Arquivo de janeiro, 2019

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Foto: Divulgação do filme

Lançado originalmente na Netflix, “Roma” é um dos filmes mais aclamados do momento, tendo recebido 10 indicações ao Oscar, incluindo “Melhor Filme”, “Melhor Diretor” e “Melhor Filme Estrangeiro”

Houve no último dia 24, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, uma sessão exclusiva em película de um dos mais aclamados filmes do momento, “Roma”, de Alfonso Cuarón, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, dois Globos de Ouro (filme e diretor), sendo indicado ainda a 10 Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor, Atriz (Yalitza Aparicio), Melhor Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia (ambos de Alfonso Cuarón), e Melhor Filme Estrangeiro. A obra, originalmente lançada e disponível na Netflix, possui grandes chances de levar estatuetas para casa, inclusive Filme e Diretor.

Alfonso Cuarón, que já recebeu um Oscar pela superprodução espacial “Gravidade”, faz um drama humanista e realista, com impactante fotografia em p & b que nos remete ao neorrealismo de Vittorio de Sica 

O respeitado cineasta mexicano Cuarón, que já recebeu um Oscar por sua direção da superprodução espacial “Gravidade” (2013), resolveu, dessa vez, mergulhar fundo em suas raízes, sendo o responsável absoluto pela criação de um drama humanista, realista e contundente sobre a relação de afeto (sem preterir as regras de hierarquia social) entre a empregada doméstica Cleo (Yalitza Aparicio) e a família de classe média branca para quem trabalha (como a patroa Sofia, Marina de Tavira) e seus quatro filhos pequenos), no bairro Roma, na Cidade do México, no início da década de 70. Alfonso não deixa de retratar, escorado em sua belíssima e impactante fotografia em p & b, que nos remete ao neorrealismo de Vittorio De Sica, a miserabilidade e o caos urbano de um México remexido por questões políticas e manifestações estudantis violentas.

Yalitza Aparicio, a primeira indígena indicada ao Oscar, é um dos destaques de “Roma”, cujo roteiro coloca uma lente de aumento na vida de pessoas diferentes, que se veem unidas, através do afeto, pelos sofrimento, solidão e abandono que lhe são comuns

O roteiro nos mostra uma narrativa própria, com ritmo desacelerado, preocupado em colocar uma lente de aumento na vida cotidiana daquelas pessoas tão diferentes e próximas entre si, unidas pelo sofrimento, solidão e abandono. Yalitza Aparicio (em sua estreia nas telas), a primeira indígena indicada ao Oscar, comove com a sua doçura, seu olhar triste e seu sorriso desencorajado. Roma integra um seleto grupo de filmes que busca a investigação da alma humana, elevando o afeto como emoção máxima de união entre os seres.

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Foto: Divulgação do filme

Desde 1995, com o movimento cinematográfico Dogma 95, o cinema dinamarquês vem mostrando a sua força, e a mais recente prova disso é o filme “Culpa”

Desde 1995, quando foi lançado o movimento cinematográfico Dogma 95, criado pelos diretores Lars Von Trier (“Os Idiotas”) e Thomas Vinterberg (“Festa de Família”), a indústria do cinema dinamarquês tem despertado o interesse do público e da crítica em níveis mundiais, principalmente com relação a Von Trier. Quase 24 anos se passaram, e os filmes feitos neste país da Escandinávia ainda estão se sobressaindo no cenário internacional (claro que as regras rígidas do Dogma 95 foram abandonadas). O mais recente sucesso da Dinamarca, que estava incluído na lista dos nove pré-selecionados para a disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “Culpa” (“Den Skyldige”), dirigido pelo sueco Gustav Möller, tem ganhado prêmios e elogios pelos festivais onde foi exibido (esteve em Sundance e Roterdã).

“Culpa” é um dos melhores thrillers psicológicos jamais feitos

O longa de estreia de Gustav Möller é, sem dúvida, um dos melhores thrillers psicológicos jamais feitos. O eletrizante suspense, tendo como únicas locações as salas assépticas e azuladas de um distrito policial, sustenta-se na história de Asger Holm (Jakob Cedergren), um agente com pendências em seu passado, incumbido de atender às chamadas de emergência, e encaminhar as notificações aos departamentos responsáveis. Ao receber um chamado lhe avisando sobre um sequestro de uma mulher, Asger começa a burlar os códigos de conduta policial, envolvendo-se intimamente com o caso, rompendo os limites da ética.

Uma obra sensorial, com roteiro elaborado e atuação excepcional de Jakob Cedergren

O roteiro elaboradíssimo de Gustav Möller e Emil Nygaard é pautado em diálogos curtos e cortantes, privilegiando a riqueza dos sons, vozes e ruídos. Uma obra sensorial e potente. A atuação excepcional de Jakob Cedergren é contida, fria e sóbria, precisa nas nuances. “Culpa” mereceria estar entre os finalistas do Oscar pelos predicados relatados, sendo uma pérola do suspense europeu contemporâneo que reserva aos espectadores um final surpreendente, resguardando sua inabalável qualidade.

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Foto: Divulgação do filme

Spike Lee, autor de obras emblemáticas, sendo um dos principais e mais engajados diretores norte-americanos, em “Infiltrado na Klan” não foge aos seus sólidos ideais anti-racistas 

Conferi, no dia 14 de janeiro, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, em uma sessão superlotada, a um dos filmes mais comentados da atual safra cinematográfica, “Infiltrado na Klan” (“BlacKkKansman”, 2018), dirigido por Spike Lee, um dos mais importantes e engajados diretores americanos. Spike Lee, autor de emblemáticas produções, como “Faça a Coisa Certa” (longa que o mostrou ao mundo), “Febre da Selva” e “Malcolm X”, cujos enredos são retratos genuínos da situação do negro norte-americano, dentro de contextos sociais, comportamentais e históricos, não fugiu com “Infiltrado…” aos seus conhecidos e elogiáveis ideais defensores de uma América justa e igualitária, denunciando corajosamente os ranços racistas de caráter ancestral, que infelizmente permanecem fortes até hoje.

Baseado em uma história real, com ótimo e bem-humorado roteiro coassinado por Spike Lee, o filme traz uma dupla de policiais, interpretados por John David Washington e Adam Driver, que, usando a mesma identidade, numa missão arriscada, infiltra-se em uma seção da Ku Klux Klan 

Baseado em uma história real de Ron Stallworth, publicada em livro (“Black Klansman”, 1966), com ágil e bem-humorado roteiro de Spike Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel e Kevin Willmott, a trama gira em torno de um jovem negro, Ron Stallworth (o ótimo John David Washington), inteligente e divertido que, ao ingressar, em 1978, em um Departamento de Polícia de Colorado Springs, Colorado, Estados Unidos, acaba se envolvendo em uma arriscada missão, dividindo a identidade com outro policial, o judeu Flip Zimermann (Adam Driver, impecável), cujo objetivo é a infiltração de ambos, de formas diferentes, em uma seção da organização racista Ku Klux Klan.

A despeito do humor presente em quase todo o filme, “Infiltrado na Klan” é uma obra seríssima, atual, relevante em suas denúncias contra o preconceito racial, incluindo-se o antissemitismo

O elenco, que conta ainda com Laura Harrier, Ryan Eggold, Topher Grace e Jasper Paakkonen é magnífico. A despeito de sua leveza trazida pelo humor, “Infiltrado na Klan” é um filme seríssimo, de uma importância incontestável, atual, que por debaixo de sua capa de entretenimento, é uma denúncia feroz e poderosa contra o preconceito racial, incluindo-se o antissemitismo, presentes nas mais diversas camadas da sociedade norte-americana.

Hoje, 22 de janeiro, saiu a tão aguardada lista dos indicados ao Oscar 2019, contemplando “Infiltrado na Klan” em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora Original (Terence Blanchard), Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição (Barry Alexander Brown).

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Foto: Divulgação do filme

“A Casa Que Jack Construiu” já é considerado um dos melhores filmes de 2018 

No dia 5 de janeiro, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, a um dos filmes mais chocantes do polêmico, e um dos mais importantes cineastas da atualidade, o dinamarquês Lars Von Trier, já considerado um dos melhores filmes de 2018, “A Casa Que Jack Construiu” (“The House That Jack Built”).

Com cenas hiperviolentas, o mais novo longa de Trier traz Matt Dillon como um serial killer com TOC, e Bruno Ganz como o poeta romano Virgílio 

Antes de discorrer sobre esta obra com roteiro inteligentíssimo, recheado de referências literárias e artísticas que demonstram a vasta cultura de seu diretor/autor, aviso-lhes que há inúmeras cenas de hiperviolência, demasiado fortes e aterrorizantes, mas que se encaixam na proposta de Trier, reverberando sua afamada ousadia estética. O filme, com Vivaldi e Wagner em sua trilha sonora, tem como protagonista o galã dos anos 80 (em ótima forma física) Matt Dillon, como o serial killer com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), o que já é uma ironia em si mesma, Jack, naquele que é possivelmente o melhor papel de sua carreira. Narrando para o poeta romano Virgílio (o célebre ator suíço Bruno Ganz), numa sacada genial do longa, sua trajetória de 12 horripilantes anos de crimes, com direito a interpretações filosóficas do segundo, divididos em “incidentes”, o engenheiro Jack, que sonha construir uma casa imaginada por ele, traça, na verdade, o seu inevitável rumo a um Inferno idealizado.

Com Uma Thurman interpretando uma das vítimas do serial killer, a polêmica obra do cineasta dinamarquês faz um incômodo paralelo entre Arte e horror, não sendo indicado a pessoas sensíveis 

Com a participação bem-vinda de Uma Thurman, como uma de suas vítimas, “A Casa Que Jack Construiu” se firma também como uma lancinante denúncia contra o fato da arte ser associada, em alguns episódios históricos, ao terror perpetrado pelos líderes mundiais. Um excelente filme, mas não indicado a pessoas sensíveis.

 

Assista ao trailer (contém cenas de violência explícita):

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Foto: Divulgação do filme

“Tinta Bruta”, um dos mais relevantes filmes independentes gaúchos dos últimos anos, estreia no Cine Arte UFF, com direito à debate com a presença de seus diretores e dos atores principais 

Em 8 de dezembro do ano passado, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de janeiro, a um filme bem interessante, e relevante para os tempos atuais, pertencente à atual cena cinematográfica independente gaúcha, “Tinta Bruta”, dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. No dia 7, após a exibição de estreia do longa-metragem, houve um debate, no mesmo local, com a participação de Filipe e Marcio, e dos atores Shico Menegat e Bruno Fernandes.

“Tinta Bruta”, corajosamente e sem ser panfletário, toca em temas importantíssimos e atuais, como o bullying e a homofobia, tornando-se um pujante instrumento artístico denunciatório contra a prática de uma série de preconceitos e intolerâncias

A produção, que se passa em um centro da cidade nada glamouroso de Porto Alegre, toca, com notável propriedade, em temas contemporâneos delicados, como voyeurismo virtual, bullying, homoafetividade e homofobia, firmando-se assim como uma obra fílmica denunciatória das práticas da intolerância e do preconceito. Sem ser, o que é um grande mérito, panfletário, “Tinta Bruta” conta a história do solitário Pedro (Shico Menegat), um jovem homossexual que ganha a vida fazendo performances sensuais na internet, cujo maior atrativo é o fato de pintar o próprio corpo com tintas coloridas que, sob uma luz especial, ganham aspectos fluorescentes, como o neón (seu nick é Garoto Neon). Pedro, durante a sua via-crúcis numa terra onde a lei é a não aceitação, envolve-se com o bailarino Leo (Bruno Fernandes), enquanto aguarda a sentença de um processo de agressão da qual é acusado.

Premiado e elogiado no Brasil e mundo afora, “Tinta Bruta” serve como arma legítima contrária ao retrocesso cultural e comportamental que estamos vivendo

O filme levou importantes prêmios: Melhor Filme Teddy Award Berlim 2018, Grande Prêmio do Festival do Rio 2018, Melhor Filme CICAE Art Cinema Award Berlim 2018, dentre outros, além de ter recebido efusivos elogios do “Exberliner”, “Hollywood Reporter” e “Variety”. Com elenco afinado (e premiado), bela fotografia de Glauco Firpo e desenho de som dançante de Tiago Bello e Marcos Lopes, “Tinta Bruta” é essencial como arma legítima contra o retrocesso cultural/comportamental do país.

 

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Foto: Divulgação do filme

“O Beijo no Asfalto” tem sessão especial no Cine Arte UFF 

No dia 29 de novembro de 2018, o Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, teve o privilégio de sediar a pré-estreia especial do primeiro filme dirigido pelo ator Murilo Benício, “O Beijo no Asfalto”, sua versão para um dos maiores clássicos do dramaturgo Nelson Rodrigues (a peça foi publicada em 1960).

O diretor Murilo Benício esteve presente, e participou de um debate com o público 

Após a exibição do longa-metragem houve um esclarecedor debate com o próprio Murilo Benício e uma interessada plateia, bastante motivada e feliz com o que acabara de assistir. Fiz duas perguntas ao diretor. Disse-lhe que havia percebido influências e/ou referências em sua narrativa cinematográfica, como uma estética cinemanovista urbana (como as obras de Nelson Pereira dos Santos), além dos recursos de metalinguagem e melodrama. Perguntei-lhe se as mesmas foram intencionais. Murilo, generoso e franco todo o tempo, afirmou que o resultado foi fruto de muitos filmes aos quais assistiu na vida, e que suas imagens ficaram em seu inconsciente. Indaguei-lhe como exerceu a sua função de diretor, sendo que esta demanda uma certa autoridade, e como fora a sua relação com os atores mais experientes, como Fernanda Montenegro, Stênio Garcia e Otávio Müller. O cineasta asseverou que sempre esteve aberto às melhores ideias.

Fotografia de Walter Carvalho, roteiro do próprio Benício, e elenco com Lázaro Ramos como protagonista 

O “O Beijo no Asfalto” é uma preciosidade do cinema nacional, fotografada com a elegância em “p & b” do esteta Walter Carvalho (como não nos lembrarmos do cinema noir?), com roteiro brilhantemente estruturado por Benício, tendo em seu excelente elenco nomes, além dos já citados, como Amir Haddad, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Augusto Madeira, Marcelo Flores, Luiza Tiso e Arlindo Lopes. A trilha sonora calcada em um suspense crescente, composta com refinamento é de Berna Ceppas. O filme, que estreou oficialmente nos cinemas em 6 de dezembro do ano passado, não só lança Murilo Benício como diretor , como corrobora mais um de seus inegáveis talentos.

Assista ao trailer: