“Para a Amarylis de Danielle Winits ser mãe solidária ‘é padecer no paraíso’.”

Publicado: 10/01/2014 em Cinema, Teatro, TV

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Foto: Divulgação/TV Globo

É muito comum que personagens de uma trama teledramatúrgica, no caso uma novela, sofram alterações substanciais na personalidade no decorrer daquela, estejam previstas ou não na sinopse original. Foi o que ocorreu com a da carioca Danielle Winits, a dermatologista Amarylis da produção das 21h da Rede Globo, “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco. Se a princípio, a médica do Hospital San Magno se mostrava uma profissional competente, disciplinada e modelar que deixava os seus pacientes satisfeitos (fato que voltou a acontecer) e uma amiga disposta a ajudar e aconselhar seus próximos, como Paloma (Paolla Oliveira) e Niko (Thiago Fragoso), sendo simpática aos olhos do público, a vontade absoluta, imutável e determinada de ser mãe modificou todo o rumo de sua história. A Amarylis de Danielle Winits, que estreou na TV (estudou interpretação, dança e canto) na minissérie de Antonio Calmon “Sex Appeal” (que lançou outros tantos talentos femininos) na mesma emissora e nos palcos no musical “Band-Aid”, de Wolf Maya (aliás, a atriz é uma das artistas mais requisitadas para estrelar este gênero teatral), inicia um processo sem volta de busca dolorosa e traumática de não apenas constituir um núcleo familiar, mas gerar um filho, seja de que forma for. A pioneira ideia foi se aproximar do casal gay Niko e Eron (Marcello Antony), com situação financeira estável e estrutura emocional sólida, no entanto carente de um filho para completá-los. Oferece-se para ser a “barriga solidária” e gestar uma criança com o material reprodutivo de um deles, sem que nunca soubessem quem fosse o legítimo pai. Segundo os códigos médicos, a mãe biológica deverá ser mantida sempre no anonimato. Este procedimento clínico açambarca questões complexas, éticas, morais, religiosas e polêmicas, sendo assim arriscado, pois envolve sentimentos e consequências psicológicas imprevistas que podem ser dadas como quase certas. Não são poucos os relatos e registros de que as “mães de aluguel” (como eram chamadas, a despeito de ser proibida a cobrança monetária pela cessão do ventre) ao darem à luz se recusarem a entregar os bebês aos pais contratantes, o que gerou acirradas disputas judiciais e desgastes psíquicos para ambas as partes. Hoje já existe jurisprudência acerca destes litígios. Não há que se contestar os benefícios do avanço da Medicina nesta área, contudo o preço a ser pago é alto. As duas primeiras inseminações artificiais não obtiveram êxito, o que levou o par homoafetivo a entrar com um pedido de adoção de uma criança (grande passo no campo jurisdicional da Infância e Juventude permitir que crianças sejam adotadas por casais homossexuais, outrora abandonadas, tristes, desoladas e sem lar, acasteladas em abrigo, contrariando os insensíveis e hipócritas defensores da “moral e bons costumes”, que alegam inacreditavelmente que os pais influenciariam “perniciosamente” os adotados). Sou obrigado a lançar mão da velha e boa tese que se assim o fosse não haveria considerável número de gays filhos de heterossexuais. Há que se levar em consideração que o especialista em reprodução assistida Dr.Laerte (Pierre Baitelli) infringiu o código de conduta ética médica ao atender ao pedido da amiga Amarylis para que utilizasse os seus óvulos ao invés dos de uma doadora anônima. Na terceira tentativa de inseminação, um pequeno sangramento fez com que a doutora suspeitasse de que fracassara novamente como “barriga solidária”. E a dermatologista de Danielle, que participou de produções de Antonio Calmon como “Olho no Olho”, “Cara & Coroa” e “Corpo Dourado”, como Alicinha, e Carlos Lombardi (“Uga Uga” – Prêmio Qualidade Brasil, como Tati, “Kubanacan” e “O Quinto dos Infernos”) decidiu agir ao seu modo. Seduz Eron, o frágil, pouco assertivo e manipulável advogado, leva-o para a cama e supostamente dele engravida. Eron pode ser uma “águia” (como seu parceiro o chamava) nos tribunais e salas de audiência, mas na vida pessoal “suas asas se recolhem”, e de nenhum voo é capaz. Por obra do acaso, de Deus, do destino ou de Walcyr Carrasco, Fabrício, o bebê na berlinda, é filho do chef Niko. Dr.Vanderlei (Marcelo Argenta) não aproveitou os óvulos da profissional que cuida de peles faciais com esmero. Fabrício é entregue a Niko. A união entre Amarylis e Eron se dilui minuto a minuto, até o ponto em que a “águia adormecida” resolveu acordar e “abriu as suas asas”, revelando à esposa ser gay, deixando a “bissexualidade” de lado, de que não a amava e de que queria voltar a ter a vida de antes. A loira cuja veracidade de seus cílios é especulada pelo pretendente à redenção Félix (Mateus Solano) levará a cabo o seu plano de sequestro do “filho”. O irmão de Paloma auxiliará “carneirinho” (como Niko por ele é alcunhado) a recuperá-lo. Para nosso espanto (ótima solução do autor), Amarylis procurará outro casal gay e oferecerá seus “serviços” de “barriga solidária”. Danielle Winits possui extensa carreira na televisão, no teatro e no cinema. Novelas, seriados, especiais e minisséries constam de seu currículo. Na pequena tela, destacamos “A Próxima Vítima”; “Malhação” (voltaria em outra temporada); o seriado policial com inspiração nos similares americanos “A Justiceira”; a excelente minissérie histórica e biográfica “Chiquinha Gonzaga”, na qual viveu Suzette Fontan; “O Clone”; “Pastores da Noite”; “Páginas da Vida”, como a sedutora e impulsiva Sandra (Prêmio Contigo!); e “Cinquentinha”. Os projetores de cinema lançaram sua imagem em filmes como “Zoando na TV”, de José Alvarenga Jr.; “O Trapalhão e a Luz Azul”, de Paulo Aragão e Alexandre Boury; “Se Eu Fosse Você”, de Daniel Filho; “Sexo com Amor?”, de Wolf Maya; “Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas”, de José Alvarenga Jr.; “Até que a Sorte nos Separe”, de Roberto Santucci (está em cartaz com a sequência, ao lado do mesmo Leandro Hassun e com a inestimável presença de Jerry Lewis; é considerada uma das mais rentáveis estreias de 2014) e “Odeio o Dia dos Namorados”, de Roberto Santucci. Como dito, o forte de Danielle na ribalta são os musicais: “Cabaret Brazil”, de Wolf Maya; “Relax…It’s Sex”, de Wolf Maya; “Chicago”, uma adaptação de Claudio Botelho (composição de John Kander, letras de Fred Ebb e libreto de Fred Ebb e Bob Fosse);”Hairspray”, de Mark O’Donnell e Thomas Meehan, com direção e versão das letras de Miguel Falabella e “Xanadu”, adaptação do filme com Gene Kelly e Olivia Newton-John, de Robert Greenwald, dirigido por Miguel Falabella. Há ainda “Lancelot”, adaptada por Cláudio Althiery da lenda inglesa, como Guinevere. “Amor à Vida” chega ao seu final e a aposta em Danielle foi certeira. A atriz defendeu desde o prólogo com altivez e garbo a sua personagem, que dividiu opiniões e foi alvo de condenações. Danielle Winits pode dizer que na novela de Walcyr Carrasco “sentiu na pele” que “ser mãe solidária é padecer no paraíso”. Entretanto, este “padecimento” se transformou em crescimento como atriz para Danielle, atribuindo para si mais um importante papel para sua vasta galeria que orna bonita trajetória artística.

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