Comparo Adriano Garib a um lutador, não ao lutador de Mickey Rourke em “O Lutador” nem tampouco ao de Christian Bale em “O Vencedor”. Adriano ao aceitar gigantesco desafio de personificar Russo, o chefe de segurança da quadrilha internacional de tráfico humano na novela de Gloria Perez na Rede Globo, “Salve Jorge”, tomou para si arriscada incumbência de ser um dos porta-vozes do núcleo mais polêmico da trama. Comparo-o portanto a um lutador, visto que entrara em ringue devidamente preparado (levando-se em conta a prolífica e bem-sucedida carreira que possui) pronto para pôr luvas e jogar-se em embate sem temores ou pudores contra os potencialmente inexpugnáveis rivais: público e crítica. Adriano construiu com habilidade e tato o seu império da vilania. Seus objetivos e os da autora foram alcançados em certeiro alvo. O artista usou goiva para esculpir papel de intricadíssimo delineamento, passível de ser mal compreendido e sujeito a inevitáveis clichês e estereótipos. Porém, o ator paulista de Gália que também é compositor (tendo participado como vocalista da banda Karadrás) e jornalista formado pela UEL (Universidade Estadual de Londrina; foi repórter da TV Tropical, que corresponde hoje a CNT Londrina) não deixou-se cair em armadilhas. Soube desviar-se de cada ardil, bote, emboscada que um personagem como Russo poderia proporcionar-lhe. Russo é verdade entrou para a galeria fechada dos grandes vilões da TV. Todavia, o subordinado de Lívia Marini (Claudia Raia) deixou escapulir que não é de todo blindado. Esta outra porção foi-nos mostrada ao sentir desejo por Lohana (Thammy Miranda) e dedicar profundo afeto pelo gato Yuri. O intérprete que iniciou sua escalada rumo ao sucesso em Bauru, SP, e que integrou o elenco de importantes longas-metragens como “Meu Nome Não É Johnny”, “Tropa de Elite 2” e “Novela das 8” utilizou-se de seus recursos corporais e emocionais a fim de que acreditássemos nas maldades perpetradas sem miragens de perdão do membro do grupo criminoso. A voz pausada com meticulosa separação das palavras, o poder do alto som da voz quando repreendia as traficadas, os olhares semicerrados, os lábios apertados, os meios sorrisos… Um conjunto proveitoso de ferramentas adequadamente manuseadas. A TV nunca foi estranha a Adriano Garib. Novelas, minisséries, seriados e especial agarram-se ao seu currículo. Dentre os folhetins, “Salsa e Merengue” (sua estreia), “A Lua Me Disse” (repete a parceria com Miguel Falabella), “O Profeta” (reprisado no “Vale a Pena Ver de Novo”), duas temporadas de “Malhação”, “Duas Caras”, “Paraíso Tropical”, “Pé na Jaca”, “Caminho das Índias”, “Caras & Bocas”, “Passione”, “Cama de Gato”, “Insensato Coração”, e na Rede Record “Vidas em Jogo”. Seriados como “Brava Gente” e “Casos e Acasos”. Minisséries como “Chiquinha Gonzaga”, “A Casa das Sete Mulheres”, “JK” e “Maysa – Quando Fala o Coração”. E o especial “O Natal do Menino Imperador”. O artista deu seus primeiros passos na década de 80. Uniu-se aos pares de ofício e montou peças com o Grupo Delta de Teatro. Ademais, dividiu experiências com o renomado diretor teatral Paulo de Moraes e sua Armazém Companhia de Teatro. Shakespeare esteve em sua vida em espetáculos como “Antônio e Cleóprata”, “A Tempestade” e “Rei Lear”. Quanto a “Péricles – Príncipe de Tiro” sua autoria é atribuída em parte ao bardo inglês. Houve espaço para Nelson Rodrigues ao encenar “Toda Nudez Será Castigada”. Não esqueci-me de “O Mundo dos Esquecidos”. A novela “Salve Jorge” hoje chega ao fim. Contudo nos confins de nossos inconscientes permanecerá sem “fade out” a imagem de uma grande interpretação resultado do talento sem inibição de Adriano Garib. Afinal, Adriano é ator que não se inibe.
Categoria: Teatro
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Foto: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias/TV PressO personagem de Antonio Calloni, Mustafa, em “Salve Jorge”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Gloria Perez, como o rico comerciante turco de suntuosos tapetes que é, seguindo à risca as antigas tradições de seu país, costuma dizer aos seus interlocutores que deve-se servir em loja chá bem quente aos fregueses para que possam permanecer largo tempo no estabelecimento, e comprar mais tapeçarias. Quando vejo Mustafa, uma das melhores criações da autora para a produção atual, lembro-me de papel defendido por José Wilker na primeira fase de “Renascer”, em que usava como bordão: “É justo, é muito justo, é justíssimo.” Pois desta forma contextualizo a personalidade do pai adotivo (e nem por isso menos pai) de Aisha (Dani Moreno) na trama das 21h da Rede Globo que está chegando ao fim. Um homem justo, muito justo, justíssimo. Em vários momentos do folhetim, o ex-marido de Berna (Zezé Polessa) revelou esta nobre faceta, que impinge dignidade e honradez à enredo que discute questões de dura aceitação pela sociedade civil. No tocante à busca infatigável da amiga de Zoe (Julia Mendes) por suas raízes biológicas, sempre apoiou-a, por mais que de algum modo isto machucasse-o. Contudo quem justo é sobrepuja dor pessoal. Hoje move moinhos de vento para estreitar a relação afetiva de quem com tanto amor criara e a família legítima. Está ao largo do preconceito socioeconomico. A riqueza material não obscurece a riqueza da alma. Ao deparar-se com situação degradante em que encontrava-se Morena (Nanda Costa), vítima do tráfico humano, foi capaz de “comprá-la” para que pudesse escapar do calvário. Alimentou-a, deu-lhe roupas e guarida. Alguns poderiam argumentar que o que cometera fora errado. Entretanto, o que é o errado diante da multiplicação deste? Quando o assunto é Berna, a configuração analítica é complicada. A prima de Deborah (Antonia Frering) engendrou repertório de crimes, abusando de mentiras, omissões, furtos, e cedendo a chantagens para acobertá-los. O casamento de anos com a elegante esposa não demoveu-o de pôr em prática sua sede de justiça. Berna sofrera forte repreensão e colocada contra a parede todas as vezes em que suas práticas penais eram desveladas pelo marido. Antonio Calloni é daqueles intérpretes que dão credibilidade e prestígio a quaisquer produções para as quais é escalado, e em “Salve Jorge” não está sendo diferente. Quantas vezes não percebemos seus faiscantes olhos azuis marejados de lágrimas com real emoção? Privilegiados são os artistas que com ele dividem a cena. Antonio estreou com garbo na minissérie de Gilberto Braga, “Anos Dourados”, com o seu inesquecível Claudionor. E a partir daí, em desenfreada evolução, Calloni, que também é respeitado escritor e poeta, construiu sólida carreira pontuada por personagens indiscutivelmente marcantes. Dentre tantas novelas de que participou, destaquemos o William de “O Dono do Mundo”, o cineasta Milton Dumont de “Zazá”, o mitológico Bartolo de “Terra Nostra”, o Mohamed de “O Clone” (inicia-se aí frutífera parceria com Gloria Perez), o divertido César de “Caminho das Índias”, e o romântico e severo contraventor Natalino de “O Astro”. Um elemento objeto de interesse em sua jornada artística é o fato de ter personificado, não raro com verossimilhança, papéis históricos, como o abolicionista Lopes Trovão de “Chiquinha Gonzaga”, o pioneiro das telecomunicações Assis Chateaubriand em “Um Só Coração”, o poeta modernista Augusto Frederico Schmidt, afora o médium Zé Arigó. Sobressaiu-se em diversos episódios de “A Vida Como Ela É”. Emprestou potencial à adaptação de obra de Machado de Assis em “O Alienista”, na “Terça Nobre”. Não faltaram-lhe humorísticos, seriados, infantil e especiais. Testemunhamos seu alvo rosto em minisséries relevantes como “Decadência”, “Os Maias” e “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”. Seguiu a orientação de cineastas em filmes como “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”, “Outras Estórias”, “A Paixão de Jacobina”, “Poeta das Sete Faces”, “Anjos do Sol” (com o qual recebeu o prêmio ACIE – Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira no Brasil) e “Faroeste Caboclo”. Dublou Garfield. Retomando o tema láureas, fora agraciado com o Molière pelo Karl Marx do espetáculo “A Secreta Obscenidade de Cada Dia de Marco Antonio de la Parra”. E como autor revelação presentearam-no com o Prêmio Jorge de Lima pelo livro de poemas “Infantes de Dezembro”. Entre coxias, urdimentos e proscênios desbravou terrenos de Tchekhov, Jorge Amado, Sam Shepard, Harold Pinter, Tom Stoppard, Eugene O’Neil e Milan Kundera. Antonio Calloni é generoso e magnânimo com o público e as Artes, deixando por onde quer que passe marcas, vestígios e impressões de sua fonte inesgotável de talento nato. São por esses motivos que sugeri-lhes que sirvamos um chá bem quente a Antonio Calloni a fim de que fique mais tempo com a gente. Nem precisa ser o chá das 5, pode ser o das 18, 19, 21 ou 23h.
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Foto: Sergio Santoian para a Revista MENSCHCom passos largos e confiantes, proveio de cidade de nome Curitiba, lá pelos torrões do Sul do Brasil, jovem artista de braços dados com a Dona Arte. Eles não se desgrudavam. O “peregrino” é músico, compositor, arranjador, sonoplasta, diretor musical e… ator! Soltou branda voz em melodias de lavra própria por palcos com almas distintas. Caíram sobre suas merecidas mãos muitos prêmios. Nenhuma das múltiplas facetas que possui foi preterida. Deixou marcas dos pés pelos tablados da vida, em peças como “Os Leões”, “Agora é que são elas”, “O Processo”, “Pluft, o Fantasminha”, “A Bruxinha Que Era Boa”, e “Bolacha Maria: um punhado de neve que sobrou da tempestade”. Na tela mágica do cinema, frequentou os sets de filmes como “Corpos Celestes”, “Cilada.com” e “Novela das Oito”. E vem por aí “Super Crô – O Filme”. Dedilhou cordas de violão, cantou, juntou palavras esparsas em coesão. Nasceu música. E de bandas participou: Maquinaíma e Denorex 80. É fato que esteve de fato no grupo Fato. Lançou disco de relevância: “Vendo Amor Em Suas Mais Variadas Formas, Tamanhos e Posições”. Ouviu o chamado da televisão, a “grande fábrica dos sonhos”. Deram-lhe personagem doce. Vanderlei era tão doce que se tornou o favorito de Catarina (Lilia Cabral) em “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro. Quando pensou que chegara a hora de tirar sesta na cama e sonhar com o paraíso, Edmara Barbosa e Edilene Barbosa o despertaram pois tinha compromisso com “Paraíso” (texto original de Benedito Ruy Barbosa). Terêncio foi parceiro do “leão” Eriberto Leão. Não me esqueci de “Casos e Acasos”, “Dó-Ré-Mi-Fábrica” e “Batendo Ponto”. Elizabeth Jhin escreveu em papel ou computador o que as estrelas lhe disseram: – Chame o Nero. E a Nero coube Gilmar. Tivera que cometer maldades no comecinho da noite. Recebeu então um convite de Aguinaldo Silva com estampa fina: o Baltazar de “Fina Estampa”. Serviu como importante ponte para que se denunciassem questões que amiúde entristecem segmentos da sociedade: a homofobia e a violência doméstica. Vítimas destas que só desejam respeito e cidadania. Alexandre conduziu volante de carro luxuoso pelo drama e pela comédia com o seu motorista. O destino e Gloria Perez quiseram porque quiseram que o ator se reencontrasse com a colega tão querida Dira Daes, com quem contracenou em folhetim anterior. Dos dedos rápidos e imaginativos de Gloria teclando máquina da informação surgiu Stenio de “Salve Jorge”. Ótimo advogado e sabedor das brechas das leis. Brechas que dão beijo no rosto da impunidade. Brechas do Brasil. Os brasileiros Drika (Mariana Rios), Pepeu (Ivan Mendes) e a turca Berna (Zezé Polessa) espocam garrafa de champanhe celebrando as brechas. No ombro alinhado de seu paletó há cheiro de bom perfume. Perfume de Helô (Giovanna Antonnelli), sua ex-mulher. O divórcio foi firmado em cartório. Contudo, não firmado em corações. Em corações apaixonados não há burocracia. Dentre tantas causas que ganhou ou perdeu, a mais desafiadora é reconquistar a bela mulher de cinto duplo. O que almeja o causídico é dela ouvir dentre um “hã hã” e outro “hã hã”, a frase “Eu te amo, Stenio.” A leitura de sentença que cultiva tanto em si mesmo escutar. Stenio se sentirá grande no prazer, atuante e cantante no amor. Não obstante, Stenio se refestelou em colo certo. No colo de Alexandre. Não há quem possa duvidar da intuição da Dona Arte.
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Foto: Primo Tacca Neto e Brasilio WilleAssim como pode florescer lírio em meio à cinzenta lama, no depósito das traficadas de “Salve Jorge”, novela das 21h da Rede Globo, de Gloria Perez, que está nos seus capítulos finais, pode haver os talento e beleza de jovem atriz e bailarina paulistana, Laryssa Dias. Bem já no começo do folhetim, Laryssa despertou-me a atenção por suas personalidade, firmeza, segurança, compreensão da difícil personagem, e é claro, belo rosto e nítido potencial dramático. Seu papel é contextualmente complexo, espinhoso, o que não causou temor à intérprete. Muito pelo contrário. Teve e tem ótimas cenas com seus colegas de elenco com quem dividiu e divide o estúdio. Laryssa, que é formada em Publicidade e Marketing, permitiu que sua genuína vocação artística bradasse. E colocou-a em prática desde cedo, quando criança. A atriz defrontou-se durante todo o decorrer da trama com fortes momentos de tensão estrategicamente inseridos naquela. Não faltou espaço para agressões físicas e morais de caráter contínuo impingidas por mão pesada do algoz onipresente Russo (Adriano Garib), o que não deve ter sido nada fácil para a artista. Se o que vemos hoje é uma poderosa atuação de Laryssa deve-se sobretudo à solidez na bagagem de aprendizado colhida no passado. Na primeira ocasião que sentiu o aroma do tablado de um teatro estava em período adolescente. O circo cutucou-a também. Os ensinamentos que obtivera não lhe foram transmitidos por mãos quaisquer. Ligia Cortez deu-lhe aulas na Casa do Teatro e dirigiu-a em “Menina Moça”. A Escola de Atores – Wolf Maya passou-lhe importantes noções de como se portar defronte a uma, duas ou três câmeras, e submeter-se à rigidez das marcações natas à engrenagem industrial do veículo televisão. Laryssa é “menina moça” inquieta, ávida por aprender. Buscou em Fátima Toledo, José Eduardo Belmonte, Denise Weinberg, Wladimir Capella e o Grupo Tapa um tanto mais de ricos ensinamentos. E o fruto maduro nascido da boa semente que plantou vislumbra-se na personificação de Waleska. Uma personagem que lograra simpatia do público não somente pelo carisma da profissional, mas proporcionada pelas sensibilidade, altivez, determinação e senso de justiça com que fora composta. O fato de que já era prostituta antes de ser traficada em nenhum instante livrou-a da condição de vítima como as demais. Alguns dos pontos positivos de sua participação evidenciam-se nas bem-sucedidas parcerias com Nanda Costa (Morena) e Murilo Grossi (Almir). Fontes asseguram que Waleska terá envolvimento com o policial e se apaixonará por ele, o que denota oportuno e agradável desfecho, haja vista que torcemos por sua vitória pessoal. Destaca-se outrossim a postura de líder com os pares de infortúnio. Ciente de que sofrerá “tapas & tapas”, e nunca beijos do “carrasco da Turquia” Russo enfrenta-o com dignidade e valentia surpreendentes. O confronto com Lohana/Jô (Thammy Miranda) propositalmente por esta provocado irá diluir-se com a descoberta de real identidade da desafeta, o que renderá interessante situação. Deduzimos que para que uma atriz ganhe a oportunidade que Laryssa Dias conseguiu faz-se necessário que tenha-se estofo de estudos além dos que já aqui mencionei. E aquele adveio de experiência como protagonista em curta-metragem de Marcel Mallio, “Fui Comprar Cigarro”, e no seriado da Fox, “9MM SP”. Entre coxias teatrais, durante curso do diretor de núcleo da Rede Globo Wolf Maya encenou Sam Shepard, “Oeste Verdadeiro”, e Ibsen, “Casa de Bonecas”. É de pronta conclusão de que nada caiu do céu no colo de Laryssa. Perseverança, dedicação e intento de aprender foram-lhe consistentes aliados. O destaque em “Salve Jorge” não veio-lhe por acaso. Há sim possibilidade de visar charme extra em Waleska dia a dia com Laryssa Dias. Laryssa é o lírio na lama. E onde há lírio há esperança.
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É de se lembrar sempre o comentário tecido por Pescoço, o engraçadíssimo personagem vivido pelo carioca Nando Cunha em “Salve Jorge”, novela das 21h da Rede Globo, escrita por Gloria Perez, em capítulo não muito distante. Em delegacia de polícia, indignado com a “injustiça” por estar ali, tendo “ótima” companhia à sua frente, Wanda (Totia Meirelles), desfia a seguinte pérola, algo como: “Eu não sou ponto turístico ‘pra’ todo mundo ficar me apontando…”. Esta e tantas outras tiradas objetos da improvisação do ator têm sido motivo de genérica gargalhada do público. Quem há de resistir a essas hilárias colocações: “É ruim ‘heim’, ‘cumpade’! Santo que não me ajuda não canto nem ‘pra’ descer”.; “Se falar fosse bom neguinho nascia com duas bocas.”; “Volta ‘pra’ garrafa!”; e “Sai do meu pé, frieira!”. Este somatório de ditos espirituosos e chistes impagáveis associados à minuciosa composição de Nando no que concerne ao gestual nervoso, aos olhares por ora assustados por ora munidos de sedução e malícia, à voz de velocidade rápida sem no entanto atropelar as palavras se fazendo inteligível, ratificam o acerto em nível elevado atinente ao processo de construção do papel. O epíteto “Pescoço” já carrega em si mesmo graça pujante. E por que a escolha deste epíteto, a ponto do ator usar nele mesmo cordão dependurado com a letra “P”? Se já o fora para nós explicado pela teledramaturga, confesso meu desconhecimento. Todavia, o que de fato importa são as pilhérias desferidas pelo companheiro de Delzuite (para ele, Delzinha), defendida com credibilidade e emoção por Solange Badim. Pescoço, como malandro de “carteirinha” e paquerador que é lança mão sem vestígios de culpa de um sem número de mentiras, invencionices a fim de que sirvam de justificações para suas “puladas de cerca”, seus xavecos e “171’s”. Se temos por desejo sermos amigos de “Percoço”, como em tons de deboche Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues) o chama, não devemos sequer mencionar o nome ou mesmo passar em frente a um distrito policial. Haja vista que qualquer parecer de psiquiatra confiável o diagnosticaria como sendo vítima de “stress pós-traumático”, devido ao malogrado período em que esteve afastado do convívio da sociedade pelo cometimento de delitos de menor relevância. Ressaltemos também o pouco ou quase nenhum apreço de Pescoço por quaisquer coisas que lembrem ainda que de modo longínquo o trabalho. Compremetera-se a fazer cadeira para Seu Galdino (Francisco Carvalho). E o comerciante de origem nordestina está até hoje literalmente a esperando em pé. O que o personagem em pauta gosta mesmo é de se posicionar de forma estratégica na laje, e admirar o corpão besuntado de óleo e clareador de pelos de Vanúbia para ficar com a cor do verão. Quando a bonita e falastrona moça tomava sensualmente banho de mangueira, Pescoço esticava até o pescoço. Nando Cunha é hábil na dança, tanto que já demonstrara seus dotes na gafieira Estudantina, como em vários musicais dos quais fez parte na carreira. O samba de qualidade está em suas veias, porquanto já se fizera presente em espetáculos como: “Noel Rosa, o Feitiço da Vila”, “Obrigado Cartola” e “Estatuto da Gafieira”. Esteve em espetáculos de similar significância que não escaparam ao viés da música: “Forrobodó”, “Doidas Folias”, “Grande Otelo – Êta Moleque Bamba”, e “Geraldo Pereira, Um Escurinho Brasileiro” (Geraldo era considerado o “Rei do Sincopado”). Outras produções clamam ser citadas: “O Mundo é Grande”, “Manual de Sobrevivência para as Grandes Cidades” (dirigida por João Batista para a Cia. Dramática de Comédia), “O Último Dia”, “Missa dos Quilombos”, “O Homem da Cabeça de Papelão”, cuja autoria cabe a João do Rio, e “Assassinato no Motel – Uma Comédia Policial”, sob a direção do humorista Fernando Ceylão. O intérprete Nando, que é graduado em Letras pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e Artes Cênicas (Licenciatura em Teatro) pela UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), já obtivera êxito na televisão em obra das 18h da emissora carioca, “Desejo Proibido”, entretanto foi com a personificação por assim dizer mediúnica de Grande Otelo na microssérie “Dalva e Herivelto, Uma Canção de Amor”, que Nando Cunha recebeu os merecidos respeitos da crítica e dos telespectadores. Contudo, quem afirmara que o drama policialesco lhe escapulira na TV? Integrara o elenco do seriado “Força-Tarefa”. O sucesso então o levou direto para folhetim de Walther Negrão, “Araguaia”. Estivera em tantos outros programas de diferentes formatos. Ninguém segura Nando Cunha. A alcunha do momento é Pescoço. “Percoço” para Maria Vanúbia. Nando, não se preocupe com os que estão a lhe apontar. É por válido motivo. O dedo que o aponta é o indicador, indicando que é bom ator.
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O que dizer de Aisha, a pobre menina rica interpretada pela revelação Dani Moreno na novela das 21h da Rede Globo, “Salve Jorge”, de Gloria Perez? Bela moça cercada por ouro cujos delgados pés pisam em suntuosos tapetes turcos. Seus olhos amendoados se acostumaram a ver desde sempre os portentosos minaretes de Istambul, as águas caudalosas que estão em correnteza no rio Bósforo, o fulgor das joias dependuradas na mãe adotiva Berna (Zezé Polessa), e os ofuscantes olhos azuis de Mustafa (Antonio Calloni), que cumpre com amor e severidade o papel de pai. Um vazio, um vácuo imensurável por desconhecer origem própria lhe esfacelou o coração. Uma busca incansável, frenética e pessoal por raízes escondidas em longínquo solo. Vencendo resistência e omissões ou mentiras de quem lhe dera educação nababesca, saltou cada pedra, pequena ou grande que se interpôs em seu caminho. Num mundo afogado em informações, notícias, imagens e avançada tecnologia a não mais pequena “órfã” perseguiu a identidade. Aisha teve tudo e não teve nada. É linda, porém tristeza que sentiu lhe fora demasiado feia. É rica, entretanto o preconceito que possui pelo que é diferente lhe é de natureza pobre. Por ser boa, há esperança na reversão dos princípios tortos. A vida lhe ensinará sem apostilas a aprender a amar a diferença, mesmo que esta esteja em lugar não tão bonito como desejava. O maior problema é que idealizou mãe perfeita. Não existe mãe perfeita. Mães são humanas. Talvez a personagem da paulista Dani Moreno esperasse que a progenitora biológica vestisse os mesmos vestidos sofisticados e luxuosos de Berna. Que usasse as mesmas preciosidades a enfeitar colo branco. Que o tom de voz fosse suave e melífluo. Que ao invés dos pratos populares houvesse “haute cuisine”. Não, Aisha. Em ventre de mãe não há luxo. Ricos e pobres, negros e brancos dão o mesmo alimento aos seus frutos. A riqueza que admirara lhe roubara a alma, o nome, o afago materno legítimo. Fora objeto de transação espúria. Malocada em sacola. Negociada. Vendida. O belo à visão lhe fez isso. E o que lhe parece feioso vítima o é de iniquidade. Sofrera privação de amor outro. Se maior ou menor, não sei. Contudo, amor outro. Sofrera privação da companhia de irmãs. Perdera a oportunidade de com elas ser uma das “As Três Irmãs”. Haveria um Tchekhov em sua história. A mesma história que Dani levou aos palcos. Se não gosta da poeira das ladeiras e vielas da comunidade que lhe é verdadeiro berço, tire os sapatos de salto alto e deixe entranhar pelos dedos o pó do chão que covardemente lhe usurparam. Aprenda a gritar como seus novos pares gritam. Doces vozes podem ser traiçoeiras. Wanda (Totia Meirelles) tem doce voz. Junte-se às irmãs Lurdinha (Bruna Marquezine) e Samantha (Karina Ferrari) e à mãe de fato Delzuite (Solange Badim), e berre para que todos ouçam de que ali é a sua “cidade”. Grite: – Esta é a “nossa cidade”!. Olha Thornton Wilder ao seu lado. O mesmo Thornton que Dani encenou em início de carreira. Se chegar a noite é possível se sentir rainha ou plebeia. Somos todos plebeus. Chame os que lhe cercam e vivam “noite de reis”. Como a peça de Shakespeare que um dia Dani Moreno mostrou no proscênio. Faça do amor uma revolução. Ou uma revolução do amor. Como o título do folhetim no qual estreara na TV como atriz, “Amor e Revolução”, no SBT. Cante um samba, um pagode, diga a letra de um rap. Cante assim como Dani sabe cantar. Coma um salgado da Dona Diva (Neusa Borges). Aguente a rabugice do Seu Galdino (Francisco Carvalho). Suporte o esnobismo de Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues). Compre um brigadeiro para o menino Junior (Luiz Felipe Mello). Segure Jéssica no colo. Dê um beijo no rosto sofrido de mãe de filha roubada. Peça à sua mãe que lhe nine pela primeira vez. Jogue o preconceito que é o seu dragão no Bósforo. Seja guerreira como São Jorge o foi. Enfrente aquilo que lhe soa como inexpugnável. Dani Moreno está brilhando como Aisha. E você, Aisha? É sua hora de brilhar. Não vale ostentar diamantes. Será o pioneiro brilho concreto de sua existência. O difícil perdão aos que mal lhe fizeram lhe cabe. Lembre-se de que o pai Mustafa é tão ou mais vítima. Não faça seus ofuscantes olhos azuis chorarem. Misture o turco que fala às gírias do morro. Sentirá a felicidade se aproximando. E aqueles vazio e vácuo que lhe comprimiam o peito se esvanecerá. Ache, Aisha, que um mundo diverso do seu pode ser melhor. Isto é o que acho de… Aisha.
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Como diz a letra da música do Cidade Negra, “Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite…”, Alice, a personagem de Adriana Birolli na peça “Manual Prático da Mulher Desesperada”, também espera. Só que é uma espera em vão. O espetáculo baseado em três contos da poetisa, escritora e crítica americana Dorothy Parker (“A Telephone Call”, “The Cousin Larry” e “The Waltz”), que foram traduzidos e adaptados pelo diretor Ruiz Bellenda, representa grande parcela das mulheres, com suas vicissitudes, idiossincrasias, angústias, medos, insegurança, carência e problemas com a autoestima. O celular que nos é tão útil acaba sendo para Alice um vilão, pois sobre aquele deposita esperanças de que um homem por quem se interessara e se envolvera lhe ligue. Em meio a hábitos tipicamente femininos, como se depilar, maquiar-se e manter os cabelos presos por “bobs”, imola-se na frustrada expectativa de receber chamada telefônica. A relação indivíduo X celular, que “a priori” cuja abordagem possa parecer insignificante, desnecessária é de imediato absorvida pela plateia. Afinal, quem nunca se deprimiu ou se enraiveceu ao pegar o pequeno aparelho e perceber que não há alguma chamada perdida, ou mesmo tenha ouvido sequer um toque? E quando este acontece o é cometido por pessoa que não desejávamos que fosse a interlocutora? Alice teme a solidão. Alice se ilude com falsos afetos e promessas. Não só ela padece desses sofrimentos. Mulheres e por que não os homens são vítimas de tal dilema contemporâneo. Precisa com quem se desabafar, e recorre ao fiel confidente, o cabeleireiro e manicure Celinho, interpretado por Alex Barg. O relacionamento entre ambos tangencia a ambiguidade, haja vista que convivem a cumplicidade, a parceria, e as agressões e ofensas mútuas. Se pensam que tudo é contextualizado em tons dramáticos, enganam-se. A direção optou com acerto por um desenho de “comédia rasgada”. Surpreendemo-nos ao pela primeira vez testemunhar a verve cômica sem quaisquer pudores de Adriana Birolli (Troféu Gralha Azul de melhor atriz concedido pelo Governo do Estado do Paraná – Centro Cultural Guairá), porquanto estávamos acostumados a ver a intérprete defendendo papéis na TV que estavam inseridos no gênero drama. Adriana se embrenha de tal maneira na composição da protagonista, impingindo-lhe irretorquível intensidade, que embarcamos juntos nas ilações existenciais de Alice. Ademais, exibe expressividades facial e corporal atinentes às reações que correspondem aos seus próprios pensamentos ouvidos em “off”, e em todo o decorrer da encenação. O companheiro de cena Alex Barg, que se desdobra em dois papéis (o já citado Celinho e Everttonn) não fica atrás. Respeita e cumpre com inabalável eficiência a proposta de comédia da produção, tanto na construção de Celinho quanto na elaboração de Everttonn, um rapaz sem traquejo para lidar com o sexo oposto. Algo que nos chama a atenção é o impressionante preparo físico dos atores, que se evidencia sobretudo na passagem em que dançam freneticamente de modo quase acrobático um forró tocado em boate. Sem dúvida, um dos pontos de destaque. A direção de Ruiz Bellenda, como já disse, prioriza o caminho da alta comicidade, com suas respectivas “gags”, resultando em feito bem-sucedido comprovado pelas rápidas resposta e aceitação dos espectadores. Ruiz possui ao seu favor as proposições que Dorothy Parker nos legou, e o carisma irreprochável do elenco. Nos quesitos técnicos, o cenário e adereços de Anselmo Ferreira se caracterizam pelas praticidade, concisão e funcionalidade, com elementos como uma penteadeira, um pufe rosa e aparatos de salão de beleza. Um telão com projeções ao fundo (obra de Maiz Ribas) colabora e contribui para completo entendimento da história. A trilha sonora de Luiz Fernando Kruszielski perpassa por ritmos vários, seja um “foxtrot”, sejam melodias ultra-românticas ao piano, seja o mencionado forró, seja a clássica “Crazy”, entoada por voz feminina. Os figurinos de Dudu Farias são bonitos, charmosos e coerentes. Dudu se utiliza de tubinho preto vazado, “scarpins”, camiseta regata justa com estampas em HQ, sapatos modernos com geometria bicolor, calça acamurçada, robe acetinado “pink”, jeans, sapatênis, blusa xadrez e um belo vestido branco franjado com suaves camadas. A iluminação de Beto Bruel recorre a luzes pontuais, coloridas (em conjunto ou únicas), explosão das mesmas em situação de “club”, e meia-luz onde clama o intimismo. Com esse extenso cabedal de informações, o que nos é oferecida é peça teatral que além de nos provocar risos, faz-nos pensar e refletir acerca da solidão humana. Solidão que nos está sempre próxima. Se é aliada ou inimiga depende do prisma de como a vemos. O que é correto é sabermos permitir e aceitar sua entrada fortuita ou definitiva em nossas vidas, contrária ou favorável às vontades pessoais, já que é real, concreta e condição indissociável do homem. A Alice de Ellen Burstyn do ótimo filme de Martin Scorsese “não mora mais aqui” para conosco trocar experiências, todavia a Alice de Adriana Birolli de “Manual Prático da Mulher Desesperada” está. E tem muito a nos ensinar.
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Somos inevitavelmente postos em conflito quando o conceito natural acerca de vilania que temos nos é subtraído, o que ocorre quando o mesmo se associa ao belo. A vilania sempre nos foi feia, hedionda, ignóbil. O belo é algo mítico, icônico, supremo, reverenciado em importantes períodos da História da Arte, como nas fases greco-romana e renascentista. Este introito serve apenas a fim de indicarmos apropriada abordagem sobre Rosângela, polêmico papel defendido com brilho por Paloma Bernardi na novela de Gloria Perez, “Salve Jorge”. Paloma, além de ostentar beleza clássica que para mim remete às das divas hollywoodianas das décadas de 40 e 50, é representante da geração jovem de talentos da TV. Talento que se evidencia aos brados ao ter como incumbência a missão de viver a moça sonhadora que deseja ser modelo, e que acaba caindo em nefasta armadilha, tornando-se escrava da prostituição. Não nos foge da memória que a atriz adveio de personagens dóceis, amigos, carinhosos, conciliadores, que adquiriam como saldo a conquista instantânea do público telespectador. A despeito de já ter experimentado a televisão em tempos de adolescência em folhetim como “Colégio Brasil”, no SBT, e anos após em “Mutantes – Caminhos do Coração”, na Rede Record, foi em “Viver a Vida”, obra de Manoel Carlos exibida pela Rede Globo, na qual interpretou Mia, que Paloma Bernardi veio a ser reconhecida pelo Brasil. E posteriormente a Alice de “Insensato Coração”, de Gilberto Braga. Coincidência ou não as duas eram irmãs amáveis, generosas, fiéis e boas conselheiras. Esperava-se então uma virada na carreira da intérprete. E a desconstrução de sua antiga imagem se deu pelas mãos de Gloria Perez, oferecendo-lhe Rosângela, que no decorrer da trama passa de vítima à condição de vilã. Uma bem-vinda chance para a artista nos convencer de modo crível da possibilidade de coexistência do belo e do delituoso. A outrora vítima “comprou” a ideia de se livrar de seu cárcere pessoal juntando-se aos seus algozes. Meticulosamente, passo a passo, conseguiu ultrapassar a fronteira que a separava da prisão da “liberdade vigiada”. Seus desvios de personalidade se iniciaram ao se sentir preterida por seus pares de infortúnio. Mostrou-nos ambiguidade ao “reconhecer” Morena (Nanda Costa) em corpo que não era o dela, com o intuito de lhe proteger da quadrilha. Viveu momentos de glamour ilusório como modelo até se “profissionalizar” como aliciadora de pessoas. O seu final é uma incógnita. Tanto pode ser redimida pela autora quanto sofrer severa punição. Paloma Bernardi é uma atriz que busca o aperfeiçoamento em todas as áreas, seja nas diversas peças teatrais de que fez parte, seja no cinema ou clipes musicais. Formou-se em faculdade de rádio e TV. Tive a satisfação de conferir o seu potencial cênico no espetáculo “O Grande Amor da Minha Vida”, ao lado de Thiago Martins. No término, chamei-a ao proscênio, e solícita como “lady” que é, agachou-se para ouvir o que tinha a lhe dizer. Comuniquei-lhe que havia lhe mandado um texto em rede social concernente à cena relevante decorrida em “Insensato Coração”, tendo como assunto em pauta o convencimento da irmã (Camila Pitanga) de que não realizasse aborto. O que assistimos nos fora tão tocante que intitulei o que escrevera como ” O Momento de Paloma Bernardi em ‘Insensato Coração’ “. Paloma é de fato linda, meiga e atenciosa, respondendo-me todas as vezes em que lhe enviei algo ao seu respeito colocado em palavras. Inclusive, falei-lhe que faria novo texto sobre a ótima impressão que tivera com o que acabara de ver. Para não espanto meu, agradeceu-me como de costume. Raro se deparar com artista tão nova com maturidade na postura em lidar com aqueles que dela se aproximam. Seus sorriso e olhos incrivelmente verdes ainda lhe darão, com certeza, outros tantos papéis no ofício que abraçara. Paloma já integrou o elenco de inúmeras produções teatrais, incluindo infantis e adultas, como “Galileu Galilei”, “Woyzec” e “A Vida é Sonho”. Antes de iniciadas as gravações de “Salve Jorge”, exibiu seus dotes de cantora e bailarina em musical oriundo da Broadway, “Fame – O Musical”. E voltando à novela, Gloria Perez deve estar jubilosa com sua interpretação, assim como nós. Uma atuação vilanesca permeada por dualidades. Rosângela já demonstra habilidade em exercer o tipo penal denominado aliciamento, usando como trunfos carisma e simpatia. E concluímos que estamos equivocados em aliar a beleza a tudo o que simbolize benevolência. Seríamos espécie de acólitos de preconceito estético. O que é bonito é bom, e o que é feio é mau. Patrícia Pillar já disso nos provou com a Constância de “Lado a Lado” e a Flora de “A Favorita”. A vez é de Paloma Bernardi que nos leva a crer sem quaisquer lacunas para contra-argumentos de que a vilania sim pode ser tão ou mais perigosa quando se esconde em belos rostos. Ainda mais quando se trata de rosto de Paloma.
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Se em “Fina Estampa”, novela anterior de Aguinaldo Silva, Tânia Khallil interpretou Letícia, uma professora de Literatura, recatada, mãe de uma filha, que morava com esta e com a mãe, e era fechada para o amor (o que se resolveu em capítulos posteriores), em “Salve Jorge”, de Gloria Perez, sua novela atual, Tânia é Ayla, uma aldeã, também recatada, que em grande parte da obra conviveu com a meia-irmã Tamar (Yanna Lavigne) e a madrasta que tem como mãe Sarila (Betty Gofman), e que nunca fora fechada para o amor. Muito pelo contrário. A doce Ayla sempre acalentou sentimento amoroso de caráter platônico pelo mais famoso guia turístico de Istambul e Capadócia, na Turquia, Zyah (Domingos Montagner). Como recitava Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra…”. A pedra no meio do caminho de Ayla é Bianca (Cleo Pires). Sempre se deixando levar pelo assédio das turistas que guiava, motivadas pela fantasia de sedução do homem rústico de país diferente, Zyah nos intervalos entre mostrar uma caverna ou um templo as convidava para lhes mostrar sua acolhedora caverna. Em certa ocasião, a turista da vez nada acidental Bianca (então se esqueçam de William Hurt e Geena Davis em êxito cinematográfico de Lawrence Kasdan), inebriou-se não só pelas maravilhas dos territórios turcos, mas pelas maravilhas de quem a guiava. Ayla, a moça apaixonada de bonitos cabelos ondulados, ora presos, vestida com trajes campesinos, viu que o vento levara o seu único amor para debaixo do tapete que tecia. Incompatibilidades (substantivo no plural que serve de justificativa costumeira para o término de vários romances) levaram à dissolução do relacionamento que se formou após sobrevoo no Atlântico. Com a interrupção do enlace de Ayla com rico comerciante de joias por Zyah, os dois se casam. E tudo ao som da belíssima canção do americano Jason Mraz, “93 Million Miles”. Passam a viver um amor digno de novela. Porém, a calmaria deu lugar à tempestade com a chegada de Bianca, que reviu seus conceitos. Decisão precipitada da eterna turista. Zyah está irredutível, embora confuso. O guia não tem quem o guie. O guia se perdeu no próprio mapa da sua vida. Se Vó Farid (Jandira Martini) não consegue aconselhá-lo… Bianca então começa a se utilizar de artifícios para a reconquista da paixão perdida. Calma, Bianca. Esqueceu-se de Ayla? Ela é dócil, todavia vão mexer com o seu marido… A sua docilidade muda algumas sílabas e vira ferocidade. Defende seu casamento com garras nunca antes vistas. Uma guerra particular sem armistícios. Enquanto isso, o perdido em pensamentos Zyah vive um dilema: manter o matrimônio tradicional com Ayla onde há amor e respeito ou apostar em paixão aventureira em que a permanência não possui certificado de garantia? Há os que torcem por Ayla e os que torcem por Bianca. A decisão é sua. Melhor dizendo, a decisão é da autora. Este é mais um papel de destaque da atriz paulistana Tânia Khallil, que também é bailarina, inclusive clássica (trabalhou em importantes companhias de dança), e psicóloga. É uma intérprete preparadíssima. Estudou a valer em inúmeros cursos: formou-se pela Cármina Escola de Atores, teve aulas com Wolf Maya, Beto Silveira, Magno Azevedo e Márcio Mehiel, além do Teatro Escola-Macunaíma e Oficina de Interpretação para Teatro Oswaldo Boaretto. Especializou-se em locução e apresentação para a TV. Foi modelo. Sua estreia com apelo nacional na televisão se deu pelas mãos do diretor de núcleo da Rede Globo Wolf Maya, que a escalou para a produção de Aguinaldo Silva, “Senhora do Destino”, como a temperamental e obsessiva Nalva. A pilantragem a acompanhou em obra de João Emanuel Carneiro, “Cobras & Lagartos”, como Nikki. Deu o ar da graça em “Pé na Jaca” e alguns seriados. Duda, sua personagem em “Caminho das Índias”, fez parte de sexteto amoroso que teve de ser engendrado por modificações na história, e no qual estavam Rodrigo Lombardi, Márcio Garcia, Juliana Paes, Murilo Rosa e Thaila Ayala. No teatro, deixou sua marca em um dos mais bem-sucedidos textos de Naum Alves de Souza, “No Natal a Gente Vem te Buscar”, além de incorporar papéis criados tanto por Nelson Rodrigues quanto por Luis Fernando Verissimo e Larry Shue. Sentiu o doce sabor de ver um musical infantil para o qual colaborou como atriz, “Grandes Pequeninos”, baseado no livro/CD de seu marido Jair Oliveira, sendo indicado para o Grammy Latino. Esteve ainda com o parceiro de novela Dalton Vigh no espetáculo “Vamos?”. Na tela grande, juntou-se a Isaiah Washington e Murilo Rosa em filme “sci-fi”, Área Q”, dirigido por Gerson Sanginitto. Colaborou para alguns curtas (dentre eles, “Inocente” foi selecionado para o Festival Internacional do Cinema Latino, em Los Angeles). Falamos de Tãnia Khallil. A dócil e bela Tânia Khallil. E falamos de Ayla. A dócil e bela Ayla. Chega-se à conclusão de que 93 milhões de milhas de distância não seriam capazes de separar Ayla de Zyah. Mas, uma “distância” de nome Bianca.
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Foto/Divulgação
Já havia feito uma peça de caráter experimental no teatro “O Tablado”, sob a direção de Ricardo Kosovski, no início de 1991. A emoção de pisar num palco onde já estiveram atores e atrizes do naipe de Louise Cardoso, Cláudio Corrêa e Castro, Cláudia Abreu, Diogo Vilela, Felipe Camargo, Maria Padilha, Selton Mello, Jacqueline Laurence, a hoje crítica Barbara Heliodora, Malu Mader, Andréa Beltrão, dentre tantos outros, fora-me de fato marcante. Não era raro ver nos ensaios e demais dias aquela dócil senhora, ostentando olhos claros e cabelos curtos em corpo de baixa estatura que irradiava imponência e altivez. Circulava como se em casa estivesse. Ora, mas “O Tablado” era a sua casa. Tão moço, pobre moço, sabia eu que ladeava-me a maior escritora brasileira de textos infantis para as artes cênicas. Ganhadora de láureas, homenagens, e dona de peças a rodar pelo mundo. Mãe de sucessos emblemáticos como “Pluft, o Fantasminha”, “O Cavalinho Azul”, “Maroquinhas Fru-Fru”, “Tribobó City”, “A Menina e o Vento” e o “Rapto das Cebolinhas”. Fora atriz. Teve livros editados. Seus espetáculos causavam identificação imediata com os pequenos. E os grandes também se divertiam. Sua formação cultural deveu-se muito ao pai, o escritor Aníbal Machado. Maria Clara testemunhou as reuniões literárias com notórios escribas por ele organizadas. Quanta erudição para uma criança. Só o que falei-lhes até agora já desperta-nos quanto ao grau de importância desta magna mulher. Nunca se vislumbrou em tempo algum pessoa tão dedicada a criar de forma educativa e prazerosa o hábito de se levar as crianças ao ambiente teatral. Ocorreu que, em meados do meio do ano supracitado, um amigo próximo, ator, chamou-me para substituí-lo em “O Cavalinho Azul”, em montagem no “O Tablado”. Temi por instantes, afinal tinha-se como diretora Maria Clara Machado. Mesmo com insegurança inerente aos bastante jovens, aceitei. O curioso seria o que me aguardava na proposta assentida. No elenco estavam Cadu Fávero (que veio a fazer bela carreira no teatro e no cinema) e como protagonista Luiz Carlos Tourinho (obtivera prestígio em “Sob Nova Direção”, na Rede Globo). Dois personagens a mim cabiam. Um soldadinho devidamente uniformizado, acompanhado de mais dois, que em coro e passos cadenciados exclamava: – Não temos tempo a perder!. Verdade, pequeníssimo papel. Entretanto, carregava simbolismos de enorme significância para quem começava uma carreira. Quando entrei para o “cast” não conhecia ninguém. Justificava-se assim postura receosa e tímida. Porém, ainda não contei-lhes sobre a segunda participação que me coube. Simplesmente junto a outro intérprete, éramos o próprio cavalinho azul. Para melhor compreensão: revezávamos em posições dianteira e traseira para dar vida ao cavalinho confeccionado. Uma experiência demasiado inusitada. Tão inusitada quanto rica. Quando na frente estava, guiava-me por diminuta tela à minha frente. E atrás, o que restava-me era a confiança no bom senso de direção do meu parceiro de cena. Tínhamos que galopar. E em círculos! Ora via-se a plateia, ora não via-se. Foram apenas três finais de semana. Contudo, ficaram marcados para todo o sempre em minha memória afetiva. No último dia de apresentação, um momento do qual não esquece-se: a querida Maria Clara reuniu todos os atores em corrente, e fizemos com mãos apertadas e cheias de fé espécie de prece, seguida por agradecimentos e despedidas. No final, quando os espectadores já haviam ido embora, realizamos versão alternativa da peça, sendo que cada um interpretou papel que fora do outro. Após, em outra encenação no mesmo “O Tablado”, fora-me dada cena de plateia, na qual interagia de modo direto com Maria Clara Machado. Suas receptividade e simpatia estimularam-me quanto ao intento de burilar a minha atuação, que cobrou excessivamente do meu potencial cômico/dramático. Maria Clara sempre detivera extrema e rara generosidade para os que lhe apelavam. Como ator amador que era, aglutinei todos os documentos comprobatórios de trabalhos feitos a fim de que pudesse profissionalizar-me. E com ajuda providencial de meu pai, redigi declaração de que participei de “O Cavalinho Azul”. Necessitava da preciosa assinatura de Maria Clara Machado. Não titubeei. Fui ao “O Tablado”. Subi escadas que levaram-me a pavimento diverso, no qual localizavam-se a sala de figurino e o escritório da fundadora do teatro. Com humildade, expliquei-lhe minha situação. Depois de ouvir um “sim”, acompanhei cada movimento de sua graciosa mão até que pegasse a caneta e assinasse seu ilustre nome na folha de papel. Conto-lhes esta singela história não com o objetivo somente de informar-lhes que tive o privilégio de trabalhar com esta nobre profissional das Artes do nosso Brasil varonil. Fora isso, falar-lhes também acerca do quanto esta senhora, doce, bonita, magnânima, competente na direção, era sobretudo uma companheira daqueles jovens artistas, alguns inseguros, iluminados por coloridos refletores e vestidos com mágicos figurinos. Foi uma relevante “cavalgada” em minha vida. Todavia, não com galopes quaisquer. Galopes do “O Cavalinho Azul” de Maria Clara Machado.

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