
Foto: Théo Nogueira
A feminilidade e suas condições, vantagens e supostas desvantagens, o casamento desmistificado como instituição (assegurado de modo errôneo como “termo de felicidade” definitivo para o casal), o surgimento do acaso e/ou destino nos caminhos nossos trilhados, a desconfortável ausência e respectivas cobranças da inclemente sociedade perante a falta de um “projeto de vida” (há que se ter um?), o “abismo existencial” que se abre defronte ao ser humano não poucas vezes no decorrer da jornada seguida, os incômodos tédios, rotina e subsequente tentativa de ruptura destes são abordados com inteligência por profissionais entendedores dos assuntos supracitados como Regiana Antonini, que de maneira exemplar e irretorquível adaptou o best-seller homônimo de Martha Medeiros, “Feliz por Nada”, Ernesto Piccolo (direção), Rogério Fabiano e Valéria Macedo (produção), e Cristiana Oliveira, Luísa Thiré e Gil Hernandez. Face ao que relatei podem naturalmente associar a peça a um drama. Não, trata-se de uma comédia romântica. E o enorme mérito deste espetáculo está justo nesta questão de gênero. Com acerto, duas bonitas, talentosas e carismáticas atrizes foram convidadas para protagonizarem a produção, além da participação essencial de Gil. Cristiana Oliveira é Laura, professora de Português, casada há 15 anos, mãe de duas filhas (duas meninas, uma criança e outra adolescente), 42 anos e completamente infeliz. Seu casamento com Joca (Gil Hernandez) está morno, em fogo brando, inexiste entendimento entre os cônjuges, só lhes restam bicotas, não mais “beijos em pé”. O desprezo sobrepuja o desrespeito, o que talvez seja até pior. Os famigerados “projetos de vida” estão engessados, estagnados por escassez plena de apoio, incentivo, que se escoram em insegurança, medo, inércia e receio de apostar no duvidoso. No tocante a Juliana (Luísa Thiré), fotógrafa, separada (já se casou mais de uma vez), uma filha, independente, bem resolvida e feliz. Feliz? Como assim, “feliz”? Feliz por nada (como ela mesma se define), feliz por estar viva, feliz por olhar para si mesma, por viver cada momento e valorizá-lo, seja ele grande ou pequeno. Duas mulheres opostas. Uma espécie de “yin-yang”. O comum perceptível entre as duas “vítimas” da Vida, não nos importando de que forma a encarem, são corridas cotidianas pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Todos os dias, a única comunicação que se nota é um banal e protocolar “Oi!”, com diferentes entonações, dependendo dos humores individuais. Num encontro proporcionado pelo acaso e/ou destino no Aeroporto de Tóquio, Japão, na volta ao Brasil, um incidente faz com que passem a se conhecer melhor. A força de uma inibe a fragilidade da outra, e a complementação irrompe, dando início à promitente amizade. Uma mão estranha enxuga lágrima ressentida que escorre em rosto alheio. O “Oi!” sem emoção ficou para trás. Os complexos, frustrações e o “sorriso 32” (aquele que costumamos dar para parecermos felizes) são compreendidos por Juliana, que tem por “projeto de vida” ajudar a recente amiga. No entanto, uma pergunta que nos rodeia perseverante: Juliana é de fato feliz? Ou se impõe a ser como muitas pessoas o fazem? Ser feliz é um estado de espírito atraente, sedutor ao semelhante. Ninguém quer saber de gente triste, macambúzia e sorumbática. Porém, o mundo com todas as suas belezas e efemérides é por si só triste, macambúzio e sorumbático. O que cometemos são esforços permanentes para arrancarmos daquele “migalhas” de alegria. Não teríamos excelsos filósofos e pensadores se não fossem as tristeza e pessimismo diante do que o planeta de nome Terra nos dá de presente, e nos surpreende a cada passo que damos. O companheirismo da professora e da fotógrafa se solidifica, todavia uma coincidência ou “rasteira do destino” abala o afeto de ambas. O que se vê após são situações, diálogos, enfrentamentos que nos levam à cognição inevitável, madura ao testemunharmos fatos constrangedores que sem cerimônia se apresentam. Regiana Antonini esmiúça com alma feminina estruturada e ciente dos dilemas próprios do nunca “sexo frágil” as ideias amplas, abertas, racionais, sensíveis, desprovidas de omissões, mentiras ou falsos pudores de Martha Medeiros. Ernesto Piccolo, excelente diretor com habilidade para encenar dramaturgias de origens diversas e abordagens várias, pôs na ribalta uma encenação sábia, aproveitadora do espaço cênico, reflexiva, intimista, e leve, sim, leve a despeito da sinopse, com toques de humor milimetricamente balanceados. Ernesto dirige “Feliz por Nada” realçando as qualidades do texto e atores. Tanto Cristiana Oliveira quanto Luísa Thiré, belas em cena, transmitem com prodígio e maravilha a vasta gama de sentimentos e oscilações adjacentes com posturas séria, equilibrada, por vezes divertida e noção concisa do que estão executando. Gil Hernandez se sai bem nos dois papéis: exibe naturalidade e perfil prático e objetivo como o corretor de imóveis Rodrigo, e a indiferença, o ar “blasé”, a impassibilidade do marido Joca; contudo escancara capacidade de paixão e desejo ao reencontrar amor do passado. O cenário de Clivia Cohen insiste no ambiente negro, cru e nu, ou seja, pretere elementos desnecessários, o que ao final das contas, convence-nos sobremaneira. Os adereços, como valises e cadeira, também são criações de Clivia. A história se preenche com este vazio proposital. Os figurinos de Helena Araújo são destaque na obra, com variedade de vestimentas de múltiplas cores e tendências que deixam até mesmo aqueles que não se apegam a este aspecto técnico impressionados. São “trench coats”, casacos, longos florais e estampados, acessórios, camisas sociais e esportivas, malhas, moletons, jeans, sapatilhas e anabelas. Tudo sob esfera de elegância e bom gosto. A trilha sonora de Rodrigo Penna (conhecedor de estilos musicais e suas vertentes) envereda por atalho no qual se sobressai a trilha incidental, demarcando as passagens, dando-lhes riqueza, o que nos fica clara a tangência com o coerente. Rodrigo nos acarinha sobretudo com a irresistível “Crazy”. A iluminação de Aurélio de Simoni deslumbra-nos. O encantamento e esplendor que nos são causados justificam-se por precisão e adequação. Os planos abertos são utilizados no cotidiano ou nos embates psicológicos dos envolvidos na trama. O foco é preponderante nas atuações confessionais dos intérpretes (aproveitando-se dos lados esquerdo e direito do proscênio; inclusive, podemos destacar um magnífico ato em que as atrizes se sentam à beira do palco, próximas ao público, o que desencadeia com que este se sinta inserido no enredo de algum jeito). “Feliz por Nada” é um sopro de vitalidade no panorama teatral carioca, com suas percepções sobre vida e relacionamentos, sexos masculino e feminino, e pujanças e vulnerabilidades humanas que se revezam escapando de nossas vontades. Uma peça que veio com o intuito de esclarecer, discutir, debater, sem pretensão de ser “dona da verdade”, sendo uma opinião a ser respeitada, seguida ou não, e por conseguinte nos tirando do marasmo intelectual. Martha, Regiana, Ernesto, Cristiana, Luísa e Gil cumprem missão social em formato de entretenimento. Estou feliz. Por tudo. O “nada” é “tudo” em “Feliz por Nada”. O “nada” pode ser revisto. Assistam a “Feliz por Nada”, e depois me digam se não tenho razão.