“A humilhação não pede licença, nem por favor. Ela pode invadir nossas vidas quando bem entender. Simples assim. A não ser que a impeçamos.”

Publicado: 07/05/2012 em TV

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Foto: Fábio Rocha/TV Globo

Uma cena em particular em “Insensato Coração” merece observação mais aprofundada. Trata-se do momento no qual Eunice (Deborah Evelyn), motivada por vingança pessoal, resolve ir à casa de Clarice (Ana Beatriz Nogueira) mostrar-lhe a revista onde aparece a foto em que Natalie (Deborah Secco) e Cortez (Herson Capri) estão lado a lado em porta-retrato. Eunice disse-lhe que foi prestar solidariedade (!) pelo que deveria estar passando. Clarice não sabia até então. O que se viu foi um conjunto que reuniu boas interpretações e direção. A personagem de Ana Beatriz teve que atuar, exibir naturalidade diante do fato, o que deixou a mulher de Júlio (Marcelo Valle) desapontada e frustrada. Pareceu-me que houve espécie de metalinguagem: Ana Beatriz Nogueira interpretou dentro de sua interpretação. E após a saída de Eunice, toda a falsa imagem desconstruiu-se, e Clarice desabou em sofrido pranto. Um pranto que há muito está interno, e que apenas externou-se. Foram duas fortes humilhações sofridas. E a seguir, veio outra. Natalie telefona-lhe avisando da publicação. Entretanto, Clarice, que é ótima pessoa, boas esposa e mãe, acovarda-se face à possibilidade de separar-se do marido. Ela é ciente das traições dele, porém as julga pouco sérias, e que não afetariam o matrimônio que possui. Em conversa com Vitória (Nathália Timberg) e Gilda (Helena Fernandes) afirmou que sente-se convicta de que é amada pelo banqueiro, que um dia ele irá cansar-se dessa vida etc. Vitória e Gilda ficam algo atônitas. Clarice procura criar um mosaico de fantasias e desculpas que justifiquem o seu casamento que está todo errado. Não há no que escrevo qualquer julgamento moral de suas atitudes, e sim, análise do perfil. Agora, ela falou coisa certa: sempre existirão homens como Cortez, e sempre existirão mulheres como Natalie. Infelizmente. Aliás, Natalie é bastante contraditória. Aparentava ingenuidade em alguns aspectos, todavia foi capaz de sordidez como essa. Até o fiel amigo Roni (Leonardo Miggiorin), em tom de brincadeira, mencionou o caráter sórdido do ato. O que quero demonstrar com este texto, aproveitando-me de situação da novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, é que as humilhações estão sempre prontas a nos machucar, pois o que não faltam são seres humanos dispostos a isso. Clarice, que pena, prefere ou não consegue fugir da humilhação. E como esta é bastante mal-educada, não pede licença, nem por favor, não lhe abro a porta. Espero que vá embora o mais rápido possível.

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