” ‘Cidade Proibida’, a nova série da Rede Globo, estrelada por Wladimir Brichta, Regiane Alves, Ailton Graça e José Loreto, resgatou com notável capricho, em seu primeiro episódio, a época de ouro do Rio de Janeiro, utilizando-se de elementos clássicos das histórias de detetive, referências ao gangsterismo e ao clima noir, além da onipresença das mulheres fatais. “

Publicado: 28/09/2017 em TV

cidade-proibida
Foto: Divulgação/Gshow

As histórias de detetive sempre habitaram e instigaram o imaginário das pessoas, seja no cinema, na TV ou na literatura. O primeiro e a segunda se inspiraram ou se basearam amiúde nos livros. Grandes escritores, como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Dashiell Hammett criaram detetives antológicos que prendiam o leitor da primeira à última página, como Hercule Poirot, Sherlock Holmes e Sam Spade, respectivamente. Nas telas de cinema, tivemos, por exemplo, “Assassinato no Orient Express” (1974), de Sidney Lumet, que se baseou no romance policial homônimo de Agatha Christie. Na esfera nacional cinematográfica, “Ed Mort” (1997), com direção de Alain Fresnot, e Paulo Betti como o próprio (trata-se de um personagem idealizado por Luis Fernando Verissimo). Na literatura brasileira, o escritor Tony Bellotto se dedicou à sua trilogia protagonizada pelo detetive Remo Bellini, com adaptações para o cinema. Quanto à TV, podemos buscar um personagem divertidíssimo construído por Luis Gustavo para uma novela escrita por Cassiano Gabus Mendes, e que foi ao ar pela Rede Globo em 1982, “Elas por Elas”. Mário Fofoca entrou para a galeria de tipos inesquecíveis da televisão com seu jeito atrapalhado para elucidar crimes. Em “Cidade Proibida”, uma série de Mauro Wilson e Mauricio Farias inspirada livremente no álbum de quadrinhos de Wander Antunes, “O Corno Que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa” (a produção é escrita por Angela Chaves com a colaboração de Emanuel Jacobina, roteiro final de Mauro Wilson, e direção artística de Mauricio Farias), conhecemos logo em sua primeira cena o detetive Zózimo Barbosa (Wladimir Brichta) em seu característico escritório esclarecendo um caso de traição extraconjugal, sua especialidade, para a sua cliente Irene, rica e bela mulher frequentadora de um clube de grã-finos (Débora Nascimento). Para a desilusão e o espanto da moça, seu marido a trai não com uma amante, mas com um amante. Os pensamentos lascivos de Zózimo são ouvidos em off, o que confere à dramaturgia um viés notadamente rodriguiano. O desfecho de sua relação profissional com Irene, a primeira mulher fatal a surgir, foi malsucedido. O próximo caso do detetive a ser desvendado envolve o advogado Gouveia (Danilo Grangueia), que trabalha para uma importante empresa, cujo dono se chama Lourenço (João Vitti em participação especial). Ele é recebido pela voluptuosa secretária Gladys (Ariela Massotti). A princípio, Gouveia contatou Zózimo a pedido do empresário por desconfiar do comportamento de sua esposa. A questão é que a suposta mulher infiel é Lídia (Claudia Abreu com longos e ondulados cabelos louros). Ao ver a foto de Lídia, sua companheira no passado, a série lança mão de flashbacks a fim de que o telespectador entenda como se conheceram, e se familiarize com o histórico do detetive e com os demais personagens fixos, seus amigos, o policial Paranhos (Ailton Graça) e o sedutor rapaz que presta serviços amorosos a damas carentes, Bonitão (José Loreto). Zózimo também era policial, e fazia dupla com Paranhos. Lídia era a garota mais cobiçada do “dancing” que frequentavam. Um recurso bem sacado pela direção (Daniela Braga e Maria Clara Abreu, juntamente com Mauricio Farias) foi a ideia de que as cenas estavam sendo “fotografadas” em “p&b”, com o propósito de realçá-las. Com um apropriado e insinuante som incidental jazzístico, com sopros, cordas e teclados (afiada e sofisticada trilha sonora de Branco Mello e Emerson Villani), perpassando quase a totalidade da atração, os autores prosseguem em sua interessante, envolvente e detalhista narrativa. Lídia era a protegida de um poderoso argentino de nome Pablo (Pablo é um típico gângster). Com sua saída forçada, Zózimo se amasia com a ambiciosa Lídia, dando-lhe uma loja de roupas em uma galeria de Copacabana. Sem satisfações, Lídia some no mundo. Voltamos aos tempos atuais da série, onde Zózimo conversa com os seus amigos no bar no qual costumam se reunir. Com elegante fotografia de Uli Burtin que se multiplica em diversas texturas, dependendo da situação, podendo ser mais esmaecida, luminosa, sombria, esverdeada ou amarelada (a luz também se ampara nos feixes de faróis dos automóveis, abajures, luminárias e lustres dos cenários e locações), o personagem de Wladimir, que vez ou outra solta uma pérola de humor, decide aceitar o caso, talvez muito mais para saber o porquê de ter sido abandonado pela loura fatal de Claudia Abreu. Após perseguir Lídia em seu carro (os veículos são um charme extra da série, sendo extremamente fiéis aos anos 50), ocorre o esperado reencontro após sete anos de separação. A agora milionária Lídia conta ao ex-amante a versão de uma história rocambolesca como explicação de seu sumiço. Retornando ao bar, irrompe a personagem de Regiane Alves, a garota de programa Marli. Marli é apaixonada por Zózimo, sendo obsessiva e ciumenta, além de acreditar “ser a mulher de sua vida”. A ferramenta dramatúrgica dos pensamentos e reflexões do detetive em off, e que funcionaram a contento, são mantidos. Entre uma cena e outra, são mostradas imagens de arquivo do Rio de Janeiro da época retratada. Com reviravoltas em sua trama (Lourenço decide se separar de Lídia, e se casar com a secretária Gladys), a câmera da direção se revela ligeira, e acompanha o ritmo ditado pela emoção da ação. Um dos maiores méritos desta obra de ficção, que se equilibra entre o tom de farsa e o de realidade, é o seu perfeito timing. As cenas se sucedem com admirável fluidez, entremeadas por diálogos estruturalmente bem amarrados e espertos. A inspiração nos filmes noir americanos da década de 40 é evidente, com seus closes, olhares, modo de falar e algum silêncio. Mortes em meio a mentiras e cumplicidades espúrias decorrem, aumentando a complexidade e o caráter intricado do entrecho. Há beijos cinematográficos, bastantes tragadas de cigarro e bebidas alcoólicas ingeridas pelos personagens enquanto os fatos se desenrolam, e tiradas engraçadas de Bonitão. A desconfiança começa a rondar a mente do detetive que crê que as pessoas matam por três motivos: dinheiro, ódio e amor. Nada é o que parece ser. Este é o mote da série. Em questão de segundos, tudo muda. Algo acontece. Uma morte ocorre, e outra vida é ameaçada. O epílogo atende às reviravoltas de costume, às frases marcantes dos personagens, como “Essa é a minha natureza”, e à ironia sempre posta em seu devido e oportuno lugar. A cenografia de Luciane Nicolino e Claudio Duque e a produção de arte de Angela Melman são demasiadamente fidedignas ao tempo da ação, e se mostram frutos de uma intensa e profunda pesquisa. Os figurinos de Antônio Medeiros são irretocáveis, elegantes e coerentes. São ternos e coletes bem cortados, chapéus tanto femininos quanto masculinos, e longos justos “tomara-que-caia”, só para citar alguns modelos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Bruno Meira aposta na profusão de imagens coloridas e em preto e branco, como da “cidade proibida”, o Rio de Janeiro, e seus hábitos, mulheres fatais, o cotidiano de suas ruas, carros no trânsito, letreiros em néon etc. O elenco brilhou neste primeiro episódio, correspondendo plenamente à proposta e ao perfil da obra. Wladimir Brichta soube compor um irresistível detetive Zózimo Barbosa. Wladimir, um ator que transita com igual distinção tanto pelo drama quanto pela comédia imprimiu ao seu papel doses com sobriedade precisa. O cinismo, o sarcasmo e a ironia inerentes ao investigador particular estão visíveis na sua entonação de voz, no seu olhar e nos meios sorrisos. Uma escolha altamente acertada para um tipo nada fácil de se interpretar, pois os desvios para uma caricatura ou arquétipo são bastante próximos. Wladimir está muitíssimo bem acompanhado por Regiane Alves, Ailton Graça e José Loreto. Regiane, ostentando um bonito visual com suas madeixas curtas, desenhou os contornos da personalidade de Marli com sensualidade e as características de uma garota de programa da época, convencendo-nos de seu amor incontido pelo detetive, com todas as suas nuances de ciúme e uma certa frustração pessoal pela paixão não correspondida como desejaria. Regiane também aproveitou com sapiência os seus momentos de humor. Ailton Graça desfilou com absolutas segurança e desenvoltura como o policial Paranhos. O intérprete absorveu a aura do tira experiente, calejado, perspicaz, que sente de longe o “faro” quando algo lhe parece errado. Ailton possui a capacidade de ser durão e irreverente com a mesma dignidade, se assim exigir a ocasião. José Loreto defende o gigolô Bonitão com sobejas graça e leveza, alvejando com sucesso as medidas de malandragem associadas a um grau de sedução e charme que homens com a sua função entre as mulheres na sociedade deste período possuem. O jovem ator saboreia com prazer as falas de seu personagem, e nos diverte. Tivemos bem-vindas participações especiais neste primeiro episódio. Claudia Abreu, sempre uma excelente atriz, exerceu pleno domínio sobre a mulher fatal, manipuladora, calculista, gananciosa e surpreendentemente fria, sendo capaz de tudo para atingir os seus objetivos. Claudia pôde mostrar várias faces de Lídia, seja como potencial vítima enganada, seja como uma esposa furiosa, vingativa e mentirosa. Danilo Grangueia trilhou com inegável êxito o caminho para a composição do inescrupuloso advogado Gouveia. Com seu porte solene e tom de voz diferenciado, Danilo nos provocou com o seu causídico escroque, traiçoeiro e perigoso. Débora Nascimento, como Irene, encheu a tela com a sua voluptuosidade implícita, demonstrando com legitimidade a sua decepção ao saber da homossexualidade de seu esposo. João Vitti, mesmo que em rápida aparição, porém com um papel importante para a história, passou-nos a intensidade emotiva do marido insatisfeito com a sua esposa, decidido a se separar. Ariella Massotti cumpriu com eficiência a missão de dar vida à estonteante secretária que se transforma no pivô de um dos principais conflitos da sinopse. “Cidade Proibida” é uma série, gênero merecidamente cada vez mais prestigiado na TV brasileira, que nos desperta irrefutável interesse em acompanhar os seus próximos episódios, que contarão com muitas participações especiais. Dentre as razões, destacam-se o seu elenco talentoso e carismático, a diversidade de seus enredos repletos de suspense, ação, romance e humor, a impecável reconstituição histórica e a direção sensível e hábil de Mauricio Farias e equipe. Vale a pena fazer uma visita nesta cidade proibida que esconde por trás de suas belezas o que há de obscuro e condenável em sua sociedade. Zózimo Barbosa está à sua espera. E não é proibido acompanhá-lo em suas arriscadas mas deliciosas peripécias. Está desconfiada de alguma coisa? Se o seu namorado, seu noivo, seu marido está te traindo, ele descobre. Já pegou o seu cartão? Zózimo Barbosa, detetive particular.

 

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