” Há algo em comum entre Glenn Close e Leona Cavalli: ambas as atrizes se destacaram como vítimas de uma ‘atração fatal’.”

Publicado: 14/12/2013 em Cinema, Teatro, TV

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Foto: Divulgação/TV Globo

No agora distante ano de 1987, o cineasta britânico Adrian Lyne (que se sobressaíra na direção de comerciais e nos incontestáveis sucessos de público “Flashdance” e “9 e 1/2 Semanas de Amor”, porém vistos com má vontade pelos exigentes críticos da área fílmica), aventurou-se com êxito no arrepiante thriller “Atração Fatal”, que questionava a prática do adultério e suas funestas consequências. Em resumo, o advogado Dan Gallaguer (Michael Douglas), casado e pai de uma filha pequena, aproveitando-se da viagem de dedicada e bonita mulher, Beth Gallaguer (Anne Archer), envolve-se sexualmente de modo fugaz com a executiva Alex Forrest (Glenn Close). O que não estava nos planos iniciais de Dan era de que Alex fosse se apaixonar por ele próximo à psicopatia. Seu intento, diante da recusa do causídico em prosseguir no romance, é o de destruir, utilizando-se de todos os meios cruéis e aterradores, para pôr fim ao seu matrimônio. O “Fatal” do título faz jus ao desfecho do longa-metragem. O que percebemos em “Amor à Vida”, novela das 21h da Rede Globo, escrita por Walcyr Carrasco, com relação à Dra. Glauce (Leona Cavalli), uma respeitável e competente obstetra e ginecologista do Hospital San Magno, núcleo central da trama, não é algo tão similar à personagem de Glenn Close, tendo sido “pintada com tintas” um tanto mais brandas, mas o tema “atração fatal” está presente. Apaixonara-se tresloucadamente pelo por ora bem-sucedido corretor de imóveis Bruno (Malvino Salvador). Apaixonara-se pelo homem errado (ninguém está livre disso). O pioneiro erro a fez cometer sequência de muitos outros num nível de gravidade assustador. Uma de suas mais condenáveis faltas está para ser revelada em breve na história: a sua efetiva culpa na morte de Luana (Gabriela Duarte) e respectivo nascituro durante o parto que comandara. Luana era mulher de Bruno. O que se deu é que “por amor”, sabendo dos problemas congênitos cardiológicos da parturiente descobertos no pré-natal, a doutora negligenciou ao não convocar o cardiologista de plantão para assistir a cirurgia. Uma crônica de umas mortes anunciadas. Orientamo-nos assim pelo artigo 18 do Código Penal que prescreve: “Diz-se o crime: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) II – culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)”. No entanto, houve o dolo (intenção de matar). O que poderia ter sido evitado, ocorreu: o falecimento de Luana e do bebê. E para recrudescer ainda mais a dramaticidade da situação, o desesperado Bruno encontra a recém-nascida Paulinha (Klara Castanho), filha roubada de Paloma (Paolla Oliveira) pelo irmão Félix (Mateus Solano), e jogada em caçamba de lixo malcheirosa. Num acordo perigoso e ilegal, Bruno, sua mãe, a técnica de Enfermagem Ordália (Eliane Giardini), a enfermeira Perséfone (Fabiana Karla), e lógico, Dra. Glauce, simularam o nascimento de uma menina (um segundo filho de Luana) na casa de saúde. Prontuários e registros foram falsificados. Se o fato caísse em mesa de delegado policial, todos seriam indiciados por formação de quadrilha (Artigo 288 do Código Penal), falsificação de documento particular (Artigo 298 do Código Penal) e falsidade ideológica (Artigo 299 do Código Penal), e não informação ao Juizado da Infância e da Juventude do abandono da criança. Com certeza, o inquérito policial seria encaminhado ao Ministério Público, haveria denúncia, e o Juiz provável a acataria. Entretanto, como se trata de ficção, e nós, telespectadores, somos não poucas vezes levados pela emoção e não pela razão, ficamos do lado do homem sofrido que salvou a vida de uma pobre inocente, deu-lhe educação e carinho, enfim, cumpriu papel de pai. Não desejamos por mais contraditório que possa parecer punição para Bruno, Ordália e Perséfone. Verdade é que as duas últimas mais a obstetra perderiam o direito de exercer seu ofício perante o CRM (Conselho Regional de Medicina), após concluídas investigações disciplinares e administrativas. Bruno não mais teria a guarda de Paulinha. Nós queremos isso? Não. Nada me soa inverossímil, pois o absurdo está em nossas existências, estampado todos os dias nas manchetes de jornal. Além do mais, conhecemos escândalos nos sistemas público e privado de saúde no Brasil. Excetuamos poucas instituições e médicos sérios. Glauce, cuja intérprete já enfrentou Nelson Rodrigues na adolescência com “Valsa N° 6”, influenciada por ter testemunhado damas do teatro como Tônia Carrero, Fernanda Montenegro e Marília Pêra, não hesitou em escamotear prontuários médicos descritivos de praxe. Todavia, a charmosa e sedutora moça com cabelos loiros impecavelmente escovados foi autora de homicídio culposo (a colega Elenice, defendida por Nathália Rodrigues, em luta corporal, acaba sofrendo traumatismo depois de queda em chão frio, branco e asséptico do hospital não tão ético). No tocante à artista Leona Cavalli, não vislumbramos desperdício de seu talento em nenhuma das cenas das quais fez parte, e que merecem citação as melhores: as trocas de farpas com Paloma; o instante máximo no qual aliciou Bruno exibindo nus seios; bravo enfrentamento associado à chantagem defronte ao corpo diretivo do San Magno, no que concerne ao procedimento falho com Luana; o desmascaramento do pai preconceituoso de Félix quanto à legítima paternidade de Jonathan (Thalles Cabral), pois fora ela quem conseguira o prontuário (sempre ele) a pedido do rapaz; e os colóquios maliciosos, provocativos e divertidos entre o vendedor de “hot dogs” e a médica, que culminaram em troca de carícias insuspeitas. O que se sabe até então é que as investigações comandadas por Dr. Lutero (Ary Fontoura), Paloma e a Chefe de Enfermagem Joana (Bel Kutner) levarão Glauce Sá Benites a não suportar tão fortes acusações, e a saída encontrada será dar cabo da própria vida. Será o fim dos prontuários escondidos. É necessário dizer que Leona, quanto à sua profissão, possui notória familiaridade com o cinema, ouvindo vez por outra o som de “Ação!” gritado por cineastas como Cláudio Assis (“Amarelo Manga”, que a lançou nacionalmente); Paulo Betti e Clóvis Bueno (“Cafundó”); Tata Amaral (“Um Céu de Estrelas”, “Através da Janela” e “Antônia”), Hector Babenco (“Carandiru”), Jayme Monjardim (“Olga”), Roberto Moreira (“Contra Todos”), Sérgio Bianchi (“Os Inquilinos – Os Incomodados que Se Mudem” e “Quanto Vale Ou É por Quilo?”) e Tizuca Yamasaki (“Aparecida – O Milagre”). Fez curtas-metragens, também. Leona Cavalli soube com sua voz suave, maviosa e pausada e postura elegante dar contornos especiais e críveis, e por isso mesmo inolvidáveis, à vilã Glauce. Com trajetória tão rica na tela grande, a televisão não poderia preteri-la. Integrou um sem número de folhetins, minisséries e seriados. Dentre as telenovelas, destacamos “Belíssima”, de Silvio de Abreu; “Da Cor do Pecado”, de João Emanuel Carneiro; “Começar de Novo”, de Antonio Calmon e Elizabeth Jhin; “Duas Caras”, de Aguinaldo Silva; “A Vida da Gente”, de Lícia Manzo; “Negócio da China”, de Miguel Falabella e aquela que pode ser considerada como uma de suas melhores performances, a Zarolha do “remake” de Walcyr Carrasco para a obra original de Walter George Durst que se baseou no romance de Jorge Amado, “Gabriela”. Não por coincidência o mesmo autor que lhe deu o ótimo papel da produção recente das 21h. Na seara das minisséries, citemos “Amazônia, De Galvez a Chico Mendes”, de Gloria Perez, e “Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor”, de Maria Adelaide Amaral. Com a aproximação do fim de “Amor à Vida”, Leona Cavalli, que está em cartaz com a peça “E Aí, Comeu?”, de Marcelo Rubens Paiva, como a Dra. Glauce, sai pela porta principal com o dever cumprido. E desejamos que retorne em breve e com mérito pela mesmíssima porta. A atriz, no enredo de Walcyr Carrasco, preencheu e assinou um “prontuário de excelente desempenho”, e este, Leona, não precisa ser escondido.

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