
Foto: Divulgação/TV Globo
Somos inevitavelmente postos em conflito quando o conceito natural acerca de vilania que temos nos é subtraído, o que ocorre quando o mesmo se associa ao belo. A vilania sempre nos foi feia, hedionda, ignóbil. O belo é algo mítico, icônico, supremo, reverenciado em importantes períodos da História da Arte, como nas fases greco-romana e renascentista. Este introito serve apenas a fim de indicarmos apropriada abordagem sobre Rosângela, polêmico papel defendido com brilho por Paloma Bernardi na novela de Gloria Perez, “Salve Jorge”. Paloma, além de ostentar beleza clássica que para mim remete às das divas hollywoodianas das décadas de 40 e 50, é representante da geração jovem de talentos da TV. Talento que se evidencia aos brados ao ter como incumbência a missão de viver a moça sonhadora que deseja ser modelo, e que acaba caindo em nefasta armadilha, tornando-se escrava da prostituição. Não nos foge da memória que a atriz adveio de personagens dóceis, amigos, carinhosos, conciliadores, que adquiriam como saldo a conquista instantânea do público telespectador. A despeito de já ter experimentado a televisão em tempos de adolescência em folhetim como “Colégio Brasil”, no SBT, e anos após em “Mutantes – Caminhos do Coração”, na Rede Record, foi em “Viver a Vida”, obra de Manoel Carlos exibida pela Rede Globo, na qual interpretou Mia, que Paloma Bernardi veio a ser reconhecida pelo Brasil. E posteriormente a Alice de “Insensato Coração”, de Gilberto Braga. Coincidência ou não as duas eram irmãs amáveis, generosas, fiéis e boas conselheiras. Esperava-se então uma virada na carreira da intérprete. E a desconstrução de sua antiga imagem se deu pelas mãos de Gloria Perez, oferecendo-lhe Rosângela, que no decorrer da trama passa de vítima à condição de vilã. Uma bem-vinda chance para a artista nos convencer de modo crível da possibilidade de coexistência do belo e do delituoso. A outrora vítima “comprou” a ideia de se livrar de seu cárcere pessoal juntando-se aos seus algozes. Meticulosamente, passo a passo, conseguiu ultrapassar a fronteira que a separava da prisão da “liberdade vigiada”. Seus desvios de personalidade se iniciaram ao se sentir preterida por seus pares de infortúnio. Mostrou-nos ambiguidade ao “reconhecer” Morena (Nanda Costa) em corpo que não era o dela, com o intuito de lhe proteger da quadrilha. Viveu momentos de glamour ilusório como modelo até se “profissionalizar” como aliciadora de pessoas. O seu final é uma incógnita. Tanto pode ser redimida pela autora quanto sofrer severa punição. Paloma Bernardi é uma atriz que busca o aperfeiçoamento em todas as áreas, seja nas diversas peças teatrais de que fez parte, seja no cinema ou clipes musicais. Formou-se em faculdade de rádio e TV. Tive a satisfação de conferir o seu potencial cênico no espetáculo “O Grande Amor da Minha Vida”, ao lado de Thiago Martins. No término, chamei-a ao proscênio, e solícita como “lady” que é, agachou-se para ouvir o que tinha a lhe dizer. Comuniquei-lhe que havia lhe mandado um texto em rede social concernente à cena relevante decorrida em “Insensato Coração”, tendo como assunto em pauta o convencimento da irmã (Camila Pitanga) de que não realizasse aborto. O que assistimos nos fora tão tocante que intitulei o que escrevera como ” O Momento de Paloma Bernardi em ‘Insensato Coração’ “. Paloma é de fato linda, meiga e atenciosa, respondendo-me todas as vezes em que lhe enviei algo ao seu respeito colocado em palavras. Inclusive, falei-lhe que faria novo texto sobre a ótima impressão que tivera com o que acabara de ver. Para não espanto meu, agradeceu-me como de costume. Raro se deparar com artista tão nova com maturidade na postura em lidar com aqueles que dela se aproximam. Seus sorriso e olhos incrivelmente verdes ainda lhe darão, com certeza, outros tantos papéis no ofício que abraçara. Paloma já integrou o elenco de inúmeras produções teatrais, incluindo infantis e adultas, como “Galileu Galilei”, “Woyzec” e “A Vida é Sonho”. Antes de iniciadas as gravações de “Salve Jorge”, exibiu seus dotes de cantora e bailarina em musical oriundo da Broadway, “Fame – O Musical”. E voltando à novela, Gloria Perez deve estar jubilosa com sua interpretação, assim como nós. Uma atuação vilanesca permeada por dualidades. Rosângela já demonstra habilidade em exercer o tipo penal denominado aliciamento, usando como trunfos carisma e simpatia. E concluímos que estamos equivocados em aliar a beleza a tudo o que simbolize benevolência. Seríamos espécie de acólitos de preconceito estético. O que é bonito é bom, e o que é feio é mau. Patrícia Pillar já disso nos provou com a Constância de “Lado a Lado” e a Flora de “A Favorita”. A vez é de Paloma Bernardi que nos leva a crer sem quaisquer lacunas para contra-argumentos de que a vilania sim pode ser tão ou mais perigosa quando se esconde em belos rostos. Ainda mais quando se trata de rosto de Paloma.