Arquivo de fevereiro, 2014


A modelo Paola Lüdtke, no Fashion Rio Outono Inverno 2014, no Píer Mauá.
Paola é gaúcha de Porto Alegre, sendo agenciada pela Way Model, em São Paulo.
Fez diversas campanhas publicitárias para marcas como Lenny Niemeyer (apresentação Alto Verão 2015, em São Paulo), Damyller (Verão 2016), Cecconello (Summer 2016; fotos de Rafael Pavarotti), Afghan (lookbook de inverno), Renner (trunk show de Inverno 2015; o evento foi realizado no MuBE, Museu Brasileiro de Escultura), Canal Concept (lookbook), Vivo 4G, Argentum (fashion film Verão 2015) e Patogê Jeans & Co. (Inverno 2013).
Desfilou no Minas Trend Preview Inverno 2015.
Nesta edição do Fashion Rio (Outono Inverno 2014), mostrou a nova coleção de Patricia Viera, e na São Paulo Fashion Week, na mesma temporada, vestiu peças de Lino Villaventura.
Em outra temporada da São Paulo Fashion Week, foi vista nas passarelas de FH por Fause Haten e UMA Raquel Davidowicz.
Paola participou de editoriais e ensaios para as revistas L’Officiel (fotografada por Miro), Harper’s Bazaar Noiva, Vogue Brasil, Elle Portugal (em sua estada em Portugal, desfilou na Semana de Moda de Lisboa), Cláudia (fotos de Manuela Oristanio), Cosmopolitan Brasil (fotos de Alex Batista), Bride Style, Studio W (foto de Renan Prando), La Vi (grife mineira; fotos de Marcio Rodrigues), MAG!, FFWMAG e para o site PureTrend.
Na mais recente edição da São Paulo Fashion Week, Verão 2016, Paola Lüdtke desfilou para um grande número de marcas: Água de Coco por Liana Thomaz, Isabela Capeto, Lenny Niemeyer, Lino Villaventura, Patricia Viera, Paula Raia, Salinas, Triya e UMA Raquel Davidowicz.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: Alessa

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Foto: Divulgação/TV Globo

O maniqueísmo não está presente em todos os personagens de “Fina Estampa”, novela das 21h da Rede Globo, escrita por Aguinaldo Silva. Teodora, o papel defendido por Carolina Dieckmann, é um deles. Muitos adjetivos pejorativos já lhe foram atribuídos, sendo o principal deles “desnaturada”, quando se refere à sua condição de mãe. Realmente é plausível que a chamem desta forma, porquanto por dinheiro, fama e poder abandona o filho bem pequeno Quinzinho (Gabriel Pelícia) sob os cuidados do dedicado pai Quinzé (Malvino Salvador), e o apoio incondicional da avó Griselda (Lilia Cabral). Alguns anos passam. Quinzinho cresce, já está na escola, e possui discernimento de que tem mãe. Uma mãe que estava para ele apenas em porta-retrato na mesinha de cabeceira ao lado da cama na qual dormia com o seu pai. Enquanto isso, nos octógonos da vida, Teodora esbaldava-se em meio a “flûtes” de champagne, dólares e euros decorrentes dos cinturões ganhos por seu marido lutador. Entretanto, para desespero da família da Silva Pereira, a moça que gosta de trajar calças justas, coloridas e metalizadas volta do exterior com o companheiro, pois este tem desafio agendado no Brasil. A situação muda drasticamente para os envolvidos na trama. Griselda fica milionária após ganhar na loteria, e Teodora na iminência de experimentar de novo a modéstia com a impossibilidade do parceiro de continuar a competir. As “flûtes”, os dólares e os euros começam a se distanciar. É neste momento que a mãe de Quinzinho resolve se lembrar de que é mãe de Quinzinho, e procura a ex-sogra fazendo-lhe proposta para lá de indecente. Abriria mão de ver o filho em troca de R$5.000.000,00. Assustador? Põe assustador nisso. A vontade visível da família agora abastada de querer Teodora bem longe do menino é tão grande que aceita o que lhe foi proposto, mesmo que o documento que viria a ser assinado não contivesse valor legal. Todavia, o que todos não esperavam, inclusive Teodora, é que ao se deparar com o infante Quinzinho, fosse nela despertado o que estava adormecido, ou que tivesse nascido o que nunca existiu: o sentimento materno. Teodora espreita o garoto na porta do colégio. Tenta falar com ele. Consegue, e abraça-o. Perde noites de sono. Clandestinamente, leva-o para passear. Quinzinho parece gostar dela. Quer ter uma mãe. Afinal, é uma criança. E esta mãe decide desistir do que antes havia sido acordado. A união com o ex-atleta deixou de ser união, após a descoberta daquele de plano sórdido arquitetado pela pessoa que dividia o mesmo quarto de hotel onde se hospedavam. Cada um foi para um lado. E Teodora foi para o lado de Quinzé. Até com o pai dele, Pereirinha (José Mayer), está morando. Seduções por parte da moça para reconquistar quem deixou têm se repetido. E Quinzé fraquejado. Até beijo involuntário na praia houve. Quanta complexidade se esconde por debaixo dos cabelos de Teodora.

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Foto: Divulgação/TV Globo

“Em Família”, a nova novela da Rede Globo que estreou há duas semanas, escrita para o horário das 21h da Rede Globo por Manoel Carlos (e a colaboração de Angela Chaves, Juliana Peres, Maria Carolina, Mariana Torres e Marcelo Saback), com a direção geral de Jayme Monjardim e Leonardo Nogueira (além de Teresa Lampreia, Adriano Melo, Luciano Sabino e João Boltshauser), já teve duas fases, e estamos por ora acompanhando a terceira. Há que se entender que fases são distintas, e que obedecem à função precípua de desenhar um espaço de tempo, acontecimentos determinantes e a evolução da identidade dos personagens de uma trama. Devemos compreender também que cada teledramaturgo carrega a sua marca, o seu estilo, o seu “selo”, o seu tempo. Manoel Carlos já nos é bastante conhecido por sua notória apreciação de passagens nas quais possamos entender com calma, eu disse com calma, a personalidade dos membros de sua história, com a sucessão de diálogos elaborados. A primeira fase serviu de amostra eficiente do perfil dos personagens principais quando mais jovens ou crianças. Maneco, como é chamado pelos que lhe são próximos, quis retratar a vida bucólica e provinciana que aqueles levavam seja em Goiânia seja na fictícia Esperança. Houve a tentativa frutífera de clarificar como nasceu o amor entre os protagonistas Laerte e Helena, Eike Duarte e Julia Dalavia, respectivamente. A “raiz” de seus sentimentos. Como pudemos ser apresentados a Shirley (Giovanna Rispoli), filha de Mafalda (Simone Soares, esposa do fazendeiro Viriato, Henrique Schafer), uma menina com rosto angelical capaz de deixar a própria amiga se afogar em lago, sob seus fixos e assustadores olhares. Ficou-nos patente a incompatibilidade de gênios entre as irmãs Chica (Juliana Araripe) e Selma (Camila Raffanti). Quanto à tríade Helena/Laerte/Virgílio, este último defendido por Arthur Aguiar, o comportamento de cada um já por nós pôde ser delineado: Helena ou Leninha é firme, resoluta, convicta de suas decisões; Laerte possui um romantismo doentio, cheio de máculas de ciúme destrutivo e injustificado; e Virgílio nos cativa com sua aparente inocência, pureza, porém dotado de uma resignação e conformismo que não lhes são benéficos. Tanto na primeira quanto na segunda fase, Cyria Coentro (uma das apostas de Luiz Fernando Carvalho em “Renascer”) como Maria brilhou. Tivera marcantes momentos em que evidenciou toda a sua potencialidade dramática. O teledramaturgo parece propositadamente ter reservado grande parcela das ação e tensão para o período da sinopse que antecedeu o atual. Os atores, alguns foram substituídos. Helena é a carismática Bruna Marquezine, atriz que, como sabemos, iniciou sua carreira justo num folhetim de Manoel Carlos, “Mulheres Apaixonadas”. Guilherme Leicam é Laerte, um jovem intérprete que amadureceu a olhos vistos desde “Fina Estampa”, produção cujo elenco integrou na mesma emissora, depois de “Tempos Modernos”, quando fora o filho de Carlos Casagrande e Helena Ranaldi. O novato Nando Rodrigues, natural de Mato Grosso do Sul, como Virgílio, conquistou de pronto a maioria dos telespectadores (especula-se até a sua volta à produção), e não só os femininos, suponho. E Shirley coube a Alice Wegmann, que cumpriu a missão de dar continuidade com desenvoltura ao caráter provocativo, atrevido, cínico e calculista da antagonista de Helena. Guilherme e Nando receberam de presente a oportunidade de participar de uma das melhores cenas já realizadas até o exato instante em “Em Família” (um mérito, claro, outrossim, dos diretores). Usando uma referência cinematográfica, digna de um filme de John Carpenter. O fato ocorreu na despedida de solteiro (na verdade, uma “despedida de horror”) do filho de Itamar (Nelson Baskerville) em uma ampla casa da família, haja vista que no dia seguinte iria se casar com a prima grávida supostamente dele. Junto aos amigos, dentre eles Beto (Pedro Bosnisch) e Fred (Bruno Ahmed), Laerte convidou garotas de programa para o “convescote”. Viu-se uma sequência de “takes”: o começo da festa regada a bastante álcool; a chegada das prostitutas e consequentes tentações; a frágil resistência de Laerte às “investidas” de uma delas; a incitação dos “amigos” e, lógico, a estupefação do vaqueiro diante da iminência de testemunhar a traição da amada. O inevitável decorre: o futuro nubente cede aos encantos da “profissional da noite” e é flagrado por um furioso Virgílio. Há entre eles ríspida discussão, com ofensas seriíssimas e impropérios de todos os tipos. Segue-se uma luta corporal dirigida e ensaiada com perfeição, com a dispensa de dublês. O cume da briga foi o terrível ferimento provocado pelo moço de barba semicerrada e olhos azuis ofuscantes no rosto do seu rival com uma espora. O rapaz cai, bate com a cabeça e desacorda. Laerte julga que esteja morto, e revela seu lado monstruoso ao enterrá-lo (Nando decidiu fazer a tétrica cena). A partir daí, série de episódios se perfaz. O jovem galã é preso no altar pelo delegado (Paulo Vespúcio, um ator com trajetória respeitável no cinema). O pai da noiva Ramiro (Oscar Magrini) não suporta o baque, sofre um ataque cardíaco e falece. Uma tragédia chama outra. Juridicamente, Laerte cometeu as seguintes tipificações penais: tentativa de homicídio (alguns juristas poderiam alegar legítima defesa ou crime passional) e ocultação de cadáver. Como Virgílio sobreviveu graças ao bom pastor alemão General, configura-se lesão corporal de natureza grave. No Brasil a Justiça costuma não ser cega, e Laerte sendo rico e de família influente, é condenado à pena mínima, ou seja, 1 (um) ano de reclusão em regime fechado. A ficção imitou a realidade. Não podemos nos esquecer da referência de Manoel ao famigerado estupro coletivo de uma turista americana numa van no Rio de Janeiro. Entramos afinal na terceira e última fase, e alguns importantes conflitos e abordagens se veem próximos ou vigentes: Helena (Julia Lemmertz honrando o posto) está um pouco mais autocentrada (entretanto não omite sua inquietude ao saber da volta de Laerte, Gabriel Braga Nunes, agora um músico famoso, ao seu país), vive um morno matrimônio com o passivo e estoico Virgílio (Humberto Martins, atuando com precisão); Thiago Mendonça retorna à TV como Felipe, um competente e dedicado médico que infelizmente padece do alcoolismo desde a adolescência (este tema sempre fora tratado com seriedade por Manoel Carlos, nas interpretações de Paulo José e Vera Holtz, por exemplo). A obsessão mórbida de Juliana (Vanessa Gerbelli, que promete ser um dos destaques da novela) em ter um filho, e já que não pode, transfere esta irrefreável vontade para a filha de sua ex-empregada Gorete (Carol Macedo), que está entre a vida e a morte após um atropelamento. A psicopatia de Juliana é tão alarmante que a esposa de Fernando (Leonardo Medeiros em uma performance convincente como de praxe) chega a torcer pelo falecimento da pobre moça, e não se importa em ver o seu enlace desmoronar. O drama da diabetes mal cuidada mereceu atenção na pele de Itamar. Nelson Baskerville deu um tom comovente e com doses de humor ao difícil papel. Seu filho Laerte é casado com a maestrina Verônica (Helena Ranaldi, radiante como de costume), que se habituou à questão do amor mal resolvido do cônjuge com sua prima. Até quando suportará estes “encontros” com o passado? O flautista se apaixona por Luiza (Bruna Marquezine), filha de sua antiga paixão. Um infalível transtorno afetivo/familiar já visto no sucesso “Laços de Família”, do mesmo autor. Marina (Tainá Müller, ótima) é uma fotógrafa especializada em nudez de mulheres com prestígio internacional que não vislumbra problemas na sua homossexualidade. Encanta-se (e abusa do seu poder de sedução irresistível) pela jovial e “solar” Clara (Giovanna Antonelli numa personagem bem diferente da última que fizera na televisão). Clara é casada com Cadu (Reynaldo Gianecchini), um “expert” em Gastronomia, juntos tiveram um filho, e a união é monocórdia. No futuro, Cadu descobrirá que é portador de uma grave enfermidade. Quanto a Clara, entrará em embate consigo mesma diante da possibilidade de vivenciar algo que nunca tivera lugar em sua vida íntima. É muito comum que “heteros” se percebam nesta situação em certa ocasião de sua existência e de modo inescapável têm de enfrentar este novo e perturbador desejo. Chica (Natália do Vale) continua infeliz no aspecto afetivo, com a permanente sensação de “tempo perdido”. Ricardo (Herson Capri), um velho conhecido, poderá mudar os seus rumos. Isso se sua austera ex-mulher Branca (Angela Vieira) anuir. Selma (Ana Beatriz Nogueira) está mais compassiva. Laerte conheceu seu filho com Shirley (que será vivida por Vivianne Pasmanter, uma artista que nunca passa despercebida), Leto (Ronny Kriwat, que após “Avenida Brasil” reaparece mais adulto com o belo sorriso que o caracteriza). Leto admira o pai e se apraz com a música. Bruno Gissoni (André) sente dupla vergonha da mãe: por ela ser negra e por ser adotado. Chegou a dizer no aeroporto quando veio de viagem: – Não precisava ter vindo. Na minha opinião, também não precisava ter dado presentes à mãe Dulce (Lica Oliveira). Aguardemos Paulo José, como Benjamin, que será vítima do Mal de Parkinson, um assunto assaz pertinente a ser debatido, e espero com sinceridade que com o folhetim largo segmento de médicos desqualificados aprendam a diagnosticar corretamente a doença. “Em Família” está no ar. Seus “familiares” também. Somos “visitantes” desta “grande família”. Resta-nos saber quem optará em ser uma fênix e renascer das cinzas ou preferir continuar em estado de pó e ser levado pelo primeiro sopro de vento.


A modelo Carol Abbott no Fashion Rio Outono Inverno 2014, no Píer Mauá.
À época desta edição do Fashion Rio (a penúltima), em novembro de 2013, Carol, que nasceu em Niterói, município do Rio de Janeiro, pertencia à importante agência Mega Model Brasil.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: Alessa

“Respeitinho!”

Publicado: 16/02/2014 em Cinema, Moda, Teatro, TV

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Foto: Christian Gaul/Revista TPM

O ator português Paulo Rocha, nascido na cidade do Porto, foi pessoalmente convidado pelo autor Aguinaldo Silva da novela das 21h da Rede Globo, “Fina Estampa”, para interpretar Guaracy Martins, lusitano com nome de índio, proprietário de padaria bastante procurada pelos moradores do Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Guaracy é um personagem pitoresco. Torcemos por ele. Transita bem tanto no campo das situações cômicas quanto no das românticas. É um homem que orgulha-se das raízes. Aprecia contar a todos sua história de vida, e o porquê do nome possuir origem indígena. A generosidade, a amizade, a enorme disposição para a labuta sem dispensar rigor por vezes necessário para manter o bom funcionamento do seu negócio são características para nós evidentes. Porém, o que talvez mais chame a atenção no perfil do rapaz de cabelos encaracolados, barba aparada, e olhos azuis seja a intensa vontade de amar uma mulher. Por sinal, desde o início do folhetim, a eleita para as suas fantasias afetivas fora Griselda (Lilia Cabral), ou seja, desde o tempo no qual era o Pereirão, “o marido de aluguel”, a “faz-tudo” sem vaidade ainda assim bonita, que vestia macacão manchado de graxa, e empunhava chave de grifo. Entretanto, após reiteradas investidas que beiraram o fracasso de conquistar a mãe de Quinzé (Malvino Salvador), Guaracy, por conselho da funcionária Dagmar (Cris Vianna), decidiu cuidar melhor do visual. Calças de bainha curta, camisas pouco vistosas e sandálias foram substituídos por roupas sociais. Não adiantou. Griselda não demonstrou entusiasmo. A questão é que ela parecia ter se “fechado” para o amor. O português, meio confuso, em ocasiões diversas, chegou até a gracejar para o lado da moça que lhe prepara as famosas empadas. O ponto máximo da decepção com a agora milionária Griselda deu-se com o anúncio feito por ela mesma de que estava noiva dele. Era apenas um ardil para afugentar Pereirinha (José Mayer). Guaracy passou então a tratá-la com desprezo. E este de alguma forma provocou desconforto na ganhadora da loteria. E de uns capítulos para cá, tem-se notado crescente interesse do comerciante por Esther (Julia Lemmertz), em crise no casamento, e que viciou-se nas suas empadas. O carinho mútuo é notório, e o ciúme de Paulo (Dan Stulbach) e Griselda, também. Tudo leva a crer que haverá romance ou algo próximo. Já quanto ao intérprete Paulo Rocha, estudou na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Integrou o Teatro Experimental de Cascais, tendo encenado Alexandre Dumas e Tennessee Williams, por exemplo. No currículo, há inúmeras participações na televisão, e incursões no cinema. Paulo Rocha merece respeito. Ou como Guaracy diz: “Respeitinho.”

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Foto: Studio C

O ato de se levar aos palcos Clarice Lispector por si mesmo já pode ser considerado elevado. Mas não “se leva” apenas Clarice Lispector aos palcos. Deve-se obrigatoriamente corresponder à excelência das ideias e pensamentos da escritora e jornalista ucraniana que chegou ao Brasil em 1920, uma das figuras mais insignes e representativas da Literatura nacional do século passado. Uma tarefa que foge da facilidade e que exige profundo entendimento, clareza dos objetivos e capacidade imensurável de estruturar em uma narrativa teatral lógica e reverente aos preceitos desta. Beth Goulart, uma atriz que, como todos sabemos, possui sólida, respeitável e prolífica carreira, decidiu ir além de suas potencialidades sabidas, e se arriscou com mérito a adaptar (e dirigir) um espetáculo que dissesse um pouco mais sobre Clarice, e incentivasse o público a descobrir as suas obras, e delas extrair a importância que um dia servira à própria Beth. A intérprete colheu depoimentos, entrevistas, correspondências e trechos de seus livros “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres” e dos contos “Amor” e “Perdoando Deus”, e realizou uma magnífica adaptação, que nos dá uma bela dimensão do infinito e rico universo da literata. Beth (com a preciosa supervisão de Amir Haddad) dirigiu “Simplesmente eu, Clarice Lispector” (Prêmio Qualidade Brasil de Melhor Espetáculo) de forma que houvesse uma evocação sensível, emocional, com finíssimo humor, comovente e empática. A diretora se vale não só da poderosa presença de Clarice Lispector (que é esmiuçada na sua complexa, conturbada, fascinante, coberta de ironia, perscrutadora e sábia personalidade), mas de quatro outras personagens de suas publicações para fazer a plateia absorver a abrangência da sua imaginação. Joana, de “Perto do Coração Selvagem”; Lóri, de “Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres”; Ana, do conto “Amor” e outra mulher anônima do conto “Perdoando Deus” são usadas como eficazes instrumentos de mergulho nos seus inventivos escritos. No que concerne à sua atuação, Beth (vencedora dos Prêmios Shell, APTR, Qualidade Brasil e Contigo! de Melhor Atriz) cumpre com notórios garbo, nobreza, dignidade, emoção, um equilíbrio exato entre a graça e o drama, uma interiorização plena, legitimidade e um despojamento apropriado e bem-vindo para os outros papéis como pouco se vê no teatro atual. Beth pode, sim, vangloriar-se de apresentar a todos uma das mais brilhantes interpretações já vistas. A caracterização feita na artista é impressionante e fiel, um trabalho irrepreensível de visagismo de Westerley Dornellas, dando a Beth/Clarice uma beleza suave, diáfana e iluminada. Os movimentos de corpo são precisos, graciosos, bonitos, leves em sua insustentabilidade. Seja nos passos firmes com pés descalços, seja na sensual dança ao som que nos remete a um tango, seja nos delgados desenhos feitos no ar com os seus braços. Uma admirável direção de movimento que coube a Marcia Rubim. A entoação de voz de Beth Goulart se alterna entre o acento melífluo e pujante ao mesmo tempo de Clarice Lispector e um tom natural e diverso quando vivencia as demais personagens. Há que se lembrar de que existe belíssimo momento no qual a atriz canta uma canção em forma de prece (Beth também é uma exímia cantora). Os espectadores são direcionados para um estado de enlevo e encantamento (ótima preparação vocal de Rose Gonçalves). O cenário de Ronald Teixeira e Leobruno Gama é um deslumbre, algo que faz com que fixemos nossos olhares com constante êxtase. Ronald e Leobruno se utilizam de uma enorme cortina com textura branca e brilhante subdividida em persianas ocupando o espaço de um semicírculo, uma cadeira sofá vintage, uma chaise longue (com tecido cru), um pufe claro, uma pequena mesa laqueada negra em dois planos sobre a qual se encontra uma máquina de datilografia e dois cinzeiros, um pequeno e outro “de pé”. Uma referência ao ambiente sessentista/setentista em que viveu de modo efusivo a autora. Tanto Beth quanto o cenário são bem valorizados pela caprichada e inspirada luz de Maneco Quinderé, que não se esquiva de aplicar uma iluminação com planos abertos, que se expandem, ultrapassando as linhas limítrofes da ribalta, focos insinuantes, poéticos e “silenciosos”. Um vermelho soberano e gritante que nos desconcerta. Um cruzamento de feixes de luz que moldam a silhueta da atriz, sombras fantásticas e carregadas de enigma e a comunhão de dois refletores, um em cada lado do palco. A trilha sonora de Alfredo Sertã (que se baseou em Eric Satie, ArvoPart, Debussy e Lalo Schifrin) é extremante adequada, cheia de acertos, priorizando com a devida compreensão a ambiência da cena. Há ruído de chuva e trilhar de bonde. Os figurinos de Beth Filipecki foram escolhidos com esmero, e nota-se que intensa pesquisa fora feita, a fim de que não tenhamos dúvidas de que estamos defronte a uma verdadeira Clarice Lispector. Beth usa sem parcimônia e sempre atendendo à elegância blusa de seda/cetim branca acompanhada de uma faixa preta e uma saia drapeada também branca, um vestido barroco “perolado”, um xale rendado, um indefectível colar de pérolas, um vestido negro “grave” com rubro forro, um casaqueto vermelho adornado com grandes botões negros, um “peignoir” transparente preto e um par de escarpins da mesma cor. As projeções de vídeo (criação de Fabian e edição de Glaucio Ayalla) são harmoniosas, lúdicas e românticas, oferecendo charme extra à encenação. Voltando ao texto de Clarice adaptado por Beth Goulart, uma relevante gama de questões é abordada, como vida e morte, criação e inspiração, cotidiano, filhos, Natureza, amor, realidade, sonho, pertencimento, solidão, culpa e outros temas. A abordagem é feita com profundidade intelectual e não desperdício de sua significância. Clarice se faz várias perguntas, e com ela nos perguntamos involuntariamente. Clarice especula, e nós especulamos. Ela duvida, e duvidamos. Indaga a si mesma o porquê de escrever. Desconhece a razão. Não se deve desdenhar da intuição tampouco do poder das palavras. Clarice não tem a vaidade de ser uma respeitada escritora, porém gosta de ser vista como uma bonita mulher. Clarice é humana. Seria o ritual da escrita uma maneira de se sentir “existente”? De encontrar a real identidade e preencher supostos vazios internos? Escrever é uma atividade solitária e angustiante. Para se bem escrever, um interregno se faz premente, para que ideias sejam renovadas. Necessita-se escrever. Não é recomendável pensar de antemão sobre o que se escreverá. Reunir frases merece espontaneidade e instinto. Provável que seja um modo infalível de se compreender melhor o mundo. Cria-se quem sabe para se aproximar da realidade. A grandeza de um sonho tem um oponente à altura? Desde o nascimento, possuímos a urgência de “pertencer”. Um escritor pode praticar o seu ofício tanto por talento quanto por vocação. Viver é curto. Vivemos num eterno “por enquanto”, “espremidos” entre o desconhecido do “antes” e do “depois”. Por que sentimos que Deus se afasta de nós em alguns instantes? Seria Ele um matemático? A morte nos reserva algo? A misericórdia não é um gesto de gentileza e sim uma demonstração da capacidade de amar. Um amor transformador. Vivemos num permanente conflito. Não sentimos como pensamos. Não pensamos como sentimos. Não compreendemos o que julgamos ser compreensível. Procuramos algo por toda uma vida sem sabermos ao certo qual o objeto de nossa infatigável procura. Percorremos pedregosos e íngremes atalhos para atingirmos um estado de graça, uma felicidade plena e calma, onde não há dúvidas. Existir sobre águas mansas. Sintamos em algum átimo de tempo, o invulgar sentimento de sermos a “Mãe de Deus”, a “Mãe da Terra”. Algo nunca experimentado ou vivido. Por mais penoso que nos seja, testemunhemos as dores e sofrimentos de nossos frutos, os filhos. Adentremos em nosso ser, e procuremos conhecer a essência nata. Não temamos os riscos. Se não nos movermos, poderemos perder a oportunidade única de sabermos quem somos. Clamemos a Deus por sua proteção, sua bênção, sua vigília. Peçamos a Ele que jamais sejamos abandonados, largados à própria sorte. Isto é o que depreendi do que “simplesmente” disse Clarice. Amém.

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O DJ e produtor Jesus Luz após a sua apresentação na The Party! Celebration Weekend, no Píer Mauá, no Rio de Janeiro, em 2011 (dentre outras atrações, destacaram-se o DJ inglês Paul Oakenfold e o vocalista, um dos membros do The Black Eyed Peas, Apl.de.ap).
Jesus, que também é ator e produtor (participou das novelas da Rede Globo “Aquele Beijo”, de Miguel Falabella, e “Guerra dos Sexos”, uma nova leitura do folhetim homônimo levado ao ar em 1983, sendo que ambas as produções foram escritas pelo autor Silvio de Abreu), atualmente é um dos competidores do quadro “Saltibum”, do programa do apresentador Luciano Huck “Caldeirão do Huck”, exibido na mesma emissora, em que se sagrará vencedor aquele que tiver o melhor desempenho em saltos ornamentais.

Foto: Paulo Ruch