O autor de “Fina Estampa”, Aguinaldo Silva, teve uma ótima sacada ao promover um romance tempestuoso entre os personagens de José Mayer, Pereirinha, e Christiane Torloni, Tereza Cristina. Os atores, com larga experiência em novelas, demonstraram de imediato, desde a primeira cena na qual se encontraram, um entrosamento visível. Já haviam trabalhado juntos em alguns folhetins, como “A Gata Comeu”, de Ivani Ribeiro, “Selva de Pedra”, “remake” de Regina Braga e Eloy Araújo feito a partir da obra de Janete Clair, e “Mulheres Apaixonadas”, de Manoel Carlos, além do longa-metragem de Guilherme de Almeida Prado, “Perfume de Gardênia”. O sucesso dos momentos deles é um somatório de fatores: o talento dos intérpretes que conhecem muito bem o veículo em que estão atuando; a linha de texto adotada por Aguinaldo Silva, que aposta no humor das falas; o tipo de envolvimento afetivo escolhido que baseia-se no desejo recíproco incontrolável; a direção; e a junção de dois integrantes da trama da produção das 21h da Rede Globo que passam ao largo dos escrúpulos, mas que são capazes de sentir um pelo outro uma espécie de atração, nem que seja apenas física. Há ainda a questão da troca de pares: Tereza Cristina e Pereirinha, e Griselda (Lilia Cabral) e René (Dalton Vigh), o que só recrudesce a possibilidade de maiores conflitos e disputas no enredo. Lembremos como tudo se iniciou. Tereza vai à antiga casa onde a mãe de Amália (Sophie Charlotte) morava, e nela defronta-se com o pescador (agora não mais, haja vista que irá vender o barco de pesca). Leva um tremendo susto devido à aparência dele. Por causa dos cabelos e barbas longos (José Mayer teve que mantê-los em decorrência do musical “Um Violinista no Telhado”, do qual é o protagonista), a rica mulher compara-o ao Conde de Monte Cristo, referindo-se ao personagem criado por Alexandre Dumas, que passa anos trancado num calabouço vítima de traição. A princípio, sente repulsa. Uma repulsa que não durará bastante tempo. E por falar em tempo, Pereirinha não o perde. Decide dar uma caprichada no visual. Apara as melenas e os pelos da face. E parte para o ataque. Entretanto, precisaria de um pretexto para ir à mansão de Tereza. E este pretexto atende pelo nome de robalo, que a ela fora oferecido como presente. Com o casamento já desgastado, a irmã de Paulo (Dan Stulbach) entrega-se literalmente aos carinhos nada delicados de Pereirinha. Pode-se dizer que são até mesmo um tanto quanto selvagens. Aliás, um aspecto que incrementa as ocasiões dos encontros que estão cada vez mais frequentes é o fato do pai de Enzo (Julio Rocha) não poupar os caríssimos vestidos e “peignoirs” usados pela amante. Uma hora o closet de Tereza Cristina ficará vazio. Enquanto isso, acredito eu, o preço do robalo está subindo no mercado.
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A top Isabeli Fontana foi eleita a garota propaganda oficial da Imédia Excellence Californianas (linha da L’Oréal Paris com o objetivo das clientes usarem em suas próprias casas produtos nos cabelos que provoquem um efeito de luzes em degradé, conhecido como “mechas californianas” ou “ombré hair”), e teve o seu deslumbrante rosto ampliado no lounge da marca francesa de artigos femininos de beleza, cuja montagem fora feita especialmente para o Fashion Rio Outono Inverno 2014, no Píer Mauá.Foto: Paulo Ruch
Agradecimento: Alessa
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O lounge da Nativa SPA – O Boticário primou pelas sofisticação e requinte, com décor realçado por pufes com cores cítricas, tapete felpudo branco, mesa oval da mesma tonalidade, com vasos vítreos bojudos em cujos interiores havia pedras e terra, a dar sustentação a belas orquídeas e incensos, além de um porta incenso, também, no Fashion Rio Outono Inverno 13/14 (Píer Mauá).Foto: Paulo Ruch
Agradecimento: Alessa
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À esquerda, o tecladista e DJ Luciano Supervielle, e no canto à direita Gustavo Santaolalla, compositor vencedor do Oscar pela trilha sonora original de dois longas-metragens de sucesso (“O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee, e “Babel”, de Alejandro González Iñárritu) e o violinista Javier Casalla na apresentação do Bajofondo, cuja música de maior repercussão no Brasil foi o tema de abertura da novela de João Emanuel Carneiro da Rede Globo, “A Favorita” (2008), “Pa’ Bailar”.
O grupo participou do evento cultural Niterói Encontro com América do Sul, promovido em 2011.Foto: Paulo Ruch
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Uma festa. Um jantar. Duas rivais. Uma festa mais popular. Um jantar requintado, como se diz nas altas rodas, “comme il faut”, com tudo apropriado para a ocasião: mesa com lugares marcados, menu que remete à sofisticação, talheres, copos, pratos, guardanapos impecáveis, lista de convidados seleta… Entretanto, dois eventos concomitantes promovidos por Tereza Cristina (Christiane Torloni) e Griselda (Lilia Cabral) não poderiam transcorrer pacificamente. A primeira ao ver a iluminação caprichada da casa da segunda fica invejosa, e promete a si mesma tomar uma atitude. Griselda está feliz como anfitriã, junto aos seus convivas. Para aumentar o contentamento faltava a chegada de René (Dalton Vigh), o namorado, companheiro. E este ao chegar, provoca a ira da ex-mulher, toda vestida de vermelho. E assim, vestida de vermelho, irrompe na sala da mansão da mãe de Quinzé (Malvino Salvador), e a flagra num momento de romance com o chef. Tereza, com toda a empáfia possível, após bradar alguns desaforos, rasga a alinhada camisa do pai de seus filhos, e o machuca. Vai embora, lembrando à filha Patrícia (Adriana Birolli) para que não demorasse a comparecer ao jantar em sua homenagem e ao recente namorado. René recebe uma camisa emprestada de Antenor (Caio Castro). Ficou um pouco apertada, mas o que valeu foi a intenção. Acho que René nunca pensou em usar emprestada uma camisa de Antenor. Há sempre uma primeira vez. Com relação a Griselda, não conforma-se com o ocorrido, evitando que percebam a sua insatisfação. Telefona para Marilda (Katia Moraes). Inventa uma desculpa para que a empregada doméstica lhe avisasse quando o afamado jantar fosse servido. Enquanto isso, Tereza Cristina recebe os convidados. O irmão Paulo (Dan Stulbach), Juan (Carlos Casagrande), acompanhado de Letícia (Tania Khallil)… Este par, coitado, não escapou das piadas maldosas dela. Aliás, cometeu a deselegância de pôr o casal separado na mesa. Nada que Paulo não pudesse resolver. Os homenageados afinal aparecem. Iniciam-se as apresentações quanto ao jovem Alexandre (Rodrigo Hilbert). Tereza só o reverencia por causa de seu tradicional sobrenome. Os rapapés são interrompidos por Patrícia. Hora do jantar. Cada um senta-se em seu lugar. Por sinal, devemos dar os parabéns à produção de arte da novela das 21h da Rede Globo, escrita por Aguinaldo Silva, que de fato organizou uma mesa suntuosa, fina, “comme il faut”. O que ninguém esperava era que a dona do “Pereirão – tudo para a sua construção” fosse aparecer pronta para dar o troco na antagonista. O circo está armado. Griselda põe o dedo num dos molhos preparados, e reclama, falando que está “azedo”. Prova um pedaço de cordeiro. Reclama de novo. Desta vez, dizendo que está duro e salgado. Todos a esta altura já perderam o apetite, e temem algo pior. Tereza Cristina está desesperada. Griselda dirige-se para a mesa, e pede desculpas a Patrícia por estragar o jantar. Patrícia dá uma piscadinha de assentimento. Era o que faltava para que o serviço fosse completo. Numa puxada só, a toalha da mesa de se encher os olhos voa pelos ares, levando tudo o que havia sobre ela. Todos estão atônitos. Griselda, vingada. Agora, molho, azedo ou não, cordeiro, salgado e duro ou não, só em outro capítulo. O que era para ser “comme il faut” ficou no “era”.
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Foto: Divulgação do espetáculoPara você o que é o amor? Poetas, compositores, escritores, cineastas, estudiosos e cientistas já tentaram explicá-lo. Porém, o fato é que em definitivo nunca se chegou a uma resposta concreta. Com suas ramificações, oscilações e níveis de intensidade múltiplos, o amor brada por sua permanência entre nós, que pugnamos por incluí-lo em cotidianos próprios, rasteiros e vazios. Assim como estes, o amor também pode ser rasteiro e vazio, se não soubermos vivenciá-lo com generosidade e aceitação do diferente. E o que talvez mais dificulte a sua prática efetiva seja a necessidade da cumplicidade nem sempre correspondida do outro. O “outro”, de quem tanto precisamos, afasta-se invariavelmente da essência que preservamos para nos identificarmos como seres individuais. E aquela fica na espera vã de ser completa. Independente de gêneros e orientações sexuais, o ato de amar, que deveria ser espontâneo, natural, nato, peça indissociável da pessoa humana tornou-se de maneira inequívoca algo complicado, propulsor de conflitos e desencadeador da desalentadora revelação do gigantismo das desigualdades que nos separam. O impasse descrito não é prerrogativa absoluta da contemporaneidade. Desde priscas eras, a voz que exclamava acerca dos obstáculos que subvertiam os princípios amorosos ideais já se fazia ouvir por entre montanhas imaginárias. E se falamos em amor, a óbvia consequência é discorrer sobre o que atrelado a ele está: o sexo. O sexo prazeroso em seu cerne pode ser desgostoso se não acompanhar com coerência o sentimento que o antecede. O dramaturgo Raul Franco com posicionamento audaz arrisca-se a abordar, e obtém êxito, complexo tema, enriquecendo-o com sua visão particular. O famigerado amor que se posiciona na superficialidade dos diálogos ocos que testemunhamos no dia a dia provindos de mentes tão ocas quanto que idolatram sociedade perdida e desqualificada em seus valores. Raul, em “Crônicas do Amor Mal Amado” (uma coprodução da Biarte e Agentejunto, com produção executiva de Yuri Sardenberg) conduz com habilidade, emoção, conhecimento de causa e abertura para o humor a transposição não fácil do que pensa em linhas narrativas que formam amálgama convincente. E a tarefa inglória que, se bem feita, atinge a glória, solicitaria colaboração conjunta e em consonância de acordos de profissionais que bem assimilassem a proposta de bravas pretensões do autor. Uma direção firme, sem amarras, liberta de preconceitos, associada ao que se compreende por ser sensível e com obrigatório olhar técnico na formatação de espetáculo cênico se faria urgente para que se lograsse sucesso esperado. Bia Oliveira, com as assistências de direção de Linda Lumière e Luca Pougy, cumpre com garbo missão digna e nobre de traçar amplo, esclarecedor, informativo e divertido painel que destrincha, discute, debate e por que não ironiza com elegância os “fragmentos de um discurso amoroso”, com a sua licença Barthes. Na encenação o que se vê são acontecimentos, esquetes representativos das situações interpessoais que mais nos afligem e a abordagem sem inútil pudor de questões que assumem importância vital para a perenidade de um relacionamento. Apegando-se ao cômico, utiliza-se da parábola bíblica de Adão e Eva com fins de demonstração de que a relação homem/mulher já sofria influências complicadoras para proveitoso entendimento entre o masculino e o feminino. A efemeridade dos romances, casos, namoros, casamentos ou quaisquer tipos de união não são preteridos, e notamos o quão triste é esta ausência de aliança anímica e doída é a constatação de que somente o toque, a sensação tátil sobre matéria física com objetivos únicos de fugazes êxtases são supervalorizados. Mitos são desmistificados. O machismo continua vigente. O romantismo é “démodé”. De que adiantaram sutiãs queimados em via pública se a não contestada independência das mulheres ocasionou o afastamento dos homens? Por que de modo progressivo nos deparamos com homens procurando afeto em homens e mulheres carinho em outras? O que há de errado para que as “Leis da Natureza” sejam transgredidas? Deduzo que existe busca desesperada com aceleração máxima de mínima afetividade, nem que para isso nos seja forçoso desmoronar preconceitos incrustados em cabeças na infância por “educadores” e “religiosos” hipócritas. Deixemos de lado irrelevâncias como tamanhos de órgão masculino e quantidade ou não existência de orgasmos femininos. Por que procuram tanto este tal “Ponto” com letra de alfabeto? Balelas e mais balelas para teses esdrúxulas de Mestrado. Quem são os cabotinos sexólogos para nos dizer o que é certo ou errado? O que vale é o amor, seja de que forma for. O que vale é se sentir bem ao lado de semelhante em cama macia. Acordar e lhe dar “Bom dia!”. Não se deixem importunar por roncos ou hálitos não perfumados ao amanhecer. Não estamos em sonho. Estamos em vida. Somos falíveis e algumas vezes incríveis. Deixemos os príncipes e princesas encantados para os Irmãos Grimm e Walt Disney. Saiamos do “castelo”, e vamos para o logradouro, pois é lá que está a vida. Já os encontros virtuais ao se tornarem reais fazem com que caiam inexoravelmente máscaras usadas com cálculo e premeditação. O mundo virtual é “belo”, uma fantasia traiçoeira que vicia, que distancia mais que aproxima, e que pode originar antissociabilidade irreversível. Os atores Camila Hage, Felipe Roque e Luca Pougy desprendem-se cenicamente, sem grilhões nem tampouco laços que os reprimam, nas suas interpretações. Estas são verdadeiras, legítimas, honestas, emocionantes e usando vocábulo simples mas rico em significância, bonitas. Ao nos defrontarmos com a juventude contagiante de Camila, Felipe e Luca nos imbuímos de que há esperança na renovação artística, na preservação da vontade autêntica de lindos moços e moça no intuito pétreo de escancarar sua expressão da Arte. A direção de movimento de Igor Pontes oferece dinâmica irrepreensível à montagem, evidenciada nos variados personagens defendidos pelo elenco. A trilha de Bia Oliveira cumpre eficiente e adequado papel na configuração lógica do todo, com preciosa participação da cantora e compositora Bárbara Dias (e sua dulcíssima e afinada voz) que escreveu exclusivamente para o espetáculo lindas canções. O cenário da Biarte e Agentejunto procura e atinge aproximação profícua, prática, congruente e em conformidade com o “script”. Sofá cama com almofadas pretas e vermelhas, duas pequenas mesas (uma preta e outra branca), com formosos abajures a encimá-las, cabideiros, dois imponentes painéis brancos dependurados ao fundo, cadeira sofisticada com estofamento branco e luminária moderna a ladeá-lo sobre tablado constroem panorama cenográfico aconchegante e atraente. A iluminação de Frederico Eça adota notável capricho visual, aproveitando infinitas possibilidades do poder de beleza das cores, como azul e verde, e o fascínio irresistível que o manuseio correto e emotivo da força das luzes em distintos bruxuleios, sombreados, focos e planos abertos possuem. Os figurinos de Bárbara Brigido são com louvor compatíveis com as intenções dramatúrgicas. Usam-se jeans, tênis, casacos, blazer, colete, blusa xadrez, sapatos sociais, boina, écharpe, óculos com armações diversas, sunga e vestido estampados, tubo preto com brilho nas costas, escarpins, t-shirt, short, roupa íntima masculina e robe. Um vasto e criativo apanhado das tendências de vestuário à disposição. “Crônicas do Amor Mal Amado” ocupa honorário espaço na cena teatral carioca o qual não podemos ignorar ao intentar, como já fora dito, esclarecimento sobre sensação inefável que ora pode nos atrair ora pode nos repelir: o amor. O amor, suponho, continuará não resolvido, porquanto é possível que seja um pouco mais entendido. Vinicius no começo é citado com seu “Soneto de Fidelidade”: “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”. É função nossa, creio, barrarmos quaisquer brisas de vento mal-intencionadas que queiram apagar esta chama. Coloquemos palmas de mãos ao seu redor, protegendo-a, pois raro é o amor. Por isso nos é tão caro.





