“Todos estão apontando para Nando Cunha, não porque ele é ‘ponto turístico’, como diz Pescoço, e sim porque é bom ator.”

Publicado: 07/05/2013 em Teatro, TV

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Foto: Ricardo Leal/UOL

É de se lembrar sempre o comentário tecido por Pescoço, o engraçadíssimo personagem vivido pelo carioca Nando Cunha em “Salve Jorge”, novela das 21h da Rede Globo, escrita por Gloria Perez, em capítulo não muito distante. Em delegacia de polícia, indignado com a “injustiça” por estar ali, tendo “ótima” companhia à sua frente, Wanda (Totia Meirelles), desfia a seguinte pérola, algo como: “Eu não sou ponto turístico ‘pra’ todo mundo ficar me apontando…”. Esta e tantas outras tiradas objetos da improvisação do ator têm sido motivo de genérica gargalhada do público. Quem há de resistir a essas hilárias colocações: “É ruim ‘heim’, ‘cumpade’! Santo que não me ajuda não canto nem ‘pra’ descer”.; “Se falar fosse bom neguinho nascia com duas bocas.”; “Volta ‘pra’ garrafa!”; e “Sai do meu pé, frieira!”. Este somatório de ditos espirituosos e chistes impagáveis associados à minuciosa composição de Nando no que concerne ao gestual nervoso, aos olhares por ora assustados por ora munidos de sedução e malícia, à voz de velocidade rápida sem no entanto atropelar as palavras se fazendo inteligível, ratificam o acerto em nível elevado atinente ao processo de construção do papel. O epíteto “Pescoço” já carrega em si mesmo graça pujante. E por que a escolha deste epíteto, a ponto do ator usar nele mesmo cordão dependurado com a letra “P”? Se já o fora para nós explicado pela teledramaturga, confesso meu desconhecimento. Todavia, o que de fato importa são as pilhérias desferidas pelo companheiro de Delzuite (para ele, Delzinha), defendida com credibilidade e emoção por Solange Badim. Pescoço, como malandro de “carteirinha” e paquerador que é lança mão sem vestígios de culpa de um sem número de mentiras, invencionices a fim de que sirvam de justificações para suas “puladas de cerca”, seus xavecos e “171’s”. Se temos por desejo sermos amigos de “Percoço”, como em tons de deboche Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues) o chama, não devemos sequer mencionar o nome ou mesmo passar em frente a um distrito policial. Haja vista que qualquer parecer de psiquiatra confiável o diagnosticaria como sendo vítima de “stress pós-traumático”, devido ao malogrado período em que esteve afastado do convívio da sociedade pelo cometimento de delitos de menor relevância. Ressaltemos também o pouco ou quase nenhum apreço de Pescoço por quaisquer coisas que lembrem ainda que de modo longínquo o trabalho. Compremetera-se a fazer cadeira para Seu Galdino (Francisco Carvalho). E o comerciante de origem nordestina está até hoje literalmente a esperando em pé. O que o personagem em pauta gosta mesmo é de se posicionar de forma estratégica na laje, e admirar o corpão besuntado de óleo e clareador de pelos de Vanúbia para ficar com a cor do verão. Quando a bonita e falastrona moça tomava sensualmente banho de mangueira, Pescoço esticava até o pescoço. Nando Cunha é hábil na dança, tanto que já demonstrara seus dotes na gafieira Estudantina, como em vários musicais dos quais fez parte na carreira. O samba de qualidade está em suas veias, porquanto já se fizera presente em espetáculos como: “Noel Rosa, o Feitiço da Vila”, “Obrigado Cartola” e “Estatuto da Gafieira”. Esteve em espetáculos de similar significância que não escaparam ao viés da música: “Forrobodó”, “Doidas Folias”, “Grande Otelo – Êta Moleque Bamba”, e “Geraldo Pereira, Um Escurinho Brasileiro” (Geraldo era considerado o “Rei do Sincopado”). Outras produções clamam ser citadas: “O Mundo é Grande”, “Manual de Sobrevivência para as Grandes Cidades” (dirigida por João Batista para a Cia. Dramática de Comédia), “O Último Dia”, “Missa dos Quilombos”, “O Homem da Cabeça de Papelão”, cuja autoria cabe a João do Rio, e “Assassinato no Motel – Uma Comédia Policial”, sob a direção do humorista Fernando Ceylão. O intérprete Nando, que é graduado em Letras pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e Artes Cênicas (Licenciatura em Teatro) pela UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), já obtivera êxito na televisão em obra das 18h da emissora carioca, “Desejo Proibido”, entretanto foi com a personificação por assim dizer mediúnica de Grande Otelo na microssérie “Dalva e Herivelto, Uma Canção de Amor”, que Nando Cunha recebeu os merecidos respeitos da crítica e dos telespectadores. Contudo, quem afirmara que o drama policialesco lhe escapulira na TV? Integrara o elenco do seriado “Força-Tarefa”. O sucesso então o levou direto para folhetim de Walther Negrão, “Araguaia”. Estivera em tantos outros programas de diferentes formatos. Ninguém segura Nando Cunha. A alcunha do momento é Pescoço. “Percoço” para Maria Vanúbia. Nando, não se preocupe com os que estão a lhe apontar. É por válido motivo. O dedo que o aponta é o indicador, indicando que é bom ator.

comentários
  1. Suelena coelho Vieira Kottvitz disse:

    A forma com que Nando Cunha, foi descrito nesta crônica é perfeita. Parabéns ao autor pelo excelente texto.
    Acompanho o trabalho de Nando desde o inicio de sua carreira no teatro, e sempre seus desempenhos são ótimos, impecáveis.
    Ele merece todo esse reconhecimento do público brasileiro, os telespectadores e o publico de teatro merecem ter sempre o talento de Nando Cunha para admirar. Grande abraço.
    Suelena Kottvitz

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    • pauloruch disse:

      Olá, Suelena. Suas palavras foram demasiado importantes para mim. Ter a incumbência de descrever o intérprete Nando Cunha e seu personagem atual na TV impeliu-me a criar texto que estivesse à altura do ator em questão. E o que dissera convence-me a acreditar que de alguma forma atingi meu intento. Muito obrigado, e um grande abraço!

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