
Painel ampliado de foto tirada por Fernando Torquatto da atriz Giovanna Antonelli, em exposição na área externa do Píer Mauá, durante o Fashion Rio Outono Inverno 2012.
Foto: Paulo Ruch
Agradecimento: OESTUDIO

Reprodução da capa do LP, lançado em 1963 pela gravadora ELENCO, do violonista brasileiro Baden Powell juntamente com o baterista americano Jimmy Pratt, em exposição na área dedicada à bossa nova, no Fashion Rio Outono Inverno 2012, realizado no Píer Mauá.
Curadoria: Charles Gavin
Foto: Paulo Ruch
Agradecimento: OESTUDIO
Somos inevitavelmente postos em conflito quando o conceito natural acerca de vilania que temos nos é subtraído, o que ocorre quando o mesmo se associa ao belo. A vilania sempre nos foi feia, hedionda, ignóbil. O belo é algo mítico, icônico, supremo, reverenciado em importantes períodos da História da Arte, como nas fases greco-romana e renascentista. Este introito serve apenas a fim de indicarmos apropriada abordagem sobre Rosângela, polêmico papel defendido com brilho por Paloma Bernardi na novela de Gloria Perez, “Salve Jorge”. Paloma, além de ostentar beleza clássica que para mim remete às das divas hollywoodianas das décadas de 40 e 50, é representante da geração jovem de talentos da TV. Talento que se evidencia aos brados ao ter como incumbência a missão de viver a moça sonhadora que deseja ser modelo, e que acaba caindo em nefasta armadilha, tornando-se escrava da prostituição. Não nos foge da memória que a atriz adveio de personagens dóceis, amigos, carinhosos, conciliadores, que adquiriam como saldo a conquista instantânea do público telespectador. A despeito de já ter experimentado a televisão em tempos de adolescência em folhetim como “Colégio Brasil”, no SBT, e anos após em “Mutantes – Caminhos do Coração”, na Rede Record, foi em “Viver a Vida”, obra de Manoel Carlos exibida pela Rede Globo, na qual interpretou Mia, que Paloma Bernardi veio a ser reconhecida pelo Brasil. E posteriormente a Alice de “Insensato Coração”, de Gilberto Braga. Coincidência ou não as duas eram irmãs amáveis, generosas, fiéis e boas conselheiras. Esperava-se então uma virada na carreira da intérprete. E a desconstrução de sua antiga imagem se deu pelas mãos de Gloria Perez, oferecendo-lhe Rosângela, que no decorrer da trama passa de vítima à condição de vilã. Uma bem-vinda chance para a artista nos convencer de modo crível da possibilidade de coexistência do belo e do delituoso. A outrora vítima “comprou” a ideia de se livrar de seu cárcere pessoal juntando-se aos seus algozes. Meticulosamente, passo a passo, conseguiu ultrapassar a fronteira que a separava da prisão da “liberdade vigiada”. Seus desvios de personalidade se iniciaram ao se sentir preterida por seus pares de infortúnio. Mostrou-nos ambiguidade ao “reconhecer” Morena (Nanda Costa) em corpo que não era o dela, com o intuito de lhe proteger da quadrilha. Viveu momentos de glamour ilusório como modelo até se “profissionalizar” como aliciadora de pessoas. O seu final é uma incógnita. Tanto pode ser redimida pela autora quanto sofrer severa punição. Paloma Bernardi é uma atriz que busca o aperfeiçoamento em todas as áreas, seja nas diversas peças teatrais de que fez parte, seja no cinema ou clipes musicais. Formou-se em faculdade de rádio e TV. Tive a satisfação de conferir o seu potencial cênico no espetáculo “O Grande Amor da Minha Vida”, ao lado de Thiago Martins. No término, chamei-a ao proscênio, e solícita como “lady” que é, agachou-se para ouvir o que tinha a lhe dizer. Comuniquei-lhe que havia lhe mandado um texto em rede social concernente à cena relevante decorrida em “Insensato Coração”, tendo como assunto em pauta o convencimento da irmã (Camila Pitanga) de que não realizasse aborto. O que assistimos nos fora tão tocante que intitulei o que escrevera como ” O Momento de Paloma Bernardi em ‘Insensato Coração’ “. Paloma é de fato linda, meiga e atenciosa, respondendo-me todas as vezes em que lhe enviei algo ao seu respeito colocado em palavras. Inclusive, falei-lhe que faria novo texto sobre a ótima impressão que tivera com o que acabara de ver. Para não espanto meu, agradeceu-me como de costume. Raro se deparar com artista tão nova com maturidade na postura em lidar com aqueles que dela se aproximam. Seus sorriso e olhos incrivelmente verdes ainda lhe darão, com certeza, outros tantos papéis no ofício que abraçara. Paloma já integrou o elenco de inúmeras produções teatrais, incluindo infantis e adultas, como “Galileu Galilei”, “Woyzec” e “A Vida é Sonho”. Antes de iniciadas as gravações de “Salve Jorge”, exibiu seus dotes de cantora e bailarina em musical oriundo da Broadway, “Fame – O Musical”. E voltando à novela, Gloria Perez deve estar jubilosa com sua interpretação, assim como nós. Uma atuação vilanesca permeada por dualidades. Rosângela já demonstra habilidade em exercer o tipo penal denominado aliciamento, usando como trunfos carisma e simpatia. E concluímos que estamos equivocados em aliar a beleza a tudo o que simbolize benevolência. Seríamos espécie de acólitos de preconceito estético. O que é bonito é bom, e o que é feio é mau. Patrícia Pillar já disso nos provou com a Constância de “Lado a Lado” e a Flora de “A Favorita”. A vez é de Paloma Bernardi que nos leva a crer sem quaisquer lacunas para contra-argumentos de que a vilania sim pode ser tão ou mais perigosa quando se esconde em belos rostos. Ainda mais quando se trata de rosto de Paloma.

Monitor que exibia uma entrevista de Sergio Rodrigues, um dos mais importantes arquitetos e designers brasileiros (com criação de sua autoria exposta inclusive no MoMa de NY), na mostra a ele dedicada no Fashion Rio Outono Inverno 2012, evento ocorrido no Píer Mauá.
Foto: Paulo Ruch
Agradecimento: OESTUDIO
Você já imaginou Marcelo Adnet como um dentista, e ainda por cima usando um aparelho ortodôntico? E como seu fiel protético um alucinado Leandro Hassum? Tendo como vizinha Helena Fernandes, uma advogada que ao que tudo indica se envolverá plenamente em seus próximos imbróglios? Otávio Augusto como o seu pai decepcionado, um ex-delegado de polícia, pelo fato de seu filho não ter seguido a mesma profissão? Uma Taís Araújo como multifacetada garota de programa com pinta de pin-up e trambiqueira? Diogo Vilela, um investigador de polícia que parece ter saído direto de um longa-metragem de Humphrey Bogart? Pois isso, e muito mais nos foi apresentado no novo e divertidíssimo seriado da Rede Globo, “O Dentista Mascarado”. Os personagens e situações inusitadas migraram das cabeças criativas de Alexandre Machado e Fernanda Young, que emanam sem piedade um humor por vezes ácido e desconcertante, sem no entanto resvalar para o desrespeito. O casal de escritores já nos é bastante conhecido por suas escolhas temáticas que visam a uma comédia desvairada, como se viu em “Os Normais” e “Minha Nada Mole Vida”. A química de ideias existente entre ambos é tão explícita que lograram impingir uma marca de entretenimento que nos é reconhecível. Com eles, ri-se do cotidiano, ri-se do caos, do absurdo e do comportamento dos indivíduos. Ri-se da loucura do mundo em que vivemos. E são necessárias argúcia, sagacidade e sutileza para transformar todos esses elementos num conjunto teledramatúrgico de bom gosto. O “O Dentista Mascarado”, como o título anuncia, foca-se no meio destes profissionais. Brinca com os mitos, verdades, fobias e correlatos sem todavia resvalar para a desconsideração para os que trabalham neste ofício. Hoje em dia podemos dizer que é proeza fazer humor sem descambar para o preconceito e a ofensa. E tanto Alexandre quanto Fernanda são capazes de provocar o riso sem disso precisar. Contudo, este rico material poderia ser desperdiçado se caísse em mãos de diretor que não soubesse compreender o conteúdo textual dos dramaturgos. É aí que entra José Alvarenga Jr., um parceiro infalível e permanente da dupla. Seria como se José entendesse de pronto a piada escrita. Sendo assim, não raro a decodifica com êxito e habilidade em imagem com graça. José, Alexandre e Fernanda falam a mesma língua. A história mostrada no primeiro episódio demonstrou claras referências as “pulp fictions”, HQs, filmes “noir” e expressionistas. A ausência do naturalismo e usufruto do “overacting” em alguns momentos conspiraram a favor do seriado. Marcelo Adnet (Doutor Paladino) abusou de toda a sua capacidade humorística, esbanjando trejeitos, danças amalucadas, olhos arregalados, voz propositalmente empostada e deboche não gratuito para tornar o seu dentista aliado dos telespectadores. Juntar Helena Fernandes (Vera), Taís Araújo (Sheila), Otávio Augusto (Eurico Paladino), Diogo Vilela (Inspetor Miller) e Leandro Hassum (Sergio) é constituir escrete que só se defrontará com vitórias. Estes artistas (e Marcelo Adnet) detêm cacife para personificar papéis tresloucados pertinentes à trama. A abertura é ótima, adequando-se à proposta detetivesca em tons de HQ da atração. A montagem é ágil. Cortes calculados que alinhavam um enredo em que tudo se resolve com velocidade, dinamismo e “timing”. A trilha sonora ficou a cargo de Marcio Lomiranda, que com real entendimento do assunto temperou o que nos foi contado com acordes melódicos em consonância com um thriller policial com altas doses de comicidade. No todo, acerto absoluto. Uma sintonia coletiva que transmutou-se em sinfonia orquestrada com primor cujos músicos e maestro se esmeraram no que exerceram, e ao final do espetáculo ouviram “Bravo!”. Um “Bravo!” entremeado por sonoras gargalhadas espontâneas, e não ensaiadas.