“Maria Casadevall é Patrícia, uma bela mulher, descolada, antenada e inteligente, que gosta de comprar quimonos na Liberdade.”

Publicado: 30/11/2013 em Teatro, TV

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Foto: Divulgação/TV Globo

A despeito de já ter participado da minissérie “Lara Com Z”, de Aguinaldo Silva, e que foi ao ar pela Rede Globo em abril de 2011, podemos considerar “Amor à Vida”, novela das 21h da mesma emissora, escrita por Walcyr Carrasco, como a legítima e popular estreia de Maria Casadevall na televisão, em que interpreta com enormes empatia e elegância a funcionária administrativa do Hospital San Magno, Patrícia. Engana-se quem imagina que Maria começou a se familiarizar com as câmeras por agora. Já na adolescência, fez sua primeira campanha publicitária, fato que a despertou para a possibilidade de seguir a carreira artística. Mais adiante, não pensou duas vezes, e procurou o diretor Fernando Leal, que lhe passou os ensinamentos precípuos de atuação tanto na TV quanto no cinema. Casadevall não parou por aí. Recorreu a cursos ministrados na Escola de Atores Wolf Maya. E em momento algum “fugiu dos ruídos de seus passos nos palcos”, dizendo os textos de Bernard-Marie Koltès (“Roberto Zucco”, a última peça do autor), Ivam Cabral e Rodolfo García Vazquez (“Hipóteses para o Amor e a Verdade”), além da criação coletiva “A Nossa Gata Preta e Branca”. Os dois últimos espetáculos foram encenados pela renomada Cia. Os Satyros. No que concerne ao folhetim de Walcyr, se antes Patrícia, com seu corte Chanel com franjas bem cortadas, atendia aos ditames convencionais da sociedade ao se casar com o investidor que aposta em ações erradas, Guto (Márcio Garcia), e que vê sua lua de mel transformada em “lua de fel” ao se perceber traída por loira “turbinada”, no presente a fiel e conselheira amiga de Pê/Perséfone (Fabiana Karla) adota postura “avant-garde”, moderna, independente, descompromissada e desprovida de vãs preocupações com o que a coletividade irá deduzir ao seu respeito. Houve mudança consistente na vida pessoal ao conhecer o endocrinologista Dr. Michel (Caio Castro), um atraente mancebo que aprecia Laurentino Gomes e seu best-seller “1889”. A princípio, fica-nos árido definir que tipo de relação é mantida pela dupla: pode ser irrefreável paixão; uma espécie de “body heat”, sem William Hurt e Kathleen Turner; ou quem sabe um “fragmentos de um discurso amoroso” posto em prática com muitas faíscas. Não existia consideração de ambas as partes acerca de local apropriado para toques suaves ou abruptos de lábios úmidos e consumação de desejos proibitivos para os puritanos a postos. Se para Alain Delon, o “sol já foi testemunha”, a sala de repouso dos médicos, a sala do próprio Michel, provadores de lojas e elevadores cujos únicos botões cabíveis eram o “stop” também ocuparam esta função “voyeur”. A química entre Maria Casadevall e Caio Castro superou todas as expectativas, e o público “embarcou” junto. Porém, como nada é perfeito para um par romântico de novela, obedecendo às regras da teledramaturgia e não às exceções, surgiram imponentes obstáculos. Michel é casado com a dedicada e respeitável advogada Dra. Silvia (Carol Castro). E Guto, o “ex” com a autoestima sempre elevada e que não dispensa de seu vocabulário o vocativo “Gata”, está de volta, aboletando-se na casa de Pat. Um improvável quarteto se forma. Vale lembrar que a jovem que decora seu apartamento com pôster de “Jules et Jim”, de Truffaut, mostrou-se sensível e solidária com a companheira de seu amado, que se viu na iminência de ter símbolo vital para o ser feminino sofrer adulteração devido à enfermidade. Patrícia é nobre ser humano. Abre mão de Michel. Após a recuperação da causídica (um relevante serviço social prestado pelo autor Walcyr Carrasco), o jogo muda. E peças de tabuleiro são trocadas literalmente. O médico que estima fazer visitas surpresas com buquê de flores defronte à região “objeto de estudo de Freud” não logra conter seus impulsos, tampouco quem procura, Patrícia. A “fila anda”, e o “homem da Bolsa” se envolve com a “mulher dos Códigos”. Perséfone e Daniel (Rodrigo Andrade) se tornam álibis involuntários para os “encontros às escuras” que se sucedem. Desculpas, mentiras e invencionices se incorporam aos colóquios dos quatro. Tardes e noites “apimentadas” no mesmo motel (!) são rotina em esquema de revezamento de “suíte master luxo” e champanhe francês para os casais em questão. Parece-me que Walcyr quis dar tom de “comédia de erros” à situação. Provável que o “flagra” geral que se espera tangenciará os drama e humor. Verdade é que Maria Casadevall se firma como atriz com potencial explícito para se manter no veículo, levando-se em conta a maneira carismática com que vem conduzindo o seu papel, irrepreensível domínio de cena, voz e acento sedutores, incontestes beleza e simpatia, e propensão adequada de absorver com coerência e entendimento o papel que lhe foi ofertado. Patrícia ou Pat continuará bela, descolada, antenada e inteligente. Agora, se quisermos encontrá-la na Liberdade comprando quimonos ou jogando sinuca, não tem jeito, é só dar uma passadinha por lá.

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