
Thiago de los Reyes concede entrevista à RedeTV!.
Foto: Paulo Ruch
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A atriz Totia Meireles, a Wanda de “Salve Jorge”, de Gloria Perez, ganhou desta a oportunidade que muitas intérpretes desejam: ser uma vilã da trama. Porém, só isto não basta. É necessário que a responsável pelas vilanias seja bem delineada na história pelo autor a ponto de causar repúdio no público. Gloria Perez fez a sua parte. A outra caberia a uma atriz que entendesse o perfil do papel, e fosse talentosa o suficiente para torná-lo crível. O fato de se escalar Totia para personificar Wanda configurou-se como uma novidade para os telespectadores. Afinal de contas, estávamos acostumados a ver Totia Meireles vivendo personagens boas, justas, sensatas e honestas. As suas beleza, simpatia e carisma contribuíram para que estas mesmas personagens fossem garantia de credibilidade. Quanto a Wanda, soube usar estas qualidades nos momentos de fingimento, cinismo e sedução da vilã. E deu certo. O que se vê é uma alternância de comportamentos ora desprezíveis ora amáveis, situações que exigem da intérprete habilidade, técnica e talento. E estes atributos Totia tem de sobra. A sua Wanda é uma mulher misteriosa, que não se sabe bem por que entrou para o mundo do crime. E o que a fez ser tão fria. O pouco que sabemos é que veio de Botucatu, lá namorou o Coronel Nunes (Oscar Magrini; comedido na medida certa), e que possui um primo. Há um sinal de que já existiu algo que se aproximasse da normalidade em sua vida. Tanto que ao reencontrar Nunes, ficou até balançada. Entretanto, em nome dos negócios escusos que pratica, sofreu repreensão de sua chefe Lívia (Claudia Raia). Insensível e vingativa, Wanda já foi presa, deu golpe no antigo namorado, chantageou Berna (Zezé Polessa), e deu fim a Santiago (Junno Andrade). Guarda sentimento de ódio por Morena (Nanda Costa). Wanda ainda exibirá o muito que sabe de maldade. Quanto a Totia, era uma atriz essencialmente de teatro, e por saber cantar bem, os musicais foram um ponto alto em sua carreira. Um de seus maiores sucessos foi “Noviças Rebeldes”, de Dan Goggin, dirigida por Wolf Maya. Em seu elenco estiveram Sylvia Massari, Rosa Marya Colin, Fafy Siqueira e Dhu Moraes. Totia Meireles, que também é bailarina, participou ao lado de Claudia Raia na mega produção “Chorus Line” Além desta, esteve em “Gipsy”, versão brasileira do grande êxito da Broadway (foi indicada ao Prêmio Shell). Incluem-se demais espetáculos em seu currículo. Na televisão fez inúmeras novelas, seriados, especiais e minissérie. Forma profícua parceria com Gloria Perez, que já contou com a sua presença em “O Clone”, “América”, “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, “Caminho das Índias”, e agora “Salve Jorge”. Participou de três temporadas de “Malhação”. Experimentou os estúdios de gravação da extinta Rede Manchete e Rede Bandeirantes. Na seara do humor, deu seus préstimos a “Escolinha do Professor Raimundo” e “Chico e Amigos”. Com Aguinaldo Silva, trabalhou em “Suave Veneno”, “Duas Caras” e “Fina Estampa”. Impressionante, vale lembrar, que na última novela Totia interpretou Zambeze, uma hippie do século XXI, casada com um também hippie, dona de uma pensão habitada pelos mais diversos hóspedes, e um quiosque, e que aplaudia com um grupo o pôr-do-sol na praia. E do “Recanto da Zambeze” partiu direto para os recantos obscuros de Lívia. Que mudança. No tocante aos seriados, atuações em “Carga Pesada”, “Casos e Acasos” e “Divã”. Folhetins como o “remake” de “Mulheres de Areia”, “Fim do Mundo” e “Cobras & Lagartos” compõem sua trajetória na TV. Sinto sua falta no cinema. Daria enorme contribuição. Quanto a Wanda de “Salve Jorge”, considero um de seus melhores papéis até hoje. E, quando virem Wanda em cena, lembrem-se do título acima: “Onde tem Wanda, tem encrenca”.
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Todas as vezes em que eu passava em frente ao suntuoso prédio envidraçado que se localiza na Rua do Russel, na Glória, Rio de Janeiro, e que serviu de sede para a Rede Manchete, inaugurada em 1983 e extinta em 1999, lembro-me com nostagia e uma certa tristeza de que aquele lugar, durante mais de uma década, foi palco de uma série de programas inesquecíveis e bem feitos que marcaram uma época. Novelas, minisséries, filmes antigos, telejornais com incontestável profissionalismo, cobertura ampla do esporte e do Carnaval, e atrações de outro gênero de igual qualidade. Uma emissora que apostou na competência de atores, jornalistas, autores e apresentadores, e muitos deles atualmente estão num alto patamar de realização. Foi na sua programação que testemunhamos importantes obras da teledramaturgia que retratavam fatos históricos do Brasil, como “Dona Beija”, “A Marquesa de Santos” e “Xica da Silva”. As duas primeiras credenciaram Maitê Proença como uma das atrizes mais comentadas naquele momento (as suas cenas sensuais arrebatavam o público), e a terceira lançou Taís Araújo, intérprete bastante requisitada nos dias de hoje. Walter Avancini, o diretor, fez questão absoluta que aquela jovem em início de carreira fosse a protagonista. Walcyr Carrasco, prestigiado autor da Rede Globo, escreveu a história. Alguns autores migraram para a nova emissora, como Benedito Ruy Barbosa, Wilson Aguiar Filho e Gloria Perez. Benedito foi responsável por um dos maiores sucessos já presenciados na televisão, a novela “Pantanal” (foto). Cristiana Oliveira foi outra atriz que passou a ser admirada e querida no país inteiro, com a sua Juma Marruá. No elenco, havia Cláudio Marzo, Marcos Winter, Marcos Palmeira, Carolina Ferraz (estreando em folhetins), Andrea Richa, Ângelo Antônio (sua estreia), Jussara Freire e Ingra Liberato. O diretor era ninguém menos que Jayme Monjardim, que com suas imagens panorâmicas de belas paisagens tropicais, exibidas ao som das composições de Marcos Viana, conquistou os telespectadores. Jayme atualmente é diretor de núcleo da Rede Globo, assim como Marcos Schechtman, que também dirigiu produções na Rede Manchete. Tizuka Yamazaki, renomada cineasta, comandou “Kananga do Japão”, com Christiane Torloni e Ana Beatriz Nogueira. Quanto a Gloria Perez, ficou encarregada de contar um enredo em “Carmem”, cuja personagem-título coube a Lucélia Santos. Outra novela de grande êxito foi “A História de Ana Raio e Zé Trovão”. Ana era defendida por Ingra Liberato (foto) e Zé por Almir Sater. Tamara Taxman destacou-se como Dolores Estrada. Houve outras atrações teledramatúrgicas, como “Santa Marta Fabril S.A”, “Corpo Santo”, “Tocaia Grande”, “Mandacaru” e “Amazônia”. No que concerne ao Carnaval, a emissora cobria os impagáveis e luxuosos desfiles de fantasias no Hotel Glória, e foi a única emissora a transmitir os dois dias de desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, na inauguração do Sambódromo, no ano de 1984. O jornalismo era um dos carros-chefes da TV Manchete. Tinha-se como meta um aprofundamento maior das notícias. Comentaristas do naipe de Carlos Chagas e Villas-Bôas Corrêa emitiam suas precisas opiniões. Passamos a conhecer os âncoras Ronaldo Rosas, Carlos Bianchini e Leila Richers. Eliakim Araújo, Leila Cordeiro, Marcos Hummel e Marcia Peltier também assumiram a bancada do “Jornal da Manchete”, que possuía duas edições. Roberto D’Ávila conduziu com extrema habilidade o programa de entrevistas “Conexão Internacional”, no qual os convidados eram notáveis representantes dos cenários político, cultural etc. Na área dedicada ao cinema, o crítico Wilson Cunha apresentava o “Cinemania”, um deleite para os cinéfilos com todas as informações sobre a Sétima Arte. E como não mencionar “Acredite Se Quiser”, em que o ator americano Jack Palance narrava acontecimentos extraordinários? No campo infantil, afora desenhos clássicos como Manda-Chuva, o experiente diretor Maurício Shermann (diretor do “Zorra Total”) colocou uma até então modelo como apresentadora de uma produção voltada para o público mirim, “Clube da Criança”. Começava ali o fenômeno de apelo popular no qual se transformaria Xuxa. Com a sua ida para a Rede Globo, uma outra moça que iniciara a carreira ainda criança passou a animar o programa. Estamos falando de Angélica, que construiu sólida trajetória como apresentadora/entrevistadora, e mantém seu prestígio intacto. Assim como Xuxa Meneguel, rumou para a emissora carioca. Agora, o prédio suntuoso e envidraçado da Rua do Russel, na Glória, continua lá. Não há mais o logotipo marcante no seu topo. Que fim ele levou? A TV Manchete acabou. Teve o seu tempo. Tempo de glória. Um tempo de glória numa rua do Rio de Janeiro no bairro da Glória.
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