
Violão decorativo do “Roça in Rio”, Arraial da Providência, no Jockey Club da Gávea, RJ
Foto: Paulo Ruch

Violão decorativo do “Roça in Rio”, Arraial da Providência, no Jockey Club da Gávea, RJ
Foto: Paulo Ruch
Esta entrevista de Maria Fernanda Cândido (Maria Fernanda foi contratada pelo GNT para integrar o time de debatedores do “Saia Justa”) a Marília Gabriela em seu programa fora exibida há pouco mais de uma semana, mas por ter sido tão esclarecedora, é meritório que aqui se faça um registro. Maria Fernanda estava deslumbrantemente vestida com longo vaporoso estampado em tons de azul, verde e preto, ombros à mostra, alças curtas que eram extensão de transparência no colo, cinto e botas. A maquiagem era suave, brincos discretos arredondados, e cabelos voltados para trás, o que só reforçaram os perfeitos traços faciais da atriz. A “Mulher do Século” eleita pelo “Fantástico”, da Rede Globo, a despeito de ser oriunda de Londrina, Paraná, fixou-se em São Paulo. Gabi elogia sua boa forma, entretanto ela diz que lhe sobra pouco tempo para cuidar-se em decorrência da atenção dedicada aos filhos, o que lhe demanda grande esforço físico. É mencionada a estreia na teledramaturgia, no próprio SBT, em “Pérola Negra”. Cena difícil ao lado de Dalton Vigh e Patrícia de Sabrit. Deram-lhe de primeira dois “bifes” (textos longos) para falar. Desafio transposto. É formada em Terapia Ocupacional pela USP. O que a levou a escolher este segmento fora o fato de poder lidar de forma direta com as pessoas, apresentando-lhes novas possibilidades da realidade. Discorreu de maneira apropriada sobre os conceitos que embasam seu olhar sobre a profissão, que considera gratificante. Afirma que a formação acadêmica lhe é importante para o ofício de artista. Em certo momento, teve que interromper os estudos para ser aluna de curso de Fátima Toledo. Considera-se mais útil como atriz, pois não teria “casca” para ser terapeuta ocupacional. A experiência como modelo durou dos 14 aos 18 anos. Fora descoberta por vizinhos donos de agência em São Paulo. Nesta seara, confirmou não ter se adaptado, porquanto era vista como “normal” para os padrões exigidos. A então modelo sentira dificuldades no processo de adequação aos ditames rígidos da área em pauta. Contudo, menciona a relevância do aprendizado no trato de questões profissionais, como a negociação de contratos. Após ser inquirida se o glamour do mundo da moda é maquiagem, concorda. Na escola, era boa em atletismo e oratória. E para ela, qual a definição de beleza? “Um valor”. Um valor no sentido geral, como a beleza de uma obra de arte. Autodenomina-de muito disciplinada, e o curso de “clown” que faz no presente a ajuda a abrandar esta característica. Ao lado de casa, mantém escritório para os assuntos atinentes ao labor artístico, como estudar textos, por exemplo. Confessou adorar participar de novelas, o que na sua opinião é um grande exercício de improvisação, de memória. Já no teatro, é permitida uma “decantação” do personagem. Atualmente é a Marquesa de Merteuil, a primeira vilã que interpreta, em “Ligações Perigosas”, de Choderlos de Laclos, o que está lhe sendo libertador. A seguir, produzirá espetáculo sobre Hannah Arendt e Martin Heidegger, ao lado de José Wilker. A iniciação nos palcos se deu pelas mãos de Denise del Vecchio. Maria Fernanda também exerce o lado empresária, como dona de restaurante, junto ao marido. Exalta o poder de transformação do casamento. O senão seria a perda da individualidade. Por questões éticas (já que não poderia corresponder aos convites de novelas), optou por trabalhar na Rede Globo somente em obras fechadas. É uma das criadoras da Casa do Saber, voltada para a cultura, em específico, a Filosofia. A entrevista caminha para o final, e no “bate-bola, jogo rápido”, ao ter que se definir no “Maria Fernanda Cândido por Maria Fernanda Cândido”, responde com sabedoria: “Na busca.”
Uma mulher de cabelos longos castanhos pinta freneticamente aquarela em tons de azul. A imagem formada remete à olhar enigmático. Música minimalista, percussiva acompanha as pinceladas da jovem Mariana Terra, cuja missão é interpretar a si mesma e a renomada psiquiatra brasileira Dra. Nise da Silveira, além de outros personagens. A proposta dramatúrgica de Daniel Lobo e da co-autora Mariana é arriscada e desafiadora: integralizar as vivências da intérprete com a da médica em questão. Proposta feita. Desafio aceito. E ambos realizam o que tanto desejam: um belíssimo espetáculo em que as histórias se amalgamam até atingir a um todo cênico. Fascina poder conhecer mais tão emblemática e singular figura feminina de nosso país, vítima de preconceitos, descrédito da classe médica, e perseguições políticas. Seus perfil e idiossincrasias nos levam a admirar com intensidade maior a bravura e destemor daquela que defendeu com ferocidade as convicções abraçadas. O conceito de imagem e simbolismo desta são deveras esmiuçados, e a influência que a Dra. Nise recebera de Carl Gustav Jung nos é relatada. O texto de Daniel Lobo é lírico, bem estruturado e comovente. A peça também serve de instrumento para que Mariana Terra preste tributo ao pai. Mariana atua sem medos, deixando claras efervescências de íntimas emoções. Emoções que pareciam estar guardadas esperando o momento certo de se desnudarem. Resulta-se em atuação brilhante de Mariana Terra. O trabalho é enriquecido pela contribuição de Ana Botafogo, que traça conjunto de movimentos corporais fluidos, precisos, leves porém fortes, e bonitos. A direção musical coube a João Carlos Assis Brasil, que mestre que é, soube sabiamente inserir composições dele, e de outros compositores, como Ernesto Nazareth. A percussão de Marco Lobo é relevante e nos instiga, coerente com o tema abordado. O cenário de Ronald Teixeira é prático, dotado de inteligência, com o uso de cavalete, caixotes, cadeira e pequena mesa na qual está o inseparável bule de chá da Dra. Nise. Há ainda pano retangular enorme em tom cru estendido ao fundo, que serve para a projeção de vídeos de pintura, cenas subaquáticas, depoimento de Ferreira Gullar, e participações de Gilray Coutinho e Ednaldo Lucena. Instantes de Mariana com o pai são por nós testemunhados. O figurino já elogiado pertence também a Ronald Teixeira. O vestido da atriz permite que se movimente com facilidade. A preparação vocal de Cláudia Herz logra com que aquela cante com graça. A iluminação de Djalma Amaral é magnífica, brindando-nos com singelos focos e deslumbrantes luzes gerais de matizes amarelados. Quatro “spots” contribuem com o azul. Carlos Vereza empresta a voz marcante para a “Voz do Inconsciente”. A direção de Daniel Lobo é impecável, explorando toda a capacidade dramática da artista, e optando por intercalar palavra, movimento, música, vídeo e dança. E termina “Nise da Silveira – Senhora das Imagens”. Não para nós, pois saímos do teatro com a sã consciência de que a loucura não deve ser tratada apenas como loucura, e sim com entendimento e compreensão. E aqueles que daquilo sofrem devem ser lidados com afeto, como preconizava Dra. Nise. E que não deixemos apagar de nossas mentes conscientes a inefável imagem do afeto.
Que Gilberto Braga é um autor inspirado, não há quem duvide. Mas em 1980, ele estava inspiradíssimo. Decidiu escrever uma novela que reuniu um conjunto irresistível de elementos teledramatúrgicos que infalivelmente prenderiam a atenção do público (a coautoria a partir do capítulo 60 ficou a cargo do não menos notável Manoel Carlos). Para começar, um grande elenco: Reginaldo Faria (foto), Betty Faria, Raul Cortez (em sua estreia na Rede Globo), Tônia Carrero, José Lewgoy, Gloria Pires, Tamara Taxman, Eloísa Mafalda, Arlete Salles e tantos outros que não devem em talento. A história girava em torno de dois irmãos que não se davam bem, Miguel Fragonard (Raul Cortez), um reconhecido cirurgião plástico, e Nélson Fragonard (Reginaldo Faria), um playboy apaixonado por iates. Disputavam o amor da mesma mulher, Lígia (Betty Faria). Havia ainda uma pequena órfã, Maria Helena (Isabela Garcia), que ficava sob os cuidados da assistente social Suely (Ângela Leal). Descobriu-se que a menina era filha de Nélson. E evidente que não podiam faltar os clássicos vilões de Gilberto. A Beatriz Segall coube a interesseira e arrivista Lourdes Mesquita, que não se conformava com o fato de seu filho Marcos (Fábio Jr.), um promissor médico, namorar uma moça sem recursos, Janete (Lucélia Santos). O mesmo se dava com a sua outra filha, Márcia (Natália do Vale), casada com o professor Edir (Cláudio Cavalcanti). E José Lewgoy personificou Kléber, ex-marido de Stella Simpson (Tônia Carrero), que foi quem matou Miguel pelo motivo do marido de Lygia ter descoberto suas inúmeras falcatruas perpetradas nas empresas que possuía. A descoberta da identidade do criminoso foi um dos chamarizes da trama. O folhetim também contava em seu “cast” com Mauro Mendonça, Kadu Moliterno, que interpretava Bruno, um badalado fotógrafo que namorava Sandra (Gloria Pires), filha de Lucy (Tetê Medina), que morreu na explosão de um barco. Um dos pontos fortes da produção era a trilha sonora, que incluía em sua abertura recheada de praticantes de windsurf a canção composta por Caetano Veloso, na voz de Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil), “Menino do Rio”. O windsurf logo virou moda. E a ousadia teve o seu espaço na cena em que as personagens de Tônia Carrero, Gloria Pires, Maria Padilha e Maria Zilda Bethlem fizeram topless na Praia de Ipanema. A confusão foi geral, e deu até polícia. Participações especiais deram um charme extra à obra, como as da atriz francesa Henriette Morineau, e a do cantor de reggae Peter Tosh. No tocante ao enredo, notava-se uma crítica de Gilberto Braga a alguns hábitos das classe média e alta, como a atitude de Irene (Eloísa Mafalda) destinar quase todo o seu rendimento para pagar parcelas intermináveis de uma viagem ao exterior. Enfim, uma novela como essa não dá para se esquecer. Por várias razões. Acredito que apresentei algumas delas, e por suas relevâncias se mantiveram vivas nas memórias de quem assistiu a “Água Viva”.

Propaganda em LED da marca de calçados Melissa.
Foto: Paulo Ruch

Visão geral da área externa dos galpões onde aconteciam os desfiles.
Foto: Paulo Ruch

Foto: Divulgação/TV Globo
Leleco (Marcos Caruso) e Muricy (Eliane Giardini), no começo da novela de João Emanuel Carneiro das 21h, “Avenida Brasil”, formavam um casal divertido com idades próximas, que volta e meia faziam piada um com o outro, brigavam de vez em quando como em qualquer casamento, e se mostravam apaixonados depois de tanto tempo juntos. Tudo ia bem até que surgiram em suas vidas o ex-gari Adauto (Juliano Cazarré), e a bela moça de Cachoeira de Macacu, Tessália (Débora Nascimento). Adauto declarou a Muricy o amor que sente por ela desde a época em que era adolescente, e aquela era cozinheira. Tessália ao chegar ao Divino, despertou a cobiça dos muitos rapazes do bairro, alguns notadamente “pegadores”. Mas quem de fato lhe chamara a atenção fora um homem maduro, que a tratou com cortesia e a defendeu de um antigo namorado violento, Leleco. Já Adauto, vendo que as coisas não estavam indo bem para o casal por causa de Tessália, conta a Muricy que seu marido foi à festa de despedida dela, que se realizou na casa de Monalisa (Heloísa Périssé). Chegando lá, a mãe de Tufão (Murilo Benício) flagra os dois no maior papo, o que foi suficiente para selar o rompimento do casal que até então se entendia no meio da confusão que é a casa onde moram. Leleco ficou com Tessália. E Muricy, com certa pressão (porém, gostando), com Adauto. O tempo passou, e com ele os problemas vieram para ambos os pares. Leleco, inseguro por ser mais velho que a sua nova mulher, é tomado por avassaladores ciúme e desconfiança. A ponto de “contratar” Darkson (José Loreto) para que seduzisse Tessália, numa espécie de teste de fidelidade. Mas ela é fiel, o que o desaponta, e encanta o locutor da loja “A Elegância”. E Muricy acaba tendo os seus conflitos naturais também, por causa da diferença de idade que tem com relação ao seu companheiro. Ela então se questiona se vale a pena manter um romance com Adauto, mesmo que este goste tanto dela. Todavia, a sua juventude poderá ser um empecilho para a felicidade futura. Muricy, por exemplo, não acompanha o ritmo de Adauto ao fazer exercícios. Numa viagem da família a Cabo Frio a fim de que Jorginho (Cauã Reymond) descansasse – isto seria possível -? -, Leleco e Muricy não contêm a atração que ainda sentem um pelo outro, e às escondidas, começam a se agarrar como se fosse a primeira vez. Viraram amantes! O que causou espanto nos filhos Tufão e Ivana (Letícia Isnard). Não foi algo passageiro, pois ao retornarem ao Divino, já estavam marcando um novo encontro. Só que não contavam com a descoberta de Darkson, que teve o maior esbregue com seu “contratante”. Muricy tenta resistir aos apelos de Leleco, contudo não consegue evitá-los. Enfim, amantes para valer. Agora se quiserem voltar ao estado civil de origem, muita gente sairá machucada. Afinal, qual a traição que não machuca?

Um dos guindastes que impressionavam pelo seu gigantismo no evento.
Foto: Paulo Ruch