A disciplina no dia a dia de um Regimento do Exército, a vida e as particularidades dos moradores de uma grande comunidade do Rio de Janeiro, cobiças familiares, o sonho desfeito de mulheres que desejavam progredir fora do país, romances, belas imagens, diferenças de culturas (no caso, Brasil e Turquia)… Esses foram apenas alguns dos elementos apresentados nos primeiros capítulos da nova novela das 21h da Rede Globo, “Salve Jorge”, de Gloria Perez, com direção geral de Marcos Schechtman e Fred Mayrink, que corroboraram a eficiência que lhes é própria na condução das cenas. Na história, no Regimento citado, conhecemos o destemido Capitão Théo (Rodrigo Lombardi). Théo é filho único, exímio cavaleiro, e devoto de São Jorge. Suas aptidões e prestígio provocam a inveja do também oficial da Cavalaria, Élcio (Murilo Rosa). Depois de encontros, desencontros, mal-entendidos, diálogos ásperos, Théo acaba se envolvendo afetivamente com Morena (Nanda Costa), uma moça trabalhadora, mãe solteira, e que chama a atenção pelo gênio forte. Sendo assim, o Capitão termina o relacionamento que mantinha com a Tenente Veterinária do Exército, Érica (Flávia Alessandra.). Há também uma Delegada que prima tanto pela ética quanto pela beleza, Heloisa (Giovanna Antonelli). Ela vive às turras com o ex-marido Stenio (Alexandre Nero). A filha de ambos, Drika (Mariana Rios), irá se casar na Turquia com o irresponsável Pepeu (Ivan Mendes). Carolina Dieckmann interpreta Jéssica, uma jovem que foi enganada por um grupo que leva mulheres para o exterior com o fim de se prostituírem. Pensava que fosse trabalhar numa pizzaria. A organização é chefiada pela insuspeita Livia (Claudia Raia), com a colaboração de Wanda (Totia Meirelles) e Irina (Vera Fischer). Aliás, interessante assistir à boa atriz Totia Meirelles defender uma personagem vilanesca, já que estamos acostumados a vê-la na TV em papéis opostos. Quanto a Letícia Spiller, possui a missão de ser Antonia, que faz parte da falida família formada por seu marido Celso (Caco Ciocler), os sogros Arturo (Stênio Garcia), Isaurinha (Nívea Maria), e a filha pequena Raissa (Kiria Malheiros). Antonia será mais uma vítima de Livia, ao ser convidada para trabalhar para ela. O elenco está entrosado. Nanda Costa não decepcionou como a protagonista romântica do folhetim. O retorno de Lisandra Souto (Amanda) evidenciou que a atriz está mais bonita e não perdeu o “timing” para a atuação. A trilha sonora é diversificada e coerente. A abertura usa os recursos disponíveis da computação gráfica atingindo ótimo resultado. Há muita cor e dinamismo em referências à Turquia, como os balões, os tapetes, a arquitetura, e o que há de típico em uma comunidade. Tudo embalado por uma animada música cheia de suingue que nos chega na voz de Seu Jorge. Concluímos que a produção de Gloria Perez tem estofo para desenvolver bons conflitos. Salve Jorge!
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Foto: Divulgação/TV Globo
Carnaval de 1903. O regime no Brasil já havia mudado há alguns anos. A monarquia ficou para trás, e com ela seus valores, costumes, e títulos de nobreza. Mas há os que não se conformam com o seu fim, e o estabelecimento da República, por meio de uma Proclamação, e as inevitáveis mudanças que a acompanharam. Como a ex-Baronesa de Boa Vista, Constância Assunção (Patrícia Pillar), casada com Dr. Assunção (Werner Schünemann), que aposta todas as suas fichas na recuperação de seu prestígio no casamento da filha Laura (Marjorie Estiano) com Edgar (Thiago Fragoso), advogado que se formou em Portugal, filho do Senador Bonifácio Vieira (Cassio Gabus Mendes), e Margarida (Bia Seidl). Constância é uma mulher manipuladora, arrogante, preconceituosa, conservadora e amoral (como quando não poupou meios para acabar com as aulas particulares que a filha dava como voluntária na biblioteca). A novela “Lado a Lado”, de João Ximenes Braga e Claudia Lage, com direção geral de Dennis Carvalho e Vinícius Coimbra, também explorou as consequências da Abolição da Escravatura, como as dificuldades dos negros de se adaptarem à sua nova realidade, tanto no que diz respeito ao trabalho quanto no que diz respeito ao local que lhes restava para morar, como os cortiços. E mesmo assim, estes eram derrubados pelas autoridades com o intuito de se urbanizar a área. O surgimento do samba foi mostrado no carnaval. Um primeiro par romântico já se formou: o barbeiro Zé Maria (Lázaro Ramos) e Isabel (Camila Pitanga), que trabalha na casa de Madame Besançon (Beatriz Segall). É filha do também barbeiro Afonso (Milton Gonçalves), que é colega de trabalho de Zé. E foi na Barbearia Lisboeta onde de fato Zé Maria e Isabel se conheceram. Tiveram um pequeno atrito, mas logo se entenderam. Antes disso, no cordão do carnaval, ele, mascarado, já havia assediado Isabel, que não lhe deu atenção. Como bom capoeirista que é, enfrentou o líder de um bloco rival, e venceu, causando o espanto da moça. E ainda a defendeu dos quatro rapazes que a importunaram, Albertinho (Rafael Cardoso), Fernando (Caio Blat), Umberto (Klebber Toledo) e Teodoro (Daniel Dalcin). Zé Maria pede a Afonso a permissão para namorar Isabel. Convida-a para ir a um restaurante, e lá chegando ambos sofrem olhares preconceituosos dos frequentadores, inclusive uma atitude discriminatória do maître. Acabam se beijando, deixando a todos estupefatos. Quanto aos aspectos técnicos da nova novela das 18h, há o que se elogiar. O elenco está afinado com a trama de época, os figurinos correspondem fielmente ao momento histórico, as ruas cenográficas foram construídas com esmero, e a fotografia de Walter Carvalho valoriza a textura das imagens. A trilha sonora, com a prevalência do samba, está coerente. A abertura é caprichada, com cenas de ação em “super slow motion” de classes sociais distintas embaladas pelo samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, “Liberdade, Liberdade! Abra as Asas sobre Nós”. A Imperatriz foi campeã do carnaval de 1989. Uma ousadia que deu certo. E por conclusão, no decorrer do folhetim, saberemos como conviverão lado a lado a postura libertária e justa de Laura e a prepotência de Constância.
Como conviverão lado a lado as liberdades que estão no papel e as atitudes que as cerceiam na prática. No mundo, nem sempre é possível cada um ir para um lado. Que se aprenda então a viver lado a lado. -

Moraes Moreira continua sua apresentação no “Roça in Rio”, Arraial da Providência, Jockey Club da Gávea, RJ
Foto: Paulo Ruch
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Moraes Moreira e o baterista no show do “Roça in Rio”, Arraial da Providência, Jockey Club da Gávea, RJ
Foto: Paulo Ruch
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Moraes Moreira e o sanfoneiro no “Roça in Rio”, Arraial da Providência, Jockey Club da Gávea, RJ
Foto: Paulo Ruch
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Moraes Moreira no “Roça in Rio”, Arraial da Providência, Jockey Club da Gávea, RJ
Foto: Paulo Ruch
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No início da década de 80, mas precisamente no ano de 1981, ia ao ar pela Rede Globo, a partir das 20h, a novela “Baila Comigo”, de Manoel Carlos, cuja história tinha como eixo central dois gêmeos, Quinzinho e João Victor (Tony Ramos), que foram criados por famílias diferentes, e um não sabia da existência do outro. Quinzinho recebeu a educação de Helena (Lilian Lemmertz), a mãe legítima, e seu marido Plínio (Fernando Torres), e João Victor a de Joaquim (Raul Cortez), o pai biológico, e sua esposa Martha (Tereza Rachel). Uma curiosidade: Lilian interpretou a primeira Helena de Manoel Carlos. Lembro-me que na época houve uma preocupação geral por parte dos responsáveis pelo folhetim em como se daria o encontro dos gêmeos. O grande problema é que não havia os recursos técnicos que se possui hoje para se colocar um ator duplicado em cena (como o chroma key). No final, o que foi apresentado agradou. Foram utilizadas as possiblidades existentes, associadas ao talento de Tony Ramos e à direção precisa de Roberto Talma e Paulo Ubiratan. O resultado foi comovente, com destaque para o fato de que ambos os irmãos estavam no escuro, e por meio de uma lanterna viram o rosto um do outro pela primeira vez. A música de fundo também era tocante. Atualmente, a televisão dispõe de mecanismos de alta tecnologia para realizar este tipo de feito, como acontece em “Cheias de Charme”, de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, com o personagem duplo de Ricardo Tozzi (foto), Inácio e Fabian. Façamos agora um retrospecto de alguns atores e atrizes que enfrentaram o desafio de incorporar gêmeos (Ricardo Tozzi até então interpretaria sósias). Eva Wilma, como Ruth e Raquel, na primeira versão de “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro, que foi exibida na TV Tupi em 1973. Gloria Pires no “remake” desta novela em 1993, na Rede Globo; “Maria, Maria”, de Manoel Carlos baseado no romance de Lindolfo Rocha, “Maria Dusá”. As gêmeas Maria Alves e Maria Dusá foram defendidas por Nívea Maria em 1978. Em “O Outro” (1987), de Aguinaldo Silva, Francisco Cuoco personificou os sósias Paulo Della Santa e Denizard de Mattos. Christiane Torloni deu vida às sósias Fernanda e Vivi em “Cara & Coroa”, de Antonio Calmon, em 1995/1996. Em 2001/2002, Murilo Benício atuou como os irmãos Lucas e Diogo, e com a particularidade de haver um clone, Leo/Leandro, em “O Clone”, de Gloria Perez. Os autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares escreveram em 2001 “Porto dos Milagres”, uma livre adaptação das obras de Jorge Amado, “Mar Morto” e “A Descoberta da América pelos Turcos”, na qual Antonio Fagundes interpretava os gêmeos Félix e Bartolomeu. Já em “Da Cor do Pecado” (2004), de João Emanuel Carneiro, Reynaldo Gianecchini ganhou os papéis dos gêmeos Luca e Paco. Alessandra Negrini, em 2007, teve como personagens as irmãs Paula e Taís, criadas por Gilberto Braga e Ricardo Linhares para “Paraíso Tropical”. E “Viver a Vida”, de Manoel Carlos, que foi exibida nos anos de 2009 e 2010, Mateus Solano atuou duplamente, como os irmãos Jorge e Miguel. Como se vê, muitos foram os intérpretes que emprestaram seus rosto, talento e emoção para dar vida a gêmeos ou sósias, fato que, sem dúvida se bem construído, o enredo atrai o telespectador. Se o autor for bom, tem em mãos um rico manancial para criar situações de conflito, e tornar a novela mais interessante.




