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Blog do Paulo Ruch

  • ” Cinematograficamente belo, sensualmente pulsante e arrebatadoramente revelador sobre os lados sombrio, luminoso e catártico do amor, a peça de Arnaldo Jabor, ‘Eu Te Amo’, exibe o magnetismo e a potente intimidade interpretativa de dois atores: Juliana Martins e Sergio Marone. “

    novembro 17th, 2014

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    Foto: Marcos Morteira

    Uma mulher desesperada, Maria (Juliana Martins), vê o seu amor, um piloto de avião, Ulisses, ir embora em poucas, curtas e frias frases numa prosaica ligação telefônica. Um homem perdido, Paulo (Sergio Marone), sob um pesado edredom verde e amarelo nada pátrio, deitado sobre a nudez de um praticável qualquer, desperta já no seu acelerado processo de desalento face ao quase ou nenhum sorriso que a vida lhe oferece. Paulo também perdeu o seu amor, Bárbara Bergman, em poucas, curtas e frias frases. Não numa prosaica ligação telefônica, mas por intermédio de uma metafórica imagem na qual a loira mulher que amava agradece a Deus pelo aborto do filho que esperavam. Na verdade, Paulo é um cineasta, estigmatizado pela classe como “autoral”, discriminado por um sistema de políticas governamentais que se sucedem assassino da cultura subsistente neste país… medíocre. A autoria de seu filme foi decepada pelos “senhores feudais”, “burocratas tupiniquins” que dominam o mercado de cinema no Brasil. A sua loira mulher “bergmaniana” não por acaso o traiu com o fotógrafo de seu falecido projeto. Solitário, seminu, vestido apenas com o luto de seu short íntimo negro, e um robe tão extravagante quanto as circunstâncias que o cercam, exibe o torso aberto para enfrentar a estupidez do mundo. O homem recorre à companhia deletéria porém leal dos cigarros que fuma e do uísque sem as inúteis pedras de gelo. Confidencia ao seu amigo Oliveira que marcara um encontro real por meio da máquina virtual e surreal. Decorrido um tempo, adentra na pocilga onde mora, a sua própria produtora, uma lânguida e misteriosa Vênus, uma sílfide lasciva resgatada de outra dimensão, coberta por uma capa com capuz preta, que escondia por baixo um deslumbrante e brilhoso vestido de gala de debutante que deixava seus ombros à mostra, a garota de programa Mônica (Juliana Martins). Ela não é um reles e chão ser feminino, como muitos poderiam pensar. Formou-se em Letras. Uma culta prostituta ou uma prostituta culta. Sua diminuta bolsa crua guarda a escravidão química à qual somos consuetudinariamente submetidos. As nossas ansiedade, depressão e oscilações de humor são abrandadas pelas solidariedade e comiseração de laboratórios que se locupletam com nossas desgraças e misérias psiquiátricas e psicológicas. O sexo pago de Mônica é caro, globalizado. Ambos praticam um sexo instintivo, animal, objetivo e carnal. No entanto, não menos orgástico. O ato sexual é assistido por nós como se fosse um filme, com seus takes velozes, imagens congeladas, marcações de corpos deliciosamente suados que se grudam e se desgrudam numa mesma frequência. A língua é um chicote úmido e irrequieto que açoita e desperta o desconhecido prazer em nossa matéria. Para Paulo, o sexo pode ser uma exclusiva forma de expressão do amor e a sensibilidade do homem pode ser bem maior do que a das mulheres. O pranto do macho talvez seja mais copioso. Uma inofensiva brincadeira quem sabe é um indicativo de um desejo latente do casal em apimentar a relação com dominação e submissão. A mulher perfeita para Paulo pode ser a doméstica, a do lar, a servil com coxas roliças e melenas alouradas. Para Mônica (Maria buscando uma nova identidade para escapar de sua frustrante existência) navegar não é preciso, e sim voar. Foge da superfície até nos relacionamentos afetivos. Do contrário, não teria se interessado por um aviador e um mergulhador. Tanto Paulo quanto Maria procuram sedentamente uma concretude em suas vidas, uma palpabilidade. Para ela, esta palpabilidade pode ser representada pelo simples passar de uma manteiga em um pão desavisado. A escalada do amor do casal acidental é doída, morosa, desencontrada, fantasiosa, passional e violenta. A vida nem sempre parece o que é. Ou sempre parece o que não é. O texto teatral de Arnaldo Jabor (um dos mais prestigiados cineastas brasileiros, autor de obras clássicas como “Toda Nudez Será Castigada” e “Tudo Bem”) adaptado de seu longa-metragem homônimo lançado em 1981, “Eu Te Amo” (idealização e coordenação de Juliana Martins) é um relevante, emblemático e abrangente estudo e pesquisa sobre o amor, não se prendendo aos grilhões da pudicícia e moralismos que envolvem o assunto. Em sua dramaturgia, Jabor faz uma crítica acerba à ausência absoluta de perspectivas e horizontes do indivíduo (tendo Paulo e Maria como signos dessa conjuntura) quanto a uma posição estabelecida no mercado de trabalho. O personagem de Sergio Marone é um cineasta que não consegue pôr a sua Arte em prática, porquanto vivemos ou sobrevivemos em uma nação cujos representantes do Poder Público não escondem o seu desinteresse em fomentar a cultura nacional. O que lhe sobram são leis de incentivo possuidoras de critérios passíveis de desconfiança, o que demanda uma acurada avaliação. A burocracia agigantada, as exigências descabidas e uma falta de ordenação financeira e orçamentária desmancham os sonhos de bastantes cineastas que não conseguem levar a sua obra adiante (algumas delas, o que é pior, ficam paradas no meio de sua execução). Já Maria (“a letrada decaída”) não exerce o ofício que escolhera, Letras. Ocupou uma série de cargos que se distanciam de sua qualificação. Uma demonstração clara de que o Brasil desmerece seus profissionais de nível superior, aumentando as estatísticas oficiais de desemprego, subemprego e informalidade. Arnaldo Jabor, com sua essência de cineasta, não nos poupou, que bom, de referências cinematográficas na adaptação de seu roteiro para os palcos. Chaplin, Bresson e Bergman são homenageados, cada um de maneira diferenciada. A ex-mulher de Paulo, como dissemos, chama-se Bárbara Bergman. Sergio Marone tem um momento em que se veste de fraque e usa cartola (“o pierrô chapliniano”), o que nos reporta à figura mítica do adorável vagabundo de Charles Chaplin, Carlitos. E no que concerne ao diretor minimalista francês Robert Bresson, há uma citação da passagem de sua obra-prima, “Pickpocket” (“O Batedor de Carteiras”, em português), lançada em 1959. Na cena mencionada, a personagem interpretada por Marika Green, Jeanne, visita o seu amado, o delinquente Michel (Martin LaSalle) na cela de uma cadeia e lhe diz: “Que caminho estranho tive que percorrer para chegar até você”. Extremamente instruído, Arnaldo insere na narrativa dramatúrgica menções a excelsos pensadores e poetas, como Rilke e Rimbaud. A fim de tornar o universo da montagem admiravelmente mais fílmico, foram convidados para a sua direção e comando dois consagrados cineastas em suas pioneiras incursões teatrais, Rosane Svartman (também roteirista) e Lírio Ferreira. Rosane e Lírio, com evidentes cumplicidade e olhares aliados, propõem uma encenação pautada na valorização dos inteligentes diálogos do texto, apoiando-se e acreditando no largo potencial interpretativo de Juliana Martins e Sergio Marone. Com uma permanente ambiência sensual/erotizada , os atores são levados a um desprendimento pleno de seus possíveis pudores, e o resultado é um panorama elegante em que se destrincha a trama com irretorquível plasticidade visual. Por vezes, temos a ligeira impressão de testemunharmos um “vaudeville” moderno, com as entradas e saídas sucessivas em cena dos artistas, o que gera, por consequência, uma dinamização do entrecho. Um eficiente recurso utilizado pelos diretores são as projeções de imagens, sendo mais uma oportunidade para usar o cinema como linguagem no teatro (há os depoimentos em “close-up” de Bárbara, Paulo e Maria, além de flagrantes de mar e seu fundo, uma torneira que goteja e uma arquitetura requintada com lustres luxuosos). As tais imagens são projetadas em três espécies de portais que lembram pequenos palcos dentro de um palco maior. Sendo assim, aquelas ficam cortadas, picotadas, subdivididas sobre esses painéis, no entanto atingindo a completude de sua configuração ao final. A poesia imagética outrossim se impõe em “Eu Te Amo”. As cenas de amor e sexo são coreografias de corpos e formas em perfeitas sintonias e conjunções. Juliana Martins como Maria/Mônica e Sergio Marone como Paulo estão louvavelmente integrados no contexto da sinopse com suas belas e intensas atuações. Juliana esbanja elevadas doses de sensualidade, invariavelmente com bom gosto e refinamento postural. A atriz que acompanhamos em diversos trabalhos na televisão está, sem dúvida, no auge de sua maturidade artística. Com amplo talento e beleza física iluminada, Juliana se desdobra verdadeiramente em dois papéis com psicologias distintas, ainda que sejam de uma mesma pessoa, o que não é tarefa fácil. Como Maria, seu perfil é mais próximo de uma mulher comum com suas angústias vezeiras. Já como Mônica, a intérprete se vale de acaçapante sedução, com comportamento determinado, um certo ar “blasé” e detentora de fina ironia. Sergio Marone, outro ator com reconhecido talento na TV, ostenta uma impressionante solidez como ator de teatro, com pujante presença cênica que não se escora em sua inquestionável beleza, mas nas múltiplas ferramentas de atuação de que dispõe para compor Paulo. O ator revela extensa compreensão das idiossincrasias de seu “character”, traçando um elogioso desenho analítico do cineasta que interpreta. Maria/Mônica e Paulo são personagens com vários compartimentos emocionais que foram depreendidos com grande acerto pela dupla de protagonistas. Em um espetáculo como “Eu Te Amo”, é imprescindível que os atores se entendam em cena, confiem um no outro, joguem, brinquem em conjunto, compartilhem suas cargas emotivas. O cenário de Fabiana Egrejas transmite harmonia, charme e objetividade. Além dos portais (constituídos por um tecido plástico/sintético), há uma cadeira de diretor, uma exígua mesa/cômoda com portas sobre a qual estão uma garrafa de uísque, copos, balde de gelo e uma cigarreira. Do outro lado do tablado, encontra-se um praticável (como fora dito) onde Paulo dorme e seu edredom amarrotado. E, por último, uma arara corrediça em que se veem dependurados os figurinos do casal. Estes couberam a Márcia Tacsir, que os pontuou com exuberância, sofisticação, despojamento e casualidade. Merece especial atenção o longo brilhoso de gala de debutante supracitado (ajusta-se muito bem em Juliana). São vistos demais longos, ambos pretos. Um com golas recortadas, sem mangas, com fenda e zíper frontal. Outro com a parte superior com rendas semelhante a um “corselet”. Como acessórios, dois tipos de escarpins pretos. No tocante a Paulo, os short íntimo e robe com arabescos (também falados) cingido por uma faixa violeta, jeans, camisa social acinzentada e tênis. A iluminação de Rogério Emerson é diversa, instigante e congruente com o retrato de vida dos amantes. Com parcas luzes, formam-se imponentes sombras. O foco geral é assumidamente claro como se a intenção fosse a de nos levar de volta à realidade. Quando Paulo e Maria praticam o ato sexual, há um foco central sobre os seus corpos. Os “blackouts” são recorrentes. E se vislumbram gradações luminosas. A direção musical aposta num agradável e nostálgico ecletismo, com direito a Chico Buarque, Maria Bethânia, Peninha e The Rolling Stones (toque do celular de Paulo). “Eu Te Amo” tem, ao meu ver, significativos méritos: revela Arnaldo Jabor como um excelente dramaturgo (seu texto esmiúça as variadas camadas desse complexo sentimento que é o amor com notável inteligência); corrobora o talento de Rosane Svartman e Lírio Ferreira como diretores de teatro; e confirma o brilho de Juliana Martins e Sergio Marone como artistas também do tablado. Se no filme de Robert Bresson, a mulher que visita o seu amado na cela de uma prisão lhe diz “Que caminho estranho tive que percorrer para chegar até você”, posso do mesmo modo asseverar: “Que caminho extasiante e jubiloso tive que percorrer até chegar a Juliana Martins e Sergio Marone em “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor.

  • ” As complexas faces do amor e da amizade no mundo atual são vistas sob a ótica de três fascinantes personagens, Monique, Leandro e Felipe, interpretados respectivamente por Bia Arantes, Bernardo Velasco e Daniel Blanco na ótima, divertida e sensível peça ‘A-Traídos’.”

    novembro 14th, 2014

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    Foto: Divulgação do espetáculo

    Monique (Bia Arantes) é uma jovem estudante de Veterinária, romântica e sonhadora, geminiana com ascendente em Sagitário, que possui com Felipe (Daniel Blanco), um rapaz doce, culto, tímido e poeta diletante com voz pausada, um “não relacionamento que talvez seja o mais não relacionamento de todos os não relacionamentos”. Felipe, com seus modos acanhado e contido, é visto por seus pares de geração como um sujeito “travado”. Os dois se conheceram há exatos sete anos, porém só vieram realmente a se falar com a providencial intervenção do professor de História Glauber que os colocou como dupla em uma tarefa escolar. A relação de ambos sempre fora classificada tanto por um quanto por outro como sendo apenas uma duradoura e fiel amizade. Na verdade, o escrevedor de lindos poemas já a amava nos dois primeiros anos. Sequer houve por parte do moço neste lapso de tempo a tentativa de um singelo beijo na amada ou a esperada declaração de amor com o emblemático “Eu te amo!”. Felipe, que prefere expressar em versos o que sente do que verbalizar (ele diz em certa hora algo como: “Amar é simplesmente sentir o amor sincero”), tem como amigo de longa data (desde a tenra infância) Leandro (Bernardo Velasco), que detém um comportamento diametralmente oposto ao seu. Leandro é como vários rapazes com os quais nos deparamos na sociedade: o galã da turma, popular, esportista (é praticante de skate), sedutor, fanfarrão e machista (todavia, há uma fileira de qualidades em seu cerne que serão desveladas no decorrer da história, para a nossa surpresa). Confidente de Felipe, sabe do amor platônico que o amigo sente por Monique. Como não poucas vezes ocorre na vida, o inesperado irrompe, e toda uma teia de relações até então estabilizada, ou no limite da sua estabilidade, é estremecida. Em momento qualquer, Monique e Leandro se encontram, e o segundo lhe revela que a conhece desde muito por meio das centenas de fotos espalhadas em sua rede social, bastantes delas ao lado de seu parceiro Felipe. Uma forte atração física é sentida pelos dois, e o inevitável acontece: um beijo ardente. A atração que se tornou uma traição. O encontro de lábios fora dado justamente no dia em que o poeta decidira beijar a mulher de seus sonhos. A culpa e o remorso pela traição ao amigo iniciam uma série de conflitos nas consciências de Monique e o skatista. Uma sequência de perguntas é feita a partir daí e questões são levantadas. Como lidar com a traição? Enfrentá-la, assumi-la, confessá-la? E como abrandar o devastador arrependimento que os assola tanto na emoção quanto na razão? São esses os motes utilizados com sensibilidade, graça e propriedade por Rafa Ferrah (argumento) e Pedro Jones (dramaturgia) na peça “A-Traídos”. O espetáculo, também dirigido por Pedro e uma realização da Ferrah Produções, traça um oportuno, proveitoso e inteligente painel das complexas dimensões comportamentais juvenis contemporâneas. Na era em que tudo é fugaz, efêmero, superficial e consumista, discute-se com adequação como estão o caráter, a índole, a ética, e de que forma a mocidade lida com os valores inseridos no amor e na amizade. Indagamos: os jovens têm limites ou ao menos noção de que os mesmos existem, e de que para o bem estar coletivo deveriam ser obedecidos? Tomamos por conclusão que as atitudes e ações dos três jovens são sementes em desenvolvimento do que eles virão a ser no futuro como seres adultos. Em situação nenhuma, Monique, Leandro e Felipe podem ser definidos como simples arquétipos de uma fase geracional, mas sim, certamente, como signos aos quais devemos de jeito obrigatório prestar maior atenção. Todos nós, sejamos adultos ou pertencentes a quaisquer faixas etárias, estamos direta ou indiretamente ligados aos jovens e suas questões, seja como irmãos, pais, avós ou amigos. Debatem-se outros temas, desta vez concernentes à condição feminina. O que afinal deseja a mulher (o psicanalista austríaco Sigmund Freud já se perguntava quanto a isso na célebre frase de um artigo de sua lavra: “Afinal, o que querem as mulheres?”)? A mulher pode vir a sentir atração, ou até mesmo amar, um homem com potencial fragilidade, acentuada sensibilidade e timidez em grau elevado que o impede de expressar vontades e sentimentos íntimos, assim como Felipe? Ou sua libido se manifesta com maior potência (e quem sabe nutrir um sentimento que exceda a institiva atração física, ou seja, amar) ao se defrontar com um representante do sexo masculino cujos maiores atributos são a beleza física e uma irresistível “pegada”, mas que no entanto é desprovido de conteúdo intelectual razoável, como Leandro? Reitero o que há pouco inquiri, só que distintamente: – O que satisfaz a mulher na plenitude? A falta de traquejo de um Felipe em seduzi-la ou o tesão que um “cara gostoso” como Leandro lhe proporciona? E o beijo? Por que se cobra tanto acerca do beijo? Por que quando adolescentes somos massacrados, e por vezes discriminados se ainda não demos o primeiro beijo? Há um prazo para isso? O beijo não é tão somente uma amostra de afeto banal como se vê hoje em dia e em gerações recentes passadas, com bocas estranhas se “conhecendo” numa noite, e no dia seguinte que mal se cumprimentam. O beijo do amor, não o descompromissado (este de modo algum deve ser condenado moralmente) tem a sua hora, o seu momento, a fim de que a garantia de sua verdade seja legitimada. Por vezes, infelizmente, constatamos que uma parcela das mulheres incentiva a prática machista, julgando que sejam os homens os “predadores”, e elas as “presas”. O que dizer dos rapazes que assediam as moças com agressividade, sem cuidado tampouco cautela, e elas aceitam e consideram normal, próprio dos machos, com o único objetivo de “se darem bem” e de terem “pegado mais uma na balada”, e se vangloriarem após para os amigos? A mulher sábia é aquela que diferencia um homem do outro, e a mulher mais sábia ainda é aquela que não se deixa prender às arbitrárias convenções sociais de que não pode seduzir alguém por quem se interessa, sob o risco de ser tachada de vulgar ou algo pior. Que problema há se chegar em um rapaz e explicitar sinceramente e sem excessos o seu sentimento afetivo? Que problema há se a mulher perceber que o rapaz a ama e ela outrossim o ama, e tomar a decisão de lhe dar um beijo? Problema nenhum. E quanto à amizade que é abordada no texto? É fato que sendo um elo de afetividade será invariavelmente passível de estremecimentos, abalos e desvios de rota, sendo o maior deles a traição. E onde há a traição há a presença ou não do ato de se perdoar. E quando é um amigo que trai? E quando esta traição é dupla? A traição de quem se ama e a traição de seu melhor amigo. Não nos esqueçamos de que somos falhos. Todavia, até que ponto nossas almas são tão elevadas para relevar um golpe tão feroz? Na peça, há frases (cito-as proximamente) que são ditas e denotam com coerência os acontecimentos que envolvem estes iniciantes na vida: “Toda escolha implica em perdas”, “O amor do amigo é o maior de todos” e “A vida não é um manual de instruções”). O texto dramatúrgico de Pedro Jones, a partir do argumento de Rafa Ferrah, conjumina notadamente sensibilidade, emoção, um encantador romantismo e uma leve comicidade na trama que envolve Monique, Leandro e Felipe, e todas as dificuldades, enfrentamentos de conflitos, descobertas, dúvidas, questionamentos natos a esta etapa da vida tão bonita quanto desafiante. A direção, que também coube a Pedro, intentou e logrou atingir uma equanimidade entre a dinâmica das cenas e suas pausas pontuais, o silêncio imperioso, e importantíssimo que se diga, uma primorosa dedicação ao notável trabalho interpretativo dos três atores. O encenador consegue, para o nosso deleite, que sejamos conquistados e atraídos (sem trocadilhos) por cada um dos papéis que compusera, com todas as qualidades e supostos defeitos inerentes ao mais comum ser humano em sua fase jovem. Percebe-se que houve uma salutar preocupação com o preenchimento do espaço cênico pelos artistas, os quais se dirigem de um lado a outro, correm, caminham do seu jeito, revezam-se e se alternam, ou ficam todos juntos no fundo do palco com extrema concentração e disciplina como observadores distanciados da narrativa, deitam-se, vão ao proscênio, sentam-se na beira do palco e até mesmo circulam pela plateia. A expressividade corporal dos atores é notável, apresentando-nos impressionante vitalidade e não pouca variedade de posturas e gestuais. O elenco foi exemplarmente escolhido. São atores belos e talentosos que já os conhecemos por seus trabalhos na televisão, mas que na ribalta se desprendem por completo e nos exibem toda a sua capacidade de atuação e construção de um personagem. Bia Arantes desenha com admirável acerto a sua Monique, que ora está confusa (não sabe quem ama, não sabe o que quer), ora está romântica e apaixonada, ora está indignada (com o não acontecimento dos fatos), e em determinadas ocasiões contemplativa, imersa em seus pensamentos divididos com o público (ou interagindo mais objetivamente com os espectadores). Bernardo Velasco é uma presença cativante em cena. O ator, independente de sua beleza (como os demais) e harmônica forma física, não nos poupa de seu talento, com as composições que lhe são conferidas. As suas espontaneidade e naturalidade são forças motrizes do sucesso de seu Leandro. Daniel Blanco faz parte de um time de atores que nos causam imediata empatia. O jeito meticuloso de elaborar o seu tímido e apaixonado Felipe encanta a cada um de nós. Daniel se esmera (aliás, todos) em valorizar cada palavra que profere, conferindo-lhe o nível de emoção solicitado. Os três atores formam um conjunto cujos entrosamento e afinidade colaboram de maneira definitiva para o êxito indiscutível do espetáculo. A cenografia de Rafa Ferrah é charmosa, caprichada e nos remete a uma leveza acolhedora da peça, com três painéis quadrados constituídos por ripas de madeira, sendo que cada um deles pertence a um personagem. O primeiro, de Felipe, possui cartas, papéis nos quais foram escritos os seus poemas; o segundo, o de Monique, tem distribuídos ramalhetes, ramos de flores; e o de Leandro é adornado com toalhas (é bom que se frise que os painéis ficam pendurados por fios imperceptíveis). Pedro Jones (que acumulou a dramaturgia e a direção) faz uma linda e singela iluminação, fugindo a qualquer tipo de exagero desnecessário. Novamente como se a intenção fosse a de impingir a brandura de uma inocência quase perdida dos jovens. Os três painéis citados são focados cada um por luzes diferenciadas: laranja, verde e azul, seguindo a ordem. Não há o preterimento do plano geral suave, dos focos sobre um único ator ou em dupla, luzes transversas em verde, vermelho e azul, além de brancas na parte anterior do tablado. Há um recurso de alternância de apagar e acender de luz sobre os intérpretes ao fundo que merece menção destacada. Os figurinos de Daru Lima são despojados, alegres e coerentes com a personalidade da cada “character”. Bia usa um vestido claro florido com alças, sapatilhas, um cordão e uma pequena bolsa. Bernardo traja uma moderna regata azul com um bolso frontal, uma bermuda cargo, meias listradas e tênis. E Daniel se vale de uma blusa xadrez sobre uma t-shirt bordeaux (com tênis da mesma cor), jeans e um par de óculos. A trilha sonora foi criada pelo cantor e compositor Guga Sabatiê, que também é ator. Guga tem o mérito de enriquecer com os acordes melodiosos de um violão acústico o universo jovem retratado na peça. As inserções musicais são pertinentes e dignas de elogio. “A-Traídos” é um espetáculo com muitas qualidades, que vão dos assuntos abordados e discutidos com graça, contudo sem perder a seriedade, até o brilho e carisma de Bia Arantes, Bernardo Velasco e Daniel Blanco. Um entretenimento que valoriza o teatro, que deve ser visto não somente por jovens, mas por todos, pois o que se trata é universal. Onde há amor, pode haver traição. Onde há atração, pode haver traição. Da mesma forma com a amizade. Entretanto, acima disto tudo há o perdão. Contra este, não há vencedores. E onde há dois rapazes e uma moça chamados respectivamente Bernardo, Daniel e Bia não há traição, há sim amor e amizade incondicionais pelo palco. Somos “A-Traídos”, sem meios de escaparmos, por esses três talentos, logo quando abrem os seus sorrisos em cena.

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    novembro 10th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Vinícius Mansano no Fashion Rio, na sua edição Verão 2014/2015, organizada na Marina da Glória.
    Vinícius é paulistano, e à época pertencia à agência Mega Model Brasil.
    Na temporada em questão, desfilou para a marca R. Groove.
    Em sua conta oficial no Instagram, Vinícius Mansano anuncia a LaOca Casa Conceito, voltada para a decoração de interiores.

    Agradecimento: TNG
    R. Groove

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    novembro 10th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Breno Ortega no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.
    Breno, que é carioca, faz parte do cast da 40º Models.
    Passou uma longa temporada em Milão, Itália, onde realizou diversos e bem-sucedidos trabalhos (Missoni, Henrique Ferrari Photography e Esmeck Simoes Netto).
    Na semana de moda carioca, o modelo desfilou para a R. Groove e TNG.
    Já esteve nas passarelas representando importantes marcas nacionais, como João Pimenta, Ausländer, Cavalera e Richards.
    Sempre marcou presença na semana de moda paulista, a SPFW (São Paulo Fashion Week).
    Foi fotografado pelo respeitadíssimo e requisitado Bob Wolfenson (para a ELLE BRASIL), Eber Figueira, Rodrigo Marconatto (editorial Made in Brazil), Paulo Martinez, Prema Surya, Fernando Machado, Renato Pagliaci (editorial de carnaval, com a produção de Modafocka), e tantos outros.
    Fez campanha para a Redley juntamente com Gabriel Sihnel (também da 40º Models), Addict, JDC (live day by day), Romeu Mag e Tassa Outono Inverno 2012.
    Constam ainda de sua carreira os ensaios para a extinta Revista O GLOBO (clicado por Romulo Soares), Victor Dzenk e Cartola Magazine.
    Estampou as capas da Revista Regional e revista Reserva (nesta, interpretou um de seus ídolos do rock, o inglês David Bowie, na época de seu personagem Ziggy Stardust).
    Participou com os modelos Weder Wilham e Raphael Lacchine do extinto programa conduzido pela atriz e apresentadora Regina Casé “Esquenta!”, na Rede Globo.
    Na edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), em sua temporada Outono/Inverno 2015, o modelo vestiu as peças novamente da TNG e da Cavalera.
    Recentemente, Breno Ortega protagonizou, ao lado das modelos Gabrielle Joie (Way Model) e Yngrid Ferreira (Mix Models), um ensaio (“Baila Comigo”) na revista dominical do jornal O GLOBO “ela” (edição 16/02/2020), com fotos de Renan Oliveira e styling de Luciana Novis, tendo como locação o Sesc Quitandinha, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro.

    Agradecimento: TNG
    R. Groove

    Obs: Post atualizado em 10/04/2020

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    novembro 10th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo da MEGA Pedro Figueiredo, no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.
    Pedro, no Fashion Rio, desfilou para a R. Groove, e na última edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), em sua temporada Outono/Inverno 2015, agora no início de novembro, o modelo foi visto nas passarelas tanto da TNG quanto da Ellus.

    Agradecimento: TNG
    R. Groove

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    novembro 10th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    A marca mineira de cafés Três Corações fez grande sucesso com seu quiosque no Fashion Rio, em sua edição Verão 2014/2015, na Marina da Glória, por oferecer aos convidados e profissionais da moda a todo o instante cafés com suas várias combinações, além de exibir em primeira mão modelos de modernas cafeteiras como esta da imagem, com capacidade para preparar os mais diversos produtos do gênero.
    A Três Corações foi a pioneira no lançamento do cappuccino no Brasil.

    Agradecimento: TNG
    R. Groove

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Desfile da R. Groove – Marina da Glória

    novembro 5th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    Num look futurista e tecnológico todo em preto, com a exceção dos sneakers brancos, Matheus Strapasson, da Next Models New York, apresenta-se no desfile da R. Groove (Verão 2014/2015), com o a coleção “PARADISE MOTIM”, no Fashion Rio, organizado na Marina da Glória.

    Agradecimento: R. Groove

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Desfile da R. Groove – Marina da Glória

    novembro 5th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Gabriel Sihnel, da 40º Models, mostrou, no desfile da R. Groove, na sua coleção “PARADISE MOTIM”, para o Verão 2014/2015, no Fashion Rio, na Marina da Glória, uma blusa de mangas compridas listrada com acentuada transparência, short largo com cadarço à mostra, meias e sneakers brancos.

    Agradecimento: R. Groove

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Desfile da R. Groove – Marina da Glória

    novembro 5th, 2014

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo da Way Model Ronaldo Martins veste um look quase totalmente branco no desfile da R. Groove, no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.
    A marca, com a sua coleção “PARADISE MOTIM”, usou como acessório um boné com uma tira longa posterior, uma camisa longa, sendo fechada na gola e nos punhos, com o último botão aberto, uma calça com listras negras e os sapatênis, também brancos, encerrando o conjunto.

    Agradecimento: R. Groove

  • “Em meio a uma ‘Chuva Constante’, Malvino Salvador e Augusto Zacchi, como Denny e Joey, vivem dolorosas experiências, como traição e culpa, numa sociedade longe de ser civilizada, e próxima a um ‘ritual pagão’.”

    outubro 27th, 2014

    zacchi_malvino
    Foto: Marcelo Faustini

    Dois únicos personagens. Dois policiais. Denny (Malvino Salvador) e Joey (Augusto Zacchi). Uma duradoura e forte amizade os une. Até que o imprevisto, o inesperado acontece. E o que antes parecia sólido, irremovível se mostra tíbio, frouxo, sujeito a questionamentos e reavaliações. Até que ponto se pode confiar em uma amizade? Qual é o seu nível de lealdade e segurança? Como se defrontar com a dor lancinante causada por uma traição? Para responder a essas perguntas e tantas outras que nos amofinam, o autor, roteirista e produtor americano Keith Huff (escreve para séries consagradas, como “House of Cards” e “Mad Men”) levou aos palcos da Broadway em 2007 “A Steady Rain”, com bastante êxito, recebendo elogios generosos da crítica especializada. Huff se utiliza da dupla de “representantes da lei” para desenhar de modo abrangente uma narrativa dramática na qual se percebe com nitidez um panorama escalonado das diferenciações dos comportamentos, sentimentos e emoções humanas. Na tradução feita com elevada propriedade por Daniele Ávila Small, “Chuva Constante” (título adotado no Brasil) nos apresenta Denny e Joey por intermédio de seus pensamentos, convicções e elucubrações sob a forma de monólogos ou diálogos acalorados. Não há, nem se vê razão para isso, uma determinação específica de local tampouco tempo em que se passa a história. Porém, somos direcionados para uma potencial realidade que nos lembra a estadunidense (tal impressão em nenhum momento nos distancia do entrecho). Imaginamos uma metrópole com suas arraigadas mazelas e uma cultura contaminada pelos consumismo, preconceito, xenofobia e barbárie. A felicidade plena está na realização pessoal de constituir uma família típica, com esposa (Connie), filhos (Steve e Noel) e animal doméstico? Denny acredita que essas conquistas e os bens móveis que possui, como uma televisão com dezenas de polegadas, garantem o seu sucesso. Ao contrário de seu parceiro Joey, que é solitário, acaba de se livrar do alcoolismo, e reside em um desprezível quarto qualquer. É possível que haja motivos para um amigo sentir inveja do outro? Desde já, vimos que Denny é impulsivo, transgressor, violento, irônico e emotivo. Joey, no entanto, busca se aproximar mais do juízo, da racionalidade e do comedimento. Quem está certo? Quem é o melhor? Não se sabe. Para Denny não existem códigos de ética e conduta a serem obedecidos. A hierarquização de sua categoria profissional e a nefanda burocracia dos órgãos públicos são testemunhados na figura de um capitão de polícia. O racismo é discutido com olhares distintos. O sistema de cotas é justo, necessário? A alvura de sua pele e a de seu companheiro impede a sonhada promoção (um racismo “às avessas”). Nos logradouros, a convivência de diversas etnias e seus idiomas e dialetos ininteligíveis só reafirma o abismo infindo que se abriu na comunicação e socialização dos indivíduos da era moderna. No submundo frequentado por cafetões, prostitutas e “serial killer”, pode-se esbarrar com um portorriquenho ou com um infante desnudo e choroso de origem vietnamita. Uma “Torre de Babel” do século XXI com todas as máculas e obstáculos que lhe são próprios. O texto de Keith decide privilegiar o enfoque na relação de amizade, e demonstrar o quanto esta é passível de adulterações e distorções, provocadas invariavelmente pelas fraquezas natas ao homem. Nos dias de hoje, não poucas vezes, uma instituição fadada ao fracasso. Um de seus agentes poderá ser a traição e o rastro que deixa. O ato de trair obriga a remodelação de toda a conjuntura de relacionamentos até então sedimentados. Na peça, supõe-se que uma experiência sexual assume, dependendo de seu contexto, um viés religioso. A solidariedade e sua beleza incorre no risco de ser recebida com ingratidão e o golpe traiçoeiro. Os estilhaços de um vidro de janela alvejado por um projétil de uma Magnum 44 não só derramam sangue dos inocentes mas alteram a estrutura conjunta familiar estável. O pai da vítima Steve, Denny, muda substancialmente seus propósitos de vida e suas emoções são reorganizadas. Na existência, tudo nos parece falível. Constata-se que a vida está distante de ser algo seguro, protegido por nossas veleidades. É sim um objeto etéreo, quebradiço, pronto a se dissipar com qualquer desvio de rumo. A culpa definirá a amplitude da dor que sentiremos no futuro, e a sua nulidade demarcará de fato quem somos na essência. A dramaturgia crua, realista e intensa de Keith Huff obteve uma direção precisa, eloquente e fluida de Paulo de Moraes. Paulo (prestigiado encenador reconhecido no Brasil e no exterior, laureado com importantes prêmios tanto pela Armazém Companhia de Teatro quanto por projetos independentes) atentou com afinco e denodo para o trabalho interpretativo de seu elenco, sem, todavia, preterir os demais aspectos cênicos tão relevantes quanto. Paulo de Moraes envereda por um caminho pautado pela temática policial, que nos reporta aos filmes de gênero numa escala evolutiva de suspense, apreensão, reviravoltas e surpresas. Os atores se “enfrentam” num tenso e pulsante diálogo, com acusações mútuas, defesas ferrenhas de suas posições e opiniões, e confissões individuais desconcertantes. O cenário (duas cadeiras de madeira com estofamento de couro, um telão para projeção de imagens e múltiplos refletores de pé espalhados por ambas as laterais), que também coube ao diretor, serve-lhe como fundamental ferramenta para a dinâmica da ação. Os intérpretes usam os citados móveis de formas variadas, e posicionamentos diversificados. A nossa identificação com o universo retratado é imediata e eficaz. O recurso de se filmar ao vivo as cenas da montagem é uma criativa e eficiente solução para incrementar o nosso entendimento da obra (precipuamente o ator Augusto Zacchi e o gestual de suas mãos). As imagens projetadas dos irmãos Rico e Renato Vilarouca são expressivas, bonitas e impactantes (João Gabriel Monteiro é o videomaker). A preparação corporal de Patrícia Selonk objetiva o alcance pelos intérpretes de uma linha postural condizente com a oscilação de seus humores, e o retorno por parte daqueles é visível e bem-sucedido. A iluminação de Maneco Quinderé é insinuante, atrativa, não linear, com uma ampla paleta de opções no que concerne a texturas e densidades. A encenação é valorizada por luzes pontuais/focos, planos abertos numa medida equilibrada, gradações e os feixes que provêm dos refletores nas laterais do palco, aumentando a ambiência “noir”. A direção musical de Ricco Viana se alimenta de trilhas incidentais instigantes e persuasivas, culminando na potência de um rock’n’roll. Os figurinos de Malu Kelvingrove são coerentes e alinhados. Malvino traja calça jeans, camisa social branca com listras verticais cinzas, uma gravata grafite, uma jaqueta também acinzentada e como acessórios cinto e sapato marrons. Augusto veste camisa branca com colete, calça, cinto e sapatos, além de um coldre. Otto Jr. faz a voz do cafetão Lorenzo. Quanto às atuações, Malvino Salvador, um ator que iniciou a sua carreira nos palcos, defendeu papéis marcantes na televisão e experimentou com êxito o cinema, cuja última atuação no tablado fora numa peça de Sam Shepard, também dirigida por Paulo de Moraes, “Mente Mentira”, arrebata os espectadores com a sua verdade interpretativa, a sua visceralidade emocional e a sua fina ironia. Malvino carrega uma explosão de sentimentos numa carga dramática crescente compatível com o desenvolvimento de seu papel, Denny. Com sua forte presença em cena, evidencia as totais compreensão e absorção da alma do complexo policial a quem dá vida. Um ator que merece ser visto e revisto na ribalta. Augusto Zacchi, um artista com relevante e significativa experiência no teatro, constrói Joey com resolução, pujança e ciência da psicologia de seu personagem que vive numa permanente altercação com o seu colega de ofício. Augusto nos transmite uma segurança no que faz, seja no uso do corpo ou voz, indispensável para a credibilidade de sua atuação inserida no quadro dramatúrgico apresentado. O ator passeia com desenvoltura pelas várias camadas emotivas de seu papel. Malvino e Augusto encontraram as sintonia e frequência perfeitas para que pudéssemos crer na veracidade da existência de uma longa amizade que sobreviveu ou não aos reveses e dissonâncias comuns a qualquer parceria. “Chuva Constante” (uma produção de Cinthya Graber, Luis Erlanger e Malvino Salvador), com Malvino Salvador e Augusto Zacchi, é uma aposta muito mais do que válida para se integrar no cenário teatral brasileiro. A dramaturgia de Keith Huff é obrigatória por suas coragem e honestidade no trato de assuntos que, independentes de espaço e tempo definidos, fazem parte da cadeia universal dos relacionamentos do homem, com suas numerosas nuances. Muitas seriam as interpretações ou impressões quanto ao fato de a chuva não deixar de cair no desenrolar da sinopse. Pode ser a constância do imprevisto e do inesperado em nossas vidas. Como pode ser a constância com que o teatro nos transforma e nos leva a uma sadia reflexão, que vai além do simples entretenimento. “Chuva Constante” não em poucos momentos permite que um feixe de luz solar derribe a predominância de um clima chuvoso. A chuva do lado de fora ou na peça pode até cessar, mas a qualidade deste espetáculo dirigido por Paulo de Moraes, e estrelado por Malvino Salvador e Augusto Zacchi, esta será sempre constante.

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