“Tatá Werneck é ‘interpretação pura’, e tem deixado o público ‘piradinho’ com sua Valdirene.”

Publicado: 14/09/2013 em Cinema, Teatro, TV, Web

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Foto: Kelly Fuzaro

É princípio básico na constituição teledramatúrgica de uma novela que se possua dois núcleos, o cômico e o dramático. O primeiro tem por intento “suavizar” o enredo em meio às situações que tangenciam o drama. Nas produções das 19h precipuamente o humor ocupa posição de destaque na maioria das vezes. O que já não decorre de modo costumeiro nas obras da faixa do horário nobre (há exceções como “Rainha da Sucata” e “Roque Santeiro”). No caso de “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, atual folhetim das 21h da Rede Globo, há sim os dois núcleos supracitados, por sinal muito bem inseridos, entretanto o que se vê é um amálgama forte entre ambos, ou seja, onde há comédia há tragédia. As nossas vidas são tragicômicas, e não seria diferente em uma história contada por Walcyr. Valdirene, personagem da carioca, a publicitária formada pela PUC/RJ, Tatá Werneck, é um exemplo ímpar disso. Nossa imediata impressão, haja vista o seu passado de inegável êxito como comediante, é a de que o seu papel trilharia somente o caminho do engraçado, do divertido, ou até mesmo de um suposto ridículo. Enganamo-nos. O autor foi esperto, capcioso ao “construir” Valdirene. E a escolha de Tatá não poderia ter sido mais adequada. A atriz sabe que lhe cabe a missão de provocar o riso, mas sua função também é nos causar sentimento de compaixão ao testemunharmos seus reveses. É fato que nos é jocoso, passível de gargalhadas o jeito desengonçado com que a filha de Márcia (Elizabeth Savalla) se movimenta, com suas pernas arqueadas sob a pressão de calças “fuseau” e sapatos que parecem ser de número inferior ao que necessita; a gula desmedida acima de qualquer razoável compreensão (a cena das ostras foi antológica); o Português particular, em que fora criada uma “coesão textual” que só é inteligível para ela, com uma saraivada de vocábulos frutos de raciocínio munido de múltiplas informações e opiniões inusitadas; suas tentativas sempre frustradas em “fisgar” um marido rico, “milho” (milionário): já foram suas “vítimas” os atletas Neymar, Gustavo Borges, Vitor Belfort, Alexandre Pato, e os cantores Gusttavo Lima e Xand Avião dos Aviões do Forró (!). A jovem passou então a preterir a condição de famoso e se ater “apenas” à condição financeira dos “eleitos”. Sofreu sequência de humilhações, sendo abandonada em motéis sozinha, sendo confundida como prostituta, “usada e abusada”. Não estou aqui querendo dizer que Valdirene seja um baluarte dos “bons costumes” de uma mulher (se assim falasse soaria até como machismo ou chauvinismo), mas ao meu ver a vendedora de “hot dogs” age em nome de seu “estado de necessidade”. Talvez, e bastante provável, que se espelhe na mãe, e não deseja repetir os feitos de sua progenitora, que em época de gravidez, desprovida de recursos, viu-se obrigada a ostentar posturas atentatórias à sua vontade, como a prática de “strip-tease”. A sua fragilidade não está somente no olhar e compleição física. Está em seu interior. Valdirene sofre por dentro. Sofre por ela e pela mãe. Sofre de forma intermitente “bullying” dos vizinhos. Tem aspecto suportável ser chamada de “periguete” o tempo inteiro, e ainda por cima de “burra” pela própria mãe ex-chacrete, a “mãezoca”? Os seus coração e austoestima estão covardemente dilacerados, e desta forma permanecem a cada instante que ouve os impropérios. Não, Valdirene não é “difícil, dificílima”. Somos “difíceis, dificílimos” ou fingimos que o somos? É fácil estender a mão à hipocrisia, e jogar os “pecadores” na fogueira. Talita Werneck com sua beleza adolescente, olhos amendoados, que indicam “pedir ajuda”, lábios delicados que esboçam sorriso ora doce ora malicioso (mordiscando inclusive o lábio inferior nos atos de sedução), cabelos de menina com “inteligência pura” que somente quem a ama de verdade, o “palhaço” Carlito (Anderson di Rizzi), legitimamente faz “Valdirenes” verter lágrimas em rosto delgado. O “DJs” é capaz de abrir os seus olhos para a felicidade sem que haja conta bancária entre eles. Nem Ignácio (Carlos Machado) a amava, só queria alguém que aceitasse a sua esterilidade. A personagem, valorizada pela canção de Gabriel Valim, “Piradinha”, garante um dos melhores momentos da atração que nos promete “amor à vida”. Werneck, que graduou-se em Artes Cênicas na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) apaixonou-se pelo teatro desde cedo, e começou a mostrar o seu talento na série “Os Buchas” (Multishow). Após ter pisado no tablado de um palco com “Improvável”, despertou a atenção, e lhe sobreveio convite para integrar o grupo DEZImprovisa. O trampolim para que o Brasil tomasse ciência de seu nato potencial artístico finalmente apareceu: a MTV. Tudo se iniciou com “Quinta Categoria”. Ao lado de uma nova geração de atores atrelados à comicidade como Marcelo Adnet, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Rafael Queiroga e outros, esbaldou-se no “Comédia MTV” (que mais tarde veio a se tornar “ao vivo”). Pronto. Público e crítica se renderam a ela, e como prova do que lhes falo internautas do site UOL a consideraram “a humorista mais engraçada do Brasil”. Quem há de duvidar da voz do povo? Como talento puxa outro, firmou dupla com Fabio Porchat em dois longas “Teste de Elenco” e “Podia Ser Pior” (com Fernando Caruso e Gregório Duvivier). Ambos dirigidos por Ian SBF (responsável pelo fenômeno do YouTube “Porta dos Fundos”). Com Ingrid Guimarães, experimentou o “sabor” de um “blockbuster” “De Pernas Pro Ar 2”, de Roberto Santucci. Ainda na MTV, acumulou o ofício de apresentadora do “Trolalá”. No verão, “esquentou” os telespectadores com “Tá Quente”. Arriscou-se no já estabelecido mundo digital como importante mídia (em associação com uma cervejaria) na websérie “Imagina a Festa, Imagina o Carnaval”. Há um projeto engatilhado para estrear em outubro próximo e ser exibido no Multishow, chamado “Sem Análise”, no qual fará vários tipos. E na mesma emissora paga, contracenou com Mônica Martelli em “Dilemas de Irene”. Com relação a Valdirene, há curiosidade: a moça que gosta de “palhacinhos de enfeite” pôde ser assistida na websérie “Brigas de Família”, no episódio “Mãe Quer Ficar Rica”, na TV Rio. Recebeu três prêmios por sua participação em “Avacalhados” (grupo de humor de improvisação), e angaria um sem número de indicações por demais trabalhos. Se há um substantivo que possa definir este texto, Tatá Werneck, Valdirene e a carreira da intérprete é a pureza. Escrevi este texto com pureza. Tatá Werneck é “interpretação pura”. Valdirene não é “periguete” e sim alguém em busca de um amor puro. E a carreira de Tatá é pura no sentido de que não há inverdades nos sucesso e ascensão. Torçamos para que Walcyr Carrasco se apiede de Valdirene e lhe dê uma “felicidade pura”.

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