
Um filme que em seus créditos finais nos provoca o mais doloroso dos silêncios
O que resta durante os créditos finais de “A Voz de Hind Rajab” (“Sawt Hind Rajab”, “The Voice of Hind Rajab”, Tunísia, França, 2025), vencedor do Grande Prêmio do Júri (Leão de Prata) do Festival de Veneza 2025, forte candidato ao Oscar de “Melhor Filme Internacional”, é o mais doloroso dos silêncios. O lancinante drama/thriller psicológico baseado em acontecimentos reais dirigido e roteirizado pela tunisiana Kaouther Ben Rania (“As 4 Filhas de Olfa”, 2023) retrata as angustiantes horas que se passam enquanto em janeiro de 2024 voluntários do Crescente Vermelho (organização humanitária ligada a Cruz Vermelha), localizada na Palestina, comunicam-se minuto a minuto com uma menina de 6 anos, Hind Rajab, presa em um carro em Gaza junto aos familiares mortos após ataques israelenses.
A diretora e roteirista Kaouther Ben Rania nos mostra o quanto é frágil o limite entre a racionalidade e a emoção dos voluntários de uma organização humanitária em situações-limite
A obra, com fotografia crua, movimentos de câmera rápidos e trepidantes e closes bem fechados em seus atores, captura o espectador com doses elevadíssimas de tensão, colocando em debate toda a burocracia presente no resgate de feridos em um estado de guerra, cuja demora pode custar vidas. Kaouther Ben Rania foi bastante cuidadosa e sensível no tratamento de seu roteiro, mostrando-nos o quanto o limite entre a racionalidade e a emoção/empatia dos voluntários de uma organização desta magnitude em situações-limite pode ser frágil.
Uma escolha pungente da diretora é o uso da voz real da menina Hind em seus diálogos com o Crescente Vermelho e seus parentes.
A existência de uma obra como “A Voz de Hind Rajab” é indispensável como prova da estupidez das guerras
O elenco, formado por Saja Kilani, Motaz Malhees, Clara Khoury e Amer Hlelel, fornece-nos interpretações arrebatadoras.
“A Voz de Hind Rajab” é um filme incômodo, difícil de se assistir pela dor que a sua realidade nos causa, porém a sua existência é indispensável como prova legítima da estupidez das guerras e principalmente de quem as causa, a raça humana.








