“O que acho de Aisha.”

Publicado: 03/05/2013 em Teatro, TV

Dani_Moreno_2 Foto/Divulgação TV Globo

O que dizer de Aisha, a pobre menina rica interpretada pela revelação Dani Moreno na novela das 21h da Rede Globo, “Salve Jorge”, de Gloria Perez? Bela moça cercada por ouro cujos delgados pés pisam em suntuosos tapetes turcos. Seus olhos amendoados se acostumaram a ver desde sempre os portentosos minaretes de Istambul, as águas caudalosas que estão em correnteza no rio Bósforo, o fulgor das joias dependuradas na mãe adotiva Berna (Zezé Polessa), e os ofuscantes olhos azuis de Mustafa (Antonio Calloni), que cumpre com amor e severidade o papel de pai. Um vazio, um vácuo imensurável por desconhecer origem própria lhe esfacelou o coração. Uma busca incansável, frenética e pessoal por raízes escondidas em longínquo solo. Vencendo resistência e omissões ou mentiras de quem lhe dera educação nababesca, saltou cada pedra, pequena ou grande que se interpôs em seu caminho. Num mundo afogado em informações, notícias, imagens e avançada tecnologia a não mais pequena “órfã” perseguiu a identidade. Aisha teve tudo e não teve nada. É linda, porém tristeza que sentiu lhe fora demasiado feia. É rica, entretanto o preconceito que possui pelo que é diferente lhe é de natureza pobre. Por ser boa, há esperança na reversão dos princípios tortos. A vida lhe ensinará sem apostilas a aprender a amar a diferença, mesmo que esta esteja em lugar não tão bonito como desejava. O maior problema é que idealizou mãe perfeita. Não existe mãe perfeita. Mães são humanas. Talvez a personagem da paulista Dani Moreno esperasse que a progenitora biológica vestisse os mesmos vestidos sofisticados e luxuosos de Berna. Que usasse as mesmas preciosidades a enfeitar colo branco. Que o tom de voz fosse suave e melífluo. Que ao invés dos pratos populares houvesse “haute cuisine”. Não, Aisha. Em ventre de mãe não há luxo. Ricos e pobres, negros e brancos dão o mesmo alimento aos seus frutos. A riqueza que admirara lhe roubara a alma, o nome, o afago materno legítimo. Fora objeto de transação espúria. Malocada em sacola. Negociada. Vendida. O belo à visão lhe fez isso. E o que lhe parece feioso vítima o é de iniquidade. Sofrera privação de amor outro. Se maior ou menor, não sei. Contudo, amor outro. Sofrera privação da companhia de irmãs. Perdera a oportunidade de com elas ser uma das “As Três Irmãs”. Haveria um Tchekhov em sua história. A mesma história que Dani levou aos palcos. Se não gosta da poeira das ladeiras e vielas da comunidade que lhe é verdadeiro berço, tire os sapatos de salto alto e deixe entranhar pelos dedos o pó do chão que covardemente lhe usurparam. Aprenda a gritar como seus novos pares gritam. Doces vozes podem ser traiçoeiras. Wanda (Totia Meirelles) tem doce voz. Junte-se às irmãs Lurdinha (Bruna Marquezine) e Samantha (Karina Ferrari) e à mãe de fato Delzuite (Solange Badim), e berre para que todos ouçam de que ali é a sua “cidade”. Grite: – Esta é a “nossa cidade”!. Olha Thornton Wilder ao seu lado. O mesmo Thornton que Dani encenou em início de carreira. Se chegar a noite é possível se sentir rainha ou plebeia. Somos todos plebeus. Chame os que lhe cercam e vivam “noite de reis”. Como a peça de Shakespeare que um dia Dani Moreno mostrou no proscênio. Faça do amor uma revolução. Ou uma revolução do amor. Como o título do folhetim no qual estreara na TV como atriz, “Amor e Revolução”, no SBT. Cante um samba, um pagode, diga a letra de um rap. Cante assim como Dani sabe cantar. Coma um salgado da Dona Diva (Neusa Borges). Aguente a rabugice do Seu Galdino (Francisco Carvalho). Suporte o esnobismo de Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues). Compre um brigadeiro para o menino Junior (Luiz Felipe Mello). Segure Jéssica no colo. Dê um beijo no rosto sofrido de mãe de filha roubada. Peça à sua mãe que lhe nine pela primeira vez. Jogue o preconceito que é o seu dragão no Bósforo. Seja guerreira como São Jorge o foi. Enfrente aquilo que lhe soa como inexpugnável. Dani Moreno está brilhando como Aisha. E você, Aisha? É sua hora de brilhar. Não vale ostentar diamantes. Será o pioneiro brilho concreto de sua existência. O difícil perdão aos que mal lhe fizeram lhe cabe. Lembre-se de que o pai Mustafa é tão ou mais vítima. Não faça seus ofuscantes olhos azuis chorarem. Misture o turco que fala às gírias do morro. Sentirá a felicidade se aproximando. E aqueles vazio e vácuo que lhe comprimiam o peito se esvanecerá. Ache, Aisha, que um mundo diverso do seu pode ser melhor. Isto é o que acho de… Aisha.

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