
Ampliação da foto do DJ, modelo, produtor e ator Jesus Luz tirada por Fernando Torquatto, que ficou exposta no Fashion Rio Outono Inverno 2012, realizado no Píer Mauá.
Foto: Paulo Ruch
Agradecimento: OESTUDIO
Foto/Divulgação
Já havia feito uma peça de caráter experimental no teatro “O Tablado”, sob a direção de Ricardo Kosovski, no início de 1991. A emoção de pisar num palco onde já estiveram atores e atrizes do naipe de Louise Cardoso, Cláudio Corrêa e Castro, Cláudia Abreu, Diogo Vilela, Felipe Camargo, Maria Padilha, Selton Mello, Jacqueline Laurence, a hoje crítica Barbara Heliodora, Malu Mader, Andréa Beltrão, dentre tantos outros, fora-me de fato marcante. Não era raro ver nos ensaios e demais dias aquela dócil senhora, ostentando olhos claros e cabelos curtos em corpo de baixa estatura que irradiava imponência e altivez. Circulava como se em casa estivesse. Ora, mas “O Tablado” era a sua casa. Tão moço, pobre moço, sabia eu que ladeava-me a maior escritora brasileira de textos infantis para as artes cênicas. Ganhadora de láureas, homenagens, e dona de peças a rodar pelo mundo. Mãe de sucessos emblemáticos como “Pluft, o Fantasminha”, “O Cavalinho Azul”, “Maroquinhas Fru-Fru”, “Tribobó City”, “A Menina e o Vento” e o “Rapto das Cebolinhas”. Fora atriz. Teve livros editados. Seus espetáculos causavam identificação imediata com os pequenos. E os grandes também se divertiam. Sua formação cultural deveu-se muito ao pai, o escritor Aníbal Machado. Maria Clara testemunhou as reuniões literárias com notórios escribas por ele organizadas. Quanta erudição para uma criança. Só o que falei-lhes até agora já desperta-nos quanto ao grau de importância desta magna mulher. Nunca se vislumbrou em tempo algum pessoa tão dedicada a criar de forma educativa e prazerosa o hábito de se levar as crianças ao ambiente teatral. Ocorreu que, em meados do meio do ano supracitado, um amigo próximo, ator, chamou-me para substituí-lo em “O Cavalinho Azul”, em montagem no “O Tablado”. Temi por instantes, afinal tinha-se como diretora Maria Clara Machado. Mesmo com insegurança inerente aos bastante jovens, aceitei. O curioso seria o que me aguardava na proposta assentida. No elenco estavam Cadu Fávero (que veio a fazer bela carreira no teatro e no cinema) e como protagonista Luiz Carlos Tourinho (obtivera prestígio em “Sob Nova Direção”, na Rede Globo). Dois personagens a mim cabiam. Um soldadinho devidamente uniformizado, acompanhado de mais dois, que em coro e passos cadenciados exclamava: – Não temos tempo a perder!. Verdade, pequeníssimo papel. Entretanto, carregava simbolismos de enorme significância para quem começava uma carreira. Quando entrei para o “cast” não conhecia ninguém. Justificava-se assim postura receosa e tímida. Porém, ainda não contei-lhes sobre a segunda participação que me coube. Simplesmente junto a outro intérprete, éramos o próprio cavalinho azul. Para melhor compreensão: revezávamos em posições dianteira e traseira para dar vida ao cavalinho confeccionado. Uma experiência demasiado inusitada. Tão inusitada quanto rica. Quando na frente estava, guiava-me por diminuta tela à minha frente. E atrás, o que restava-me era a confiança no bom senso de direção do meu parceiro de cena. Tínhamos que galopar. E em círculos! Ora via-se a plateia, ora não via-se. Foram apenas três finais de semana. Contudo, ficaram marcados para todo o sempre em minha memória afetiva. No último dia de apresentação, um momento do qual não esquece-se: a querida Maria Clara reuniu todos os atores em corrente, e fizemos com mãos apertadas e cheias de fé espécie de prece, seguida por agradecimentos e despedidas. No final, quando os espectadores já haviam ido embora, realizamos versão alternativa da peça, sendo que cada um interpretou papel que fora do outro. Após, em outra encenação no mesmo “O Tablado”, fora-me dada cena de plateia, na qual interagia de modo direto com Maria Clara Machado. Suas receptividade e simpatia estimularam-me quanto ao intento de burilar a minha atuação, que cobrou excessivamente do meu potencial cômico/dramático. Maria Clara sempre detivera extrema e rara generosidade para os que lhe apelavam. Como ator amador que era, aglutinei todos os documentos comprobatórios de trabalhos feitos a fim de que pudesse profissionalizar-me. E com ajuda providencial de meu pai, redigi declaração de que participei de “O Cavalinho Azul”. Necessitava da preciosa assinatura de Maria Clara Machado. Não titubeei. Fui ao “O Tablado”. Subi escadas que levaram-me a pavimento diverso, no qual localizavam-se a sala de figurino e o escritório da fundadora do teatro. Com humildade, expliquei-lhe minha situação. Depois de ouvir um “sim”, acompanhei cada movimento de sua graciosa mão até que pegasse a caneta e assinasse seu ilustre nome na folha de papel. Conto-lhes esta singela história não com o objetivo somente de informar-lhes que tive o privilégio de trabalhar com esta nobre profissional das Artes do nosso Brasil varonil. Fora isso, falar-lhes também acerca do quanto esta senhora, doce, bonita, magnânima, competente na direção, era sobretudo uma companheira daqueles jovens artistas, alguns inseguros, iluminados por coloridos refletores e vestidos com mágicos figurinos. Foi uma relevante “cavalgada” em minha vida. Todavia, não com galopes quaisquer. Galopes do “O Cavalinho Azul” de Maria Clara Machado.
Realmente, Tiago Abravanel conheceu bem de perto e de forma retumbante o sucesso a partir do musical “Tim Maia – Vale Tudo”. O talento de Tiago possuidor de poderosa voz e dotes de dançarino juntos à estima e admiração que o povo brasileiro devota a um dos nossos maiores cantores, intérprete de grandes êxitos como “A Primavera”, “Não Quero Dinheiro”, “Vale Tudo”, “Azul da Cor do Mar” e “Dia de Domingo”, dentre vasta gama de melodias, sendo entoadas ao vivo por um jovem ator em musical só poderia resultar em aplausos acalorados tanto da crítica quanto do público. A bem-sucedida performance fora tão clamorosa que a autora Gloria Perez o convidou para viver o Demir de sua novela “Salve Jorge”. Demir é um bom sujeito, simples, que sustenta-se como vendedor no turco Grand Bazaar, em Istambul, e mora num tranquilo vilarejo da Capadócia, ambas regiões da Turquia. Nos capítulos iniciais do folhetim, sua história ficou a cargo das tentativas, algumas frustradas, de conquistar Tamar (Yanna Lavigne). Como no país citado, quebrar a garrafa com pedra no telhado de casa de mulher solteira significa pedido de casamento, Demir involutariamente viu-se envolvido em imbróglio provocado pelo menino Ekran (Frederico Volkmann) que alvejou o objeto de vidro errado. Ayla (Tânia Khallil) seria então sua esposa. Engano desfeito. Demir e Tamar decidem fugir, e casar-se. Tamar engravida. E apesar do ciúme por parte dela, mantêm estável relação. Até que uma morena de nome Morena (Nanda Costa) aparece em sua vida. Em visita à boate onde a filha de Lucimar (Dira Paes) trabalhava, compadeceu-se com o estado físico dela. Supõe que está grávida, e oferece-lhe um xarope medicinal, que lhe é levado em outra ocasião. Delineia-se entre eles um elo de amizade sem precedentes. Diversos acontecimentos envolvendo Zyah (Domingos Montagner), Mustafá (Antonio Calloni) e ele mesmo o fazem aproximar-se ainda mais de Morena. Escondida em caverna, o moço adepto das boinas típicas oferece-lhe cuidados e especial atenção. Coloca-se até em risco a pedido da brasileira. Deposita desconfiança na sua família e na da esposa. Tudo por Morena, que veio a dar à luz. Demir fora o primeiro a ver o filho de Théo (Rodrigo Lombardi), que nascera em condições inóspitas e periclitantes. Emociona-se. Por vezes, parece-me (posso estar enganado) que o rapaz sente algo por Morena superior à amizade. As cenas de Tiago dançando nas paisagens que causam-nos deslumbre na Capadócia merecem uma citação. Engana-se, porém, quem pensa que tudo começou para Tiago Abravanel com o musical que protagoniza. Tiago tem uma carreira antes disso. Iniciou sua profissão na adolescência. Fez várias peças, dentre elas uma de Jorge Amado, “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”. Estuda interpretação na Universidade Anhembi Morumbi. Como voz bonita não passa despercebida, participou de grandiosas adaptações de musicais prestigiados da Broadway, como “Miss Saigon” e “Hairspray”. Antes de Demir, esteve em “Amor e Revolução”, no SBT. Emprestou o dom vocal à dublagem do filme de animação “Detona Ralph”. Esse é Tiago Abravanel. O Tiago que ganhou o prêmio “Revelação” dos “Melhores do Ano 2012” do “Domingão do Faustão”. E esse é Demir, para quem vale tudo salvar Morena a fim de que veja de novo o azul da cor do mar. Um dos sete, talvez.