
Foto: Divulgação/TV Globo
Elizabeth Savalla é uma atriz de muitas personagens marcantes na TV, sem no entanto preterir o cinema tampouco o teatro. No ar, às 21h, pela Rede Globo, numa novela de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, a intérprete que estudou na Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, é a ex-chacrete Márcia do Espírito Santo, ou Tetê Parachoque ou Paralama, seu outrora nome artístico, uma mulher sofrida, trabalhadora, mãe solteira, porém assaz divertida. Não é a primeira vez que Elizabeth atua com brilho ao defender um tipo popular. A taxista Lili de “O Astro”, de Janete Clair, em 1977, com seus cabelos curtos encaracolados foi de certa forma uma transgressão aos ditames sexistas da época. A despeito da Revolução Feminista da década de 70 e dos sutiãs queimados em asfalto público sob os olhares atônitos dos conservadores, colocar uma moça simples, no auge da juventude, conduzindo um táxi (profissão dominada por homens até hoje) em pleno regime de exceção fora ousadia da teledramaturga, e uma prova de confiança da emissora em Janete. E se estamos falando em simplicidade nos é obrigatório mencionar o oposto: a recente Minerva de “Morde & Assopra” (também de Walcyr, o autor com quem mais trabalhou, sempre com êxito). Savalla, que esbanja beleza desde os tempos da rebelde Malvina de “Gabriela” (1975), de Walter George Durst, produção baseada no romance de Jorge Amado, “Gabriela, Cravo e Canela”, agora como a progenitora de Valdirene (Tatá Werneck), “inteligência pura”, faz-nos invariavelmente rir e nos comove com suas sequenciais agruras. A vendedora de “hot dogs” mais querida da 25 de Março não dispensa exuberantes flores de plástico coloridas presas às madeixas que combinam com as roupas que usa (em geral blusas largas com um ombro à mostra e calças “fuseau”), e de modo heroico logra tirar graça da própria tragédia particular. Se um dia foi famosa com seus rebolados e caras e bocas amparada pelo “Velho Guerreiro”, no presente o anonimato “cumprimenta” o desamparo. Falta-lhe comida no prato. Sobram-lhe salsichas. Uma “mortandela” dada por caridade é um ágape. Atílio/Gentil (Luis Melo), o “administrador financeiro sem-teto” seria ou será o bote salva-vidas de que necessita para não se “afogar”. Deposita na descendente (como várias mães o fazem) a realização de seus sonhos. Os telespectadores podem avaliar Márcia como ambiciosa, interesseira. Não, ela é apenas uma sobrevivente, agindo em “estado de necessidade”, buscando atalhos, caminhos alternativos, que dirimam a miséria pessoal que a assombra, sem quaisquer apegos a falsos moralismos. A vizinhança da “dona da van” a trata cruelmente e a humilha sem dó nem piedade, chamando-a de “periguetona”, e Valdirene de “periguete”, além de brega pela atual sogra de sua filha, Eudóxia, vivida por Ângela Rabello (breguice são “pecadores atacando pedras em pecadores”). Deve-se ter o mínimo de respeito à cidadã que cuidou sozinha de rebenta, praticou o “strip-tease” para alimentar menina faminta (talvez até tenha se prostituído, e daí?; o que mais se vê no Brasil são modos outros de “prostituição”), nunca furtou ou roubou (sim, não paga impostos, é verdade; os poderosos pagam?), é obrigada a fugir do “RAPA” em meio a potes de ketchup, mostarda e maionese e o que de mais edificante cometeu: foi parteira em banheiro fétido de boteco insalubre cheirando a cachaça, “dando à luz” Paulinha (Klara Castanho). A avó da “palhacinha” Mary Jane lembra-me uma Cabíria de Fellini nas “Noites de Márcia”, que somente procura dignidade e afeto perdidos. Uma Giuletta Masina no horário nobre. Elizabeth Savalla estreou na TV Cultura em episódio de teleteatro dirigido por Antunes Filho, “A Casa Fechada”, de Roberto Gomes. Sua permanência no veículo de massas se consolidou após a bem-sucedida Malvina já citada, e que lhe rendeu merecidos prêmios. Importantes folhetins sobrevieram: “O Grito”, “Estúpido Cupido” (irmã Angélica), “O Astro” (dito acima), “Pai Herói” (a lindíssima bailarina Carina), “Plumas e Paetês” (Marcela, que se vê obrigada a trocar de identidade em virtude das circunstâncias em trama de Cassiano Gabus Mendes), “O Homem Proibido” (a “rodriguiana” Sônia), “Pão, Pão, Beijo, Beijo” (uma irmã que disputa com outra irmã, Maria Cláudia, o amor de mesmo homem, Cláudio Marzo), “Quatro por Quatro” (uma das quatro mulheres que se voltam contra o sexo oposto em história de Carlos Lombardi), “Chocolate com Pimenta” (a excentricidade foi o norte da Jezebel que personificara), e demais folhetins, seriados e minisséries (“Meu Marido” e “Sex Appeal”). Nunca se afastou dos palcos, associando-se inclusive a Camilo Áttila na fundação de uma produtora, a ESCA (Elizabeth Savalla & Camilo Áttila), que originou espetáculos como “Ações Ordinárias”, de Jerry Sterner, “Mimi, Uma Adorável Doidivanas”, de Camilo Áttila, “É…”, de Millôr Fernandes e para comemorar os seus 30 anos de carreira o monólogo “Frizileia – Uma Esposa à Beira de um Ataque de Nervos”, também de Camilo Áttila, em 2004. Antes, encenou “Pigmaleoa”, de Millôr Fernandes e “Lua Nua”, de Leilah Assumpção. Exerceu um cargo social como Coordenadora de Eventos Teatrais para a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Sua relevância como artista fez com que o Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, Minas Gerais, desse o seu nome a um troféu. No cinema, junto a Reginaldo Faria, novamente no período da ditadura militar, colaborou com o diretor Roberto Farias na exploração de tema árido e doído munido de torturas e paus de arara, em “Pra Frente Brasil”. Tivemos e temos Elizabeth Savalla em nossas vidas enriquecendo a cultura nacional. Não foram horas, dias, e sim, anos. Como Márcia de “Amor à Vida”, já se passaram meses. Minutos multiplicados em meses. Antigamente era “um minuto de comercial”. Hoje é um pouco mais. É justo então que exijamos muitos minutos para Elizabeth Savalla.