Arquivo da categoria ‘Música’

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O produtor, multi-instrumentista e arranjador Diogo Strausz e o cantor, ator, compositor e músico Chay Suede, após o show da banda Aymoréco, no Teatro Rival, no Rio de Janeiro.
Foto: Paulo Ruch

O Brasil sempre foi um berço de movimentos musicais artísticos que, por sua riqueza de sonoridades e criatividade rítmica, obteve, em distintas épocas, a merecida respeitabilidade e admiração de seu povo (alguns desses ao redor do mundo). Assim foi com o samba, cujo nascimento como hoje é conhecido, deu-se no início do século XX no Rio de Janeiro. O samba tornou-se com o tempo um de nossos principais signos de identificação no exterior. No final dos anos 50, surgiria aquele que, até os dias atuais, é considerado o mais importante movimento musical do Brasil: a bossa nova. A bossa nova, representada por Tom Jobim, João Gilberto e Nara Leão, ganhou os palcos internacionais e a reverência de ídolos do cenário externo, como Frank Sinatra. Nos anos 60, artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, dentre outros, lançaram um pop rock melódico e ingênuo que conquistaria fãs por toda a nação, a Jovem Guarda. Na segunda metade dos anos 60, os Festivais da Canção marcaram toda uma geração, e com eles passamos a conhecer Chico Buarque, que veio a se tornar um de nossos principais compositores brasileiros, com muitas de suas letras carregadas de forte teor político. No final da década de 60, sob o regime implacável de uma ditadura militar, a transgressão musical e estética se materializou na Tropicália ou Tropicalismo, que teve a influência de vanguarda das Artes Plásticas, como o Concretismo, além de inspirações estrangeiras, que influenciaram o cinema e o teatro. Daí, vieram nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Gosta, Os Mutantes e Tom Zé. Nos anos 80, o Brasil foi surpreso e sacudido pelo surgimento coletivo de grupos de rock de altíssima qualidade, como Legião Urbana, Barão Vermelho e Titãs, somados a tantos outros, originando assim o movimento que até hoje reverbera na formação de novas bandas e no imaginário das pessoas, o BRock. Desde então, excetuando-se o aparecimento do Mangue Beat, movimento contracultura liderado por Chico Science e sua Nação Zumbi, e conjuntos como O Rappa, não tivemos nenhuma outra manifestação cultural e artística reconhecidamente valorosa em nosso país. Claro que houve correntes musicais que açambarcaram por seus méritos bastantes fãs Brasil afora, como o pagode, a axé music, as duplas sertanejas, bons grupos de rock como o Skank, e atualmente o sertanejo universitário e o rap e o funk. Mas eis que surge em setembro de 2015, com o lançamento de um EP com apenas quatro faixas, intitulado “aymoréco” (um trocadilho com as palavras Aimorés e “amoreco”), uma dupla que se caracterizaria pela sua ousadia deliberada em mesclar os mais diferentes ritmos e influências musicais, e por conseguinte criar as suas próprias identidade visual e sonora, o cantor, ator, compositor e músico Chay Suede, e o multi-instrumentista, produtor e arranjador Diogo Strausz. Chay é de Vila Velha, Espírito Santo. Depois de ter participado do reality “Ídolos”, foi escalado para ser um dos protagonistas da novela “Rebelde”. O sucesso do folhetim fez com que o ator e cantor se juntasse a outros cinco integrantes da produção em um grupo musical homônimo. A banda Rebelde arrebatou o público adolescente, que ia em massa aos vários shows promovidos pelo país. Já o carioca Diogo Strausz, que já foi DJ, produtor de festas e guitarrista do grupo R.Sigma, lançou o EP “Garota Nacional” e o disco “Spectrum Vol. 1”, que contou com as participações de Alice e Danilo Caymmi, Kassin, e de seu pai Leno, da dupla da Jovem Guarda Leno & Lilian. Recentemente, a banda “Aymoréco”, sem muito alarde na mídia, apresentou-se seguidamente em shows pelo Rio de Janeiro: no Boulevard Olímpico, no Teatro Rival e na casa noturna Buraco da Lacraia, todos localizados no Centro do Rio de Janeiro. Assisti a dois desses shows (Teatro Rival e Buraco da Lacraia), e o que posso lhes dizer à princípio é que me tornei um grande admirador do trabalho desta dupla talentosíssima, que veio com a nobre missão de transformar, modificar e balançar os pilares da estagnação criativa de nossa música. Irei analisar em particular o show realizado no conhecido club da Lapa, o Buraco da Lacraia. No pequeno palco do espaço, sito junto à área da plateia, permitindo aos espectadores se colocarem bem próximos dos músicos, o que é muito bom e positivo, vê-se um cenário com viés futurista, em que papéis laminados prateados retorcidos forram significativa parte da ribalta, seja em sua frente ou na região posterior. Parece-nos à primeira vista uma robusta pedreira que vai absorvendo belamente as cores provindas da variada paleta de tons da iluminação. Chay e Diogo adentram o palco, e são recebidos com efusividade pelo público que lota a casa noturna. Tanto Chay Suede quanto Diogo Strausz, acompanhados de mais dois músicos (teclados eletrônicos e percussão), estão vestindo macacões brancos de mangas curtas, com a barra de suas calças levemente levantadas, o que nos faz perceber que estão descalços. A iluminação do show é absolutamente feérica e alegre, com predominância do vermelho, do verde, do rosa e do dourado. O recurso contribui bastante para o embelezamento de todo o conjunto da apresentação. O repertório de canções compostas por Chay possui títulos demasiado criativos e divertidos. Nota-se que as músicas do Aymoréco sofreram múltiplas e bem-vindas influências de demais gêneros, resultando, porém, em algo único, com sobeja personalidade. Avaliemos algumas das canções exibidas nos shows. Antes de mais nada é preciso que se diga que todas, ao seu modo, são inapelavelmente dançantes. A empolgante “Chuva de Like” refere-se, como o nome indica, aos relacionamentos afetivos em meio às redes sociais. Ou melhor, fala-se de uma espécie de amor platônico nestes tempos digitais. Usam-se termos próprios desta era moderna, como Instagram, Skype, “stalkear”, “printar”, “cutucar”, “seguir”, “nude” etc. Há uma pegada de surf music, e lembranças do som dos Titãs. Ao som de onomatopeias e versos como “Agora é assim/ Início do fim/ Quando o Carnaval chegar/ Com seus likes vou dançar…”, “Chuva de Like” (composição também de João Vitor Silva) é excelente. “Cilada” nos mostra novamente a inserção de acordes de surf music muito bem pontuados imiscuídos a uma variedade ampla de sons percussivos (lembra-nos às vezes a sonoridade de um ritual indígena e ruídos das florestas). Chay canta com uma voz com entoação diferenciada e em espanhol (são poucos versos, como “…Que Rico Mi Amor, Que Rico…”. “Cilada” nos oferta uma qualidade e uma exuberância sonora inacreditáveis. “Cilada” é, pode-se dizer, uma experiência musical sensorial e “lisérgica”. A linda, ultrarromântica e até certo ponto melancólica “Vem Que Tem” revela um Chay Suede com uma emissão vocal deliciosamente maviosa e suave. Quem não se comoverá com versos como “Sinto sua falta/E te quero bem/Pode ter certeza vem que tem…”? “Vem Que Tem” poderia ser classificada como pertencente ao estilo “tecnobrega”. Com romantismo, e começo marcado por percussão, a sensual “Água de Amor” também se define como vertente do tecnobrega, exigindo de Chay maiores extensões vocais, cumpridas com irrefutável êxito. Um de seus trechos diz: “Em teus olhos teu calor/Em teu cheiro água de amor/E a gente segue assim/Dez pra você e dez pra mim”. A suingada e psicodélica “Índia Jenifer” conta a história de uma bonita indígena que veio do Belém do Pará, que apesar dos traços de seu povo, não traz consigo a sua genuína identidade, devido às influências externas, estrangeirismos e modernidades. A denunciativa “Índia Jenifer” possui refrãos pujantes, como “Na guerra, na selva, floresta…”. Com riffs elaborados, a música se firma no repertório com sua riqueza melódica. “Hipopótamo” (pedida em bis) é uma música altamente festiva e jovial, sendo uma das que mais se identificam com a latinidade. Jogando com as palavras e suas rimas, com a preponderância de sopros, “Hipopótamo”, misturando os idiomas português e espanhol, é uma ode à felicidade e às cores, realçada em frases como “Pinta de amarelo, tira o azul daí, calça o seu chinelo, venha ser feliz.” Com um fugaz início que lembra a batucada dos terreiros de umbanda, seguido logo pelos acordes do violão de Chay, na bem-humorada e confessional “Rapadura”, que novamente aborda a admiração de um rapaz por uma moça, lança mão de repetições de palavras e vogais, rimas, e até mesmo falsetes. A canção, que contém trechos como “Rapadura é doce mas não é mole não/Cheio de Dalila pra ‘encarecar’ Sansão”, possui um dos melhores acompanhamentos instrumentais de todo o set list. Impossível ficar parado diante do suingue de “Rapadura”. Mais um acerto do Aymoréco. E o que dizer da animada, terna e doce canção “Dona Lucinha”, uma aberta, honesta e emocionante declaração de amor, admiração e carinho à mãe do cantor, poeta e compositor Cazuza? Chay, na verdade, de modo confessional, pessoal, conta-nos uma bonita história de seu encontro com a admirável e forte mulher engajada em importantes causas sociais. A veneração de Chay por ela se deve potencialmente tanto por esta razão quanto por ser a mãe de um de seus prováveis ídolos. “Dona Lucinha” é daquelas músicas que não cansamos de ouvir de tão encantadora que é. “Dona Lucinha” merece a reprodução de sua letra na íntegra: “Dona Lucinha é gente boa/Dona Lucinha é gente fina/Dona Lucinha/Dona Lucinha, mãe de Cazuza/Dona Lucinha vem e me usa/Me alucina/A primeira vez que te vi foi na festa de Paula Lavigne/Fiquei feliz demais/Fiquei correndo atrás/É só você me olhar e um sorriso se abre em meu rosto/Sinto vergonha e tal/Sei que escondo mal/Dona Lucinha sensacional/Dona Lucinha etc e tal/Me alucina/Dona Lucinha gente boa/Dona Lucinha gente fina/Me alucina…”. Confesso que poucas vezes em minha vida testemunhei uma homenagem tão sincera, verdadeira e tocante de um compositor a uma pessoa como a que Chay Suede fez a Lucinha Araújo. Ouvir “Dona Lucinha” com seus acordes instrumentais “alto astral”, “pra cima”, com uma “vibe” ótima, arrepia-nos. “Assassinos” é um single (com versos do poema de Gonçalves Dias, “I – Juca Pirama”) que tange a denúncia, com um viés mais politizado, privilegiando a letra falada em detrimento da cantada (“Nossas avenidas homenageiam assassinos/Até as bonitinhas/Pode crer…”), chegando próximo a um rap. Esta música ostenta um inegável domínio no uso amplo de palavras rimadas, todas dentro de um contexto narrativo forte que remete a guerras, tribos indígenas, peregrinações por terras devastadas de um pai e seu filho. Trata-se de fato da história penosa e guerreira de um índio da tribo Tupi que nos descreve as agruras por que passa em suas andanças por meio das quais tudo testemunha, numa mistura equilibrada dos ciclos de vida e morte. O que se pode concluir com estas duas apresentações da banda Aymoréco é que nada disso seria possível e viável se não houvesse um explícito entendimento e uma autêntica sintonia entre Chay Suede e Diogo Strausz. A impressão que temos é de que são dois amigos de longa data que estão realizando profissionalmente um antigo sonho de cantarem e tocarem juntos aquilo que possuem em comum: o amor que sentem pela música e seus infinitos sons. Tanto Chay quanto Diogo têm ambos uma incrível presença de palco. A cada ritmo eles correspondem com os seus corpos de um modo distinto, particular e carismático. Há uma cúmplice troca de olhares como se um estivesse dizendo ao outro: – Cara, está tudo dando certo! Ou: – Parceiro, agora vem aquela música que nos amarramos em tocar! E mais ainda, vindo de Chay: – Diogo, agora é a hora daquele som em que a galera vai vibrar! A isto chamamos de parceria, a isto chamamos de dupla, a isto chamamos de banda, grupo ou conjunto musical, enfim, quando cada um torce e deseja pelo progresso do outro, quando, no caso os dois, estão realmente juntos em nome do sucesso do Aymoréco. Aymoréco é, não há como negar, uma banda diferente. Uma banda que se inspira e se baseia numa profusão de ritmos e gêneros diversos. Mas a grande e visível diferença que os torna tão fascinantes é a sua personalidade. Tanto no Teatro Rival quanto no club Buraco da Lacraia, onde neste último o show foi em comemoração ao primeiro disco, “Aymoréco” (Universal Music), com produção de Mario Caldato Jr. e Diogo Strauzs, lançado no dia seguinte à apresentação, no dia 26 de agosto. Assistimos a um show com a marca, com o selo do Aymoréco. E isto é muito em termos artísticos. Quando entramos em qualquer show desta dupla, entramos com amor, e durante e após o mesmo já sentimos aquele “amoreco” por Chay e Diogo. Chay Suede, Diogo Strausz e sua banda Aymoréco merecem de nós todos não somente os aplausos merecidos, mas uma “chuva de likes”, com todos os amores que podemos lhes oferecer.

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O DJ e produtor Jesus Luz após a sua apresentação na The Party! Celebration Weekend, no Píer Mauá, no Rio de Janeiro, em 2011 (dentre outras atrações, destacaram-se o DJ inglês Paul Oakenfold e o vocalista, um dos membros do The Black Eyed Peas, Apl.de.ap).
Jesus, que também é ator e produtor (participou das novelas da Rede Globo “Aquele Beijo”, de Miguel Falabella, e “Guerra dos Sexos”, uma nova leitura do folhetim homônimo levado ao ar em 1983, sendo que ambas as produções foram escritas pelo autor Silvio de Abreu), atualmente é um dos competidores do quadro “Saltibum”, do programa do apresentador Luciano Huck “Caldeirão do Huck”, exibido na mesma emissora, em que se sagrará vencedor aquele que tiver o melhor desempenho em saltos ornamentais.

Foto: Paulo Ruch

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O DJ Jesus Luz é chamado ao palco para se encontrar com o DJ inglês Paul Oakenfold, na The Party! Celebration Weekend, evento realizado no Píer Mauá, no Rio de Janeiro.
Jesus, que também é ator e produtor (participou das novelas da Rede Globo “Aquele Beijo” e “Guerra dos Sexos”), atualmente é um dos competidores do quadro “Saltibum”, do programa do apresentador Luciano Huck “Caldeirão do Huck”, exibido na mesma emissora, em que se sagrará vencedor aquele que tiver a melhor performance em saltos ornamentais.

Foto: Paulo Ruch

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O inglês Paul Oakenfold, um dos DJs mais aclamados mundialmente, mixa o som na The Party! Celebration Weekend, no Píer Mauá, Rio de Janeiro.
Paul, além de DJ, é produtor e remixer.
Seu som eletrônico se enquadra no trance, no house, no techno e no trance progressivo.
Já remixou grandes nomes do cenário da música internacional, como The Doors, Massive Attack, U2, Arrested Development, The Cure, New Order, Simply Red e Snoop Dogg.
O DJ já se apresentou em várias partes do mundo, inclusive na China, especificamente na portentosa Muralha da China.
Tornou-se um produtor de soundtracks de longas-metragens famosos, tais como “Collateral”, “The Matrix Reloaded”, “Swordfish” e “007 – Um Novo Dia Para Morrer”, além de criar trilhas para games, em que se incluem “007 – Die Another Day” e “Fifa”.
Seu primeiro álbum solo se chama “Bunkka”, que contou com a participação de Nelly Furtado, Ice Cube e Tricky.
Uma de suas composições pode ser ouvida no filme “A Identidade Bourne”, dirigido por Doug Liman, e protagonizado por Matt Damon.
Já lançou mais de uma dezena de álbuns.

Foto: Paulo Ruch

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Foto: Divulgação

Num momento de crise existencial com relação à própria identidade e à significância de seus atos, se de fato eram bons, e se era capaz de praticá-los, Félix (Mateus Solano) ouve de seu “filho” Jonathan (Thalles Cabral), na verdade o meio-irmão, em “Amor à Vida”, novela de Walcyr Carrasco, exibida às 21h pela Rede Globo, uma citação do clássico de Victor Hugo, “Os Miseráveis” (1862), que narra importante passagem no romance do personagem principal, Jean Valjean. E Jonathan lhe conta proximamente o seguinte: “Jean Valjean, após ter sido liberto da prisão onde permanecera por longos anos, sem dinheiro tampouco moradia, recebe o auxílio do Bispo Bienvenu, que lhe oferece comida e casa, um gesto de infinita magnanimidade. Pouco tempo depois, o “miserável” trai o religioso furtando seus talheres de prata. É preso por policiais e conduzido de volta ao lar do religioso. O bispo tem então uma atitude surpreendente: não só negou que Jean havia cometido o crime como ainda disse que se esquecera de levar os candelabros feitos do mesmo rico metal. Pela primeira vez, Valjean se deparou com alguém que o tratara com dignidade, perdoara-o e lhe aconselhara a recomeçar a vida como um homem bom”. Desta forma, o Jonathan do porto-alegrense Thalles Cabral, cujos estudos cênicos se iniciaram na infância e se estenderam em cursos da Cia. do Abração, Academia de Artes Cênicas Cena Hum, Lala Schneider e Escola de Atores Wolf Maya, convenceu o pai de criação de que ele sim poderia estar se tornando uma boa pessoa. Em meio às turbulências da família Khoury, na qual houve inveja, ciúme, desprezo, traição, disputa por poder e vingança, o rapaz que se aprazia em abrir caminhos com skate trajando indefectíveis blusas xadrezes folgadas se evidenciou como um jovem sábio e maduro, a ponto de deste modo ser reconhecido pela “bisa” Bernarda (Nathalia Thimberg), contrariando os demais de sua geração, aplacados por idiotia generalizada, valores tortos, consumismo desenfreado, descendentes de progenitores ausentes e ignorantes na “arte de educar”. Se outrora, tínhamos a “geração Coca-Cola”, a “geração yuppie” e a “geração Y”, atualmente temos a “geração vazia”. O papel de Thalles, um artista que estreara como profissional nos palcos no celebrado Festival de Teatro de Curitiba com a peça de Rafael Cardoso, “Sobre Pais e Filhos”, emendando com a “aula-espetáculo” “História Viva”, de Wladimir Ponchirolli, sofreu no decorrer da trama série de infortúnios: não ganhara a devida atenção de Félix, sendo por este castigado, trancafiado em armário moderno e tendo skate de estimação estraçalhado por pés calçados com sapatos de grife; soubera ser filho de César (Antonio Fagundes), antes avô, fruto de um relacionamento com a legítima mãe Edith (Bárbara Paz) e de que esta no passado fora “garota de programa”, recebendo dinheiro para se casar “por fachada” com o irmão de Paloma (Paolla Oliveira) e dos diversos delitos penais e maldades por ele perpetrados. Mesmo assim, manteve as sapiência, moderação e fleuma que lhe são natas. Em uma das cenas mais bonitas do folhetim que prega “amor à vida”, que serve de exemplo à massa vivente assustadoramente preconceituosa do Brasil, o filho heterossexual Jonathan aceita sem questionamentos o pai homossexual Félix. O neto de Tamara (Rosamaria Murtinho) hoje namora e continua a desfiar seu rosário de frases inteligentes e transformadoras. O intérprete, cantor, compositor (compõe em Inglês; seu pioneiro EP, “That’s What We Were Made For”, com sete faixas, fora lançado no segundo semestre do ano passado), dramaturgo, diretor e estudante de cinema pontuou sua atuação nos olhares fixos, meios e largos sorrisos, fala pausada e pensada (com as alterações cabíveis), sutileza, sensibilidade, fino humor e poder cativante, deixando o público encantado com este novo talento que desponta. Na ribalta, Thalles fez em torno de mais de vinte montagens, em que se destacam “No Natal A Gente Vem Te Buscar”, de Naum Alves de Sousa; “Médico à Força”, de Molière; “O Cavalinho Azul”, de Maria Clara Machado; “A Casa de Consertos (A Bolsa Amarela)”, de Lygia Bojunga; “Amor aos Pedaços” (direção de Elias Andreato); “MPB Revista” (Prêmio Primeiro Passo de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Teatro Laura Schneider); “Maria…Mário…José” (colaborou no texto); “Eu e Elas” (indicação à láurea na mesma categoria supracitada); e “Aqui Jaz a Minha Sogra” e “Aqui Jaz a Minha Sogra – Parte 2” (ambas escritas e dirigidas por ele). “Amor à Vida” se aproxima do epílogo, e Thalles Cabral desde já, como Jonathan, imprimiu marca indelével no imaginário do telespectador como um dos personagens que mais causaram empatia na sinopse de Walcyr Carrasco. Thalles deixou de ser uma promessa para ser um “fato”. Que daqui para a frente viva de seus “desenhos” e criações numa fantástica “arquitetura da Arte”. E que a lição de Jean Valjean sirva para todos nós.

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Foto: Divulgação/TV Globo

Niko (Thiago Fragoso) é um profissional bem-sucedido, bonito, sensível e homossexual assumido. Mantinha uma união estável e feliz com Eron (Marcello Antony), um profissional bem-sucedido, bonito, sensível e homossexual mal resolvido. Desejavam constituir família. Recorreram à técnica da reprodução assistida a fim de que tivessem um filho. Todavia, as “barrigas solidárias” que a eles se apresentaram não os satisfizeram. “Solidárias” é tão somente um adjetivo plural simpático que deram para um procedimento que, em não poucos casos, envolve dinheiro alto. A até então amiga Amarylis (Danielle Winits), uma dermatologista do Hospital San Magno, que oferece aos seus pacientes hidradantes perfeitos para peles ressecadas, disponibiliza o seu ventre para gestar rebento do casal. Não exigiu nada. Porém, a todo o instante demonstrou veleidade de ser mãe, o que, de certo modo, já colocaria a situação pós-parto sob risco, no que tange a aspectos afetivos. Niko e Eron decidem de comum acordo doar cada um cota de material reprodutivo, com a condição de que nunca soubessem quem seria o pai biológico da criança. Amarylis sempre cultivou intenções escusas, haja vista que se ressentia intermitente pelo fato de não usufruir da maternidade. Aproveitou-se das ingenuidade e carência paternal de companheiros gays em casamento estruturado para saciar desejo íntimo. As tentativas de fertilização se mostraram infrutíferas. A médica, cujos cílios são “acusados” de postiços pelo mais novo vendedor de hot dogs da 25 de Março Félix (Mateus Solano), dá derradeiro golpe. Seduz o inseguro advogado, e o faz cometer adultério. A gravidez se consuma. Eis que surge “Império da Mentira”. Amarylis é o tipo de pessoa que entra nas vidas alheias com único propósito de destruí-las em causa própria. O que se sabe até então é que provável Fabrício, o bebê que nascera, não é filho legítimo da dupla de doutores, e sim fruto de bem realizada inseminação. A personagem de Danielle Winits assume com potente evidência o posto de vilã do núcleo. A loira (que revelou sua porção homofóbica) não poupou esforços para derribar, devastar relacionamento homoafetivo inacreditavelmente aceito pelo público (digo isso porque alguns pares românticos do sexo feminino foram banidos de enredos de folhetins por rejeição dos telespectadores). O que não se pode deixar de falar, dentro deste contexto, é que Niko e Eron, preocupados em não poder ter filhos como queriam, entraram com um pedido de adoção de um menino afrodescendente e crescido, Jaiminho (Kayky Gonzaga). Jaiminho, é duro afirmar, encontraria sérias dificuldades em ser adotado, pois percentagem considerável de potenciais pais se esquece de que vive num país com 50,7% de negros e pardos declarados (dados da Secretaria da Igualdade Racial e IBGE de 2013), e se julga habitante de nação europeia, dando prevalência a crianças brancas com olhos azuis para chamarem de suas. Não que estas não mereçam e devam ser também adotadas, simplesmente percebe-se distorção cultural e discriminatória. O carioca Thiago Fragoso, um jovem com larga experiência que iniciou sua trajetória nos palcos ainda infante no musical “Os Sinos da Candelária”, e que em momento algum deixara de se aperfeiçoar como artista, buscando lições de bons representantes do teatro como Amir Haddad, Juliana Carneiro da Cunha e Luis Melo, e feito inúmeros cursos de aprimoramento, inclusive no exterior, o que o levou a adquirir relevantes e indispensáveis aprendizados de interpretação, movimentos de corpo e colocação de voz, além da dança e canto, como o Niko de “Amor à Vida”, novela de Walcyr Carrasco exibida às 21h pela Rede Globo, um personagem “acima da lei”, amealha merecido destaque tomando-se por base as intensidade, honestidade e emoção com que vem burilando o seu papel. O ator, que contribuiu para que duas produções em que fora protagonista (“O Astro”, remake de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro da obra original de Janete Clair e “Lado a Lado”, de João Ximenes Braga e Claudia Lage) obtivessem o “Emmy Internacional de Melhor Novela”, ganhou a oportunidade do autor atual de ostentar distinta faceta do chef chamado de “carneirinho” pelo principal antagonista da trama, Félix, e que possivelmente poderá se redimir graças aos carinho, compreensão e atenção de que tanto necessita oferecidos por aquele. Com as maldades calculadas de Amarylis e a passividade de Eron, Niko vem revelando enormes forças na personalidade, determinação e percepção aguçada, e por fim, uma virilidade que talvez não se veja em muitos “homens”. Ardis como a super avaliação do imóvel cuja parte comprou, a traição em si e a perda da guarda provisória de Jaiminho o tornaram oponente não fácil de lutar. Assim, Thiago, que estreou nos cinemas em “A Partilha”, de Miguel Falabella e dublou filmes, como a animação “Ratatouille” e “A Origem dos Guardiões”, e surgiu na TV na série “Confissões de Adolescente”, emendando com “Malhação”, confirma a sua excelência como intérprete. Fragoso possui incontáveis participações nos veículos audiovisuais e teatro. Telenovelas como “Laços de Família”, “Perdidos de Amor”, “O Clone” (surpreendeu a todos como o dependente químico Nando, a ponto de receber o Prêmio Austregésilo de Athayde), “Agora É Que São Elas” (em que viveu um vilão), “Senhora do Destino” e “Araguaia”. Foi o Príncipe Rabicó do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Brilhou na minissérie “A Casa das Sete Mulheres” e emocionou como Pery Ribeiro em “Dalva e Herivelto, Uma Canção de Amor”. Envolveu-se nos dilemas e conflitos espíritas de Marcos na segunda versão de “O Profeta”, de Duca Rachid e Thelma Guedes, que se inspiraram em Ivani Ribeiro. No seriado “Sexo Frágil”, dentre tantos dos quais participou, somando-se a humorísticos e especial, travestiu-se e se assemelhou a uma diva hollywoodiana. Jamais preteriu a ribalta, e reverenciou nomes como Shakespeare (“Romeu e Julieta”), Nelson Rodrigues (“Beijo no Asfalto”), Frank Wedekind (“O Despertar da Primavera”), Tom Stoppard (“Rock N’ Roll”), Sam Shepard (“Mente Mentira) e Jandira Martini e Marcos Caruso (“Sua Excelência, O Candidato”). Câmeras cinematográficas o focaram em “Xuxa e os Duendes – No Caminho das Fadas”, “Um Show de Verão”, “Trair e Coçar É Só Começar”, “Irma Vap – O Retorno”, “Caixa Dois” e “Ouro Negro – A Saga do Petróleo Brasileiro”. E no segmento da música, gravou um clipe com nova versão de faixa da trilha sonora de “High School Musical 2”. Thiago Fragoso, ao personificar Niko em “Amor à Vida”, não somente dá um importante passo em sua história, mas colabora de forma excelsa para que se dirima com sucesso, no todo ou em parte, alguns nefandos preconceitos que se arraigaram em conscientes coletivos. Se Niko é um chef de restaurante, e quer apenas ser um chefe de família, Thiago Fragoso é, sem dúvida, “chefe da sua interpretação”.

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Foto: Divulgação TV Globo/Alex Carvalho

Uma das personagens que desde o início da trama das 21h da Rede Globo, escrita por Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, tem despertado uma atenção especial do público pelas importantes questões nas quais está inserida (virgindade, ditadura da beleza, obesidade, dietas radicais sem orientação médica e “bullying”) é Perséfone, interpretada com doçura ímpar, emoção, talento e dosagens calculadas de humor e drama que os tornam equânimes, pela recifense que se iniciou na profissão artística na adolescência, Fabiana Karla. Um time seleto de atrizes é como Fabiana, que detém plena dominação sobre aqueles dois gêneros teledramatúrgicos, o que inevitavelmente a faz imprimir à enfermeira do Hospital San Magno credibilidade, provocando-nos comoção. Perséfone, cujo nome se origina na mitologia grega, e significa deusa das ervas, flores, frutos e perfumes, passou por “poucas e boas” até perder a virgindade com “dignidade”, como ela insistia que o fosse. Sua busca ensandecida de não mais ser virgem em uma noite de amor, causou-lhe série de infortúnios envolvendo um colega de trabalho sadomasoquista, o auxiliar de enfermagem Ivan (Adriano Toloza), um entregador de pizza afoito e explorador, assaltantes (dentre eles, o ator Paulo Lessa) que fizeram a “limpa” em seu “apê”, e um garoto de programa contratado pelos “amigos de plantão” Michel e Patrícia (Caio Castro e Maria Casadevall, respectivamente). Todavia, a “ajuda” acaba sendo um “tiro n’água”. Muitos não escaparam de seu aflito assédio: o psicólogo Dr. Renan (Álamo Facó), o funcionário da lanchonete do hospital Valentin (Marcelo Schmidt), o fisioterapeuta Daniel (Rodrigo Andrade) e o Dr. Vanderlei (Marcelo Argenta), especialista em reprodução assistida. E no meio de todo esse processo, sofreu e ainda sofre um dos mais cruéis “bullying” da atualidade, ou seja, o que se baseia na dubitável e perigosa ditadura da beleza. O seu sobrepeso (fato que não diminui de modo algum a graça, o charme e o poder de sedução de um ser feminino com face bonita) serviu de motivação para piadas e chistes desprovidos de quaisquer resquícios de graça. Inclusive um de seus costumeiros “algozes” foi um endocrinologista, o já citado Dr. Michel. Absurdo. Os apelidos e chacotas que lhe foram lançados só reafirmam o que já sabíamos de antemão: o homem se apraz em exibir sem vergonha sua porção má, que vem num “pacote de preconceitos”. Daniel, cansado das “peguetes”, começa a enxergar Perséfone com outros olhos. Ignora sua forma física, dando o real valor aos caráter e capacidade de amar. Decide então “engatar” um romance que acaba em casamento com a mulher que gosta de se referir aos rapazes formosos de “boy magia”. Entretanto, com a reprovação injustificada da família e companheiros de serviço, o irmão solidário de Linda (Bruna Linzmeyer) não se mostra solidário consigo mesmo nem tampouco com Perséfone. A tibieza de Daniel é evidenciada nas sucessivas cobranças de que sua cônjuge emagreça não por razões de saúde e sim para agradar à sociedade “perfeita”, e se adaptar aos seus padrões “carrascos” (sem trocadilhos). A meiga morena que emprestou seu apartamento para noitadas “calientes” da amiga confidente Patrícia, e que definiu sua lua de mel como “lua de pimenta”, devido ao prazer sexual nunca sentido, percebe-se triste e frustrada, e se entrega sem lógica a dietas estrambóticas. Seu belo sorriso está se fechando aos poucos, com os lábios ainda lambuzados das melancias que degustara. Uma Magali de Maurício de Sousa vestida de rosa claro. A autoestima “despenca”. A saúde cambaleia. Precisa ouvir urgente de outrem: – Perséfone, você é bonita. Com o gradativo afastamento e indiferença do marido que reabilita pacientes, mas não “reabilita” seus princípios, parece-nos que amor legítimo “surgiu no jaleco alvo” do Dr. Vanderlei, que também diz ser vítima de “bullying”, graças à sua avantajada estatura. Um exemplo é que o alcunham de “coqueirão”. Vanderlei oferece afeto, compreensão e clareza dos acontecimentos à mente aturdida e confusa da jovem. A Perséfone de Fabiana Karla, que estreou na TV como Célia, no folhetim de Manoel Carlos, “Mulheres Apaixonadas”, finalmente nos indica ter encontrado o seu verdadeiro “boy magia”. No que alude à trajetória da artista, possui bem-sucedida carreira tanto na televisão quanto no teatro e cinema. Além das participações nos seriados “A Grande Família” e “Linha Direta”, na emissora carioca, pertence ao elenco fixo do humorístico “Zorra Total” desde 2004, no qual destacamos Dilmaquinista e Luzicreide. O retorno aos folhetins veio de quem justo lhe deu Perséfone, Walcyr Carrasco. O autor a presenteou com a divertida Olga Bastos do “remake” de “Gabriela”. O cinema não lhe deu as costas, e Karla frequentou estúdios e locações de filmagem nos longas “Trair E Coçar É Só Começar”, de Moacyr Góes, “A Máquina”, de João Falcão, “Xuxa Gêmeas”, de Jorge Fernando, “O Palhaço”, de Selton Mello e “Casa da Mãe Joana 2”, de Hugo Carvana. Nos palcos, depois de infantis, conquistou a crítica com o espetáculo de Neil Labute, “Gorda”. Não deixou a música de lado, e colocou a voz numa das faixas de um álbum da dupla Kleiton e Kledir, e parodiou a cantora americana Katy Perry, como Adiposa Perry, no vídeo criado pelo grupo de humor Galo Frito, cuja canção foi o êxito comercial “California Gurls”. Com o final de “Amor à Vida” chegando, levantamos convictos bandeiras de torcida para que as magias se encontrem. A magia do “boy” e a magia da “girl”, e se forme um “casal magia”. E só para terminar, eu gostaria de lhe dizer algo, Perséfone: – Você é bonita.

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Foto: Reprodução/Facebook

Ao assistir tardiamente à interpretação de Igor Cotrim como o travesti Madona no filme de Marcelo Laffitte, “Elvis & Madona”, ao lado de Simone Spoladore como Elvis, apercebi-me de que pouquíssimas vezes testemunhei atuação tão sutil e humanizada de homem que se traveste. Sem qualquer demérito a Cotrim, muito pelo contrário, algo similar às antológicas personificações de Dustin Hoffman em “Tootsie”, de Sydney Pollack, Terence Stamp em “Priscilla, A Rainha do Deserto”, de Stephan Elliot e Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita”, de Chris Columbus. O paulista Igor, que além de intérprete é dramaturgo e poeta (já lançou o livro “Ali como Lá!”; e junto com Pedro Poeta faz shows frequentes com a banda Beep-Polares, nos quais poesia e rock’n roll se dão as mãos), vivencia no longa de Laffitte Madona, como já foi dito um travesti com sensibilidade única que nutre como maior sonho montar grande espetáculo. Nas eventualidades da existência encontra a “motogirl” Elvis, a lésbica personagem defendida com brilho por Simone (assim como Igor). Na primeira entrega de pizza a Madona (a tal pizza de palmito gigante que serve de inspiração para o título deste texto), visível empatia mútua ocorre. A seguir, a direção segura de Marcelo aliada ao seu inventivo roteiro, o na minha opinião não improvável casal da trama se envolve em problemas e intempéries que não escapam ao cotidiano de um par “normal”. É imperativo que não se omita que o mercado exibidor brasileiro não rendeu o devido crédito à filme premiadíssimo em festivais de cinema mundo afora. No tocante à seleção de profissionais para o “cast” há peculiaridade: Igor Cotrim disputou a chance de ser Madona com travestis reais. O rapaz formado pela EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP) iniciou sua carreira na atração infanto-juvenil “Sandy & Junior”, na Rede Globo, em que fora o “bad boy” Boca no decorrer das quatro temporadas. O papel lhe serviu para que solidificasse seu poder de interpretação perante o cenário nacional. Vieram-lhe oportunidades como incursões em novela de Manoel Carlos, “Mulheres Apaixonadas” e “Chamas da Vida”, da Rede Record, cuja autoria coube a Cristianne Fridman. Curiosamente, “Sandy & Junior” não foi isolada experiência com o público em fase de adolescência. A Rede Bandeirantes o convidou para integrar o elenco de “Floribella”. Já no teatro, bastaram três relevantes peças para que o palco lhe devotasse respeito: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago; “O Casamento”, de Nelson Rodrigues; e “A Cozinha”, de Arnold Wesker. Possui ainda porção filantrópica ao ter criado ONG, a “Voluntários da Pátria”, destinada a inserir poesia nas escolas com o intento de causar benéfica provocação nos alunos a fim de que construam apreço pessoal por rico gênero da Literatura. No momento, Igor empresta seu valor a dadivosa missão: ser repórter da “Revista do Cinema Brasileiro” na TV Brasil, acompanhando Natália Lage (não sendo o primeiro passo neste campo, haja vista que exercera ofício semelhante no Discovery Channel, em que cobrira o Fórum Mundial de Cultura em Barcelona, Espanha). Costumo em pensamento lhe atribuir o carinhoso aposto “o rei dos trocadilhos”, motivado pelo que escreve em sua página oficial no Facebook, seja na forma de poemas seja em frases de lavra própria. Acredito que se a “Revista do Cinema Brasileiro” tomar por decisão abordagem sobre “Elvis & Madona” se fariam necessárias no mínimo três edições, dada a significância da obra. Teríamos que pedir várias pizzas de palmito gigante a Elvis.

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Foto: Divulgação/TV Globo

Comparo Adriano Garib a um lutador, não ao lutador de Mickey Rourke em “O Lutador” nem tampouco ao de Christian Bale em “O Vencedor”. Adriano ao aceitar gigantesco desafio de personificar Russo, o chefe de segurança da quadrilha internacional de tráfico humano na novela de Gloria Perez na Rede Globo, “Salve Jorge”, tomou para si arriscada incumbência de ser um dos porta-vozes do núcleo mais polêmico da trama. Comparo-o portanto a um lutador, visto que entrara em ringue devidamente preparado (levando-se em conta a prolífica e bem-sucedida carreira que possui) pronto para pôr luvas e jogar-se em embate sem temores ou pudores contra os potencialmente inexpugnáveis rivais: público e crítica. Adriano construiu com habilidade e tato o seu império da vilania. Seus objetivos e os da autora foram alcançados em certeiro alvo. O artista usou goiva para esculpir papel de intricadíssimo delineamento, passível de ser mal compreendido e sujeito a inevitáveis clichês e estereótipos. Porém, o ator paulista de Gália que também é compositor (tendo participado como vocalista da banda Karadrás) e jornalista formado pela UEL (Universidade Estadual de Londrina; foi repórter da TV Tropical, que corresponde hoje a CNT Londrina) não deixou-se cair em armadilhas. Soube desviar-se de cada ardil, bote, emboscada que um personagem como Russo poderia proporcionar-lhe. Russo é verdade entrou para a galeria fechada dos grandes vilões da TV. Todavia, o subordinado de Lívia Marini (Claudia Raia) deixou escapulir que não é de todo blindado. Esta outra porção foi-nos mostrada ao sentir desejo por Lohana (Thammy Miranda) e dedicar profundo afeto pelo gato Yuri. O intérprete que iniciou sua escalada rumo ao sucesso em Bauru, SP, e que integrou o elenco de importantes longas-metragens como “Meu Nome Não É Johnny”, “Tropa de Elite 2” e “Novela das 8” utilizou-se de seus recursos corporais e emocionais a fim de que acreditássemos nas maldades perpetradas sem miragens de perdão do membro do grupo criminoso. A voz pausada com meticulosa separação das palavras, o poder do alto som da voz quando repreendia as traficadas, os olhares semicerrados, os lábios apertados, os meios sorrisos… Um conjunto proveitoso de ferramentas adequadamente manuseadas. A TV nunca foi estranha a Adriano Garib. Novelas, minisséries, seriados e especial agarram-se ao seu currículo. Dentre os folhetins, “Salsa e Merengue” (sua estreia), “A Lua Me Disse” (repete a parceria com Miguel Falabella), “O Profeta” (reprisado no “Vale a Pena Ver de Novo”), duas temporadas de “Malhação”, “Duas Caras”, “Paraíso Tropical”, “Pé na Jaca”, “Caminho das Índias”, “Caras & Bocas”, “Passione”, “Cama de Gato”, “Insensato Coração”, e na Rede Record “Vidas em Jogo”. Seriados como “Brava Gente” e “Casos e Acasos”. Minisséries como “Chiquinha Gonzaga”, “A Casa das Sete Mulheres”, “JK” e “Maysa – Quando Fala o Coração”. E o especial “O Natal do Menino Imperador”. O artista deu seus primeiros passos na década de 80. Uniu-se aos pares de ofício e montou peças com o Grupo Delta de Teatro. Ademais, dividiu experiências com o renomado diretor teatral Paulo de Moraes e sua Armazém Companhia de Teatro. Shakespeare esteve em sua vida em espetáculos como “Antônio e Cleóprata”, “A Tempestade” e “Rei Lear”. Quanto a “Péricles – Príncipe de Tiro” sua autoria é atribuída em parte ao bardo inglês. Houve espaço para Nelson Rodrigues ao encenar “Toda Nudez Será Castigada”. Não esqueci-me de “O Mundo dos Esquecidos”. A novela “Salve Jorge” hoje chega ao fim. Contudo nos confins de nossos inconscientes permanecerá sem “fade out” a imagem de uma grande interpretação resultado do talento sem inibição de Adriano Garib. Afinal, Adriano é ator que não se inibe.

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Foto: Leo Faria

Os cariocas aplaudem o pôr-do-sol em Ipanema. Mas será que palmas estas não homenageiam o Vidigal, lá pelas paragens da Niemeyer sob os olhares severos dos Dois Irmãos? Porque não há quem desminta que no Vidigal uma tal de Arte lá se fez senhora em boa hora. Há palco. Há Guti Fraga. Guti que reuniu gente do bem. Gente que quer ser artista. Sonhadores aprendizes da senhora. Mostraram ao Brasil e ao mundo que a comunidade pode dar arte. Surgiu o “Nós do Morro”. Roberta Rodrigues é “nós”. Thiago Martins é “nós”. Mary Sheila é “nós”. Jonathan Haagensen é “nós”. E seu irmão Phellipe, também. Marcelo Mello Jr. é “nós”. Douglas Silva é “nós” e Leandro Firmino é “nós”. “É nós, ‘mermão'”! Somos todos “nós do morro”. Nós do asfalto, nós do asfalto e do morro. Todo mundo tem um Vidigal dentro de si. Sim! Somos todos iguais. “Tamo junto!”. Os aprendizes em suas raízes se fizeram artistas. Roberta Rodrigues é um dos exemplos. A popularíssima Maria Vanúbia de “Salve Jorge”, novela de Gloria Perez, exibida pela Rede Globo que está em reta final é prova das dedicação, disciplina e força de vontade da atriz em mostrar o que Deus lhe deu na “Cidade de Deus”. E na “Cidade dos Homens”. Apaixonou-se pelo “admirável mundo novo”, não o de Aldous Huxley, mas o de Manoel Carlos, quando de sua estreia em folhetins (“Mulheres Apaixonadas”). Na produção atual, consagrou-se com memoráveis bordões de inspiração única: “Sou Maria Vanúbia, não sou bagunça não”, “Quem gosta de pescoço é gravata”, “Pi Pi Pi Pi Pi Pi Pi, olha o recalque chegando!”, afora as alcunhas “Delzuitzzz” e “Percoço”, dentre tantos outros bem-humorados. Em capítulo recente, Roberta teve preciosa chance de exibir densidade de alto teor dramático ao se ver vítima do tráfico humano. Só que se esqueceram de que Maria Vanúbia “não é bagunça não”, e por não ser “bagunça” deu “sacode” em Wanda (Totia Meirelles). Ela sempre quis ser internacional. Preocupe-se não, Maria. “Salve Jorge” será vendida para os cinco continentes. Seus biquínis sensuais e megahair da cor do sol farão sucesso no estrangeiro. A moça de viseira que bronzeia-se na laje não é somente o que falam dela. Se é esnobe, provocativa, já demonstrou ser sensível também. Por baixo de Maria Vanúbia existe Roberta Rodrigues. Roberta que canta e encanta no grupo musical Melanina Carioca, com os seus amigos do Vidigal. Olha o Vidigal criando arte de novo. Na primeira versão de “Cabocla”, Nelson Gonçalves entoava: “Cabocla, seu olhar está me dizendo…”. No remake, Roberta soube o que dizer. Da mesma forma que soube dizer aos “Filhos do Carnaval”, sucesso da HBO. A intérprete é legitimamente tropical. Não poderia então ficar de fora de “Paraíso Tropical”. Após bater papo com as “Três Irmãs”, saiu do Vidigal e deu um pulo em Copacabana, e não se iludiu com “A Iludida de Copacabana”, episódio de “As Cariocas”. “Copacabana não me engana”. O coração “vale tudo” de Gilberto Braga não é insensato. E o papel de Fabíola fora dado à profissional em “Insensato Coração”. A personagem Dirce é “de menor”. Porém, Roberta Rodrigues é “de maior”. E daí? Ambas são brasileiras. Conexão Vidigal-Amazonas na história “A De Menor do Amazonas”, de “As Brasileiras”. Se bom filho à casa torna, a filha tornou. E bastante filmes saborearam a sua presença, sejam longas-metragens, sejam curta e documentário. Entre eles, estão: “Garrincha – Estrela Solitária”, “Noel – Poeta da Vila”, “Mulheres do Brasil” e “5 X Favela: Agora por nós mesmos” (apresentado no Festival de Cannes; indicação de melhor atriz para Roberta concedida pelo Grande Prêmio Brasileiro de Cinema). Não se enrolou em “Desenrola”. Quis fazer brinde em “Vamos Fazer Um Brinde”, e 10 anos depois como ela mesma esteve em “Cidade de Deus – 10 Anos Depois”. Onde tudo começou. Entretanto para o público e Roberta não terminou. Há o que vier pela frente. Roberta Rodrigues foi aprendiz, hoje é querida atriz e não torce o nariz para os que ovacionam-na. Maria Vanúbia não é bagunça. Tampouco Roberta. Roberta é mulher e artista séria.