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Blog do Paulo Ruch

  • “Débora Falabella, uma magistral atriz que veste a sua toga, defende a sua arte e chega sempre em primeiro lugar.”

    junho 17th, 2024

    Em “Prima Facie” Débora Falabella representa uma advogada criminalista bem-sucedida cujos clientes preferenciais são acusados de violência sexual/Foto: Annelize Tozetto

    “Prima Facie”, peça premiada e encenada em vários países, escrita pela australiana Suzie Miller, levanta uma questão que diz muito sobre o Brasil, marcando a estreia de Débora Falabella em monólogos

    Há poucos dias, na calada da noite, em regime de urgência, abrindo-se mão de debates em comissões e audiências públicas, parlamentares brasileiros votaram um projeto de lei de forma simbólica, não nominal, que criminaliza mulheres vítimas de abuso sexual caso interrompam o ciclo gestacional a partir da 22ª semana, equiparando-as a homicidas simples. Este episódio atentatório ao que já estabelece o ordenamento jurídico penal do país atualiza de modo surpreendente o espetáculo que vem causando comoção e furor nas plateias teatrais, “Prima Facie”, da escritora, dramaturga, roteirista e advogada nascida em Melbourne, Austrália, Suzie Miller. Traduzida com magnificência por Alexandre Tenório, dirigida por Yara de Novaes e estrelada por Débora Falabella, debutando em monólogos, a peça, cujo título é uma expressão latina que significa “à primeira vista; um evento considerado verdadeiro com base apenas em sua primeira impressão”, estreou em Sydney em 2019, no West End londrino em 2022 e na Broadway no ano passado, sendo hoje encenada, sempre com sucesso, em diversos países. A premiada montagem, inédita no Brasil, cujo livro homônimo teve a sua primeira publicação em 2019, conta-nos a impressionante trajetória de Tessa Ensler, uma advogada criminalista bem-sucedida que defende com gana acusados de violência sexual e se valendo de brechas jurídicas invariavelmente os leva à absolvição, independente de sua culpabilidade ou não. Autoconfiante, persuasiva, questionadora da verdade absoluta como conceito e defensora implacável da literalidade da lei, Tessa, uma mulher ligada à família, vê o seu mundo pessoal desabar quando ela mesma é vítima de abuso sexual de alguém que lhe é bastante próximo, um colega de trabalho, fazendo-a mudar todas as suas visões preestabelecidas de como se deve lidar com um crime dessa proporção e todos os seus desdobramentos psicológicos, com danos à vida profissional e social da mulher violentada.

    A diretora Yara de Novaes, que mantém uma parceria artística de 20 anos com Débora, realiza um trabalho impactante sob todos os aspectos, cumprindo honrosamente a sua missão

    A dramaturga Suzie Miller com notável destreza estrutura o arco dramático em duas etapas, sendo a primeira voltada para o desempenho excepcional de Tessa nos julgamentos com suas capciosas jogadas jurídicas e sua vida social/afetiva comum, dedicando a segunda ao doloroso périplo por que passa ao tentar convencer o machista e misógino sistema judicial de sua condição de vítima de estupro. A autora, com bastante acerto, gerando imediata comunicabilidade, atribui à sua protagonista a função de narradora de sua própria história, além de servir de instrumento para dar vida àqueles que a rodeiam. Sua formação em Direito confere imensa precisão técnica à narrativa, chamando-nos também a atenção quanto às suas riqueza e credibilidade dramatúrgicas, sem espaços não preenchidos, oferecendo-nos uma obra exponencialmente valorosa em suas mensagens e denúncias. Yara de Novaes, com quem Débora mantém uma parceria artística de 20 anos consumada no Grupo 3 de Teatro, entrega-nos uma produção pulsante, corajosa, desafiadora para a sua atriz, em nenhum momento estática, revelando uma total e irrestrita conformidade com a linguagem poderosa do texto que lhe coube, fazendo com que os espectadores se deixem conduzir pela irrefreável escalada de tensão que acomete Tessa em sua inglória peleja individual. Extraindo o melhor de sua artista, aproveitando todas as viabilidades do perímetro cênico, recursos do cenário e projeções, Yara realiza um trabalho impactante sob todos os aspectos, cumprindo honrosamente a sua missão.

    Débora Falabella nos entrega uma atuação tão tocante e comovente que merece um lugar de destaque na galeria daquelas que se tornaram históricas no teatro nacional

    Débora Falabella, uma das grandes atrizes de sua geração, como Tessa Ensler, estarrece a todos com uma atuação que se notabiliza pela visceralidade, entrega e verdade emocionais e entendimento absoluto das razões e motivações de uma personagem tão rica, profunda e complexa. Débora transita com admiráveis firmeza, equilíbrio e força pelas veredas apresentadas por essa mulher possuidora de muitas camadas em sua personalidade, que vão da ironia e sarcasmo ao mais legítimo desespero, frustração e vulnerabilidade. Como se não fosse o suficiente, a atriz mineira nos surpreende com uma invejável expressividade corporal (ótima preparação a cargo de Renan Ferreira) no decorrer de suas cenas. Uma atuação tão tocante e comovente que merece um lugar de destaque na galeria daquelas que se tornaram históricas no teatro nacional. André Cortez, responsável pelo cenário, privilegiou a objetividade e a praticidade, ao dispor sobre o palco cadeiras estofadas em amarelo, algumas sobrepostas em uma mesa, tendo ao fundo um largo e alto painel com textura de madeira, a fim de nos reportar ao ambiente de um tribunal (são assaz eficientes as projeções feitas sobre esse mesmo painel). A luz elegante, com spots laterais, sombras realçadas, momentos para o azul e o vermelho e um plano aberto suave é mérito de Wagner Antônio. A instigante trilha sonora de Morris, baseada na multiplicidade de sons de sintetizadores (bateria, teclados), pontua com coerência o desenho narrativo, com aberturas para canções contemporâneas (a versão de “Girl On Fire”, de Alicia Keys, feita por TUM, Luísa Matsushita & Chuck Hipolitho, é fantástica). Os figurinos são assinados pelo prestigiado Fábio Namatame, que cria com fidelidade as vestimentas do universo jurídico, contribuindo com bom gosto com peças de alfaiataria, como blazers e calças bem cortados. “Prima Facie” é inegavelmente um dos mais relevantes espetáculos montados nos últimos anos. Seu caráter denunciativo, potencial reflexivo e esclarecedor, lucidez e atualidade colaboram em definitivo para essa conclusão. À primeira vista, não se tem uma única dúvida razoável quanto a isso.

  • “Guida Vianna e Silvia Buarque, em uma sensível e afinada sintonia como mãe e filha, ‘rompem a parede de gelo’ ao levar aos palcos uma das mais complexas e tocantes relações humanas.”

    maio 27th, 2024
    Silvia Buarque e Guida Vianna são as estrelas da peça escrita por Daniela Pereira de Carvalho
    /Foto: Nil Caniné

    A dramaturga Daniela Pereira de Carvalho construiu um engenhoso arco narrativo no qual três gerações de mãe e filha e seus respectivos conflitos são apresentadas

    Relações entre mães e filhas, levando-se em consideração o grau de complexidade que as define, sempre foram retratadas ficcional ou factualmente em peças teatrais, filmes e livros. Esses relacionamentos movidos pelas mais diversas emoções e intensidades, em que podem ser encontrados lado a lado o mais infinito amor e a mais implacável das intolerâncias, geram de modo invariável o interesse e a curiosidade do indivíduo. Sendo este um tema inesgotável a ser explorado, marcado pela sua universalidade e atemporalidade, qualquer obra artística que se proponha a abordá-lo sob um novo olhar é bem-vinda. Sendo assim, a dramaturga Daniela Pereira de Carvalho mergulhou com destemor e profundidade no texto do espetáculo “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe”, que de imediato nos seduz pelo seu bonito e sugestivo título. Daniela, com notável habilidade, construiu um engenhoso arco narrativo no qual três gerações de mãe e filha com seus respectivos conflitos nos são apresentadas, começando com Elisa (Guida Vianna), 70 anos, que reencontra a sua filha Antônia, 50 anos, trinta anos depois, em uma viagem a Mumbai, na Índia, em um quarto de hotel. A longa separação foi motivada pela não aceitação da mãe quanto à homossexualidade de sua filha. A autora se embrenhou neste universo particular de duas mulheres, inundado de mágoas, ressentimentos e culpas, para colocar sobre a mesa uma pauta que aflige severamente a sociedade, a homofobia. Passados 20 anos, agora é a vez de Antônia (Guida Vianna) acertar as contas com a filha Helena (Silvia Buarque), entregue para a adoção ao nascer. O delicado e nervoso reencontro, que ocorre no restaurante de Helena, é cercado de sentimentos similares ao primeiro, ao qual se somam a vergonha da mãe e a impassibilidade da filha. A despeito da aridez dessas reuniões, nas quais em determinados momentos as atrizes protagonizam solilóquios, a dramaturga não dispensa a possibilidade de redenção e afeto mútuo, imprimindo à montagem importantes aspectos humanos.

    “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe” chega às plateias de muitas maneiras

    Leonardo Netto, a quem coube a bem-sucedida direção, privilegiou nitidamente as atuações de suas intérpretes, visto que seus diferentes papéis possuem uma vasta paleta de elementos comportamentais/emocionais. Desta forma, o texto em si passa a ser também, palavra a palavra, bastante estimado. O diretor, tendo em mãos duas atrizes com valiosa experiência, vale-se disso para desenhar com distinta variação as linhas de marcação do espaço teatral, preenchendo-o harmoniosamente com uma dinâmica compassada. O encenador realiza ainda com sucesso a transição temporal dramatúrgica, que se dá naturalmente, sem grandes rupturas. Guida Vianna, uma atriz com imensa personalidade e irrefutável carisma, laça os olhares do público com sua pujança interpretativa nata. Tanto como Elisa quanto como Antônia, Guida nos oferece um rico compilado de emoções, sabendo alterná-las com sabedoria e tempo cênico exatos. Silvia Buarque, artista conhecedora dos palcos dotada de nuances e sutilezas em suas expressões dramáticas, acompanha lindamente a sua colega de cena nessa fascinante jornada de mães e filhas que atravessa décadas. Silvia encara com altivez os desafios impostos pelas suas duas personagens com caracteres opostos, Antônia e Helena, alcançando honrosamente seus objetivos. Uma talentosa dupla em sensível e afinada sintonia. O cenário de Ronald Teixeira é deslumbrante, com vultoso impacto visual. Ronald espalhou por toda a ribalta folhas secas, suspendeu em posições variadas mais de uma dezena de janelas com formatos desiguais, vazadas e ornadas com ramalhetes, distribuiu algumas cadeiras e uma mesa bistrô sobre o tablado e colocou ao fundo um belo painel espelhado que distorce as imagens. Os figurinos, com destaque para a transparência preta, o brocado e o dourado, além de casuais casaco e vestido, também levam a sua assinatura. Paulo Cesar Medeiros contribui com uma luz elegante, representada por plano geral/aberto em tons amarelados que assumem distintas gradações, spots laterais, focos com blecaute e o uso de filtros vermelho e azul. A sempre competente Marcia Rubin, com a sua direção de movimento, auxilia as atrizes a comporem com maior veracidade os seus papéis. A trilha sonora de Leonardo Netto, servida com ritmos e sons ditados por teclados e sopro, atende eficientemente às demandas da obra. “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe” é um espetáculo que chega às plateias de muitas maneiras, seja pela presença cativante de suas atrizes, seja pelos assuntos seríssimos levantados, seja pelo fato de que todos nós conhecemos alguma boa história entre mãe e filha. Principalmente se essa filha “escorre dos seus olhos”.

  • “Os sinos dobram enquanto Analu Prestes, Mario Borges e Stela Freitas arrebatam o público em ‘As Crianças’.”

    maio 14th, 2024
    Stela Freitas, Mario Borges e Analu Prestes são físicos nucleares que se confrontam de diversas formas ao debaterem temas universais e em especial os relacionados a um desastre ambiental causado por um acidente nuclear/Foto: Renato Mangolin

    Torna-se impossível não se impressionar com o texto da dramaturga inglesa Lucy Kirkwood

    A peça “As Crianças” (“The Children”) estreou em 2019, ano em que ocorreu a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais. A peça hoje, em 2024, ano em que ocorrem as devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul, continua em cartaz. Ou seja, o espetáculo escrito pela dramaturga inglesa Lucy Kirkwood em 2016, traduzido magistralmente por Diego Teza, indicado a 25 prêmios, sendo vencedor em 9 deles, continua, infelizmente, atual, já que um de seus temas são as consequências ambientais e sociais causadas por um acidente nuclear. A jovem autora Lucy, com notável conhecimento da alma humana e do quanto ela pode ser transformada ao longo da sua existência seja por meio das relações interpessoais ou devido a um trauma de grandes proporções não só para a natureza mas para os indivíduos, possui pleno domínio das palavras e de como construir de modo elaborado um jogo cênico/dramatúrgico de tal forma envolvente que se torna impossível não se impressionar com o seu texto.

    Um casal de físicos nucleares e uma velha amiga de profissão se reencontram quase 40 anos depois e iniciam entre si uma série de diálogos e enfrentamentos nos quais são levantados os mais diversos assuntos, como envelhecimento, traição e ética

    Sua história retrata um casal de físicos nucleares, Dayse e Robin, interpretados respectivamente por Analu Prestes e Mario Borges, habitantes de um lugar afastado e bucólico, vítimas de uma rotina acachapante e de perturbadores fantasmas da usina nuclear objeto de um vazamento assolador localizada não muito distante da região onde vivem, ao ponto de verem o pôr do sol sobre a própria. Esta convivência modorrenta do casal é inesperadamente interrompida com a chegada quase 40 anos depois de uma velha amiga de profissão, Rose, Stela Freitas. Com a formação deste triunvirato, deparamo-nos com um ambiente em que se percebem acidez e ironia nos diálogos e enfrentamentos, no qual são levantados os mais diversos assuntos que os afetam de maneira individual ou não, como envelhecimento (e a busca para retardá-lo) e a maneira como lidamos com o nosso corpo, traição, inveja, desejo na maturidade, o modo como encaramos as doenças, libertação feminina, escassez de recursos naturais e a ética ou falta dela em cada um de nós. Com este rico material, a escritora consegue nos presentear com um arcabouço narrativo poderoso com mensagens que ao final podem ser encaradas como redentoras e esperançosas. Vale destacar ainda que o texto traduzido por Diego tem a peculiaridade, sendo quebrada a quarta parede, de serem ditas em certos momentos as suas rubricas, tão importantes para o entendimento daquele, por alguns de seus personagens.

    Rodrigo Portella, tendo um elenco de altíssima qualidade, deixa a sua marca em um dos melhores espetáculos encenados nos últimos anos

    Rodrigo Portella, um dos diretores mais prestigiados de sua geração, vencedor dos prêmios Cesgranrio, Botequim Cultural e APTR por esta montagem, que também foi laureada com o Cesgranrio e o Botequim Cultural de “Melhor Espetáculo”, é conhecido pelos estudiosos da área e pela classe artística pela sua defesa tenaz da simplicidade teatral, e é com esta mesma simplicidade, porém preciosíssima sob diferentes óticas, que a sua marca é impressa com excelência em um dos melhores espetáculos encenados nos últimos anos. Rodrigo direciona com precisão o seu foco na composição interpretativa de seus atores, na melhor maneira de seu elenco canalizar as mais amplas e ambíguas emoções, no jeito mais eficaz do texto ganhar a embocadura perfeita dos seus artistas. Um profissional que se preocupa em valorizar a ribalta e demais acessórios cênicos com todas as infinitas possibilidades que lhe são oferecidas, reverenciando a tensão, o conflito, no entanto sem abandonar os lugares que a poesia e a graça podem e devem ocupar. O trio de atores escalado para dar vida aos personagens de Lucy Kirkwood, Analu Prestes, Mario Borges e Stela Freitas, todos com reconhecida experiência e talento, é de altíssima qualidade, sendo, sem quaisquer dúvidas, absolutamente responsáveis pelo nível de sucesso alcançado pela peça em todas as suas temporadas. Analu Prestes (Prêmios Shell, Cesgranrio, Botequim Cultural e APTR de Melhor Atriz) nos transmite com espantosa densidade a ambivalência, a amargura e a inconstância de Dayse, além de toda uma sucessão de camadas afetivas que a definem. Mario Borges, como Robin, vale-se com sabedoria de seus recursos interpretativos para criar um tipo que transita pelo caráter bonachão e espirituoso, mas que, dependendo da ocasião, descamba para uma irascibilidade. E Stela Freitas acerta magnificamente ao apostar na impassibilidade, no pragmatismo e no ar “blasé” de sua física nuclear. O cenário do próprio diretor Rodrigo Portella e de Julia Deccache atende ao princípio da simplicidade defendido pelo primeiro, priorizando tão somente elementos vitais para o desenvolvimento da trama, o que de forma alguma lhe tira o charme e o interesse, representados por uma mesa retangular de madeira e suas respectivas cadeiras, além de acessórios lúdicos, como um cavalinho de balanço. Paulo Cesar Medeiros se encarrega de embelezar o espetáculo através de sua luz, caracterizada em grande parte por uma iluminação aberta/geral, próxima ao amarelado, que sofre, dependendo da situação, oscilações de matiz. Paulo se esmera ainda em introduzir deslumbrantes focos, feixes vindos do fundo do palco e spots laterais que exploram belamente o azul e o verde. Os figurinos são criações de Rita Murtinho, que os reportou a um universo distópico, observado nos tons sombrios de cinza/chumbo, acrescidos pelo verde e ocre, em vestimentas que apresentam remendos e costuras. A proposta de Rita, que ainda optou por galochas para os atores, impacta, estando em total consonância com a dramaturgia. A trilha sonora original de Marcello H. e Federico Puppi contribui sobremaneira para a ambiência crível da peça com suas inserções instrumentais calcadas principalmente nos sons graves de cordas, pontuando quadros de tensão, expectativa ou apenas transição de cenas. Marcelo Aquino, responsável pela preparação corporal dos intérpretes, cumpre sua função com vultosa eficiência, porquanto vemos a execução plena tanto postural quanto de movimentos demandada pelos seus personagens. “As Crianças” é uma peça teatral que se destaca pela sua atualidade, sua urgência e inteligência dramatúrgica. Seu forte teor denunciativo jamais passará incólume aos olhos de seus públicos. Uma obra redentora que aposta em um mundo melhor ao acreditar nas futuras gerações, mas isso não seria possível se não fossem as nossas adoráveis “crianças” Analu Prestes, Mario Borges e Stela Freitas, que “brincam” lindamente em cima de um palco.

  • “Vilma Melo, na qualidade de brilhante atriz, reverencia a ancestralidade e a importância da luta do povo preto em ‘Mãe de Santo’.”

    abril 29th, 2024
    Vilma Melo, indicada a relevantes prêmios como “Melhor Atriz”, dá voz a diferentes mulheres negras e suas vivências no monólogo cujo argumento é da filósofa, escritora e professora Helena Theodoro/Foto: Guga Melgar

    Idealizado pela atriz Vilma Melo e o produtor cultural Bruno Mariozz, o monólogo “Mãe de Santo”, com argumento de Helena Theodoro e dramaturgia de Renata Mizrahi, parte da premissa, dentre outras, do quanto são vilipendiadas e ofendidas as mulheres pretas brasileiras

    No último dia 23 de abril o presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa disse em pronunciamento que “seu país teve responsabilidade sobre crimes na era colonial, como tráfico de pessoas da África, …” e “que o Estado português deveria reparar danos causados nesse período.”. De fato, as consequências desastrosas para a população negra brasileira são sentidas até os dias de hoje, vistas rotineiramente na exclusão e desigualdade sociais, no preconceito e discriminação raciais, independente das classes ocupadas, e nos crimes de racismo e injúria racial praticados e noticiados com frequência nos meios de comunicação, demandando reparações obrigatórias que revertam ao máximo todo o estrago feito contra um povo e sua cultura. No entanto, em um país em que as mulheres são relegadas a um patamar inferior, pode-se imaginar o quanto, em grau mais elevado, as de pele preta são vilipendiadas e ofendidas com constância. Partindo-se dessa premissa, a atriz Vilma Melo e o produtor cultural Bruno Mariozz idealizaram o projeto de realização do espetáculo “Mãe de Santo”, que contou com o valioso argumento da filósofa, escritora e professora Helena Theodoro, que serviu para que a autora teatral Renata Mizrahi, valendo-se de seus textos e relatos, compusesse com riqueza a dramaturgia que nos é apresentada e que integra a trilogia “Matriarcas”, formada ainda por “Mãe Baiana” e “Mãe Preta”.

    A rica dramaturgia de Renata Mizrahi leva ao público registros reais de discriminação, preconceito e racismo, seja contra uma influencer famosa, uma empregada doméstica ou as próprias Helena Theodoro e Vilma Melo

    Renata, com a adoção de recursos narrativos eficientes, utilizou-se da figura central de uma palestrante, Vilma Melo, que no decorrer de suas falas pertinentes às condições em que mulheres pretas são vítimas de comportamentos alheios discriminatórios em virtude do fato de que são simplesmente mulheres pretas fosse o ponto de partida para que houvesse o compartilhamento de histórias assemelhadas que certificassem a prática racista e sexista predominante em nosso país. Casos que jamais podem cair na banalização e desdém são divididos com a plateia pela protagonista, que se desdobra com seu retumbante talento na representação desses personagens reais, baseados em experiências inclusive da filósofa Helena Theodoro e da própria Vilma, como a revista de “praxe” na bagagem em um aeroporto, o pedido de documentos a uma famosa influencer e blogueira viajando na primeira classe do avião, uma estudante acusada por uma instituição de ensino e punida por isto ao ser a única “culpada” em uma situação em que os seus colegas colaram de sua prova, a empregada doméstica acusada de furto exatamente no dia em que estava de folga, uma representante de religião de matriz africana que em uma viagem para um evento de repercussão internacional para o qual fora convidada se deu conta de sua invisibilidade para os demais, uma grande atriz que se indignou com uma fala equivocada de uma cena de novela e circunstâncias que envolvem algo grave e rotineiro como a intolerância religiosa, ao ponto da vítima não se calar e exclamar: – Não mexam com o meu sagrado!, uma das frases mais impactantes do espetáculo. Contrariando expectativas de que esses temas tão áridos fossem tratados somente com o peso que os mesmos carregam, a dramaturga fez questão de não preterir a leveza em determinados momentos no seu desenho textual, capazes até de arrancar risos (seriam eles nervosos?) dos espectadores. Há que se falar que a dramaturgia abordou, respeitando-se toda a dor existente, um dos acontecimentos mais traumáticos da vida da autora do argumento, a perda precoce de seu filho levado pelas ondas do mar.

    Vilma Melo, grande atriz, é dotada dos mais variados predicados que lhe permitem dar vida com leveza ou graça ou com o mais contundente dos dramas às diversas personagens que interpreta

    Luiz Antonio Pilar, o diretor da montagem, em absoluta conexão com Renata e Vilma, coloca no palco uma bela e poética encenação, sem que todas as sérias denúncias deixem de ocupar o seu lugar de destaque. Ciente das potencialidades artísticas de sua intérprete, Luiz as explora com equilíbrio e sabedoria, acertando, com sua apurada visão, ao inserir nos pontos adequados, os cantos deslumbrantemente entoados por ela. Outro aspecto a ser mencionado é a bem-sucedida e assaz elegante interação entre a atriz e a audiência com perguntas que nos levam à reflexão. Quanto a Vilma Melo, a partir de sua entrada em cena, já formamos a convicção de que estamos diante de uma grande atriz, dotada dos mais variados predicados que lhe permitem dar vida seja com graça e leveza ou com o mais contundente dos dramas às diversas personagens que perpassam o arco narrativo e suas respectivas vivências. A atriz carioca, primeira atriz negra a ganhar o prêmio Shell em 2017, e indicada por este trabalho ao mesmo prêmio Shell em 2023 e ao APTR em 2022, possui a inteligência cênica exigida para enfrentar tamanho desafio e o faz garbosamente, valendo-se da sutileza de seu olhar para nos transmitir algo importante ou de sua potente e bem articulada voz, usada de forma encantadora nas canções emocionantes que interpreta. A trilha sonora original de Wladimir Pinheiro ocupa uma função precípua na peça, conferindo-lhe, tendo por base essencialmente acordes que derivam do som dos atabaques que se somam aos de cordas, um resultado bastante expressivo e de notável beleza, marcando com êxito as cenas e suas transições. O cenário e o figurino foram criações de Clívia Cohen, que soube imprimir ao primeiro uma linda simplicidade coberta de simbolismos, observada nas dezenas de turbantes em preto e branco presos a fios espalhados por toda a ribalta, acompanhados por cadeira, tamborete e bacia de madeira azuis e cercados de bambu, também foi bastante feliz no figurino de Vilma Melo, trajada com um vestido meio ombro azul com estampas de círculos coloridos e acessórios imponentes (há ainda peças que lhe servem posteriormente de Pano da Costa, uma espécie de vestido, e um Ojá, turbante). A iluminação de Anderson Ratto é um indiscutível fator de embelezamento da produção, com o sábio uso dos turbantes que servem como pontos de incidência de sua luz, que passeia por cores como o rosa e o vermelho, além da prevalência do azul em certas ocasiões, focos muito bem calculados e alguns efeitos deslumbrantes, como os spots colocados atrás das cercas de bambu e a luz sobre a bacia d’água. “Mãe de Santo”, que já foi apresentada em festivais internacionais em Cabo Verde e Moçambique, além de Portugal, é uma peça teatral de caráter urgente e necessário, que é para ser vista e revista, pensada, avaliada, visto que assuntos que nos são muito valiosos, como ancestralidade, formação do nosso povo brasileiro, com sua maioria de pessoas pretas, racismo e invisibilidade da mulher negra são tratados com legitimidade e seriedade. “Mãe de Santo” é um grito de “Basta!” em cima de um palco. É um grito de “Não mexam com o meu sagrado!” em cima do mesmo palco.

  • “Em ‘Virginia’, sublime na atuação, sublime na dramaturgia. Tudo está em Cláudia Abreu.”

    março 3rd, 2024
    Cláudia Abreu, atriz consagrada na TV, no teatro e no cinema, estreia como dramaturga em seu primeiro monólogo, sobre a vida e obra da escritora inglesa Virginia Woolf/Foto: Flávia Canavarro

    Cláudia Abreu mergulhou em uma longa e profunda pesquisa sobre Virginia Woolf para levar aos palcos o seu primeiro texto teatral

    Nas Artes Cênicas ou em qualquer meio de expressão artística quando se objetiva retratar uma personalidade de alcance mundial e de notada relevância para a área da qual faz parte há que se ter em mente que uma profunda e longa pesquisa deve ser obrigatoriamente realizada. Foi o que fez a consagrada atriz, roteirista e produtora carioca Cláudia Abreu, amada em todo o Brasil por seus inúmeros personagens na TV, também com presença respeitável tanto nos palcos quanto nas telas de cinema, com a escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), a quem já fora apresentada no espetáculo “Orlando” (1989), com direção de Bia Lessa. Por alguns anos, Cláudia, formada em Filosofia, mergulhou na rica obra da autora de clássicos como “Mrs. Dalloway”, “As Ondas” e “Ao Farol”, relendo seus livros, estudando suas biografias, diários e memórias. Desta imersão literária surgiu não só o primeiro monólogo da intérprete como também o seu brilhante primeiro texto teatral, digno dos mais experientes dramaturgos, “Virginia”, com direção de Amir Haddad (com quem já havia trabalhado em “Noite de Reis”, em 1997) e codireção de Malu Valle, dois profissionais fundamentais para a concretização do projeto.

    Os diretores Amir Haddad e Malu Valle exploram com proficiência as possibilidades que o binômio texto/ator lhes oferece

    Estruturalmente, não é tarefa fácil condensar a tumultuada e trágica vida pessoal e gloriosa trilha literária de Virginia Woolf em uma hora de encenação, no entanto, com habilidade e noção precisa do espaço dramatúrgico, Cláudia logrou admirável êxito. A autora ofertou ao público com sensibilidade e delicadeza todas as fases marcantes de sua retratada, revelando sua postura feminista, “avant-garde” e competitiva, sua luta contra a opressão paterna, a admiração pela mãe, a paixão pelo conhecimento que lhe foi negado nas escolas, suas constantes angústias, inseguranças, crises nervosas, lapsos de memória, dores com a perda de entes queridos e com os abusos sexuais sofridos, confrontos entre lucidez e loucura, além de suas relações com os muitos irmãos, sua bissexualidade, seu problemático casamento e seu encanto pelo grupo intelectual de Bloomsbury. Vale ressaltar que a dramaturga utilizou a mesma técnica literária usada por seu objeto de estudo, “os fluxos de consciência”, capazes de expressar as vozes reais e fictícias presentes na mente de um personagem. A direção de Amir Haddad (Amir começou a conduzir Cláudia ainda durante a crise sanitária mundial, em encontros virtuais e presenciais) e Malu Valle (que entrou posteriormente) é primorosa no sentido de se afinar completamente com o tom dramatúrgico proposto por Cláudia, em uma união saudável de liberdade e técnica colocada em prática pela atriz (a própria fez menção a isso em seu agradecimento após a sessão da peça). Na verdade, o que se vê é a franca e assumida valorização do binômio texto/ator, e os diretores exploram com reconhecida proficiência esta possibilidade. As marcações são variadas, heterogêneas, deixando a peça solta, fluida, dinâmica, com Cláudia tendo um palco nu e limpo só para si.

    A interpretação de Cláudia Abreu é merecedora de ocupar um lugar de destaque no compilado de suas melhores performances

    Quanto a Cláudia Abreu, se pensávamos que já havíamos testemunhado todo o seu espantoso talento nas várias searas em que atuou, enganamo-nos. Cláudia é capaz de muito mais, de nos surpreender a cada fala de seu texto e movimento executado em cena. Desdobrando-se com desenvoltura em personagens representativos daqueles que estavam no entorno de Virginia (pai, irmãos, marido, amante), e mostrando com intensidade e credibilidade a vasta gama de nuances e camadas emocionais que compunham a personalidade complexa da escritora, Cláudia reafirma mais uma vez que é uma das grandes atrizes de sua geração. Uma interpretação merecedora de ocupar um lugar de destaque no compilado de suas melhores performances. A direção de movimento de Marcia Rubin é excepcional, imprimindo beleza, força, leveza, cadência e harmonia ao instrumento corporal da artista. Cláudia, atendendo com disciplina às orientações de Marcia, mostrou ter um grau de expressividade de movimentos de seu corpo demasiado elogiável. Marcelo Olinto, figurinista, foi extremamente feliz ao vestir a protagonista com um bonito vestido branco longo com características atemporais e neutras, ornado com brocados e pequenos brilhos, com um corte que lhe permitiu executar com facilidade as movimentações e gestuais exigidos. Beto Bruel, a quem coube a iluminação, cumpriu belamente a sua função, alcançando resultados inebriantes com o uso prevalente do azul, da sépia e do branco em sutis nuances, debruçando-se com esmero em focos específicos e diferenciados. A trilha sonora de Dany Roland, com a colaboração de José Henrique Fonseca, possui elementos que nos intrigam e outros que nos chamam a atenção pela delicadeza dos acordes de instrumentos com cordas e teclados, compondo com vultosa satisfação o panorama geral cênico. “Virginia” é uma obra fascinante que destrincha as falas femininas e feministas de uma das escritoras mais influentes do século XX, abordando questões do gênero que afetam sobremaneira a sociedade até hoje. O feminino e toda a sua importância ganha vida e potência na doce e forte voz de Cláudia “Virginia” Abreu.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    janeiro 23rd, 2024
    Foto: Paulo Ruch

    A atriz, modelo e empresária Marina Ruy Barbosa na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week em sua temporada Verão 2016.

    Carioca, Marina iniciou a sua bem-sucedida carreira na televisão em 2003 com uma participação na novela de Ana Maria Moretzsohn “Sabor da Paixão”, exibida às 18h pela Rede Globo.

    Sua primeira personagem fixa em folhetins pôde ser vista em uma trama de Antônio Calmon e Elizabeth Jhin para a faixa das sete horas, “Começar de Novo” (na história interpretava Ana, uma menina misteriosa com poderes sobrenaturais, sendo uma espécie de “anjo da guarda” de Miguel, Marcos Paulo).

    A sua escalação para uma produção do horário nobre, “Belíssima”, em 2005, foi um divisor em sua trajetória, fazendo com que se tornasse conhecida em todo o país (Sabina, o seu papel, tinha uma função importante na história; filha de Vitória, Cláudia Abreu, e Pedro, Henri Castelli, atraía as atenções de sua avó Bia Falcão, a grande vilã interpretada por Fernanda Montenegro).

    No ano de 2006 a artista foi vista em três produções, a série educacional “Tecendo o Saber” e os especiais de fim de ano “Xuxa 20 anos” e “Natal Todo Dia”.

    No ano seguinte foi uma das concorrentes do quadro do extinto “Domingão do Faustão” “Dança das Crianças” (também foi escalada para a telenovela de Walcyr Carrasco das sete horas da noite “Sete Pecados”, em que defendeu Isabel, filha dos personagens de Reynaldo Gianecchini e Giovanna Antonelli).

    Em 2009 Marina atua em três funções diferentes, como apresentadora do “TV Globinho”, como uma das participantes do quadro “Super Chefinhos” do programa “Mais Você” e como Bia, uma adolescente no seriado “Tudo Novo de Novo”.

    Seu folhetim seguinte, assinado pela autora Elizabeth Jhin, chamou-se “Escrito nas Estrelas”, produção levada ao ar às 18h em 2010, em que encarnava uma estudante de balé rebelde, Vanessa.

    Posteriormente, em 2011, Marina ganha mais notoriedade ao personificar Alice, uma vilã que ao final se regenera, em “Morde & Assopra”, telenovela escrita por Walcyr Carrasco para a faixa das sete da noite.

    No ano seguinte a jovem artista é escalada para compor uma estagiária de jornalismo, Juliana, em uma trama pensada pela autora Elizabeth Jhin para as 18h, “Amor Eterno Amor”.

    O ano de 2013 marca o seu reencontro na teledramaturgia com o autor Walcyr Carrasco em sua novela das 21h “Amor à Vida”, em que compôs Nicole, uma órfã milionária prestes a sofrer um golpe urdido por Leila, Fernanda Machado, e Thales, Ricardo Tozzi, que acaba se apaixonando pela sua vítima (a personagem de Marina morre devido a uma grave doença que a acometia, no entanto faz aparições fantasmagóricas esporádicas para o seu pretendente).

    Seu próximo trabalho em novelas seria determinante em sua carreira já que o seu papel, Maria Ísis, em “Império”, trama do horário nobre escrita por Aguinaldo Silva, seria o primeiro em que a atriz representava em uma idade adulta, o que lhe permitiu formar um casal com o ator Alexandre Nero, José Alfredo, obtendo grande aceitação e torcida do público.

    Em seguida, ao lado de Johnny Massaro, embrenha-se em um mundo fabular com diversas influências estéticas, inclusive o filme do cineasta americano Tim Burton “A Noiva-Cadáver”, de 2005, que serviu como inspiração, na série de Cláudio Paiva, Guel Arraes e Newton Moreno “Amorteamo”, como Malvina, uma morta-viva com traços de vilania.

    Um outro ponto de virada em sua carreira pôde ser acompanhado em “Totalmente Demais”, folhetim das 19h criado e escrito por Rosane Svartman e Paulo Halm, em que, como a protagonista Eliza, incorporou uma jovem do interior, quase vítima de abuso de seu padrasto, moradora de rua na cidade grande, que acaba se tornando uma modelo internacional.

    Um de seus papéis mais impactantes viria logo depois na minissérie de Manuela Dias “Justiça”, na qual representou Isabela, uma moça rica e fútil que é assassinada pelo seu noivo (Jesuíta Barbosa) ao ser flagrada o traindo. Sua mãe, a professora Elisa, Débora Bloch, decide buscar justiça pela morte brutal de sua filha.

    Após a impactante participação na minissérie Marina tem de enfrentar um novo desafio em sua carreira, protagonizar, ao lado de Romulo Estrela e Bruna Marquezine, a novela passada na época medieval escrita por Daniel Adjafre “Deus Salve o Rei”, trama das sete da noite em que representou Amália (sua personagem disputava o amor do príncipe Afonso, Romulo, com sua antagonista, a princesa Catarina, Bruna).

    Em pouco tempo a artista já estava escalada para ser a protagonista da próxima telenovela das 21h, “O Sétimo Guardião”, escrita por Aguinaldo Silva, em que vivia Luz, uma moça que se distinguia pelos seus poderes especiais (na trama, seu par romântico coube a Bruno Gagliasso; Luz enfrentava as maldades perpetradas por Valentina, Lília Cabral).

    Marina está no elenco internacional da minissérie de Mauro Lima “Rio Connection”, que após estrear no exterior no ano passado figura como um dos produtos disponíveis no Globoplay (neste projeto dos Estúdios Globo, Sony Pictures Television e produtora Floresta, a atriz criou a personagem Ana).

    Nas salas escuras dos cinemas a intérprete pôde ser vista em três produções, “Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida” (direção de Moacyr Góes), “Sequestro Relâmpago” (direção de Tata Amaral) e “Todas As Canções de Amor” (direção de Joana Mariani).

    Nos palcos, esteve em espetáculos como “Chapeuzinho Vermelho – O Musical”, como a própria, e “7 – O Musical”, da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho.

    Atualmente, Marina Ruy Barbosa está no ar como a grande vilã de “Fuzuê”, novela criada e escrita por Gustavo Reiz para a faixa das 19h da Rede Globo, com supervisão de Ricardo Linhares e direção artística de Fabrício Mamberti (como Preciosa Montebelo, um papel totalmente diferente de tudo o que já havia feito na TV, Marina expõe toda a faceta maquiavélica, gananciosa e preconceituosa da empresária que não mede esforços para atingir os seus objetivos).

  • “Amaury Lorenzo, um maestro regente do seu próprio corpo.”

    outubro 16th, 2023
    Amaury Lorenzo se vale de muitos recursos corporais e vocais para narrar ao público a terceira e última parte da obra clássica de Euclides da Cunha “Os Sertões”/Foto: Marcos Morteira

    Baseado em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “A Luta” é um espetáculo que serve para entendermos melhor o Brasil de hoje

    Muito apropriadamente o ator mineiro Amaury Lorenzo ao final do espetáculo que estrela “A Luta” disse ao seu público algo como: “Precisamos conhecer o que aconteceu antes em nosso país para entendermos o que acontece hoje”. Amaury, indicado aos Prêmios Cesgranrio e Cenym de Melhor Ator 2023, referia-se ao tema central de seu monólogo, idealizado e dirigido por Rose Abdallah, escrito por Ivan Jaf, baseado na terceira e última parte da obra clássica de Euclides da Cunha “Os Sertões” (1902), que trata de forma jornalística e não acadêmica a sangrenta Guerra de Canudos (1896-1897), no interior baiano, travada por povos sertanejos liderados por Antônio Conselheiro e forças militares republicanas.

    O dramaturgo Ivan Jaf nos entrega um material robusto aberto à mais acurada reflexão coletiva e Rose Abdallah, idealizadora e diretora, segue o acertado caminho da oralidade mais próxima e íntima não se limitando à fórmula pura e simples da narração objetiva dos fatos

    Ivan Jaf realiza um trabalho dramatúrgico de grande riqueza, realçado pela fidelidade episódica e pelo empenho na valorização dos detalhes, entregando à plateia mais do que um registro histórico relevante do Brasil República, mas também um material robusto aberto à mais acurada reflexão coletiva. Seu texto nos transmite com elevada categoria não só o perfil do homem profundo brasileiro, o sertanejo que vive continuamente com as agruras impiedosas do tempo e com a escassez do essencial para sobreviver, assim como nos descortina as nuances que permeavam a horda de homens e mulheres com suas crianças que serviam cegamente aos mandos autoritários de Conselheiro, que os envolvia com uma religiosidade amedrontadora, fanática, moldada por profecias apocalípticas, imiscuída com interesses políticos. Traçou com minúcias a personalidade castradora do líder de Canudos, calcada em discriminações, sexismo e misoginia. Por outro lado, as tropas obedientes à República não foram poupadas no que diz respeito ao seu propósito irredutível em aniquilar com toda a truculência imaginável, utilizando-se de um poderio bélico avolumado, os insurgentes do arraial. Rose Abadallah sobrepôs com êxito o desafio de se atingir o público e aguçar o seu interesse pela estrutura cênica/dramatúrgica, com um assunto histórico que poderia não ser do domínio de todos, apostando na força dramática (e algumas vezes cômica), no talento e carisma de seu intérprete, obtendo a compreensão absoluta da narrativa. Rose seguiu o caminho acertado da oralidade mais próxima e íntima, não se limitando à fórmula pura e simples da narração objetiva dos fatos. A diretora explorou ao máximo a fisicalidade de Amaury, fazendo com que em muitas ocasiões o ator representasse simultaneamente com o corpo aquilo que dizia, e o espaço teatral, com marcações pujantes pontuadas por ritmos distintos.

    Não há obstáculos para que a entrega de Amaury Lorenzo se consuma de modo pleno, com a sua rara multiplicidade de linguagens corporais e vocais

    Amaury Lorenzo revela uma impressionante capacidade de extrair de seu corpo uma rara multiplicidade de linguagens, valendo-se com sabedoria de suas força e disposição física, enriquecendo extraordinariamente a maneira como se comunica com o seu público. Um artista regente de sua própria máquina corporal. Não há obstáculos para que a sua entrega se consuma de modo pleno. Com total entendimento dos seus feitos, além de jogar e brincar com o instrumento corpóreo que possui, o protagonista também o faz com o seu aparelho vocal, singrando pelos mais diferentes acordes e tons, seja cantando, seja falando, seja gargalhando, seja chorando ou até mesmo reproduzindo o som perturbador de tiros. Um ator que mergulha profundamente e sem medo em uma experiência literário/teatral única. A espetacular direção de movimento leva a dupla assinatura de Amaury e Johaine Hildefonso. A iluminação de Ricardo Meteoro passeia com beleza por diversas possibilidades cromáticas, abraçando o azul, o vermelho, o laranja e o lilás, incluindo a interseção de algumas, como o verde e o rosa. Destacam-se ainda seus focos bem calculados, variando as direções, com belos efeitos. A trilha sonora gravada ficou a cargo de Alexandre Dacosta que, com bastante criatividade, reuniu uma infinidade de sons e ruídos em determinado momento da peça, como barulhos da passagem de trens junto a outras sonoridades urbanas e rurais, e músicas, como “O Guarani”, de Carlos Gomes, e cânticos indígenas, resultando em algo perturbador e forte. “A Luta” é um espetáculo que cumpre um papel fundamental para as Artes e a sociedade, trazendo informação e reflexão sobre a nossa História, sobre um período bárbaro que não deve se repetir, fazendo com que, como bem disse Amaury Lorenzo, conhecendo o passado saibamos entender melhor o nosso presente. Trazendo à luz esse esclarecimento para o público teatral, essa já é uma luta mais do que vencida.

  • “Em ‘O Pior de Mim’ Maitê Proença se despe de todas as suas personagens e vive o mais difícil papel de sua carreira: ela mesma.”

    outubro 8th, 2023
    Maitê Proença revela ao público suas experiências de vida, que incluem traumas familiares, viagens de autoconhecimento e os desdobramentos na carreira/Foto: Dalton Valério

    Maitê Proença oferta à plateia teatral a versão definitiva de sua história, a única respeitosa à verdade

    Durante décadas a atriz, escritora e apresentadora paulistana Maitê Proença foi endeusada pelo público e pela imprensa por sua beleza ímpar, alçada ao posto de símbolo sexual e admirada pela sua presença luminosa em inúmeras novelas da Rede Globo e produções de sucesso da extinta Rede Manchete, além dos filmes que estrelou. No entanto, essa mesma imprensa que a endeusava também lhe fora cruel e inclemente ao não só questionar o seu talento quando era muito jovem como escancarar para a sociedade episódios de sua vida extremamente íntimos e delicados, envolvendo tragédias familiares. Maitê, uma artista esclarecida e inteligente, resolveu com o monólogo “O Pior de Mim”, escrito pela própria e que originou um livro homônimo, colocar um ponto final nesta história cheia de interpretações alheias e ofertar à plateia teatral a sua versão não só definitiva mas a única respeitosa à verdade, o que só ela mesma poderia fazer.

    A peça entrelaça o que Maitê presenciou e o que presencia com os temas abordados, como o machismo e suas consequências e o etarismo

    O espetáculo que teve anteriormente a sua versão digital destacada pela mídia como um dos melhores espetáculos no formato serve de parlatório para a intérprete desfiar um rosário de assuntos a partir de suas intensas experiências pessoais, passando pelas diferentes fases da vida, como a internação em um colégio, a sua relação com os pais sendo testemunha da espiral crescente de tensão do casal que descambaria para um desfecho infeliz, sua entrada ao acaso no meio artístico por influência de grandes profissionais do teatro e da TV que acreditaram em seu potencial, os empecilhos enfrentados ao desenvolver personagens e suas cenas devido aos impactos emocionais sofridos, suas uniões e separações amorosas e suas viagens pelo mundo que lhe deram um cabedal de conhecimentos, aprendizados e insuspeitadas aventuras, afora os vários acidentes de que fora vítima. A peça cujas direção e concepção cênica couberam a Rodrigo Portella põe em debate questões atualíssimas e relevantes, entrelaçando o que Maitê presenciou e presencia com os temas a serem abordados, como o machismo estrutural entranhado na cultura brasileira tornando o país um dos cinco com maior incidência de feminicídios e o etarismo com as mulheres, especificamente com aquelas com mais de 60 anos.

    Um espetáculo que seduz pela coragem e sinceridade de uma atriz

    Maitê Proença, bela e possuidora de elogiável expressão corporal, tem bastantes recursos individuais ao seu favor, como carisma, credibilidade, talento, espontaneidade e domínio das palavras, para conquistar de imediato os espectadores, que se deixam levar pelo bate-papo quase informal que lhes é proposto. Honesto e não raras vezes irônico, seu texto atinge cada um daqueles que lhe assiste, impondo-lhe invariavelmente uma sequência de reflexões. A direção de Rodrigo Portella imprime, a despeito da aridez dos temas discutidos, leveza e lirismo à montagem, deixando a atriz totalmente à vontade e livre em cena, deslocando-se por todo o palco, dançando, sentando-se à beira da ribalta, num legítimo “tête-tête” com o público. O aspecto lírico/poético é visto na duplicidade de Maitê no espetáculo, pois é filmada a maior parte do tempo pelo ator Renato Krueger (seja falando diretamente com a câmera ou não). As imagens projetadas em uma cortina branca sugerem um elemento expressionista à produção. Marcello H., diretor musical, aposta em melodias com a prevalência do piano, sons instigantes e a canção de Carole King “Where You Lead”. Maitê e Rodrigo Portella dividem a idealização do cenário, composto por mesas de madeira com distintos tamanhos, cada qual num canto do palco, e ao fundo camadas de cortinas transparentes. Também coube a Rodrigo a iluminação do monólogo, realçado por um plano aberto mais suave e natural, focos na atriz e sombreados, além da valorização de alguns matizes, como o azul, o vermelho e o lilás. “O Pior de Mim” é uma obra que nos seduz pela coragem e sinceridade de uma atriz, que se atreve a se desconstruir da imagem que lhe deram à revelia. Um ato de libertação pessoal e artística pouco comum de se ver nos palcos. Um ato teatral e humano que apresenta o melhor da mulher, artista, filha e mãe Maitê Proença.

  • “Carismática e talentosíssima, Evelyn Castro, com sua voz impressionante, leva o público ao delírio em uma homenagem à altura da grande diva do rock, Tina Turner”.

    setembro 11th, 2023
    Evelyn Castro, também uma consagrada comediante, encanta o público com a sua voz ao apresentar os diversos hits da cantora nascida no estado americano do Tennessee/Foto: Debonis

    Evelyn Castro, brilhante atriz de musicais e consagrada comediante, faz uso de sua capacidade extraordinária de comunicação para causar o interesse e a diversão do público com suas experiências pessoais e profissionais e referências à vida de Tina Turner

    Em maio deste ano o mundo se viu órfão de uma das maiores cantoras do século XX, Tina Turner. Nascida no estado americano do Tennessee, Anna Mae Bullock teve uma vida atribulada em meio a glórias de sua carreira e um histórico de abusos e dramas pessoais. Todo o sofrimento que lhe foi infligido nunca fora capaz de arrefecer a sua força e apagar a sua estrela, tendo se tornado um símbolo de resiliência feminina e de beleza e forma física que transcenderam o tempo. Entretanto, para o público brasileiro de shows, esta orfandade pode ser amenizada ao se conferir uma das mais brilhantes atrizes de musicais (“Tim Maia – O Musical”, “Cássia Eller – O Musical”) e consagrada comediante (“Porta dos Fundos”, “Tô de Graça”) em cena interpretando os emblemáticos hits da “Rainha do Rock”, a carioca Evelyn Castro em “Tributo a Tina Turner”. Evelyn, que fez sucesso em novelas como a Deusa de “Quanto Mais Vida, Melhor!” e séries como a Maria Augusta de “Encantado’s, assina o engraçadíssimo texto do espetáculo/show que inclui passagens de sua vida e trajetória artística e referências à história de Tina, utilizando-se com vasta sabedoria de sua capacidade extraordinária de comunicação para interagir de maneira exitosa com o seu público e fazê-lo se interessar e se divertir com as suas experiências, como o início de sua formação musical na igreja e as relações movidas a muito humor na adolescência com os seus pais e na fase adulta com o seu filho.

    Evelyn Castro, dotada de privilegiada voz, com ritmo, charme e sensualidade, corresponde com louvor a clássicos como “We Don’t Need Another Hero”

    Com um visagismo caprichado visto em seus dreads claros, figurino com pegada roqueira (casaco jeans, regata, saia de couro e boots), Evelyn, dotada de uma privilegiada voz com inacreditáveis extensão, afinação e limpidez, além de seu irretocável acento no inglês, corresponde com louvor às mais difíceis exigências das canções eternizadas pela artista que adotou posteriormente a cidadania suíça, brilhando em clássicos com diferentes camadas melódicas, como “What’s Love Got To Do With It”, “Proud Mary”, “We Don’t Need Another Hero”, “I Don’t Wanna Lose You” e “The Best” (reservado para um momento especial), provocando uma verdadeira catarse nos espectadores. A cantora e atriz também brindou o público com uma música não associada comumente a Tina, “The Game of Love”, marcada pelos acordes do multi-instrumentista mexicano Carlos Santana. Com o propósito de reverenciar outros artistas negros que trilharam caminhos vitoriosos, foram lembrados Sade (“Smooth Operator”) e Tim Maia (“Descobridor dos Sete Mares”). Um dos pontos elogiáveis deste merecido tributo consiste no fato de que Evelyn não buscou simplesmente imitar Tina Turner, mas emprestar a sua forte personalidade à figura mítica da estrela. Cabe destacar o ritmo, a expressão corporal, o charme e a sensualidade com que a intérprete valoriza as suas performances. A realização bem-sucedida de “Tributo a Tina Turner” se deve também com muita justiça a uma equipe que prima pela competência e profissionalismo: o diretor musical e baixista Vini Lobo, o guitarrista Sergio Morel, o tecladista Pedro Augusto, o baterista Mauricio Borioni e os ótimos backing vocals Tatty Caldeira (com quem ficou a linda canção “Private Dancer”) e André Viéri (ambos se entregaram ao clima alto astral do show). “Tributo a Tina Turner” é um espetáculo/show que não se restringe tão somente a homenagear uma das mais grandiosas cantoras do planeta, sendo também uma calorosa e sincera celebração, uma animada festa entre Evelyn Castro e seu público, uma emoção coletiva ao som das belas canções de Tina. Uma festa “the best” que alça Evelyn Castro ao posto de diva.

  • “Luisa Thiré e Carolyna Aguiar formam uma dupla cativante em ‘A Inquilina’, peça que nos revela a força e o poder libertador de uma mulher em meio à sua maturidade”.

    setembro 5th, 2023
    Carolyna Aguiar e Luisa Thiré vivem mulheres na faixa dos 50 anos com personalidades totalmente opostas na peça de Jen Silverman/Foto: Pino Gomes

    O etarismo em relação à mulher, em especial na faixa dos 50 anos, é questionado com desassombro na montagem inédita da peça escrita pela premiada dramaturga norte-americana Jen Silverman

    A supervalorização da juventude na sociedade ocidental contemporânea, realçada pela opressão desmedida das redes sociais, inclusive no que concerne ao ser feminino, é uma questão que deve obrigatoriamente ser avaliada e debatida. Uma mulher de 50 anos ou mais ao invés de ser valorizada e admirada pelos seus atributos e belezas naturais invariavelmente acaba sendo colocada, por parte de um segmento social robusto, em um nicho em que as suas potencialidades e habilidades são subestimadas. A premiada dramaturga, romancista e roteirista norte-americana Jen Silverman mergulha com desassombro neste terreno injusto no qual o etarismo assume papel de protagonista em sua peça “A Inquilina” (“The Roommate”), traduzida e adaptada com notável eficiência por Diego Teza em sua versão brasileira, em montagem inédita no país, estrelada por Luisa Thiré e Carolyna Aguiar e dirigida por Fernando Philbert.

    Os choques culturais e comportamentais de duas mulheres, uma da zona rural dos Estados Unidos e outra de uma grande metrópole servem para a discussão apropriada de temas caros a todos nós, não só ao sexo feminino, como solidão e diversidade sexual

    O espetáculo se desenvolve a partir da relação movida a choques culturais e comportamentais entre Sharon (Luisa Thiré), uma dona de casa divorciada, mãe de um filho ausente (Lucas Drummond participa com sua voz em off), moradora da zona rural dos Estados Unidos, e sua inquilina Robyn (Carolyna Aguiar), uma mulher do mundo, também mãe, vinda de Nova York, com posturas e estilos diametralmente opostos aos da primeira, como o veganismo, a sua homossexualidade e o consumo de cannabis, além de um passado fora dos padrões, estando ambas na faixa dos 50 anos. A convivência forçada da dupla impulsiona com propriedade a discussão de temas caros a todos, não só às mulheres, como solidão, relacionamentos virtuais, diversidade sexual, filhos, transformações pessoais e liberdades individuais independente da idade que se tenha. Jen Silverman não se furta a imiscuir em seu texto porções generosas ou mais sutis de humor, associadas à insolência e a transgressão, preocupando-se em manter sólidas a humanidade e a afetividade de suas personagens.

    Quem se habilita em ser a inquilina de Sharon?

    Fernando Philbert atinge consistente êxito ao não desperdiçar a cativante liga existente entre Luisa e Carolyna, promovendo com distinção o desenho dos embates constantes do par, utilizando-se de marcações e transições variadas. Na verdade, Fernando busca a simplicidade e a credibilidade das conexões pessoais dessas duas mulheres, o que o faz com absoluto sucesso. Luisa Thiré transmite com magnitude os detalhes da personalidade da reprimida Sharon, sabendo com o mesmo brilho lhe conferir as nuances de um circunstancial empoderamento (as cenas cômicas mostram uma surpreendente face da atriz). Carolyna Aguiar incorpora com louvor o perfil pragmático, desencanado e sarcástico de Robyn, fazendo com que embarquemos com ela neste bem-sucedido caminho. Duas atrizes belamente afinadas. O cenário de Beli Araújo nos leva para o aconchego de uma moradia rural, com sua mesa central de madeira e cadeiras e uma sugestão de varanda com mesa e assentos típicos. Uma cerca rústica completa a proposta coerente de Beli. Karen Brustollin, responsável pelos figurinos, realiza um ótimo e rico trabalho, usando costumes que se adequam com perfeição ao estilo de cada uma das personagens, como casaco, t-shirt estampada, calça jeans rasgada e botas para Robyn e blusa clara florida, cardigã e saia comprida para Sharon (em outro momento usa um vestido deslumbrante com fenda). Vilmar Olos, iluminador, decidiu apostar em planos mais suaves, semiabertos, evocando com charme a ambiência do cotidiano das duas. O bonito conjunto é formado por uma paleta que inclui luzes com cores primárias, somando-se outras, além de leds. Os focos são muito bem aproveitados. A trilha sonora é de Rodrigo Penna, que oferta à plateia uma criativa junção de sons e canções, flertando com o experimentalismo, mas se valendo também de um techno potente, standards como “New York, New York” e hinos pop como “Heart of Glass”, na voz de Miley Cyrus. Toni Rodrigues, diretor de movimento, explora o melhor das intérpretes, visível em suas posturas congruentes e instantes determinados, como Sharon dançando música eletrônica de modo hilário e Robyn exibindo posições impressionantes de alongamento. “A Inquilina” é um valoroso instrumento cênico regado por um humor irresistível e uma tocante sensibilidade que possui, dentre muitos de seus méritos, o enaltecimento da mulher madura, no alto de seus 50 anos, legitimando seus infinitos direitos de liberdade, transformação pessoal e de espalhar a sua inegável beleza. Quem se habilita em ser a inquilina de Sharon?

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