urbanas santistas e a piada inesquecível de um ator local em um espetáculo. Todo esse processo que aborda a iminência da finitude do homem é azeitado com a mais bonita das intenções poéticas, eivado de admiráveis bravura e exposição individual, mesmo que a defesa da privacidade lhe fosse uma característica, fazendo com que a sua narrativa mexa inexoravelmente com as sensibilidades alheias.

Isabel Teixeira é daquelas atrizes ímpares que possuem as suas emoções na superfície da pele contagiando a alma de todos que lhe assistem

Para o diretor Marcos Caruso esta deve ter sido, sem sombras de dúvida, uma das missões mais desafiadoras de toda a sua extensa e bem-sucedida carreira. Marcos não poderia ser tomado, assumindo potenciais riscos, de parcialidades e freios com objetivos de preservar a imagem de sua amiga, parceira e colega de ofício, justificáveis pela própria natureza do relacionamento, devendo imperativamente se despir desta roupa que lhe cabe e reverenciar cada linha e intenção deixadas pela autora no calor de suas legítimas emoções, e fora o que de maneira inequívoca o sábio diretor fez. Todo o pungente retrato pintado por Jandira Martini sobre ela mesma está lá, em cima do palco, com todas as dores e risos possíveis, para quem quiser ver e escutar. O encenador tinha à frente a sua protagonista Isabel Teixeira, toda uma ribalta vazia explorável e uma dramaturgia que lhe soava bastante familiar, e o que se logrou fora uma obra com irrepreensíveis precisão, delicadeza e paixão, testemunhadas nas bem executadas transições entre passagens de vida distintas de Jandira, nas emoções com altíssima voltagem extraídas da intérprete, na calculada inserção das músicas em momentos-chaves da peça e na aposta na coloquialidade de sua “personagem” como eficaz canal de interlocução com a plateia. Isabel Teixeira, atriz paulistana com notória respeitabilidade por seus gloriosos anos de trabalho dedicados à arte teatral, com merecidíssima admiração no Brasil pelas suas recentes atuações na TV, enquadra-se naqueles casos em que não conseguiríamos enxergar outra atriz que melhor representasse as vivências da dramaturga que também encantou as pessoas com seus papéis no veículo audiovisual. Já de início, Isabel, com seu rosto expressivo, em especial seus olhos verdes, e poderosa voz, ganha a todos com seus inestimáveis carisma, espontaneidade e comunicabilidade. Todos esses aspectos positivos se somam a tantos outros formadores de seu enorme talento, permitindo-lhe a construção perfeita das diversas personas existentes em uma única colocadas à mostra nas sucessivas fases vividas pela artista/mulher Jandira, seja no ápice da dor ou no êxtase da alegria. Isabel Teixeira é daquelas atrizes ímpares que possuem as suas emoções situadas na superfície da pele, bastando que um simples toque lhes seja dado para que se dissipem maravilhosamente pelo espaço e contagiem a alma de todos que lhe assistem. Aline Meyer ficou encarregada pela instigante e diversificada trilha sonora da encenação, enriquecida por acordes de instrumentos de cordas, rufar de tambores, cantos assemelhados ao gregoriano, marchinha de carnaval e clássicos de Raul Seixas (por sinal, Isabel nos surpreende ao interpretar com categoria e potência um deles). Um valoroso apanhado musical com reconhecida contribuição final para a montagem. Fábio Namatame, figurinista, decidiu pela fluidez com elegância ao trajar Isabel com um comprido casaco nude sobre regata e calça chumbo claro. Renata Melo, a quem coube a direção de movimento, realizou-a com imensa competência, haja vista que nos é apresentada uma Isabel Teixeira em total comunhão e domínio de seu corpo. A dupla Beto Bruel e Sarah Salgado nos ofertou uma bela iluminação, na qual prevaleceram feixes que se encontravam formando geometrias, vindos de spots tanto superiores quanto laterais. Houve, também, a predominância das sombras, resultando na valorização imagética de determinadas cenas. “Jandira – Em Busca do Bonde Perdido” é um espetáculo que resgata com louvor e merecimento a personalidade literária de uma excelsa operária das artes, mesmo que tenha sido no momento mais dolorido de sua caminhada pessoal. O teatro com o seu condão redentor não permitiu que Jandira Martini tampouco o público que sempre a ovacionou perdesse esse valioso e inolvidável “bonde”.      

    


2 respostas para ““Em atuação emocionada, intensa e visceral, Isabel Teixeira dá voz ao último e inédito desabafo textual de uma grande dramaturga do nosso país, Jandira Martini.””

  1. Paulo, profundamente gratificado, li tua crítica. Recebo palavras repletas de emoção, mais que de elogio. Com elas, Jandira não poderia receber presente maior. Obrigado pelo carinho com que transmitiu aos teus leitores a delicadeza com a qual conduzimos este trabalho.Abraços agradecidos e, principalmente, teatrais.

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    • Marcos, fico imensamente grato e feliz com as suas palavras. Jandira Martini merece todas as loas e homenagens possíveis. Você, Isabel Teixeira e toda a equipe que levantou este lindo espetáculo cumpriram uma honrosa missão. Abraços também agradecidos e teatrais.

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